CARVALHO, T.M.; CARVALHO, C.M. Paisagens e Ecossistemas. In: Silveira, E.D.; Serguei, A.F.C. (Org.). Socioambientalismo de fronteiras: relações homem-ambiente na Amazônia. Ed. Juruá, Curitiba. p.43-68, 2015. .ISBN 978-85-362

CARVALHO, T.M.; CARVALHO, C.M. Paisagens e Ecossistemas. In: Silveira, E.D.; Serguei,...

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Thiago Morato de Carvalho1 Celso Morato de Carvalho2

Sumário: 1. Introdução; 2. Feições Regionais: as áreas abertas de Roraima; 3. As Contribuições para o Entendimento de Paisagens em Roraima; 4. Modelos Atuais para o Entendimento de Paisagens; 5. Unidades Morfoestruturais de Roraima; 6. Formação de Paisagens; 7. Colinas, Lagos e Ilhas Fluviais; 8. As Dunas de Areias Brancas e Marrons; 9. Referências.

1 INTRODUÇÃO

Quando olhamos atentamente para uma paisagem, nós podemos perceber que o cenário que estamos observando é composto por elementos diversificados, por exemplo, uma serra com rochas expostas, um lago circundado por gramíneas e arbustos, pequenos conjuntos de arvoretas que se sobressaem em áreas abertas ou um rio com palmeiras nas margens e vegetação arbustiva entre árvores mais encorpadas. É muito possível também que nós encontremos nesta paisagem picadas e caminhos os mais diferentes, diversos tipos de construções para moradia e outros fins, isoladas ou formando conjuntos de comunidades, roças e plantações as mais diversas, animais ao redor de habitações quando domésticos, ou livres nos seus espaços naturais. O que vemos, então, pode ser sentido intuitivamente, como quando paramos para olhar um quadro que registrou o tempo em cores, mas também podemos olhar analiticamente o conjunto paisagístico que vemos, no sentido de procurarmos compreender como o homem se entende com a natureza, como tem seus comportamentos intrinsecamente associados aos ambientes imediatos

1Laboratório de Métricas da Paisagem – MEPA, departamento de Geografia. Instituto de Geociências, Universidade Federal de Roraima. E-mail: thiago.morato@ufrr.br

2Coordenação de Biodiversidade. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

Thiago Morato de Carvalho e Celso Morato de Carvalho44 onde vive e como utiliza os bens naturais ao seu redor. Podemos ir ainda um pouco mais além e perceber que os humanos ao interferirem no seu ambiente alteram-no em vários níveis, desde bucólicas transformações, até pesadas modificações ambientais que refletem a mão ideológica de todo um sistema dominante que, amparado em leis específicas, exerce pressões de usurpação sobre o conhecimento das comunidades tradicionais e alteram as relações homem-ambiente (METZGER, 2001; MOREIRA, 2004; AB’SABER, 2003; WEIGEL, 2009:69; MORAIS & CARVALHO, 2013).

Além destas considerações, nós podemos ainda olhar paisagens de forma categórica, arranjando os elementos de modo a permitir com que possam ser interpretados à luz da geografia e do direito, por exemplo, com relação à gestão ambiental. Podemos ainda arriscar um enfoque mais acadêmico sobre a paisagem e sua biodiversidade, gerando conhecimentos que podem ser utilizados como base para a geração de novos conhecimentos ou ter valor de uso imediato. Esses enfoques e interpretações trazem nos seus bojos vários receptores conceituais que são reconhecidos por outras disciplinas, abrindo espaços para importantes discussões, por exemplo, sobre conservação dos ecossistemas e usos dos recursos naturais. Disciplinas que não se enxergam quando isoladas; ao se reconhecerem, agrupam-se e formam um conjunto cujas propriedades são maiores do que a soma de suas partes. Dentre estas disciplinas integradoras estão a biogeografia e a geomorfologia, cujas variáveis são sensíveis aos níveis de amplitude de áreas adotados, daí termos conceitos envolvendo paisagens em diferentes escalas de grandeza, por exemplo, zonas e domínios abrangendo conceituações em escala subcontinental, e interpretações de feições regionais com base nos conceitos de geossistemas e fácies. São olhares dependentes da escala sim, mas indissociáveis entre si – o reconhecimento de uma feição regional só pode ser feito dentro do contexto geral de uma zona ou domínio (AB’SABER, 1967; VANZOLINI, 2011).

