A Culpa e das Estrelas - John Green

A Culpa e das Estrelas - John Green

(Parte 1 de 5)

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Para Esther Earl shadow hunters

Enquanto a maré banhava a areia da praia, o Homem das Tulipas

Holandês contemplava o oceano:

— O que é? — Anna perguntou
— A água — respondeu o holandês. — Bem, e as horas

— Juntadora treplicadora envenenadora ocultadora reveladora. Repare nela, subindo e descendo, levando tudo consigo. PETER VAN HOUTEN, Uma aflição imperial

Esta é menos uma nota e mais um lembrete do autor sobre o que apareceu impresso em letras pequenas algumas páginas atrás: Este livro é uma obra de ficção. Eu o inventei. Nem os textos nem os leitores se beneficiam de tentativas de descobrir se há fatos reais por trás de uma história fictícia. Tais esforços são um ataque direto à crença de que histórias inventadas podem ser relevantes, o que é mais ou menos a crença fundamental da nossa espécie. Agradeço a sua colaboração neste quesito.

abundante tempo livre pensando na morte

altando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu

semana

Sempre que você lê um folheto, uma página da Internet ou sei lá o que mais sobre câncer, a depressão aparece na lista dos efeitos colaterais. Só que, na verdade, ela não é um efeito colateral do câncer. É um efeito colateral de se estar morrendo. (O câncer também é um efeito colateral de se estar morrendo. Quase tudo é, na verdade.) Mas a mamãe achava que eu precisava de tratamento, então me levou ao meu médico comum, o Jim, que concordou que eu, de fato, estava nadando numa depressão paralisante e totalmente clínica e, portanto, ele ia trocar meus remédios e, além disso, eu teria que frequentar um Grupo de Apoio uma vez por

O grupo era formado por um elenco rotativo de pessoas com várias questões psicológicas desencadeadas pelos tumores. A razão de o elenco ser rotativo? Efeito colateral de se estar morrendo.

cruzaram, onde esteve o coração de Jesus

O Grupo de Apoio era megadeprimente, óbvio. A reunião acontecia toda quarta-feira no porão de uma igreja episcopal — uma construção no formato de cruz com paredes de pedra. Nós nos sentávamos em uma roda bem no meio da cruz: onde os dois pedaços de madeira um dia se

Sabia disso porque o Patrick, Líder do Grupo de Apoio e o único naquele lugar com mais de dezoito anos, falava sobre o coração de Jesus todo raio de reunião, sobre como nós, jovens sobreviventes do câncer, estávamos sentados bem no sagrado coração de Cristo, e tal.

chamar de vida
muito tempo instalada nos pulmões. E está tudo bem comigo

Bem, era assim que acontecia no coração do Senhor: os seis ou sete ou dez de nós chegávamos lá a pé/de cadeira de rodas, comíamos um pouco daqueles biscoitos velhos com limonada, sentávamos na Roda da Esperança e ouvíamos o Patrick contar pela milésima vez a história ultradeprimente e superinfeliz da sua vida — sobre ter tido câncer nas bolas e acharem que ele ia morrer, mas não morreu, e ali estava, já adulto, no porão de uma igreja na 137ª cidade mais linda dos Estados Unidos, divorciado, viciado em videogames, quase sem amigos, levando uma vida sem graça explorando seu fantástico passado com câncer, ralando para terminar um mestrado que não vai melhorar sua perspectiva de progresso na carreira e esperando, como todos nós, que a espada de Dâmocles traga para ele o alívio do qual escapou muitos anos atrás, quando o câncer levou seus testículos e lhe deixou algo que só a alma mais generosa poderia E VOCÊS TAMBÉM PODEM TER ESSA SORTE! Aí nós nos apresentávamos: Nome. Idade. Diagnóstico. E como estávamos no dia. Meu nome é Hazel, dizia na minha vez. Dezesseis. Tireoide, originalmente, mas com uma respeitável colônia satélite há

Depois do último da roda, o Patrick sempre perguntava se alguém queria se abrir. E aí começava a punheta grupal de apoio mútuo: todo mundo falando de lutar, combater, vencer, remitir e examinar. Para não ser injusta com o Patrick, ele nos deixava falar da morte. Mas a maioria ali não estava morrendo. A maioria viveria até a idade adulta. Como o Patrick.

