Metodologia Trabalho Cientifico Unid I

Metodologia Trabalho Cientifico Unid I

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Metodologia do Trabalho Científi co

Professora conteudista: Cecília Maria Villas Bôas Professora conteudista: Cecília Maria Villas Bôas

Sumário

Metodologia do Trabalho Científico

1 HISTÓRIA DA CIÊNCIA E DAS UNIVERSIDADES1
1.1 A determinação histórica nas atividades científicas1
1.1.1 Idade Antiga2
1.1.2 Idade Média9
1.1.3 Idade Moderna13
1.1.4 Idade Contemporânea19
1.1.5 Pós-modernidade21
1.1.6 História das universidades23
1.1.7 Universidades no Brasil26

Unidade I

2 TIPOS DE CONHECIMENTO31
2.1 Tipos de conhecimento: filosófico32
2.2 Tipos de conhecimento: teológico ou religioso34
2.3 Tipos de conhecimento: popular34
2.4 Tipos de conhecimento: conhecimento científico38
3 TEORIA43
3.1 Fatos científicos4
3.2 Paradigma46
4 MÉTODOS48
4.1 Tipos de métodos49
4.1.1 O método indutivo49
4.1.2 O método dedutivo51
4.1.3 O método hipotético-dedutivo53
4.1.4 Método científico54

Unidade I 4.1.5 Hipótese científica .................................................................................................................................. 56

METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO Unidade I

1 HISTÓRIA DA CIÊNCIA E DAS UNIVERSIDADES

1.1 A determinação histórica nas atividades científicas

Quando surgiu a ciência?

Esta parece ser uma pergunta simples, mas tem frequentemente dado origem a longas discussões.

Muitas das perguntas mais elementares que os seres humanos colocam a si próprios são perguntas que podem dar origem a estudos científicos:

Por que é que chove?

O que é o trovão?

De onde vem o relâmpago?

Por que as plantas crescem?

Por que tenho fome?

Por que morrem os meus semelhantes?

O que são as estrelas?

As explicações míticas e religiosas foram antepassadas da ciência moderna, não por darem importância central aos seres

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Revisão: Beatriz - Diagr amação: Már cio - 26/1 1/09 - Alter ação do nome da disciplina em 25/1

1/1 1 (Nome antigo: Metodologia do T rabalho Acadêmico) humanos na ordem das coisas nem por determinarem códigos de conduta baseados na ordem cósmica, mas por, ao mesmo tempo, oferecerem explicações de alguns fenômenos naturais — apesar de essas explicações não se basearem em métodos adequados de prova nem na observação sistemática da natureza.

O valor da ciência variou bastante ao longo da história e seu status atual tem origem no século XVI, quando surgiu a ciência moderna. Em 8000 a.C., tribos de caçadores coletores habitavam o planeta, mas animais e plantas começaram a ser “domesticados” pelo homem, surgiram as sociedades estáveis e teve início o que se chama de Idade Antiga.

1.1.1 Idade Antiga

Na Idade Antiga (4000 a.C. a 476 d.C.), surgiram as primeiras civilizações, como as civilizações de regadio (Egito, Mesopotâmia, China) e as civilizações clássicas (Grécia e Roma). Nessa época, surgiram também os persas, os hebreus (primeira civilização monoteísta), os fenícios, que eram os senhores dos mares e do comércio, além dos celtas, etruscos etc.

Observava-se o movimento do sol no Egito e na Mesopotâmia, e o primeiro relógio de sol data de 3500 a.C. Os “cientistas” da época observavam os fenômenos da natureza e o céu. Havia uma preocupação em marcar o tempo.

Relógio de sol, Egito, 1450 a.C.

Como é natural, os primeiros passos em direção à ciência não revelam ainda todas as características da ciência — revelam apenas algumas delas. O primeiro e tímido passo na direção da ciência só foi dado no início do século VI a.C., na cidade grega de Mileto, por aquele que é apontado como o primeiro filósofo: Tales de Mileto.

