História, memória e iconografia nas cartilhas de alfabetização

História, memória e iconografia nas cartilhas de alfabetização

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GUSTAVO CUNHA DE ARAÚJO1. SÔNIA MARIA DOS SANTOS2.

Resumo

O presente artigo visa apresentar resultados finais de uma investigação de Iniciação

Científica desenvolvida na Faculdade de Educação, na Universidade Federal de Uberlândia, onde buscamos compreender a importância e o papel das iconografias em cartilhas de alfabetização. O objetivo específico era analisar as imagens encontradas na cartilha Caminho Suave, difundida na cidade de Uberlândia e principalmente no estado de Minas Gerais, no período de 1936 a 1960. Para inúmeras alfabetizadoras as imagens são elementos necessários senão essenciais para o desenvolvimento cognitivo do aluno com relação ao processo de alfabetização. A partir do momento em que se considera para a realização desse trabalho o uso de fontes iconográficas e orais, há que se ter claro que estas fontes nos colocam frente a frente com a “memória” e as várias possibilidades que estas podem nos trazer para “lermos o passado”. Esta investigação compõe uma pesquisa guarda chuva desenvolvida pelo NEIAPE e NEPHE, ambos núcleos de pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia. Esses dois espaços foram de grande importância pra este estudo uma vez que contribuíram para que pudéssemos produzir análises, reflexões e compreendermos a importância e relevância das mensagens visuais que apareceram nos impressos didáticos de alfabetização, especificamente na cartilha Caminho Suave.

Palavras-chave: História, Cartilhas, Alfabetização, Iconografia.

Abstract

This article aims at presenting the final results of an investigation of Undergraduate developed at the School of Education, at the Federal University of Uberlândia, where he sought to understand the importance and role of images in booklets of literacy. The specific objective was to analyze the images found in the book Caminho Suave, widespread in the city of Uberlândia and especially in the state of Minas Gerais, in the period from 1936 to 1960. For many alfabetizadoras (professors) images are essential elements needed only to the cognitive development of the student with respect to the process of literacy. As soon as it is considered for the achievement of this work using images and oral sources, we must have clear that these sources put us face to face with a "memory" and the various possibilities that they can bring us to "we read the past". This research composes a search custody rain developed by NEIAPE and NEPHE, both nuclei search of the Faculty of Education, Federal University of Uberlândia. These two areas were of great importance to beat this study because it helped that we could produce analyses, reflections and understand the importance and relevance of visual messages that appeared in the printed textbooks, literacy, specifically in the book Caminho Suave.

Keywords: History, Booklets, Literacy, Image.

1 Faculdade de Educação, Universidade Federal de Uberlândia, Avenida João Naves de Ávila nº. 2160, Bairro Santa Mônica, Uberlândia/Minas Gerais – CEP: 38.400-902 e-mail: gustavocaraujo@yahoo.com.br 2 Faculdade de Educação, Universidade Federal de Uberlândia, Avenida João Naves de Ávila nº. 2160, Bairro Santa Mônica, Uberlândia/Minas Gerais – CEP: 38.400-902 e-mail: soniam@ufu.br

2 Introdução

Desde a aprovação do projeto de pesquisa junto a Universidade Federal de Uberlândia, no início do ano de 2007, demos início a um longo caminho, que hoje, encaro como um processo de amadurecimento acadêmico. Além de ter tido a oportunidade de conhecer diversas cartilhas de alfabetização, consegui construir um acervo de imagens da Cartilha Caminho Suave, objeto específico deste presente estudo, como também foi necessário realizar uma pesquisa teórica sobre o significado e o valor da cartilha no período escolhido. Durante esse período também foi possível participar de encontros e congressos apresentando as idéias e objetivos do projeto inicial de pesquisa, ampliando o campo da investigação e dando mais visibilidade a área da alfabetização e suas mazelas perante a comunidade acadêmica. Neste sentido, descobri na pesquisa teórica um período de criação da Cartilha Caminho Suave até então pouco explorado pelos pesquisadores da área, datado do ano de 1936. O resultado deste estudo irá integrar a outras descobertas de um projeto coletivo coordenado pela Profª. Dra. Sônia Maria dos Santos/FACED/UFU, intitulado “História da Alfabetização: Triângulo Mineiro e Pontal do Triângulo”. Esta iniciativa compõe ainda, outros estudos e pesquisas desenvolvidas pelo NEIAPE3 e NEPHE4, ambos núcleos de pesquisa e estudos da Faculdade de Educação da UFU.

Na busca para construir a História da Alfabetização em Uberlândia, cidade localizada no interior de Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro, este estudo inicialmente tinha a pretensão de investigar várias cartilhas de alfabetização, com a orientação e experiência da referida orientadora deste estudo fui convencido a fazer um recorte temático e temporal, optando assim por uma cartilha, e pelo período de 1936 a 1960, o que pode me dar mais visibilidade e segurança. Desde então foi possível realizar um extenso e difícil trabalho de análise bibliográfica, pois sendo aluno de Artes Visuais não conhecia a linguagem, a importância, o lugar e o valor para a educação brasileira da história e memória da alfabetização investigando um dos impressos mais utilizados no período de 1936 a 1960, a famosa e indispensável cartilha.