(Isso significa que havia muita competição, com todo mundo querendo vencer não só o câncer, mas também as outras pessoas da roda. Tipo, eu sei que não faz o menor sentido, mas quando você ouve que tem, por exemplo, vinte por cento de chance de viver cinco anos, e faz as contas e conclui que isso é uma chance em cinco… você olha em volta e pensa, como qualquer pessoa saudável faria: eu preciso durar mais que quatro desses desgraçados.) A única coisa que salvava no Grupo de Apoio era um menino

que cobriam um de seus olhos

chamado Isaac, um magrelo de rosto comprido, com cabelos loiros e lisos

E seu problema eram os olhos. Ele teve um tipo inacreditavelmente improvável de câncer ocular. Um olho foi extraído quando ele era pequeno, e agora o Isaac usava um par de óculos fundo de garrafa que fazia os olhos (tanto o de verdade quanto o de vidro) parecerem sobrenaturalmente grandes, como se a cabeça inteira fosse basicamente o globo ocular de mentira e o de verdade olhando para você. Pelo que pude entender das raras vezes que ele se abriu para o grupo, uma recorrência colocou o olho que resta em perigo mortal.

em resposta

O Isaac e eu nos comunicávamos quase exclusivamente por meio de suspiros. Cada vez que alguém falava de dietas anticâncer, de cheirar cartilagem de tubarão em pó ou sei lá, ele me olhava e suspirava de leve. Eu balançava a cabeça em um movimento microscópico e dava um suspiro

Então o Grupo de Apoio deu o que tinha de dar, e depois de algumas semanas eu passei a surtar quando tocavam no assunto. Na verdade, na quarta-feira em que conheci o Augustus Waters, tinha feito de tudo para me livrar da ida à sessão de grupo enquanto estava sentada no sofá com a mamãe, no meio da terceira parte da maratona de doze horas da temporada anterior de America’s Next Top Model, que, confesso, já tinha visto, mas mesmo assim…

Eu: ‚Eu me recuso a ir ao Grupo de Apoio.‛ Mamãe: ‚Um dos sintomas da depressão é a falta de interesse em participar de atividades.‛

Eu: ‚Por favor, mãe, deixe eu ficar vendo America’s Next Top Model.

Isso é uma atividade.‛

Mamãe: ‚Televisão é passividade.‛ Eu: ‚Pô, mãe, por favor…‛ Mamãe: ‚Hazel, você já é adolescente. Não é mais criancinha. Precisa fazer amigos, sair de casa, viver sua vida.‛

Eu: ‚Se você quer que eu aja como adolescente, não me mande para o

Grupo de Apoio. Compre uma carteira de identidade falsa para mim e aí eu vou sair à noite, beber vodca e tomar baseado.‛

Mamãe: ‚Para início de conversa, não se toma baseado.‛ Eu: ‚Viu? Esse é o tipo de coisa que eu saberia se você comprasse uma carteira de identidade falsa para mim.‛

bate as botas por causa de um câncer

Mamãe: ‚Você vai para o Grupo de Apoio.‛ Eu: ‚SAAAAAAACO.‛ Mamãe: ‚Hazel, você merece uma vida.‛ Aquilo me fez calar a boca, mesmo não tendo conseguido entender o que a ida ao Grupo de Apoio tinha a ver com a definição de vida. De qualquer jeito, concordei em ir — depois de negociar o direito de gravar o episódio e meio do ANTM que eu ia perder. Ia ao Grupo de Apoio pelo mesmo motivo que uma vez deixei enfermeiras com um ano e meio de faculdade me envenenarem com substâncias químicas de nomes exóticos: queria fazer meus pais felizes. Só tem uma coisa pior nesse mundo que bater as botas aos dezesseis anos por causa de um câncer: ter um filho que

tempo

Mamãe parou na entrada de carros circular atrás da igreja às 4h56. Fingi que estava ajeitando o cilindro de oxigênio por um segundo só para ganhar — Quer que eu o carregue até lá dentro?

— Não, está tudo bem — respondi. O cilindro verde só pesava uns poucos quilos e eu tinha um carrinho de aço para transportá-lo. Aquilo me fornecia dois litros de oxigênio por minuto através de uma cânula, um tubo transparente que se dividia bem embaixo do meu pescoço, passava por trás das orelhas e se juntava de novo nas narinas. A geringonça era necessária porque meus pulmões faziam um péssimo trabalho como pulmões.

