O Livro Negro do Comunismo - Stephane Courtois

O Livro Negro do Comunismo - Stephane Courtois

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O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO Crimes, terror e repressão com a colaboração de Remi Kauffer, Pierre Rigoulot, Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulouque Tradução CAIO MEIRA

Título original: Lê livre noirdu communisme Obra publicada sob a direção de Charles Ronsac Capa: Raul Fernandes Editoração: Art Line 1999

Impresso no Brasil Printed in Braztl

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão / Stéphane

Courtois... [et ai.]; com a colaboração de Remi Kauffér... [et ai.]; tradução Caio Meira. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. 924p., [32] p. de estampas: il.

Tradução de: Lê livre noir du communisme ISBN 85-286- 0732-1

1. Comunismo — História — Século X. 2. Perseguição política. 3. Terrorismo. I. Courtois, Stéphane, 1947-.

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Orelhas da capa:

Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o começo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relação com seu semelhante.

Novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a consequente abertura dos arquivos dos países comunistas apareceram para o mundo como a derrocada final do sonho comunista. O livro negro do comunismo traz a público o saldo estarrecedor de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e miséria provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Os autores, historiadores que permanecem ou estiveram ligados à esquerda, não hesitam em usar a palavra genocídio, pois foram cerca de 100 milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o número de vítimas do nazismo e até mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis. O terror - o Terror Vermelho - foi o principal instrumento utilizado por comunistas tanto para a tomada do poder quanto para a sua manutenção, e também por grupos de oposição que jamais chegaram ao governo. Os fatos demonstram: o terrorismo de oposição e o terrorismo de Estado, com frequência praticados contra o seu próprio povo, são as grandes características do comunismo no século X. Obstinados, pragmáticos, carismáticos, os líderes comunistas, que guiariam o mundo a seu destino inelutável, têm revelada a sua face sombria: Lenin, Stalin, Mão Zedong, Pol Pot, Ho Chi Minh, Fidel Castro e muitos outros tornam-se os responsáveis diretos pelas atrocidades cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares zelosos, os "obstáculos" - qualquer homem, cidade ou povo - foram sendo exterminados com violência e brutalidade. O livro negro do comunismo não quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um capítulo na polémica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes. Vítimas ocultas por demasiado tempo sob a máquina de propaganda dos PCs espalhados pelo mundo. Algozes muitas vezes festejados e recebidos com toda a pompa pelas democracias ocidentais. Todos que de algum modo tomaram parte na aventura comunista neste século estão, doravante, obrigados a rever as suas certezas e convicções. Encontrase, assim, uma das principais virtudes deste livro: à luz dos fatos aqui revelados, o Terror Vermelho deve estar presente na consciência dos que ainda crêem num futuro para o comunismo.

O editor e os autores dedicam este livro 2 à memória de François Furet, que havia concordado em redigir o seu prefácio.

SUMÁRIO OS CRIMES DO COMUNISMO 1 PRIMEIRA PARTE UM ESTADO CONTRA O POVO Paradoxos e equívocos de Outubro 53 O "braço armado da ditadura do proletariado"

69 O Terror Vermelho 90 A "guerra suja" 102 De Tambov à grande fome 134 Da trégua à "grande virada" 161 Coletivização forçada e deskulakização 178 A grande fome 193 "Elementos estranhos à sociedade" e ciclos repressivos 205

O Grande Terror (1936-1938) 223 O império dos campos de concentração 244 O avesso de uma vitória 259 Apogeu e crise do Gulag 278 O último complô 290 15- A saída do Stalinismo 299 À guisa de conclusão 311

1. O Komintern em ação 321 A revolução na Europa 321 Komintern e guerra civil 325 Ditadura, incriminação dos opositores e repressão no interior do Komintern 338 O grande terror atinge o Komintern 350 Terror no interior dos partidos comunistas 354 A caça aos "trotskistas" 361

Antifascistas e revolucionários estrangeiros vítimas do terror na URSS

366 Guerra civil e guerra de libertação nacional 382

2. A sombra do NKVD sobre a Espanha

"Depois das calúniasas balas na nuca"

394 A linha geral dos comunistas 395 "Conselheiros" e agentes 398 401 Maio de 1937 e a liquidação do POUM 402 O NKVD em ação 407 Um "julgamento de Moscou" em Barcelona 410

Dentro das Brigadas Internacionais 411 Exílio e morte na "pátria dos proletários" 415

3. Comunismo e terrorismo 418

1. Polónia, a "nação inimiga"

O caso do POW (Organização Militar Polonesa) e a "operação polonesa" do NKVD (1933-1938) 430 Katyn, prisões e deportações (1939-1941) 434 O NKVD contra a Armia Krajowa (Exército Nacional) 440 Bibliografia 443 Polónia 1944-1989: o sistema de repressão 4 À conquista do Estado ou o terror de massa (1944-1947)

