Armando - Valladares - Contra - Toda - Esperanca

Armando - Valladares - Contra - Toda - Esperanca

(Parte 1 de 9)

Armando Valladares Contra Toda a Esperança

2 anos no "Gulag das Américas" As prisões políticas de Fidel Castro

(Edição Eletrônica Condensada - Agosto de 2006 - Distribuição Gratuita no Brasil)

Cuba: ¿“sinais” do reino de Deus, ou do inferno?

Caros amigos brasileiros,

Umas breves e afetuosas palavras de apresentação da edição eletrônica condensada, em português, de "Contra Toda a Esperança", minhas memórias de mais de duas décadas de cárcere e torturas contínuas no "Gulag" castrista, publicadas pela primeira vez em 1985, em espanhol. Como uma amostra de amizade e afeto, esta edição eletrônica será difundida gratuitamente, por e-mail, a todos os interessados.

No Brasil, figuras representativas da chamada esquerda católica, como o cardeal

Arns, Frei Betto e Leonardo Boff chegaram a ver em Cuba comunista “sinais” do Reino de Deus onde, na realidade, o que existe é uma ante-sala do inferno. É esta a realidade que descrevo em “Contra Toda a Esperança”.

Os brasileiros têm dado muitas mostras de afeto e de compreensão pelo sofrimento do povo cubano. Em 2001, por exemplo, foi decisiva a preocupação da opinião pública, de autoridades e de meios de comunicação desse gigantesco país para que as jovens Sandra Becerra Jova e Anabel Soneira Antigua, literalmente seqüestradas e retidas na ilha contra a vontade de seus pais, profissionais cubanos residentes no Brasil, fossem finalmente libertadas e enviadas a esta nobre e acolhedora terra, para reunir-se com suas respectivas famílias.

No momento em que escrevo estas breves linhas de apresentação, estamos a poucas semanas das eleições presidenciais nesse grande País sul-americano. Me atrevo então a pedir a esse mesmo povo brasileiro, afetuoso, bondoso e compassivo, que se manifeste ante os candidatos presidenciais, solicitando-lhes um compromisso público para que o futuro governo atue com firmeza no campo diplomático e humanitário, de maneira a contribuir para a libertação de 1 milhões de meus irmãos cubanos que na ilhacárcere continuam seqüestrados, desde há quase 50 anos, em sua própria pátria.

Que a Providência recompense a todos os brasileiros que assim procedam. Com um abraço afetuoso, subscreve-se

Armando F. Valladares E-mail: ArmandoValladares2005@yahoo.es

Este livro não é uma novela. É uma denúncia mundial. É um relato rigorosamente autêntico do que seu autor, Armando Valladares, viu e padeceu durante 2 anos de prisão -absurda e arbitrária- nos cárceres políticos de Fidel Castro.

Valladares descreve a tenebrosa prisão do castelo de "La Cabaña", onde os opositores do regime comunista são justiçados com um simples tiro na cabeça. Denuncia os campos de trabalhos forçados, onde a vida perde todo o sentido. Descreve as celas de repressão e confinamento, a maldade refinada de estilo stalinista.

Revela o funcionamento do "Centro de Exterminação e Experiência Biológica" da prisão de Puerto Boniato, a pior de Cuba, onde médicos soviéticos, alemães orientais e tchecoslovacos, junto com seus colegas cubanos, sistematicamente provocam doenças e realizam experiências psicológicas entre os presos políticos.

Pela primeira vez, possivelmente, são denunciadas as condições desumanas nos centros de detenção juvenil e a violência que ali impera.

Nunca antes se haviam detalhado as condições subumanas a que as mulheres, prisioneiras políticas, são submetidas em Cuba; a humilhação que sofrem essas infelizes quando repelem a "reabilitação" política comunista, obrigadas a vestir apenas roupas íntimas; o risco constante de serem enviadas para as prisões comuns de mulheres delinqüentes, na mesma nudez, para enfim sofrer sua definitiva desestabilização emocional e psíquica.

