A Dinamica do Capitalismo - Fernand Braudel

A Dinamica do Capitalismo - Fernand Braudel

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Título original: LA DYNAMIQUE DU CAPITALISME

© Les Éditions Arthaud, Paris, 1985

Todos os direitos reservados

Direitos para a língua portuguesa reservados, com exclusividade para o Brasil, à EDITORA ROCCO LTDA.

Printed in Brasil/Impresso no Brasil

Capa ANA MARIA DUARTE

Revisão ARGEMIRO DE FIGUEIREDO OSCAR GUILHERME LOPES HENRIQUE TARNAPOLSKY

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Braudel, Fernand

A dinâmica do capitalismo / Fernand Braudel; tradução Álvaro Cabral. – Rio de

ESTE pequeno volume reproduz o texto de três conferências que proferi na Universidade de Johns Hopkins nos Estados unidos, em 1977. O texto foi traduzido para o inglês sob o título Afterthoughts on Material Civilizations and Capitalism, depois em italiano: La Dinamica Del Capitalismo. A presente edição não introduz nenhuma correção no texto inicial que, cumpre advertir o leitor, é anterior à publicação do livro Civilisation matérielle, Économie et Capitalisme, em 1979, pela editora Armand Colin. Estando essa obra então quase inteiramente redigida, foime solicitado que a apresentasse em suas três grandes linhas.

CAPÍTULO I Repensando a vida material e a vida econômica

CAPÍTULO I Os jogos da troca

CAPÍTULO I O tempo do mundo

COMECEI pensando em Civilisation matérielle, Économie et Capitalisme, essa extensa e ambiciosa obra, já lá vão muitos anos, em 1950. O tema me fora então proposto ou, melhor dizendo, amistosamente imposto por Lucien Febvre, que acabava de organizar e fazer o lançamento de uma coleção de história geral, “Destins du Monde”, a mesma cuja difícil continuação me coube assumir após o falecimento de seu diretor, em 1956. Quanto a ele, Lucien

Febvre propunha-se escrever Pensées et croyances d’Occidente, du XVe au XVIIIe siècle

[Pensamentos e crenças do Ocidente, dos séculos XV a XVIII], um livro que deveria acompanhar e completar o meu, mas que, lamentavelmente, nunca chegou a ser publicado. A minha obra viu-se privada de uma vez para sempre desse acompanhamento.

Entretanto, mesmo limitado em geral ao domínio da economia, não deixou esse livro de me criar muitos problemas, em virtude da massa enorme de documentos a absorver, das controvérsias que seu tema suscita – é evidente que a economia, em si, é coisa que não existe –, em decorrência, enfim, das intermináveis dificuldades que provoca uma historiografia em constante evolução, porquanto incorpora obrigatoriamente, ainda que de um modo bastante lento, de bom ou de mau grado, as outras ciências do homem. Essa historiografia em constante gestação, jamais a mesma de um ano para outro, só conseguimos acompanhá-la correndo e deixando de lado os nossos trabalhos habituais, adaptando-nos o melhor que podemos às exigências e solicitações, nunca as mesmas. Quanto a mim, tenho um prazer imenso em escutar esse canto das sereias. E os anos passam. Invade-nos então o desespero de chegar ao porto. Terei consagrado 25 anos à história do Mediterrâneo e quase 20 à Civilização material. É muito, sem dúvida, é demais.

I A chamada história econômica, cuja construção se encontra ainda e tão-somente em curso, esbarra em certos preconceitos: não é a história nobre. A história nobre é o navio que Lucien Febvre construía: não Jakob Fugger mas Lutero, mas Rabelais. Nobre ou não nobre, ou menos nobre que uma outra, a história econômica nem por isso deixa de apresentar todos os problemas inerentes à nossa profissão: ela é a história inteira dos homens, considerada de um certo ponto de vista. É, simultaneamente, a história daqueles que se considera como os grandes atores, um Jacques Coeur, um John Law; a história dos grandes acontecimentos, a história da conjuntura e das crises e, enfim, a história maciça e estrutural que evolui lentamente ao longo dos tempos. E aí está realmente a nossa dificuldade porque, tratando-se de quatro séculos e do mundo como um todo, de que modo organizar tal soma de fatos e explicações? Tinha que se escolher. Por minha parte, escolhi os equilíbrios e desequilíbrios profundos a longo prazo. O que me parece primordial na economia pré-industrial, com efeito, é a coexistência das rigidezes, inércias e ponderosidades de uma economia ainda elementar, com os movimentos limitados e minoritários mas vivos, mas possantes, de um crescimento moderno. De um lado, os camponeses em suas aldeias que vivem de um modo quase autônomo, quase em autarquia; do outro, uma economia de mercado e um capitalismo em expansão, que se dilatam imperceptivelmente, se forjam pouco a pouco, já prefiguram o próprio mundo em que vivemos. Portanto, dois universos, pelo menos, dois gêneros de vida estranhos um ao outro e cujas massas respectivas se explicam, entretanto, uma pela outra.