4 A sociedade como objetivo de conquista ou o terror generalizado (1948-1956) 449

1981)

O socialismo real ou o sistema de repressão seletiva (1956- 454 O estado de guerra, uma tentativa de repressão generalizada 459

Do cessar-fogo à capitulação, ou a confusão do poder (1986- 1989)

2. Europa Central e do Sudeste 464

Terror "importado"? 464 Os processos políticos contra os aliados não comunistas 469 3 A destruição da sociedade civil 479 O sistema concentracionário e a "gente do povo" 486 Os processos dos dirigentes comunistas 498 Do "pós-terror" ao pós-comunismo

514 Uma gestão complexa do passado 528 Bibliografia selecionada 537

1. China: uma longa marcha na noite

545 Uma tradição de violência? 548 Uma revolução inseparável do terror (1927-1946) 554 Reforma agrária e expurgos urbanos (1946-1957) 561 Os campos: submissão e engenharia social 562 As cidades: "tática do salame" e expropriações 567 A maior fome da história (1959-1961) 576

Um "Gulag" escondido: o laogai 590

A Revolução Cultural: um totalitarismo anárquico (1966- 1976)

606 A era Deng: desagregação do terror (depois de 1976) 639 Tibet: um genocídio no teto do mundo? 644

2. Coreia do Norte, Vietnã e Laos: a semente do Dragão

650 Crimes, terror e segredo na Coreia do Norte 650 Antes da constituição do Estado comunista 651 Vítimas da luta armada 652 Vítimas comunistas do Partido-Estado norte-coreano 654 As execuções 656 Prisões e campos 657

O controle da população 663 Tentativa de genocídio intelectual? 664 Uma hierarquia estrita 6 A fuga 667 Atividades no exterior 668 Fome e miséria 669 Balanço final 670 Vietnã: os impasses de um comunismo de guerra

672 Laos: populações em fuga 683

3. Camboja: no país do crime desconcertante

686 A espiral do horror 688 Variações em torno de um martirológio 699 A morte cotidiana no tempo de Pol Pot 711 As razões da loucura 734 Um genocídio? 755 Conclusão 758

Seleção bibliográfica Ásia 764 QUINTA PARTE O TERCEIRO MUNDO

1. A América Latina e a experiência comunista

769 Cuba. O interminável totalitarismo tropical 769 Nicarágua: o fracasso de um projeto totalitário 789 Peru: a "longa marcha" sangrenta do Sendero Luminoso 800 Orientações bibliográficas 806

2. Afrocomunismos: Etiópia, Angola, Moçambique

808 O comunismo de cores africanas 808 O Império Vermelho: a Etiópia 813 Violências lusófonas: Angola, Moçambique 823 A República Popular de Angola 824 Moçambique 830

3. O comunismo no Afeganistão

835 O Afeganistão e a URSS de 1917 a 1973 836 Os comunistas afeganes 839 O golpe de Estado de Mohammed Daud 840

O golpe de Estado de abril de 1978 ou a "Revolução de Saur"

841 A intervenção soviética 846 A amplitude da repressão 849

PORQUÊ? 861 OS AUTORES 897 4 ÍNDICE ONOMÁSTICO 901 OS CRIMES DO COMUNISMO [por Stéphane Courtois | "A vida perdeu para a morte, mas a memória ganha seu combate contra o nada." Tzvetan Todorov Os abusos da memória

Já se escreveu que "a história é a ciência da infelicidade dos homens";1 nosso século de violência parece confirmar essa fórmula de maneira eloquente. É verdade que nos séculos precedentes poucos povos e poucos Estados estiveram isentos da violência de massa. As principais potências europeias estiveram implicadas no tráfico de negros; a república francesa praticou uma colonização que, apesar de algumas contribuições, foi marcada por numerosos episódios repugnantes, e isso até o seu término. Os Estados Unidos permanecem impregnados de uma certa cultura da violência que se enraíza em dois dos mais terríveis crimes: a escravidão dos negros e o extermínio dos índios.

Não resta dúvida de que, a esse respeito, nosso século deve ter ultrapassado seus predecessores. Um olhar retrospectivo impõe uma conclusão incómoda: este foi o século das grandes catástrofes humanas - duas guerras mundiais, o nazismo, sem falar das tragédias mais circunscritas, como as da Arménia, Biafra, Ruanda e outros países. Com efeito, o Império Otomano entregou-se ao genocídio dos arménios, e a Alemanha ao dos judeus e dos ciganos. A Itália de Mussolini massacrou os etíopes. Os tchecos têm dificuldades em admitir que seu comportamento em relação aos alemães dos Sudetos, em 1945-1946, não esteve acima de qualquer suspeita. A própria Suíça é hoje alcançada por seu passado como o país que gerenciava o ouro roubado pelos nazistas dos judeus exterminados, apesar desse comportamento não ser em nenhuma medida tão atroz quanto o do genocídio.