Este relato verídico começa e termina na prisão política. Mas também atravessa seus muros para narrar a perseguição e o tormento a que são submetidas as pessoas que tenham um ente querido isolado no vasto presídio político de Cuba.

Angústias, privações, torturas e assassinatosdor infinda que, nestas páginas,é

recolhida para dar uma mensagem -na verdade, um grito de angústia- pelos fatos tétricos que acontecem em nosso próprio continente, no "Gulag das Américas": a Cuba de Fidel Castro.

Armando Valladares

Contra Toda a Esperança (Edição Eletrônica Condensada)

"Abraão soube esperar contra toda a esperança

e não vacilou na fé". (São Paulo, Epístola aos Romanos IV, 18, 19)

O Homem é o ser maravilhoso da Natureza.

Torturá-lo, despedaçá-lo, exterminá-lo por idéias é, mais do que uma violação dos Direitos Humanos, um crime contra toda a Humanidade.

O Autor

Copyright © 1985, Armando Valladares

Todos os direitos reservados sob a Convenção Internacional e a Convenção

Panamericana de Direitos Autorais

Esta obra foi originalmente publicada em castelhano sob o título "Contra Toda Esperanza" por Kosmos-Editorial S.A., Panamá, 1985

Dedicatória

Á memória de meus companheiros torturados e assassinados nas prisões de Fidel Castro e aos milhares de prisioneiros que atualmente agonizam nelas.

Introdução

Este livro é meu testemunho de vinte e dois anos passados nas prisões políticas de

Cuba, unicamente por manifestar meus critérios diferentes do regime de Fidel Castro.

Em meu país há algo que nem mesmo os mais fervorosos defensores da revolução cubana podem negar: o fato de que existe uma ditadura há mais de um quarto de século. E um ditador não pode manter-se no poder durante tanto tempo sem violar os Direitos Humanos, sem perseguições, sem presos políticos e prisões.

Em Cuba existem, neste momento, mais de duzentos estabelecimentos penitenciários, que vão desde as prisões de máxima segurança até os campos de concentração e as chamadas granjas e frentes abertas, onde os presos realizam trabalho forçado.

Em cada uma dessas duzentas prisões há história suficiente para escrever muitos livros. Por isso, os testemunhos que aqui aparecem são apenas um esboço da terrível realidade daqueles cárceres.

As situações de violência, a repressão, as surras, as torturas e incomunicabilidades são prática diária. Hoje, agora mesmo, centenas de presos políticos, por recusar a reabilitação política, estão nus há quatro anos, sem assistência médica, sem visitas, dormindo no chão e fechados em celas cujas portas e janelas foram emparedadas.

Jamais vêem a luz do sol ou a luz artificial. Eu sou um sobrevivente dessas terríveis celas emparedadas de Boniato.

Há fotografias de alguns dos personagens que aparecem no livro, para que se saiba que são pessoas que existem, que têm um rosto. Os vivos estão, atualmente, nos Estados Unidos, Venezuela e outros países. Devo dizer que naquele peregrinar pelas prisões conheci militares e funcionários com grande qualidade humana, que nos ajudaram na medida de suas possibilidades e com isso arriscaram-se a ir para a cadeia. Os nomes dessas pessoas, por motivos de segurança para elas, não podem ser revelados, assim como os favores que fizeram.

Não quero terminar sem evocar os que tornaram possível a minha liberdade e reiterar-lhes meu reconhecimento. Não escrevo nomes porque a lista seria muito longa e porque há pessoas que pensaram em mim, que fizeram muito por mim e eu nem sequer sei seus nomes. Para eles o melhor da minha lembrança e de meu coração.

Madri, 1985 Armando Valladares

1. Detenção

assustado. Três homens armados estavam ao redor de minha camaUm deles disse que

O cano frio da submetralhadora em minha têmpora me acordou. Abri os olhos, eu tinha de acompanhá-los e que me vestisse. Na sala, um quarto policial vigiava minha mãe e minha irmã.

Tranqüilizei-as, disse-lhes que com toda certeza tratava-se de um erro, uma vez que eu não tinha cometido crime algum.