Quis começar pelas inércias, à primeira vista uma história obscura, fora da consciência clara dos homens, nesse jogo muito mais agidos do que agentes. É o que procura explicar da melhor maneira possível o primeiro volume da minha obra, que tinha pensado em intitular, em 1967, na sua primeira edição, Le Possible et l’Impossible: Les hommes face à leur vie quotidienne, e mudei em seguida para Les Structures du quotidien. Mas pouco importa o título! O objetivo da investigação é tão claro quanto possível, ainda que essa busca se revele aleatória, repleta de lacunas, de eventuais armadilhas e desprezos. Com efeito, todas as palavras postas em destaque – inconsciente, cotidianidade, estruturas, profundidade – são por si. mesmas obscuras. E não se pode tratar, na ocorrência, do inconsciente da psicanálise, se bem que este se encontre igualmente em causa, se bem que haja a descobrir, talvez, um inconsciente coletivo cuja realidade atormentou Karl Gustav Jung tão profundamente. Mas é raro que esse grande assunto seja abordado a não ser por seus três lados menores. Aguarda ainda o seu historiador.

Por minha parte, fiquei nos critérios concretos. Parti do cotidiano, daquilo que, na vida, se encarrega de nós sem que o saibamos sequer: o hábito – melhor, a rotina – mil gestos que florescem, se concluem por si mesmos e em face dos quais ninguém tem que tomar uma decisão, que se passam, na verdade, fora de nossa plena consciência. Creio que a humanidade está pela metade enterrada no cotidiano. Inumeráveis gestos herdados, acumulados a esmo, repetidos infinitamente até chegarem a nós, ajudam-nos a viver, aprisionam-nos, decidem por nós ao longo da existência. São incitações, pulsões, modelos, modos ou obrigações de agir que, por vezes, e mais freqüentemente do que se supõe, remontam ao mais remoto fundo dos tempos. Muito antigo e sempre vivo, um passado multissecular desemboca no tempo presente como o Amazonas projeta no Atlântico a massa enorme de suas águas agitadas.

Foi tudo isso que tentei captar sob o nome cômodo – mas inexato, como todas as palavras de significação excessivamente ampla – de vida material. Bem entendido, trata-se de uma parte apenas da vida ativa dos homens, tão profundamente inventores quanto rotineiros. Mas, no início, repito, não me preocupei em definir com precisão os limites ou a natureza dessa vida mais suportada do que ativamente conduzida. Quis ver e fazer ver essa massa geralmente mal apercebida de história mediocremente vivida, e nela mergulhar, familiarizar-me com ela.

Depois, somente depois, chegaria o momento de sair dela. A impressão profunda, imediata, após essa pesca submarina, e de que estamos em águas muito antigas, no meio de uma história que, de algum modo, não teria idade, que reencontraríamos, em suma, dois ou três séculos ou dez séculos mais cedo e que, por vezes, num momento, nos e dado enxergar ainda hoje com os nossos próprios olhos. Essa vida material, tal como a compreendo, e o que a humanidade, no transcurso de sua história anterior, incorporou profundamente à sua própria vida, como nas próprias entranhas dos homens, para quem tais experiências ou intoxicações de outrora se converteram em necessidades do cotidiano, em banalidades. E ninguém as observa com atenção.

Tal e o fio condutor do meu primeiro livro; seu objetivo: uma exploração. Seus capítulos apresentam-se por si mesmos, nada mais do que enunciando seus títulos, como a enumeração de forças obscuras que trabalham e impulsionam para diante o conjunto da vida material e, para além ou para cima, a história inteira da humanidade.

Primeiro capítulo: “O Número de Homens”. É a potência biológica por excelência que impele o homem, como todos os seres vivos, a reproduzir-se; o “tropismo da primavera”, dizia Georges Lefebvre. Mas existem outros tropismos, outros determinismos. Essa matéria humana em perpétuo movimento comanda, sem que os indivíduos tomem consciência disso, uma boa parte dos destinos de conjuntos de seres vivos. Alternadamente, estes, em tais ou tais condições gerais, ou são numerosos demais ou não suficientemente numerosos, o jogo demográfico tende para o equilíbrio, mas este raras vezes se atinge. A partir de 1450, na Europa, o número de pessoas cresce com rapidez; e porque se faz necessário compensar, porque e então possível compensar, as enormes perdas sofridas no século precedente, na esteira da Peste Negra. Houve recuperação até ao refluxo seguinte. Sucessivos fluxos e refluxos, como que esperados de antemão aos olhos dos historiadores, desenham, revelam regras tendenciais, regras de longa duração que continuarão válidas até ao século XVIII. Somente no século XVIII ocorrerá a explosão das fronteiras do impossível, superação de um teto até então intransponível. Desde então, o número de seres humanos nunca mais parou de aumentar, não voltou a haver suspensões nem reversões do movimento. Poderá surgir amanhã tal reversão?

