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Para o livro: CAMINHOS DO SABER PLURAL Projeto: NOVOS CAMINHOS DA CIÊNCIA

Série: Número 7 Ano: 1999.

Professora Titular
Escola de Comunicações e Artes - ECA
Universidade de São Paulo - USP

Organizadora: Dra. Cremilda Medina

Artigo: POR UMA AMERICA INDÍGENA*

Livre Docente
Professor Adjunto
Departamento de Economia
FCL - Campus de Araraquara
Universidade Estadual Paulista - UNESP
E-mail: <eazamayo@fclar.unesp.br>

Autor: Enrique Amayo Zevallos, Ph.D.

* Este artigo é resultado das leituras feitas nos dois últimos anos preparando aulas para meus alunos de graduação, pós-graduação e especialização latusensu. A eles, por suas constantes perguntas e generosas inquietações, dedico este trabalho.

não é exagero dizer que o rápido crescimento industrial da Alemanha é o maior
americanosigualmente, o extraordinário crescimento do poder e da população da
Rússia nos séculos XIX e X tem a ver com a superioridade da batatacomo alimento
básico de uma sociedade em processo de industrializaçãoO aumento da população e a
produto americano desenvolveu papel tão decisivo no cenário mundial1

POR UMA AMÉRICA INDÍGENA monumento político gerado pelo impacto, na Europa, dos produtos alimentícios expansão da industrialização na Europa do norte, com seu resultante impacto na distribuição do poder a partir de 1750, simplesmente não poderia ter acontecido sem a alimentação gerada pela expansão da batata nos campos de cultivo. Nenhum outro

A conquista do Novo Mundo (finalmente conhecido como América) foi consequência da superioridade do Velho Mundo, cujo eixo, desde o século XVI, é a Europa. Ou seja, a conquista e destruição da América pré-colombiana (Indígena) foram o resultado natural do choque entre dois mundos diferentes. Nesse choque o superior tinha que se impor ao inferior. Em outras palavras: foi o resultado natural do processo de desenvolvimento histórico. Foi uma fatalidade histórica que demostra uma vez mais o domínio das formações sociais técnica e institucionalmente superiores (neste caso Europa) sobre as inferiores (América Indígena). De tão óbvia, esta é uma verdade quase axiomática, evidente por si mesma, sem precisar de explicação.

Esse tipo de raciocínio é componente essencial da síndrome conhecida como eurocentrismo. 2 Esse fenômeno histórico-social considera a história mundial, especialmente a partir do século XVI, quase como uma mera extensão da história da Europa. Para essa visão, as diferenças ou especificidades locais e regionais não contam ou contam muito pouco. Assume-se como natural a superioridade dos produtos institucionais e técnicos europeus, e por extensão do Ocidente, quando comparados com seus similares de qualquer outra formação social conhecida. E como resultado dessa comparação, paralelamente à idéia de superioridade, foi-se desenvolvendo a atitude conhecida como arrogância. Superioridade e arrogância, componentes estruturais do racismo, são também elementos chaves do eurocentrismo.

É bom dizer que a síndrome eurocêntrica não carateriza todos os nascidos na Europa ou no Ocidente. Na verdade muitos deles, consciente ou inconscientemente, tiveram papel essencial precisamente no desenvolvimento da crítica dessa síndrome. Ao mesmo tempo, muitos latino-americanos, talvez por ignorância, comodidade ou coisas piores, não se reconhecem em sua própria história. Talvez o medo de aceitar que ela não é cópia nem prolongação

1 McNeill: 50-51. 2 Aníbal Quijano é provavelmente o mais importante introdutor da problemática do eurocentrismo no debate acadêmico latino-americano da atualidade. Uma lista de alguns de seus trabalhos sobre o tema podem-se encontrar na nota 5 de seu artigo da bibliografia (v. Quijano: 117).

da história européia os faça optar, consciente ou inconscientemente, pelo fácil caminho do eurocentrismo.

Este ensaio tem o propósito de mostrar, com alguns exemplos sobretudo na área do conhecimento técnico, que pelo menos é preciso duvidar dessa verdade quase axiológica apontada acima. Igualmente quer indicar alguns exemplos de personalidades eurocêntricas.