— Eu também, mãe. Vejo você às seis
e me virei

— Eu te amo — ela disse, enquanto eu saltava do carro. — Faça amigos! — ela gritou pela janela abaixada enquanto eu me distanciava. Não quis usar o elevador porque isso é o tipo de coisa que você faz nos seus ‚Últimos dias no Grupo de Apoio‛, então fui de escada. Peguei um biscoito, coloquei um pouco de limonada num copo descartável

metade no bolso da calça jeans escura

Um garoto olhava fixamente para mim. Eu tinha quase certeza de nunca ter visto aquele cara na vida. Alto e magro, mas musculoso, ele fazia a cadeira de plástico, daquelas usadas em sala de aula, parecer minúscula. Cabelo acaju, liso e curto. Parecia ter a minha idade, talvez um ano mais velho, e estava sentado com o cóccix na beirada da cadeira, uma postura péssima, com uma das mãos enfiada até a

dele ainda estavam grudados em mim

Desviei o olhar, repentinamente consciente da quantidade infinita de coisas erradas em mim. Eu estava com uma calça jeans velha, que algum dia foi justa mas que agora ficava folgada nos lugares mais estranhos, e uma camiseta de malha amarela com o nome de uma banda da qual eu nem gostava mais. Tinha também meu cabelo: cortado tipo Príncipe Valente, e eu nem tive a preocupação de, puxa, dar uma escovada nele. Além disso, minhas bochechas estavam ridiculamente redondas, como as de um esquilo, efeito colateral do tratamento. Eu era uma pessoa de proporções normais com um balão no lugar da cabeça. Isso sem falar do inchaço nos tornozelos. Mesmo assim, dei uma espiada rápida e os olhos

Foi então que entendi o verdadeiro sentido de aquilo ser chamado de contato visual.

garoto. Olhei de novo, rapidamente. Ele ainda me observava

Andei até a roda e me sentei ao lado do Isaac, a duas cadeiras do

Na boa, vou logo dizendo: ele era um gato. Se um cara que não é gato encara você sem parar, isso é, na melhor das hipóteses, esquisito, e na pior, algum tipo de assédio. Mas se é um cara gato… na boa… Peguei meu celular e apertei uma tecla para ver as horas. Os lugares

O garoto ainda estava me encarando. Senti meu rosto ficar vermelho

na roda foram ocupados por azarados de doze a dezoito anos e, então, o Patrick deu início aos trabalhos com a prece da serenidade: Senhor, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.

Por fim, resolvi que a melhor estratégia seria também olhar fixamente para ele. Afinal de contas, os garotos não detêm o monopólio da Atividade Encaradora. Foquei nele enquanto o Patrick explicava pela milésima vez sua ausência debolas etc., e aquilo logo virou um Jogo do Sério. Depois de um tempo o garoto sorriu e, até que enfim, desviou os olhos azuis. Quando me olhou de novo, arqueei as sobrancelhas como que dizendo: ganhei.

apresentações chegou

Ele deu de ombros. O Patrick prosseguiu e, enfim, a hora das

enfrentando um grande desafio no momento

— Isaac, talvez você queira ser o primeiro hoje. Sei que está

— É — o Isaac disse. — Meu nome é Isaac. Tenho dezessete anos.

fazer para mudar isso

Parece que vou precisar ser operado em duas semanas, depois vou ficar cego. Não estou reclamando nem nada porque sei que poderia ser pior, como no caso de alguns aqui, mas, quer dizer, ficar cego é, tipo, uma droga. Ter uma namorada me ajuda. Além de amigos como o Augustus. — Ele balançou a cabeça na direção do garoto, que agora tinha nome. — Pois é… — continuou. Ele estava olhando para as mãos, os dedos cruzados parecendo o topo de uma tenda indígena. — Não há nada que se possa

pessoal, digam para o Isaac ouvir

— Estamos do seu lado, Isaac — o Patrick falou. — Vamos lá,

E então todos nós, em uníssono, dissemos: — Estamos do seu lado, Isaac. O Michael foi o próximo. Ele tinha doze anos. Sofria de leucemia.

Desde que se entendia por gente. E estava bem. (Pelo menos foi o que disse. Ele desceu de elevador.)

