O Livro Negro do Comunismo - Stephane Courtois

O Livro Negro do Comunismo - Stephane Courtois

(Parte 3 de 3)

A "deskulakização" de 1930-1932 não foi senão a retomada, em grande escala, da "descossaquização", com a novidade de a operação ser reivindicada por Stalin, para quem a palavra de ordem oficial, alardeada pela propaganda do regime, era

"exterminar os kulaks enquanto classe". Os kulaks que resistiam à coletivização eram fuzilados, os outros eram deportados junto com suas mulheres, crianças e os idosos. De fato, eles não foram todos diretamente exterminados, mas o trabalho forçado ao qual foram submetidos, nas zonas não desbravadas da Sibéria ou do Grande Norte, deixou-lhes pouca chance de sobrevivência. Várias centenas de milhares deixaram ali suas vidas, mas o número exato de vítimas permanece desconhecido.

Quanto à grande fome ucraniana de 1932-1933, relacionada à resistência das populações rurais à coletivização forçada, ela em poucos meses provocou a morte de seis milhões de pessoas.

Aqui, o genocídio "da classe" junta-se ao genocídio "da raça": matar de fome uma criança kulak ucraniana deliberadamente coagida à indigência pelo regime stalinista "vale" o matar de fome uma criança judia do gueto de 5

Jacques Baynac, La Terreur sous Lénine, Lê Sagittaire, 1975, p. 75.

* Guerras de Vendée ou Vendéia, insurreição contra- revolucionária provocada em 1793, entre os camponeses da Bretanha, Poitou e Anjou, pela constituição civil do clero e o recrutamento em massa. (N. T.) 6

Gracchus Babeuf, La Guerre de Vendée et lê systeme de dépopulation, Tallandier, 1987.

Varsóvia coagida à indigência pelo regime nazista. Essa constatação de modo algum repõe em causa a "singularidade de Auschwitz": a mobilização dos mais modernos recursos técnicos e a implantação de um verdadeiro "processo industrial" - a construção de uma "usina de extermínio", o uso de gases, a cremação. Mas destaca uma particularidade de muitos regimes comunistas: a utilização sistemática da "arma da fome"; o regime tende a controlar a totalidade do estoque de comida disponível e, por um sistema de racionamento por vezes bastante sofisticado, só o distribui em função do "mérito" e do

"demérito" de uns e de outros. Este procedimento pode mesmo provocar gigantescas situações de indigência. Lembremo-nos de que, no período posterior a 1918, somente os países comunistas conheceram essa grande fome que levou à morte de centenas de milhares, ou quem sabe até de milhões de pessoas. Ainda nesta última década, dois países da África que se dizem marxistas-leninistas -Etiópia e Moçambique — sofreram dessas indigências assassinas.

Um primeiro balanço global desses crimes pode ser esboçado:

fuzilamento de dezenas de milhares de reféns, ou de pessoas aprisionadas sem julgamento, e massacre de centenas de milhares de trabalhadoresrevoltados entre 1918 e 1922; a fome de 1922, provocando a morte de cinco milhões de pessoas;

-execução e deportação dos cossacos da região do Don em 1920; assassinato de dezenas de milhares de pessoas em campos de concentração entre 1919 e 1930; execução de cerca de 690.0 pessoas por ocasião do Grande Expurgode 1937- 1938; deportação de dois milhões de kulaks (ou supostos kulaks) em 1930-1932; destruição por fome provocada e não socorrida de seis milhões deucranianos em 1932-1933; deportação de centenas de milhares de poloneses, ucranianos, bálticos,moldávios e bessarábios em 1939-1941, e posteriormente em 1944-1945; deportação dos alemães do Volga em 1941; deportação-abandono dos tártaros da Criméia em 1943; deportação-abandono dos chechenos em 1944; deportação-abandono dos inguches em 1944;

-deportação-abandono das populações urbanas do Camboja entre1975 e 1978;

-lenta destruição dos tibetanos pelos chineses, desde 1950, etc.

Não terminaríamos nunca de enumerar os crimes do leninismo e do stalinismo, com frequência reproduzidos de modo quase idêntico pelos regimes de Mão Zedong, Kim I Sung, Pol Pot.

Permanece uma difícil questão epistemológica: o historiador está apto a usar, em sua caracterização e em sua interpretação, fatos ou noções tais como "crime contra a humanidade" ou "genocídio", relativos, como vimos acima, ao domínio jurídico?

Não seriam essas noções demasiado dependentes de imperativos conjunturais - a condenação do nazismo em Nuremberg -

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