No decorrer desses dois anos do curso de Artes Visuais, fui aos poucos apreendendo o sentido, o lugar, o valor e o significado do desenvolvimento de uma pesquisa, no que se refere à relevância social para estudos científicos que

3 Núcleo de Educação Infantil, Alfabetização e Práticas Pedagógicas. 4 Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Historiografia e História da Educação.

envolvem a alfabetização e, que esta pode ser apresentada se analisada sob princípios éticos. Durante o curso, pela contribuição das disciplinas que problematizam o uso e a importância da imagem na história da humanidade, foi tornando-se cada dia mais claro, o grande potencial investigativo que faz parte do ser humano, que somado aos inúmeros questionamentos advindos do aprendizado no curso e nas reuniões do nosso grupo de pesquisa, despertou-me o interesse em trabalhar com pesquisa de caráter cientifico.

Já é de conhecimento nosso que desde a antiguidade grega, a comunicação na sociedade era basicamente oral até por volta do século V a.C., embora a escrita tenha sido conhecida aproximadamente no século VIII a.C. A sociedade foi então se organizando em cima deste processo, produzindo, reproduzindo e criando, durante toda a sua história, imagens e textos com as quais nomeava, representava a simbolizava a sociedade, contribuindo de forma efetiva e relevante para a nossa história, nos deixando documentos de naturezas diferentes, desde textos de diversos gêneros, esculturas, à iconografias em suporte cerâmico entre outros, que a caracterizaram social e culturalmente e, que permitem ao historiador, levantar problemas em relação aos valores, as práticas, as tensões e os conflitos sociais próprios de sua estrutura social. De algumas décadas para cá, os documentos iconográficos passaram a ter maior espaço entre os historiadores, arqueólogos e antropólogos. Sendo assim, a cultura material e as imagens produzidas pelas sociedades antigas passaram a ser consideradas como suportes de informação teórica e visual, ao mesmo nível dos textos escritos, ou seja, com as imagens os historiadores podem obter informações diferentes e novas dos textos ou mesmo levantar novos problemas, assim como o nosso grupo de pesquisa fez.

Material e Métodos

Atualmente a atenção dada aos estudos e pesquisas sobre panacéia da alfabetização brasileira não poderia ser compreendida sem uma colaboração efetiva e concreta de estudos provenientes de outras áreas do conhecimento, relevantes principalmente para a História da Educação, que além de ter a Pedagogia como parceira nesse dialogo, conta também a História Social, os trabalhos científicos produzidos nessas áreas são de extrema importância para a compreensão e evolução da educação brasileira e, acentuando a relevância neste presente trabalho, das Artes Visuais, no sentido de nos subsidiar com um aporte teórico especifico, para realizar investigações que se ocupam em analisar a alfabetização do ponto de vista visual, leitura de imagem e iconografia de impressos didáticos. Esse “intercâmbio” de dados nos permitiu pensar em uma multiplicidade de novas análises sobre a alfabetização, ou seja:

(...) a perspectiva pedagógica, pré-requisitos e preparação para a alfabetização, métodos e procedimentos para a alfabetização, princípios de organização e utilização de cartilhas, formação do professor alfabetizador, etc., vem também enriquecendo-se com estudos e pesquisas inspirados nessas novas análises. (SANTOS, 2003, p. 43).

Ao investigar a história da alfabetização na cidade de Uberlândia, localizada no estado de Minas Gerais - Brasil, por meio de materiais escolares tais como: cartilhas, livros didáticos, livros de leitura, folhas mimeografadas dos alfabetizadores, diários de classe, entre tantos outros relevantes para a História da Educação, estamos nos deparando diretamente com o seu objetivo central: a aquisição da leitura e da escrita por meio da decodificação (leitura) e codificação do sistema de escrita.

Neste sentido, decodificar não implica apenas em conhecer a linguagem oral, a escrita, mas também a linguagem visual (iconográfica). Utilizando este pressuposto, estaríamos estabelecendo uma relação entre duas linguagens presentes a todo o momento em nosso meio social: a verbal e a visual.

Dessa forma, nos deparamos com vários estudos sobre a história da alfabetização em Minas Gerais, colocandoa atualmente em lugar de destaque com relação a outras temáticas de pesquisas da História da Educação. No que se diz respeito especificamente à alfabetização, esta área é apontada por muitos estudiosos como sendo uma das áreas que mais enfrentam dificuldades relacionadas a várias questões que vão desde a escolha do material didático ao processo vivenciado no ensino e aprendizagem.