2FEIÇÕES REGIONAIS: AS ÁREAS ABERTAS DE RORAIMA

Um bom exemplo dessas considerações de fácies regionais e suas inserções dentro de domínios são as paisagens encontradas numa parte da porção norte da Amazônia, uma região com cerca de 70.0 km² que abriga uma das maiores áreas abertas amazônicas, abrangendo a Venezuela, a Guiana e o Brasil, onde é maior a extensão destas áreas abertas, com 43.281 km² abrangendo 19% da região – o lavrado roraimense (Figura 1).

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Figura 1Áreas abertas ao norte da Amazônia: 1 – lavrado de

Roraima, áreas abertas da Gran Sabana na Venezuela e campos do Rupununi na Guiana, 2 – Campos do Paru do Oeste e Marapi, Serra de Tumucumaque, Pará (02º48’N, 60º39’W).

A literatura cita diversos nomes para estas paisagens abertas roraimenses, por exemplo, campos do Rio Branco, savana, cerrado, bioma ou ecorregião (OLIVEIRA, 1929; TAKEUSHI, 1960; BARBOSA et al., 2005; EITEN, 1977, 1992). Campo é termo genérico utilizado para muitas áreas abertas brasileiras. A área nuclear dos campos cerrados, por exemplo, está a uma distância de pelo menos 2.500 km de Roraima, o domínio morfoclimático do cerrado. As semelhanças do lavrado com o cerrado existem e são apenas fisionômicas (VANZOLINI & CARVALHO, 1991). O termo savana, utilizado para designar várias áreas abertas no mundo todo, juntamente com os termos bioma e ecorregião, ao se juntarem formam as condições para um enfoque muito genérico sobre fisionomias de vegetação, sem situá-las adequadamente num contexto geral. Isto pode gerar mais confusão do que clareza geográfica e ecológica.

Quem quer que ande pelas áreas abertas de Roraima encontrará terras indígenas, com as suas comunidades características, suas casas cobertas de palha de buriti, as paredes à moda de adobe, com janelas, cujas moradias são semelhantes em tamanho e arquitetura. São comunidades tradicionais que têm uma história, uma luta por suas terras, estilo de vida comunitária, modos característicos de se relacionarem com o ambiente imediato, com suas roças, religião, comportamentos sociais, comidas, e modo de criar os filhos.

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Evidentemente casam-se entre si e os filhos são indígenas. Ao perguntar aos habitantes dessas comunidades o nome do ambiente em que vivem, eles vão dizer que é lavrado, o mesmo nome que seus pais e avós se referiam à região e que os antigos moradores não indígenas davam para essas áreas abertas. Assim, esta paisagem é formada por cenários que incluem, numa parte, os fatores físicos e bióticos, e na outra parte as populações indígenas e todos os que habitam esta região, imprimindo indelevelmente nestes cenários as identidades ecológica, geográfica e cultural que devem ser respeitadas. Lavrado é o nome dessa paisagem.

3AS CONTRIBUIÇÕES PARA O ENTENDIMENTO DE PAISAGENS EM RORAIMA

Hoje clássicos da literatura, diversos autores deram o ponto de partida para o entendimento das paisagens roraimenses, formulando modelos partindo do pressuposto de que os ambientes de qualquer região podem ser descritos do ponto de vista estrutural ou mais amplo, através do reconhecimento dos tipos gerais de vegetação, aberta ou fechada, relevo e hidrografia. Vamos ilustrar esta abordagem tomando como exemplo as conceituações sobre domínios morfoclimáticos brasileiros e a distribuição da biota (formações vegetais e animais), mantendo um olho voltado para os aspectos sociais e antropológicos da ocupação dos ambientes pelas comunidades tradicionais e lavradores. Nós temos no Brasil os domínios da Amazônia, cerrado, caatinga e a floresta Atlântica, os quais podem ser caracterizados pela sobreposição de feições da vegetação, clima, relevo, solos e hidrografia, com amplas faixas intermediárias (AB’SABER, 2003).