Tales de Mileto acreditava em deuses, mas a resposta que ele dá à pergunta acerca da origem ou do princípio de tudo o que vemos no mundo já não é mítica ou sobrenatural. Dizia Tales que o princípio de todas as coisas era algo que podia ser diretamente observado por todos na natureza: a água. Tendo observado que a água fazia crescer e viver, enquanto a sua falta levava os seres a secar e morrer; tendo, talvez, reparado que na natureza há mais água do que terra e que grande parte do próprio corpo humano era formado por água; verificando que esse elemento podia ser encontrado em diferentes estados, o líquido, o sólido e o gasoso, foi levado a concluir que tudo surgiu a partir da água. A explicação de Tales ainda não é científica, mas também já não é inteiramente mítica. Apresenta características da ciência e características do mito. Não é baseada na observação sistemática do mundo, mas também não se baseia em entidades sobrenaturais. Não recorre a métodos adequados de prova, mas também não recorre à autoridade religiosa e mítica.

Esse aspecto é muito importante. Consta que Tales desafiava aqueles que conheciam as suas ideias a demonstrar que não tinha razão. Essa é uma característica da ciência — e da filosofia — que se opõe ao mito e à religião.

A vontade de discutir racionalmente ideias, ao invés de nos limitarmos a aceitá-las, é um elemento sem o qual a ciência não poderia ter se desenvolvido. Uma das vantagens da discussão aberta de ideias é que as falhas das nossas ideias são criticamente examinadas e trazidas à luz do dia por outras pessoas. Foi talvez por isso que outros pensadores da mesma região surgiram apresentando diferentes teorias e, deste modo, iniciou-se uma

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1/1 1 (Nome antigo: Metodologia do T rabalho Acadêmico) tradição que se foi gradualmente afastando das concepções míticas anteriores. Assim, apareceram na Grécia, entre outros, Anaximandro (século VI a.C.), Heráclito (século VI/V a.C.), Pitágoras (século VI a.C.), Parmênides (século VI/V a.C.) e Demócrito (século V/IV a.C.). Este último defendia que tudo quanto existia era composto de pequeníssimas partículas indivisíveis (atomoi), unidas entre si de diferentes formas, e que, na realidade, nada mais havia do que átomos e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro grande filósofo naturalista que achava que não havia deuses e que a natureza tinha as suas próprias leis. As ciências da natureza estavam num estado primitivo; eram pouco mais do que especulações baseadas na observação avulsa.

Por outro lado, as ciências matemáticas começaram a desenvolver-se e apresentaram, desde o início, mais resultados do que as ciências da natureza. Pitágoras descobriu resultados matemáticos importantes (teorema de Pitágoras), apesar de não se saber se terá sido realmente ele a descobrir o teorema ou um discípulo da sua escola. A escola pitagórica era profundamente mística; atribuía aos números e as suas relações um significado mítico e religioso. Mas os seus estudos matemáticos eram de valor, o que mostra mais uma vez como a ciência e a religião estavam misturadas nos primeiros tempos. Afinal, a sede de conhecimento que leva os seres humanos a fazer ciências, religiões, artes e filosofia é a mesma.

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O teorema de Pitágoras

Os resultados matemáticos tinham uma característica muito diferente das especulações sobre a origem do universo e de todas as coisas. Ao passo que havia várias ideias diferentes quanto à origem das coisas, os resultados matemáticos eram consensuais, porque os métodos de prova usados eram poderosos; dada a demonstração matemática de um resultado, era praticamente impossível recusá-lo.

A matemática tornou-se assim um modelo da certeza. Mas este modelo não é apropriado para o estudo da natureza, pois a natureza depende crucialmente da observação. Além disso, não se pode aplicar a matemática à natureza se não tivermos a nossa disposição instrumentos precisos de quantificação, como o termômetro ou o cronômetro. Assim, o sentimento de alguns filósofos era (e, por vezes, ainda é) o de que só o domínio da matemática era verdadeiramente “científico” e que só a matemática podia oferecer realmente a certeza. Só Galileu e Newton, já no século XVII, viriam a mostrar que a matemática pode se aplicar à natureza, e as ciências da natureza têm de se basear noutro tipo de observação, diferente da observação que até aí se fazia.