O Museu Nacional de História Natural de Washington DC, EUA, parte da mundialmente reconhecida “Smithsonian Institution”, organizou uma exposição para celebrar as plantas e animais que, transplantados após a invasão da América pela Europa, foram essenciais para mudar a história mundial a partir de

1492. A partir dessa exposição editou-se o livro Seeds of Change (v. bibliografia). As plantas eram a batata, o milho e a cana de açúcar. As duas primeiras são originárias da América Indígena, sendo a batata do Peru e o milho do México; a última é do Velho Mundo (domesticada em Nova Guiné 3) mas não da Europa. O animal era o cavalo. O livro também estuda as doenças, quase sempre consequência dos virus trazidos pelos invasores, um dos principais fatores que dizimaram a população nativa da América.

O livro contém trabalhos de 20 pesquisadores de diversas nacionalidades, todos de renome internacional. Mas importa aqui destacar a opinião de Herman Viola, Diretor dos Programas do Quinto Centenário desse museu e um dos editores do livro. Viola na apresentação diz:

de incontáveis pesquisadoresos outros... foram William McNeill [Professor Emérito de
exposição [do Museu nacional de História Natural de Washington]4

Quatro desses colaboradores merecem reconhecimento especial devido a que seus trabalhos e conselhos deram forma ao projeto “Seeds of Change” desde seu início. O mais importante é Alfred Crosby [Professor de Estudos Americanos da Universidade de Texas, Austin], porque foi o primeiro historiador a comprender e interpretar a rápida transformação do Novo Mundo depois de 1492. Seu livro The Columbian Exchange [e o outro Ecological Imperialism] abriu uma nova área de pesquisa e foi fonte para o trabalho História da Universidade de Chicago] autor de Plages and Peoples; Sidney Mintz [Professor de Antropologia, Universidade Johns Hopkins], autor de Sweetness and Power; e Henry Hobhous [jornalista, agricultor e educador] da Grã Bretanha, a quem devemos nosso título. O livro de Hobhouse [também chamado] Seeds of Change é a história de cinco plantas: milho, fumo, quinina, chá e cana de açúcar e originou a

Desse grande livro, apresentado por Viola e feito por pesquisadores na maioria dos Estados Unidos e da Europa, podemos tirar alguns exemplos.

3 Mintz: 116. 4 Viola: 14. Vale destacar que entre as últimas plantas mencionadas, três são do Novo Mundo (milho, fumo e quinina) e dois do Velho (chá e cana de açúcar) ainda que nenhuma da Europa.

Os conhecimentos médicos, relacionados com a saúde em geral, estavam obviamente mais avançados na Europa do que na América Indígena. Quanto a isso é bom levar em conta a informação seguinte.

Nas páginas 2 e 223 do livro aparecem frente a frente as figuras de

Motezuma, o último rei Azteca, e de Carlos V, Imperador da Espanha no tempo da conquista da América. Essa é a moldura do pequeno artigo “Health Profiles”, em seguida traduzido at literis, que compara os perfis de saúde de um guerreiro azteca e de um conquistador espanhol.

I.I.1. O AZTECA.

Um azteca podia ser escolhido para fazer o serviço militar depois dos 15 anos. Na sociedade azteca o sucesso no campo de batalha era o meio principal de ascensão social e por isto muitos moços desejavam ser guerreiros. Mas o campo de batalha era um lugar perigoso, onde normalmente se usavam flechas, dardos, fundas e clavas com afiadas bordas de obsidiana que podiam produzir ferimentos terríveis. Para o tratamento dos feridos o exército azteca tinha um corpo de especialistas que recompunham os ossos quebrados, recolocavam em seu lugar as articulações e limpavam e suturavam as feridas.

Os desconfortos mais comuns eram problemas intestinais, dores de cabeça, resfriados e febres. Estava amplamente difundida a idéia de que as doenças eram enviadas pelos deuses ou eram resultado de feitiçaria. Procurava-se então a orientação de médicos profissionais para curar a doença e adivinhar sua origem. A sociedade azteca tinha muitos médicos que se especializavam em doenças particulares. A cura normalmente misturava rituais e remédios feitos de ervas. Cerca de mil e duzentas plantas eram usadas pelos aztecas com fins medicinais. A maioria dessas plantas ou das poções feitas com elas se achavam no mercado, com vendedores especializados em ervas, medicinas e toda a parafernália curativa.