Os pioneiros a integrarem a ideia de domínios morfoclimáticos de

Ab’Saber (1967) aos tipos de paisagem e as grandes formações vegetais foram dois herpetólogos, o brasileiro Paulo Emílio Vanzolini e seu colega norte- -americano Ernst Williams, em 1970. A herpetologia é o ramo da zoologia que estuda os anfíbios e os répteis. O estudo clássico destes dois zoólogos foi a diferenciação geográfica de lagartos do gênero Anolis, cuja interpretação baseou-se no modelo de domínios morfoclimáticos como critério geográfico. Tendo como pontos de partidas as unidades geográficas e os padrões de distribuição das formas deste gênero de lagarto Anolis, Vanzolini e seu colega Williams interpretaram as variações geográficas dos lagartos entre os domínios como sendo o resultado de expansões e retrações da floresta durante períodos secos (glaciais) e úmidos (interglaciais) nos últimos 20.0-10.0 anos. Essa dinâmica criou barreiras que levaram à interrupção do fluxo gênico entre popula-

Socioambientalismo de Fronteiras – v. III47 ções de animais antes intercruzantes, levando a formação de espécies distintas. O modelo tornou-se um clássico na biogeografia e é bem conhecido como modelo de refúgios do Pleistoceno e teoria de refúgios, também elaborado pelo geólogo alemão Jürgen Haffer (VANZOLINI & WILLIAMS, 1970; VANZOLINI, 2011; HAFFER, 1969).

Há uma representação arqueológica que utiliza o modelo de domínios morfoclimáticos e as flutuações climáticas do Pleistoceno, das formas como conceituados por Aziz Ab’Saber, Paulo Vanzolini e Ernest Williams, que não diz respeito diretamente às paisagens de Roraima, mas é um exemplo pertinente no contexto amazônico. Trata-se dos estudos da arqueóloga norte- -americana Betty Jane Meggers. Ela formulou entre as décadas de 1940 a 70 hipóteses sobre a evolução dos povos pré-históricos da América do Sul com base nas adaptações climáticas e de solos – a cultura é determinada pelas relações entre o ambiente e a tecnologia. Se o ambiente não é propício a tecnologia falha e a cultura de um povo entra em decadência. Meggers é tida como colonialista por alguns, em virtude do programa de arqueologia na América do Sul financiado, na época, pelo governo norte-americano, mas, independente disso, ela partiu da hipótese de que as diferentes condições do solo e do clima determinam os aspectos sócio-políticos dos povos, tendo como exemplo as migrações na Amazônia. As mudanças do Pleistoceno entram em cena para explicar como num período úmido (interglacial) há evidências de florescimento de sociedades pré-históricas amazônicas, mas durante o período seco (glacial) os solos empobrecem juntamente com os aspectos socioculturais de uma ou mais civilizações (MEGGERS, 1954; MEGGERS & CLIFFORD, 1973).

Outra forma mais simples de entendermos a paisagem é olharmos para as fisionomias regionais da vegetação (VANZOLINI & CARVALHO, 1991; EITEN, 1977; TAKEUSHI, 1960). Se tomarmos o lavrado como exemplo, nós podemos observar as seguintes fisionomias na paisagem geral destas áreas abertas roraimenses: i) as matas das margens dos rios de pequeno porte, que ao atravessarem o lavrado têm o nome de matas de galeria, i) os buritizais, formados por buritis Mauritia flexuosa, i) as ilhas de mata, que são manchas de vegetação mais densa e mais alta, iv) os arbustos agrupados ou isolados, onde são frequentes o caimbé Curatella americana e os muricis Byrsonima spp., v) as ciperáceas Bulbostylis spp. e várias espécies de gramíneas, uma delas predominando, dependendo dos solos, vi) as áreas francamente abertas de lavrado, com poucos arbustos, vii) os lagos do lavrado, viii) presença de cactáceas, por exemplo, o mandacaru Cereus sp., geralmente associadas a áreas de cupinzeiros Cornitermes, os quais também ocorrem onde os cactos não estão presentes, ix) as serras em várias regiões do lavrado, onde estão presentes no entorno árvores baixas, arvoretas e arbustos, geralmente com a presença de cactáceas, gêneros Cereus e Melocactus.