Em todo o caso, até ao século XVIII, o sistema vivo está fechado num círculo quase intangível. Mal a circunferência e atingida, quase imediatamente ocorre uma retração, um recuo. Não faltam os modos e as ocasiões para restabelecer o equilíbrio: penúrias, escassez, fome, duras condições da vida de todos os dias, guerras, enfim – e sobretudo – o longo cortejo das doenças. Hoje, elas ainda atuam; ontem, eram os flagelos do apocalipse: a peste, em epidemias regulares que só deixarão a Europa no século XVIII; o tifo que, com o inverno, bloqueará Napoleão e seu exército no coração da Rússia; a tifóide e a varíola, que são endêmicas; a tuberculose, presente desde cedo nos campos e que, no século XIX, submerge as cidades e converte-se no mal romântico por excelência; enfim, as doenças venéreas, a sífilis que renasce ou, melhor dizendo, explode por combinação de espécies microbianas, após a descoberta da América. As deficiências da higiene, a má qualidade da água potável, fazem o resto.

Como o homem, após seu frágil nascimento, escaparia a todas essas agressões? A mortalidade infantil e enorme, como em certos países subdesenvolvidos de hoje, ou de ontem; o estado sanitário geral, precário. Possuímos centenas de relatos de autópsias desde o século XVI. São alucinantes. A descrição das deformações, das deteriorações dos corpos e da pele, a população anormal de parasitas alojados nos pulmões e nas vísceras, deixariam estupefato um médico de hoje. Portanto, até tempos recentes, uma realidade biológica malsã domina implacavelmente a história dos homens. Tem que se pensar nisso quando se pergunta: Quantos são eles? De que sofrem? Poderão conjurar seus males?

Outras questões apresentadas nos capítulos seguintes: O que comem? O que bebem? Como se vestem? Como se alojam? Perguntas incongruentes, que exigem quase uma viagem de descoberta, porque, como sabem, o homem não come nem bebe nos livros de história tradicional. Foi bem dito, há muito, muito tempo: Der Mensch ist was er isst [O homem é o que come], mas talvez seja, sobretudo, pelo prazer do jogo de palavras que a língua alemã permite. Entretanto, não creio que se deva relegar para o anedótico o surgimento de tantos produtos alimentares, desde o açúcar, o café e o chá até ao álcool. Eles são, de fato, a cada vez, intermináveis, importantes fluxos de história. E não se poderia exagerar, em todo o caso, a importância dos cereais, plantas dominantes da alimentação antiga. O trigo, o arroz, o milho, são o resultado de escolhas milenares e de inúmeras experiências sucessivas, as quais, pelo efeito de “derivas” multisseculares (segundo a palavra de Pierre Gourou, o maior dos geógrafos franceses), tornaram-se escolhas da civilização. O trigo, que devora a terra, que exige que esta repouse regularmente, implica, permite a criação de gado: poderíamos imaginar a história da Europa sem os seus animais domésticos, suas charruas, suas parelhas de cavalos ou de bois, suas carroças? O arroz nasceu de uma espécie de jardinagem, de uma cultura intensa em que o homem não deixa lugar aos animais. O milho e certamente a mais cômoda e a mais fácil de obter das refeições cotidianas: ele regula o tempo de ócio, daí as corvéias camponesas e os enormes monumentos ameríndios. Uma força de trabalho desempregada foi confiscada pela sociedade. E poderíamos discutir também sobre as rações e as calorias que elas representam, sobre as insuficiências e as mudanças de dieta através dos tempos. Eis alguns temas tão apaixonantes, não e verdade, quanto o destino do império de Carlos V ou os esplendores fugazes e discutíveis do que se chama a hegemonia francesa na época de Luís XIV. E, sem dúvida, temas repletos de conseqüências: a história dos antigos intoxicantes, o álcool, o fumo, a maneira fulgurante como o fumo, em particular, conquistou o mundo, deu-lhe uma volta completa, não será uma advertência para as ainda mais perigosas drogas de hoje?

Constatações análogas impõem-se a respeito das técnicas. História maravilhosa, na verdade, que acompanha de perto o trabalho dos homens e seus progressos muito lentos na luta cotidiana contra o meio exterior e contra eles próprios. Tudo e técnica desde sempre, o esforço violento, mas também o esforço paciente e monótono dos homens, modelando uma pedra, um pedaço de madeira ou de ferro, para fazer disso uma ferramenta ou uma arma. Não e essa uma atividade rente ao chão, conservadora por essência, de transformação lenta, e que a ciência (que e a sua superestrutura tardia) recobre devagar, quando a recobre? As grandes concentrações econômicas pedem as concentrações de meios técnicos e o desenvolvimento da tecnologia: assim ocorreu com o Arsenal de Veneza no século XV, com a Holanda no século XVII, com a Inglaterra no século XVIII. E de todas as vezes a ciência, por mais balbuciante que fosse, estará presente ao encontro. Aí é conduzida à força.

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