O objetivo principal colocado por esta pesquisa foi investigar as imagens da cartilha de alfabetização Caminho Suave, e suas relações com o processo de alfabetização na cidade de Uberlândia, interior do estado de Minas Gerais. Para nós e outros pesquisadores este objeto de estudo está inserido na fonte de documentos impressos, portanto já conseguimos vários exemplares os quais fazem parte do acervo de memória iconográfica de cartilhas no período de 1936 a 1960. Acrescida a fonte impressa, contamos neste estudo com a contribuição de duas narrativas de alfabetizadoras que utilizaram à cartilha Caminho Suave, nas quais suas histórias auxiliaram nas análises de forma mais especifica sobre os modos como as mesmas utilizaram esses impressos, pois quando narram suas histórias descrevem minuciosamente a relação que as estas tiveram com as cartilhas bem como os modos de utilização da mesma.

(...) A História oral pode ‘devolver’ as gerações do presente a perspectiva da experiência, perdida com o desaparecimento da arte de ‘narrar’ (...), na mesma proporção que recupera memórias que, não raro, desconhecidas para os indivíduos, lhes devolve dimensões outras de identidade e de pertencimento. Por outro lado, a memória também pode funcionar como um elemento ‘ruptor’, fazendo aflorar aspectos até então desconhecidos (...). A memória manifesta, assim, um caráter de inovação e não apenas de preservação. (FERREIRA, 97/98, p. 57).

Neste sentido, escolhemos como procedimento metodológico o cruzamento de fontes orais, iconográficas e bibliográficas, que nos colocaram frente a frente com a “memória” e as várias possibilidades que estas podem nos trazer para “lermos o passado”. Outra questão que nos instigou foi analisar quais as metodologias apropriadas pelos autores destes impressos e como foram exploradas na sala de aula e o por quê das escolhas das alfabetizadoras em usarem a cartilha Caminho Suave no processo de ensino e aprendizagem, visto que a pesquisa na História da Educação sobre impressos atualmente, é extremamente rica e isso pode estar ligado ao fato de diversos historiadores entenderem e valorizarem os impressos como sendo uma importante fonte para a pesquisa da História da Educação brasileira.

Descobrimos nesse estudo, que a história oral é competente como recurso metodológico de pesquisa, pois nos auxiliou a compreender questões técnicas e teóricas da entrevista relacionada ao processo construtivo da oralidade e ainda, pelo fato de possuir credibilidade e legitimidade quanto à produção de documentos orais que possam explicar e assim auxiliar na construção da história da alfabetização.

A narrativa imagética nos permite operar-mos com outras metodologias e teorias, como neste trabalho, ao utilizarmos também as fontes orais. Assim, a partir do momento em que houve o confronto entre as informações advindas de diferentes espécies de fontes a pesquisa teve um número significativo de informações, contribuindo para que as analises adquirissem relevância para este estudo. Na medida em que as iconografias foram explicadas através das fontes orais, é preciso que estas tenham primeiramente a complexidade do tempo – plural, visto como material de analise aberto a múltiplas leituras; em segundo, considerando a importância das recordações para salvar as ações humanas do esquecimento, os relatos orais são reconstruídos na forma de textos escritos, obedecendo a processos de construção que não se encontram livres da escrita próprias do gênero do qual se originou o texto (NETO, 2000, p. 1).

O próprio filósofo Walter

Benjamin (1892-1940), ao refletir sobre a “imagem como fonte histórico-social”, deu as memórias um caráter de infinitude, pois parafraseando este autor, um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois. A pesquisa demonstrou problemas e questões que necessitam de uma abordagem histórica – sociológica, devido ao fato das narrativas, que auxiliaram nas análises e reflexões, poderem documentar versões do passado.

Durante a investigação, compreendemos a importância das instituições de ensino para o desenvolvimento desta, pois nelas existem documentos, arquivos e memórias que elucidam e explicam não só a história da alfabetização, como também outras histórias e estudos, por guardar fontes ricas para vários estudiosos.

O conceito de “vivência” se torna especial para esta pesquisa, pois passa a constituir importantes conteúdos significantes de lembrança das alfabetizadoras que utilizaram à referida cartilha. Atualmente, cada escola possui um sistema de funcionamento diferente, e isto pode estar relacionado à subjetividade social da instituição. Melhor seria entender o que seria subjetividade, num contexto “contextualizado” no que diz respeito ao funcionamento das escolas. Seguindo este parâmetro, subjetividade seria um termo que designa o mundo interior, particular de um indivíduo, mas também o seu meio social, pois a subjetividade individual se relaciona com a subjetividade social. O que é também importante dizer, é que a subjetividade nasce na história e que ela é uma manifestação cultural. É dizer, que se prestarmos atenção na subjetividade, esta implicaria em afirmar que a cultura e a história são lugares e matérias-primas da constituição dos homens e de artefatos produzidos por eles. Força, ainda, a fazernos pensar que o acesso à cultura e a história são realizados através dos sujeitos, dos grupos, subjetivando as influências recebidas. É por isso que se pode considerar a subjetividade individual como meio de socialização do indivíduo.

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