Eu era, então, funcionário do Governo Revolucionário na Caixa Econômica, anexa ao Ministério de Comunicação, e minha subida àquele departamento oficial havia sido rápida, motivada, em grande parte, por minha condição de estudante universitário.

examinaram o motor da geladeira, os colchões

Realizaram uma busca minuciosa, prolongada: levaram quase quatro horas revistando tudo. Não ficou um só centímetro da casa sem ser examinado. Abriram garrafas, verificaram livros, folha por folha, esvaziaram tubos de pasta dental,

Eu conversava com minha mãe, que era quem estava mais nervosa; enquanto isso, pensava em quem me teria denunciado. Pensei que a denúncia deveria ter saído de meu emprego. Eu sabia que tinha uns colegas que me eram hostis, devido às minhas idéias religiosas e minhas concepções idealistas do mundo, que esgrimia freqüentemente para discordar do comunismo como sistema.

Também sabia que eu estava marcado como anticomunista. Uma de minhas últimas discussões havia sido provocada por um lema que era repetido no país inteiro, lançado pelo aparelho propagandístico do Governo, e que tinha por objetivo ir preparando as massas, ir infiltrando nelas a idéia comunista. Castro já era acusado disso e, então, divulgaram a ordem:

"Se Fidel é comunista, que me ponham na lista: eu estou de acordo com ele". O lema foi impresso em adesivos para serem colocados em automóveis, em placas de latão para serem fixadas às portas das casas, era diariamente publicado nos jornais, foram feitos cartazes e fixados ns paredes de escolas, quartéis, fábricas, oficinas e escritórios do Governo. O propósito era bem claro e simples: Castro era apresentado ao povo como um Messias, um salvador, o homem que devolveria a liberdade, a prosperidade e a felicidade a Cuba.

minha mesa de trabalho"se Fidel é comunista...". Eu recusei. Ficaram surpresos e

Os comunistas do Ministério apareceram para colocar um daqueles lemas na desorientados porque, se bem que soubessem de minha aversão ao marxismo, haviam achado que eu não iria recusar, uma vez que isso seria recusar Castro. Perguntaram-me se eu não estava de acordo com Fidel. Respondi que se ele era comunista, não, que não faria parte dessa lista.

Os policiais continuavam a revista. Terminaram nos dormitórios, banheiros, cozinha e passaram para a sala. Revistaram os quadros, as estatuetas de porcelana; uma delas chamou-lhes a atenção: tinham descoberto algo dentro. Com uma caneta esferográfica, um deles conseguiu tirar um papel: era um dos usados para embalar louças e cristais. Abriu-o e ao perceber que eu o observava com ar divertido, amassou- e atirou-o pela janela. Fizeram-nos levantar do sofá, viraram-no e o examinaram cuidadosamente. Terminou a revista e não apareceram armas, nem explosivos, nem propaganda, nem listas. Se bem que nada houvessem encontrado, eu tinha que responder a umas perguntas de rotina. Minha mãe argumentou que não havia motivo para me levarem. Eles responderam que não se preocupasse, que eu voltaria logo: eles mesmos me trariam de volta para casa. Só que a volta demorou mais de vinte anos.

Chegamos à esquina da 5a Avenida com a Rua 14, no Departamento Miramar.

Era, então, a sede centra da Polícia Política, a Lubianka cubana. Várias residências, produtos do despojo, formavam o complexo do G-2, que era como, a princípio, chamavam a Segurança do Estado. Fui levado ao segundo andar, ao arquivo. Tiraram minhas impressões digitais e me fotografaram com um letreiro que dizia: "contrarevolucionário".

- Conhecemos suas declarações onde você trabalha; você andou atacando a revolução - afirmaram.

Defendi-me, dizendo-lhes que não havia atacado a revolução como instituição. - Mas atacou o comunismo. Isso eu não neguei. Não podia, nem queria fazê-lo. - Sim, é verdade - disse-lhes, - considero o comunismo uma ditadura pior da que acabamos de padecer e se ele se estabelecer em Cuba, seria como na Rússia: passar do czarismo à ditadura do proletariado.