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Podemos citar também relatos sobre as profícuas relações entre geomorfologia e a biogeografia tendo como pano de fundo as paisagens do lavrado roraimense (CARVALHO, 2009B; VANZOLINI, 2011; CARVALHO & CARVALHO, 2012a,b). Essas considerações são baseadas nas características geomorfológicas das áreas abertas do nordeste de Roraima, como os afloramentos graníticos presentes nas regiões de morros, hogbacks, inselbergs, matacões e tors esparsos de diferentes tamanhos. Do ponto de vista biogeográfico, estas unidades podem ser vistas como hábitats e microhábitats para diferentes espécies da fauna do lavrado. Fraturas e disjunções nestas rochas constituem um complexo de microhábitats, com água, areia e vegetação, que são ocupados por muitos vertebrados e invertebrados. Algumas espécies são fiéis a estas formações, portanto não ocorrem em todo o lavrado, só onde houver estes hábitats. Reconhecer estas fisionomias é o campo da geomorfologia e interpretar a distribuição dos animais nestes ambientes é o campo da biogeografia, aliada à zoologia, botânica e ecologia.

Outros modelos sobre descrições de paisagens de Roraima já foram também apresentados, por exemplo, os trabalhos do Radambrasil (1975), um projeto em nível nacional ligado ao Ministério das Minas e Energia; os relatórios do Ministério do Interior, com úteis informações paisagísticas do lavrado e outras áreas (ACAR, 1973); e os relatos sobre a geografia e história de Roraima, elaborados por Antonio Ferreira de Souza (1969). Na Folha número 8 do Radambrasil, dedicada a Roraima, é possível obter detalhadas informações sobre a geologia, geomorfologia, botânica e usos dos recursos naturais desta região, a qual, parte do Planalto das Guianas, é formada por regiões serranas nos limites setentrionais, por exemplo, as serras Parima, Imeniaris, Pacaraima e Uafaranda, e pelo Planalto Norte Amazônico, com altitudes menores do que 800 metros, cobertas por florestas. Nestas formações estão situados os Planaltos ou Platôs Residuais Norte Amazônicos. São regiões antigas, dispostas sobre terrenos sedimentares e cristalinos, onde ocorrem as várzeas dos rios, os tesos e terraços fluviais (VELOSO et al., 1975; AB’SABER, 1997, 2003; VANZOLINI & CARVALHO, 1991). Muitas destas descrições de paisagens do Radambrasil foram feitas através das informações obtidas por reambuladores, que iam de toda forma até áreas inacessíveis, com a ajuda dos antigos relatos sobre a vegetação de Roraima (e.g. TAKEUSHI, 1960; BEIGBEDER, 1959; BARBOSA & RAMOS, 1959; OLIVEIRA, 1929).

Os relatos feitos por Sebastião Pereira do Nascimento, um estudioso da fauna de Roraima e também das relações humanas e a natureza, especificamente indígenas e o meio ambiente, são de fundamental importância para conhecermos as paisagens do lavrado. Nascimento está entre os que mais têm contribuído para o entendimento das paisagens roraimenses, ao lado do antropólogo Paulo José Brando Santilli, defensor da cultura e dos direitos

Socioambientalismo de Fronteiras – v. III49 dos povos indígenas de Roraima. Os relatos de Nádia Farage sobre os povos indígenas da região e processos de colonização também muito contribuem para entendimento das paisagens da região. Dentre outros estudiosos que voltaram os olhos para estas paisagens, vários já citados, merecem destaque os zoólogos Paulo Emílio Vanzolini e Ronald Heyer, e o geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber, que fazem minuciosos relatos sobre viagens e estudos realizados por vários autores nesta região (NASCIMENTO, 1998, 2000; NASCIMENTO et al., 2012; SANTILLI, 1994, 2001; AB’SABER, 1997; 2003; VANZOLINI & CARVALHO, 1991; HEYER, 1989; FARAGE, 1991).

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