Os aztecas eram muito cuidadosos com sua higiene pessoal. Tomavam banho regularmente em rios e lagos, além de muitos banhos de vapor. A maioria das casas da capital Tenochtitlan tinha banheiro, uma pequena estrutura circular esquentada por um forno na parede externa. Ali se entrava e se jogava água nas paredes para gerar vapor. Os banhos de vapor eram usados por higiene e também para tratar de resfriados, febres e problemas nas articulações. Os aztecas também eram cientes da importância da higiene bucal e por isso limpavam regularmente seus dentes com um pó de carvão vegetal e sal.

Em relação à impressão que causava a saúde dos aztecas, um conquistador espanhol do século XVI escreveu: “a população desta terra é forte e mais bem alta que pequena. São morenos como os leopardos... bem treinados, robustos e incansáveis e, ao mesmo tempo, os homens mais moderados que se possam conhecer. São também belicosos e confrontam a morte com determinação” (Bray, W. Everyday life of the Aztecs. New York, Dorset Press, 1968).5

I.I.2. O ESPANHOL.

Os conquistadores espanhóis que chegaram ao Novo Mundo foram os sobreviventes de um prolongado e violento processo de seleção. A mortalidade infantil era muito alta na Europa dos séculos XV e XVI. Uma em cada três crianças morria no primeiro ano e menos da metade chegava aos 15 anos. A nutrição deficiente e as doenças infecciosas eram as causas principais dessa alta mortalidade. A deficiência de vitaminas era comum e o escorbuto era o companheiro normal dos navegadores. Epidemias reincidentes de peste bubônica, varíola, sarampo, tifo e outras doenças periodicamente vitimavam a população européia, como também o faziam a seca e a fome.

Em termos de higiene pessoal, o conquistador espanhol teve muito que aprender de seu adversário azteca. O banho era um ritual raramente praticado na Europa do século XVI e as cidades não eram reconhecidas por terem boas condições sanitárias.

Os europeus quase não tinham noção da natureza contagiosa de algumas doenças, atribuindo-as geralmente a fenômenos astrológicos, bruxarias, moral pessoal dissoluta e principalmente castigo divino contra os pecaminosos. O tratamento médico, que poderia incluir a sangria do paciente e remédios de ervas, tinham por objetivo recuperar o equilíbrio dos humores corporais como sangue, muco ou bílis. Os ricos podiam consultar médicos treinados na universidade mas a pessoa comum tinha que procurar os barbeiros-cirurgiãos, boticários e praticantes autodidatas. Os barbeiros-cirurgiãos eram os médicos que acompanharam conquistadores e primeiros colonizadores ao Novo Mundo. A desconfiança em suas qualidades médicas é sugerida pelo fato de os conquistadores, para cuidar de seus problemas de saúde, frequentemente preferirem os praticantes aztecas e não seus compatriotas equivalentes.

Os espanhóis que chegaram ao Novo Mundo no século XVI eram violentos, curtidos aventureiros com cicatrizes de batalhas. Muitos mostravam as marcas deixadas pela varíola, quando crianças, e também as das feridas de campanhas anteriores. Mesmo entendendo pouco sobre como proteger sua saúde ou tratar suas doenças, eles eram sobreviventes. E como os aztecas, seus oponentes no campo de batalha, tampouco temiam a morte.6

5 Verano e Ubelaker: 2. 6 Ibid: 223.

I.I.3. A MEDICINA NO TEMPO DOS INCAS

Em outra parte dessa obra, lê-se que preferir um médico indígena era prática comum nos Vice-Reinados do México e do Peru. Ficamos também sabendo que:

Gradualmente numerosas plantas medicinais nativas do Novo Mundo como o Árvore da Quina (matéria prima do quinino) e a Coca transformaram-se em adições importantes à farmacopéia dos médicos ocidentais. Algumas das práticas médicas dos nativos do Novo Mundo claramente excediam em brilho às equivalentes da Europa. Um exemplo é a trepanação, a prática cirúrgica de remover uma parte do osso do crânio do paciente, normalmente um tratamento médico reservado a fraturas com afundamento do crânio. Curiosamente, a trepanação evoluiu de forma independente no Velho e Novo Mundo e, em 1492, era praticada em ambos os lados do Oceano Atlântico. Na América a trepanação foi prática comum dos Incas e de outras culturas importantes dos Andes. Praticada primeiramente na Costa Sul do Peru 400 anos AC, continuou sendo feita até o século XVI em regiões do Peru e da Bolívia. O mais impressionante da trepanação no Novo Mundo é a porcentagem de sobrevivência. Enquanto que a trepanação praticada na Europa tinha uma porcentagem de mortes próxima de 90% até o fim do século XIX, quando técnicas cirúrgicas de esterilização foram adotadas, os trepanadores nativos da América do Sul tinham uma porcentagem de sobrevivência entre 50% e 60%, mesmo tratando-se de pacientes com fraturas cranianas muito graves.7

A partir do exposto anteriormente, fica claro que, até 1492, em termos de conhecimentos técnicos médicos, os povos nativos da América não estavam em situação de inferioridade com relação à Europa. Ao contrário, em algumas áreas da medicina, estavam na frente. 8

I.2. MINERAÇÂO

A excelência dos conhecimentos da América Indígena não se limitava à saúde. Também atingia outras áreas como a tecnologia de mineração. Dois historiadores dos Estados Unidos proporcionam a informação seguinte:

no Méxicopois os povos andinos tinham conseguido desenvolver sofisticadas
técnicas de mineração e refinoem 1545 foram índios (trabalhando para os espanhóis)

No Perú a exploração da prata transformou-se na atividade econômica principal antes que os que descobriram Potosí. Nessa mina, localizada a grande altitude, os foles europeus

7 Ibid: 216-17; itálico nosso. A Árvore da Quina e o Arbusto da Coca são típicos da Amazônia Andina. O primeiro é a Árvore Nacional do Peru (assim como no Brasil é o Pau Brasil). A coca tem uma estrutura complexa e por isso sua folha tem grande utilidade médica. Quase todos seus derivados químicos, que são dezenas, são positivos, como os anestésicos usados por exemplo na cirurgia ocular. Tem apenas um derivado químico negativo, a cocaína, e por isto a planta inteira, autêntica maravilha botânica essencial na cultura andina, é perseguida e ameaçada de destruição. 8 Sem dúvida isso era consequência do conhecimento da imensa farmacopéia que os médicos da América Indígena tinham à disposição. Já dissemos que os médicos aztecas utilizavam até 1.200 plantas diferentes. Obviamente isto decorria da extrema biodiversidade do território que habitavam. O México na atualidade é um dos seis países do mundo (e o único no Hemisfério Norte) que por sua grande riqueza biológica são chamados de megadiversos (v. “Mapa - Países de Megadiversidad del Planeta - Según Russell Mittermeier”. In Amazonía sin Mitos: 18). Por sua parte, os trepanadores Incas e pré-Incas tinham acesso à extraordinária farmacopéia da Amazônia, a área de maior biodiversidade da terra.

estampasse o Huayra sobre seu brasão9

não tinham capacidade para aquecer o mineral à temperatura adequada. Então o Huayra indígena, um forno para fundir metais construído nas montanhas de modo a aproveitar os fortíssimos ventos de Potosí (a denominação do forno homenageia o vento), foi usado e assim se obteve o primeiro “boom” produtivo. Os índios construíam os fornos e também eles fundiam o metal. Mas isso não impediu que um espanhol, dizendo-se seu inventor,

É sabido que o capítulo da história mundial chamado de “período da acumulação primitiva do capital” (aproximadamente da metade do século XVI até a Revolução Industrial da década de 1780) foi essencialmente decorrência do envio em massa de metais preciosos da América à Europa. E o primeiro ciclo de entrada no Velho Mundo de autênticas montanhas de ouro e prata (mais ou menos até 1590) é, como vemos pela informação acima, decorrência da tecnologia indígena de mineração. Ou seja, consequência dos sofisticados conhecimentos metalúrgicos desenvolvidos pela civilização andina antes da invasão ibérica. Lembremos ainda que esses metais preciosos, introduzidos na Europa principalmente via Espanha, geraram também a primeira inflação, em consequência desse primeiro “boom” da produção. Sendo a inflação uma das caraterísticas da economia moderna, fica claro então que a tecnologia de mineração indígena andina é um dos alicerces materiais que possibilitaram a passagem para a modernidade.

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