Naquela mesma tarde me levaram com os outros detidos - entre eles, uma mulher - a um pequeno salão. Mandaram que nos sentássemos em um banco de madeira. Havia refletores, que se acenderam; os fotógrafos e câmeras começaram a fotografar e a filmar. No dia seguinte, aparecemos nos jornais e televisão como um bando de terroristas, agentes da CIA, capturados pela Segurança do Estado.

Eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Nunca as tinha visto. Foi lá que entrei em contato com Nestor Piñango, Alfredo Carrión e Carlos Alberto Montaner, três estudantes universitários. Também conheci Richard Heredia, que havia sido um dos chefes do Movimento 26 de Julho, na província de Oriente.

No dia seguinte houve o segundo interrogatório. - Você estudou em um colégio de padres - disseram.

- Sim, nos Escolapios; mas o que importa isso?

- Importa, sim. Os padres são contra-revolucionários e o fato de ter estudado nessa escola é mais uma evidência contra você. - Mas Fidel Castro estudou no Colégio Belém,dos padres jesuítas.

- Mas Fidel é um revolucionário e você é um contra-revolucionário, aliado aos padres e aos capitalistas; por isso vamos condená-lo. - Não há nenhuma prova contra mim, não descobriram nada.

- É verdade que não temos prova alguma, concreta, contra você, mas temos a convicção de que é um inimigo em potencial da revolução. Para nós, é o suficiente.

À noite, cedo, tiraram Richard Heredia e eu da cela. Levaram-nos para um salão e exibiram-nos um filme feito para os noticiários de cinema e tevê. Um dos jornalistas, referindo-se a mim, comentou, a meia voz, que era uma pena me fuzilarem tão moço. A campanha organizada pelos comunista alcançou proporções tão vastas que me fez temer seriamente por minha vida.

Nessa madrugada fui levado para o último interrogatório. Foi como uma despedida.

- Sabemos que você conhece elementos que estão conspirando, que deve ter contato com alguns deles. Se cooperar conosco, podemos deixá-lo em liberdade e reintegrá-lo em seu trabalho. - Não conheço nenhuma dessas pessoas, nem tenho contato com conspiradores.

- Esta é a última oportunidade que você tem de sair desta encrenca.

- Eu não sei de nada. Vocês não podem me condenar porque não fiz nada. Não há provas contra mim. Não podem demonstrar nada.

Nessa mesma noite, Carlos Alberto, Richard e eu, com um abridor de latas, começamos a fazer um buraco na parede posterior do banheiro. Íamos tentar fugir. Era tarefa difícil. Trataríamos de retirar o reboque da parede e arrancar o primeiro tijolo. Revezávamo-nos na perfuração. Sabíamos que nos arriscávamos a represálias. Mas nos dedicamos ao trabalho com afinco. No entanto, não conseguimos terminá-lo. Tiraram-nos de lá antes. Nunca soubemos se foi por casualidade ou se algum dos muitos que ali se encontravam era delator ou agente da Polícia Política.

Eram os primeiros dias do ano de 1961. Todo o litoral de Havana estava cheio de canhões que apontavam para o norte. Os Estados Unidos haviam rompido relações com Cuba e o Governo agitava a ameaça de invasão. O vento erguia grandes ondas que saltavam por cima da mureta da avenida que acompanha a costa da Capital. O carro corria a grande velocidade. Passou o túnel da baía e entrou na fortaleza de La Cabaña.

De repente, eu me vi no pátio, no meio daquela multidão de prisioneiros. Não conhecia ninguém. Designaram-me para o pavilhão 12 e me dirigi para lá. Na porta, um preso jovem, de óculos claros, ficou me olhando, sorriu, afável, e me estendeu a mão. Era Pedro Luis Boitel, dirigente estudantil universitário. Combateu Batista na clandestinidade, depois tinha conseguido fugir para a Venezuela, de onde voltou quando o ditador caiu. Havia me reconhecido pelas fotografias publicadas nos jornais. Foi a primeira pessoa que conheci lá e chegamos a ser grandes amigos, como irmãos.

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