A Lida tinha dezesseis anos e era bonita o suficiente para ser alvo do olhar do cara gato. Era frequentadora assídua das reuniões — estava em

quando chegou sua vez. A voz era baixa, aveludada e supersensual

um longo período de remissão de um câncer de apêndice, que eu nem sabia que existia. Ela disse — como em todas as outras vezes que eu fui às sessões do grupo — que se sentia forte, o que para mim, com aquela chuvinha de oxigênio fazendo cosquinhas no nariz, era o mesmo que tirar onda. Outros cinco falaram antes do cara gato. Ele deu um sorrisinho

— Meu nome é Augustus Waters — disse. — Tenho dezessete anos.

hoje porque o Isaac pediu
— E como está se sentindo? — o Patrick perguntou
numa montanha-russa que só vai para cima, amigão

Tive uma pitada de osteossarcoma um ano e meio atrás, mas só estou aqui — Ah, maravilha. — Augustus Waters deu um sorrisinho. — Estou

Quando chegou minha vez, eu disse: — Meu nome é Hazel. Tenho dezesseis anos. Tireoide com metástase nos pulmões. Estou bem. A hora passou rápido. Lutas foram recontadas, batalhas ganhas em guerras que com certeza seriam perdidas; a esperança virou tábua de salvação; famílias foram celebradas e recriminadas; foi consenso que os amigos não entendiam nada; lágrimas foram compartilhadas, e consolo, oferecido.

— Augustus, talvez você queira falar de seus medos para o grupo

Nem eu nem o Augustus Waters tínhamos soltado uma palavra, até que o Patrick disse: — Meus medos?

— É
Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro
— Calma aí… — disse Isaac, abrindo um sorriso
bem cego quando o assunto são os sentimentos das outras pessoas

— Eu tenho medo de ser esquecido — disse ele de bate-pronto. — — Estou sendo insensível? — perguntou o Augustus. — Eu posso ser

O Isaac estava rindo, mas o Patrick levantou um dedo, repreendendoo.

— Por favor, Augustus. Voltemos a você e às suas questões. Disse que tem medo de ser esquecido?

O Patrick pareceu meio perdido

— É — respondeu o Augustus. — Alguém, ahn, alguém gostaria de fazer algum comentário? Eu não frequentava uma escola de verdade havia três anos. Meus melhores amigos eram meus pais. Meu terceiro melhor amigo era um escritor que nem sabia que eu existia. Eu era relativamente tímida — de jeito nenhum o tipo que levanta a mão para falar. E, mesmo assim, só dessa vez, resolvi abrir o verbo. Levantei a mão, e o Patrick, a satisfação estampada na cara, disse:

— Hazel! Eu estava, tenho certeza de que foi isso o que ele pensou, me abrindo.

‚Me tornando parte do grupo.‛

Olhei na direção do Augustus Waters, que me encarava. Dava quase para ver através dos olhos dele, de tão azuis.

— Vai chegar um dia — eu disse — em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui — fiz um gesto abrangente — vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto para lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz.

Eu tinha aprendido aquilo com meu já citado terceiro melhor amigo,

morrendo, e (b) não ter morrido

Peter Van Houten, o autor recluso de Uma aflição imperial — de todos os meus livros, o mais próximo de uma Bíblia. Peter Van Houten era a única pessoa que eu conhecia que parecia: (a) entender o que era estar Assim que terminei fez-se um longo silêncio, e eu pude ver um sorriso

sorriso sincero, quase maior que a cara dele

se abrindo de um canto ao outro no rosto do Augustus — não o tipo de sorriso cafajeste do garoto tentando parecer sexy ao me encarar, mas um

— Caramba! — disse ele baixinho. — Não é que você é mesmo demais?

Nós dois não falamos mais nada até o fim da reunião, quando todos se deram as mãos e o Patrick nos guiou em uma prece.

— Senhor Jesus Cristo, estamos aqui reunidos em Seu coração, literalmente em Seu coração, como sobreviventes do câncer. O Senhor e somente o Senhor nos conhece como conhecemos a nós mesmos. Nos guie pela vida e para a Luz em nossos períodos de provação. Oremos pelos olhos do Isaac, pelo sangue do Michael e do Jamie, pelos ossos do Augustus, pelos pulmões da Hazel, pela garganta do James. Oremos para que o Senhor consiga nos curar e para que possamos sentir Seu amor e Sua paz, que excedem todo o entendimento. E nos lembremos em nossos corações daqueles que um dia conhecemos, amamos e que foram para a Sua casa: Maria, Kade, Joseph, Haley, Abigail, Angelina, Taylor, Gabriel…

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