Platão e Aristóteles

Uma das preocupações de Platão (428 — 348 a.C.) foi distinguir a verdadeira ciência e o verdadeiro conhecimento da mera opinião ou crença. Um dos problemas que atormentaram os filósofos gregos em geral, e Platão em particular, foi o problema do fluxo da natureza. Na natureza, verificamos que muitas coisas estão em mudança constante: as estações sucedem-se, as sementes transformam-se em árvores, os planetas e estrelas percorrem o céu noturno. Mas como poderemos ter a esperança de conseguir explicar os fenômenos naturais se eles estão em permanente mudança?

Para os gregos, isso representava um problema, pois não tinham instrumentos para medir de forma exata, por exemplo, a velocidade; e assim a matemática, que constituía o modelo básico de pensamento científico, era inútil para estudar a natureza. A matemática parecia aplicar-se apenas a domínios estáticos e eternos. Como o mundo estava em constante mudança, parecia

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1/1 1 (Nome antigo: Metodologia do T rabalho Acadêmico) a alguns filósofos que o mundo não poderia jamais ser objeto de conhecimento científico.

Era essa a ideia de Platão. Este filósofo recusava a realidade do mundo dos sentidos; toda a mudança que observamos diariamente seria apenas ilusão, reflexos de uma realidade suprassensível que poderia ser verdadeiramente conhecida. E a geometria, o ramo da matemática mais desenvolvido do seu tempo, era a ciência fundamental para conhecer o domínio suprassensível. Para Platão, só podíamos ter conhecimento do domínio suprassensível, ao qual ele chamou o domínio das ideias ou formas; do mundo sensível não podíamos senão ter opiniões, também em constante fluxo. O domínio do sensível era, para Platão, uma forma de opinião inferior e instável, que nunca nos levaria à verdade universal, eterna e imutável, já que se a mesma coisa fosse verdadeira num momento e falsa no momento seguinte, então não poderia ser conhecida.

Conhecer as ideias seria o mesmo que conhecer a verdade última, já que elas seriam os modelos ou as causas dos objetos sensíveis. Como tal, só se poderia falar de ciência acerca das ideias se estas não residissem nas coisas. Procurar a razão de ser das coisas obrigava a ir para além delas; obrigava a ascender a uma outra realidade distinta e superior. A ciência, para Platão, não era, pois, uma ciência acerca dos objetos que nos rodeiam e que podemos observar com os nossos sentidos. Nesse aspecto fundamental é que o principal discípulo de Platão, Aristóteles (384 — 322 a.C.), viria a discordar do mestre.

Aristóteles não aceitou que a realidade captada pelos nossos sentidos fosse apenas um mar de aparências sobre as quais nenhum verdadeiro conhecimento se pudesse constituir. Pelo contrário, para ele não havia conhecimento sem a intervenção dos sentidos. A ciência teria de ser o conhecimento da natureza que nos rodeia.

É verdade que os sentidos só nos davam o particular, e Aristóteles pensava que não há ciência senão do universal. Mas, para ele, e ao contrário do seu mestre, o universal inferia-se do particular. Aristóteles achava que, para se chegar ao conhecimento, devíamos virar para a única realidade existente, aquela que os sentidos nos apresentavam.

Sendo assim, o que tínhamos de fazer consistia em partir da observação dos casos particulares do mesmo tipo e, pondo de parte as características próprias de cada um (por um processo de abstração), procurar o elemento que todos eles tinham em comum (o universal). Por exemplo, todas as árvores são diferentes umas das outras, mas, apesar das suas diferenças, todas parecem ter algo em comum. Só que não poderíamos saber o que elas têm em comum se não observássemos cada uma em particular, ou pelo menos um elevado número delas. Ao processo que permite chegar ao universal por meio do particular chama-se, por vezes, indução. A indução é, portanto, o método correto para chegar à ciência.