O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histórico transbordante de tragédias, chegando mesmo a constituir um de seus momentos mais intensos e mais significativos. O comunismo, um dos fenómenos mais importantes deste curto século X - que começa em 1914 e termina em Moscou em 1991 -, encontra-se no centro desse quadro. Um comunismo que preexistia ao fascismo e ao nazismo, e que sobreviveu a eles, atingindo os quatro grandes continentes.

O que designamos precisamente com a denominação "comunismo"?

1 Raymond Queneau, Une histoire modele, Gallimard, 1979, p. 9.

Devemos, desde já, introduzir uma distinção entre a doutrina e a prática. Como filosofia política, o comunismo existe há séculos, e quem sabe, há milénios. Pois não foi Platão quem, em A República, fundou a ideia de uma cidade ideal na qual os homens não seriam corrompidos pelo dinheiro e pelo poder, na qual a sabedoria, a razão e a justiça comandariam? Não foi um pensador e estadista tão eminente quanto Sir Thomas More, chanceler da Inglaterra em 1530, autor da famosa Utopia e morto sob o machado do carrasco de Henrique VIII, um outro precursor da ideia dessa cidade ideal? O método utópico parece perfeitamente legítimo como instrumento crítico da sociedade. Ele participa do debate das ideias - oxigénio de nossas democracias. Entretanto, o comunismo aqui abordado não se situa no céu das ideias. É um comunismo bem real, que existiu numa determinada época, em determinados países, encarnado por líderes célebres - Lenin, Stalin, Mão, Ho Chi Minh, Castro, e te., e, mais próximos da história política francesa, Maurice Thorez, Jacques Duelos, Georges Marchais.

Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prática do comunismo real - retornaremos a esse ponto -, foi este quem pôs em prática uma repressão metódica, chegando a instituir, em momentos de grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? Os espíritos ressentidos ou escolásticos sempre poderão sustentar que o comunismo real não tem nada a ver com o comunismo ideal. Evidentemente, seria absurdo imputar a teorias elaboradas antes de Cristo, durante a Renascença ou mesmo o século XDC, eventos que surgiram no decorrer do século X. Entretanto, como escreve Ignazio Silone, "na verdade, as revoluções são como as árvores, elas são reconhecidas através de seus frutos". Não foi sem razão que os socialdemocratas russos, conhecidos como

"bolcheviques", decidiram, em novembro de 1917, chamar a si próprios de "comunistas". Tampouco foi por acaso que erigiram junto ao Kremlin um monumento em glória daqueles que eles consideravam seus precursores: More ou Campanella.

Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para assegurar o poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo. É certo que no fim de um período de tempo variável — alguns anos no Leste Europeu ou várias décadas na URSS ou na China — o terror perdeu seu vigor, os regimes estabilizaram-se na gestão da repressão cotidiana, censurando todos os meios de comunicação, controlando as fronteiras, expulsando os dissidentes. Mas a "memória do terror" continuou a assegurar a credibilidade e, consequentemente, a eficácia da ameaça

* O autor se refere aqui a três líderes do Partido Comunista Francês. (N. T.) 6 repressiva. Nenhuma das experiências comunistas, populares durante algum tempo no Ocidente, escapou a essa lei: nem a China do "Grande Timoneiro", nem a Coreia de Kim I Sung, nem mesmo o Vietnã do "gentil Tio Ho" ou a Cuba do flamejante Fidel, ladeado pela pureza de um Che Guevara, não se esquecendo da Etiópia de Mengistu, da

Angola de Neto e do Afeganistão de Najibullah.

Ora, os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista moral. Sem dúvida, trata-se aqui de uma das primeiras vezes que se tenta uma aproximação do comunismo, perguntando-se sobre esta dimensão criminosa como uma questão ao mesmo tempo global e central. Poderão retorquir-nos que a maioria dos crimes respondia a uma "legalidade", ela própria sustentada por instituições pertencentes aos regimes vigentes, reconhecidos no plano internacional e cujos chefes eram recebidos com grande pompa por nossos próprios dirigentes. Mas não ocorreu o mesmo com o nazismo? Os crimes que expomos neste livro não se definem em relação à jurisdição dos regimes comunistas, mas ao código não escrito dos direitos naturais da humanidade.

A história dos regimes e dos partidos comunistas, de sua política, de suas relações com as sociedades nacionais e com a comunidade internacional não se resume a essa dimensão criminosa, ou mesmo a uma dimensão de terror e de repressão. Na URSS e nas "democracias populares" depois da morte de Stalin, na China após a morte de Mão, o terror atenuou-se, a sociedade começou a retomar suas cores, a "coexistência pacífica" - mesmo sendo ainda "uma continuação da luta de classes sob outras formas" — tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os arquivos e os testemunhos abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimensões fundamentais do comunismo moderno.

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