Aristóteles representa um avanço importante para a história da ciência. Além de ter fundado várias disciplinas científicas (como a taxionomia biológica, a cosmologia, a meteorologia, a dinâmica e a hidrostática), Aristóteles deu um passo a mais na direção da ciência tal como hoje a conhecemos: pela primeira vez, encarou a observação da natureza de um ponto de vista mais sistemático.

Devido a um conjunto de fatores, a Grécia não voltou a ter pensadores com a dimensão de Platão e Aristóteles. Mesmo assim, apareceram ainda, no século I a.C., algumas contribuições para a ciência, tais como os elementos de geometria de Euclides, as descobertas de Arquimedes na Física e, já no século I, Ptolomeu na astronomia.

Nesse período, também surgiram as primeiras teorias sobre o universo. Para Tales de Mileto, por exemplo, a Terra era plana e flutuava no ar, a substância primordial do universo. Os planetas eram “rodas de fogo” girando em torno da Terra (Anaximandro de Mileto, 610 a 545 a.C.).

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O universo da Idade Antiga

Em 290 a.C., o astrônomo Aristarco de Samos (320 a 250 a.C.) elaborou pela primeira vez um modelo heliocêntrico para explicar os movimentos dos planetas e tentou utilizar a trigonometria para determinar a distância entre a Terra, o Sol e a Lua. A distância Terra-Sol foi estimada em 8.0.0 km. Hoje, sabe-se que essa distância é igual a 149.600.0 km.

Estimativa da distância entre a Terra, o Sol e a Lua

No século seguinte, Eratóstenes, que foi diretor da biblioteca de Alexandria, comprovou a esfericidade da Terra utilizando a trigonometria.

Comprovação da esfericidade da Terra

Nessa época:

• a ciência era uma atividade contemplativa. Não tinha como objetivo a manipulação ou transformação da natureza para fins específicos;

• o conhecimento científico apoiava-se em procedimentos dedutivos. Partindo-se de princípios gerais, tentava-se explicar os fenômenos particulares;

• a ciência não estava separada da filosofia, que era considerada a ciência das ciências.

1.1.2 Idade Média

Durante a Idade Média, na Europa, predominou a religião cristã. A religião cristã acabou por ser a herdeira da civilização grega e romana. Depois da derrocada do império romano, foram os cristãos — e os árabes —, espalhados por diversos mosteiros, que preservaram o conhecimento antigo. Dada a sua formação essencialmente religiosa, tinham tendência para encarar o conhecimento, sobretudo o conhecimento da natureza, de uma maneira religiosa. O nosso destino estava nas mãos de Deus e até a natureza nos mostrava os sinais da grandeza divina. Restava-nos conhecer a vontade de Deus. Para isso, de nada

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1/1 1 (Nome antigo: Metodologia do T rabalho Acadêmico) serve a especulação filosófica se ela não for iluminada pela fé. E o conhecimento científico não pode negar os dogmas religiosos e deve até fundamentá-los. A ciência e a filosofia ficam assim submetidas à religião; a investigação livre deixa de ser possível. Essa atitude de totalitarismo religioso irá acabar por ter consequências trágicas para Galileu e para Giordano Bruno (1548 — 1600), sendo este último condenado pela Igreja em função das suas doutrinas científicas e filosóficas: foi queimado vivo.

As teorias dos antigos filósofos gregos deixaram de suscitar o interesse de outrora. A sabedoria encontrava-se fundamentalmente na Bíblia, pois esta era a palavra divina, e Deus era o criador de todas as coisas. Quem quisesse compreender a natureza teria de procurar tal conhecimento não diretamente na própria natureza, mas nas Sagradas Escrituras. Elas é que continham o sentido da vontade divina e, portanto, o sentido de toda a natureza criada. Era isso que merecia verdadeiramente o nome de “ciência”.

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