Qualidade de vida do cuidador de enfermagem e sua relação com o cuidar

Qualidade de vida do cuidador de enfermagem e sua relação com o cuidar

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36Rev Bras Promoç Saúde, Fortaleza, 26(1): 36-4, jan./mar., 2013

Alves EF

Artigo Original Everton Fernando Alves(1)

1) Universidade Estadual de Maringá - UEM - Maringá - (PR) - Brasil

Recebido em: 15/06/2012 Revisado em: 23/08/2012 Aceito em: 28/08/2012

Quality of life of the nursing caregiver and its relationship with care

La calidad de vida del cuidador de enfermería y su relación con el cuidar

Objetivo: Identificar aspectos que interferem na qualidade de vida dos cuidadores de enfermagem e no cuidar em uma Unidade de Terapia Intensiva para Adultos (UTI-A). Métodos: Trata-se de uma pesquisa descritiva, de natureza qualitativa, tendo como sujeitos 21 profissionais que compõem a equipe de enfermagem da UTI-A de um hospital escola do município de Maringá-PR. Utilizou-se como estratégia para coleta de dados a entrevista semiestruturada, realizada entre maio e junho de 2009. A análise dos dados se baseou no método da análise de conteúdo. As categorias identificadas foram: vislumbrando a melhora da qualidade de vida relacionada aos recursos em uma UTI-A; a qualidade de vida influenciando na forma de cuidar; as relações interpessoais na equipe multiprofissional refletindo na qualidade de vida do cuidador e no cuidar. Resultados: A análise dos depoimentos dos cuidadores e os resultados da observação evidenciaram que há correlação entre os aspectos que eles consideram influenciadores de sua qualidade de vida e a forma de cuidar dos pacientes em uma UTI-A. Conclusão: Os achados indicam que, entre os aspectos influenciadores, os fatores desgastantes se sobrepõem aos potencializadores. Nessa perspectiva, lidar com o sofrimento do cuidador pode ser o ponto inicial para a melhora na qualidade do cuidar em uma UTI-A.

Descritores: Qualidade de Vida; Cuidados de Enfermagem; Unidade de Terapia Intensiva.

Objective: To identify aspects that affect the quality of life of nursing caregivers and their relationship with care in an Intensive Care Unit for Adults (A-ICU). Methods: This was a descriptive study with qualitative approach, taking as subjects 21 professionals who constitute the nursing staff of the A-ICU of a school hospital in Maringá-PR. Unstructured interview was used as a strategy to collect data, conducted between May and June 2009. Data analysis was based on the method of content analysis. The categories identified were: overlooking improvement in quality of life related to the resources in an A-ICU; the quality of life influencing the form of care; interpersonal relationships into the health team reflecting on the quality of life and care. Results: The analysis of caregivers’ speech and the results of the observation showed that there is correlation between the aspects they consider influential in their quality of life and the way of caring for patients in an A-ICU. Conclusion: The findings indicate that, among the influential aspects, the stressful factors overlap the enhancing ones. From this perspective, dealing with caregiver’s suffering might be the starting point for the improvement in quality of care in an A-ICU.

Descriptors: Quality of Life; Nursing Care; Intensive Care Units.

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Qualidade de vida do cuidador de enfermagem

Objetivos: Identificar los aspectos que influyen en la Calidad de Vida de los cuidadores de Enfermería y en el cuidar en una Unidad de Cuidados Intensivos (UCI-A). Métodos: Se trata de una investigación descriptiva, de naturaleza cualitativa con 21 profesionales del equipo de Enfermería de la UCI-A de un hospital escuela del municipio de Maringá-PR. Se utilizó la entrevista semi-estructurada como estrategia para la recogida de datos realizada entre mayo y junio de 2009. El análisis de los datos se basó en el método del análisis de contenido. Las categorías identificadas fueron: vislumbrando la mejoría de la calidad de vida relacionada a los recursos de una UCI-A; la calidad de vida influyendo en el cuidar; las relaciones interpersonales del equipo de profesionales reflejando en la calidad de vida del cuidador y en el cuidar. Resultados: El análisis de las declaraciones de los cuidadores y los resultados de la observación han evidenciado una correlación entre los aspectos que ellos consideran influyentes en su calidad de vida y la forma de cuidar a los pacientes en una UCI-A. Conclusión: Los hallazgos indican que de los aspectos influyentes lo factores negativos se sobreponen a los positivos. En esa perspectiva, trabajar con el sufrimiento del cuidador puede ser el punto inicial para la mejoría en la calidad del cuidar en una UCI-A.

Descriptores: Calidad de Vida; Atención de Enfermería; Unidad de Cuidados Intensivos

Tem-se observado, nos últimos anos, o aumento dos estudos envolvendo o tema da qualidade de vida (QV), o que demonstra a inquietação de pesquisadores na tentativa de prover o que o avanço da tecnologia não pode realizar suficientemente, ou seja, tanto o desenvolvimento emocional do cuidador quanto a excelência no cuidar(1).

Tais pesquisas se devem ao fato de a QV ser expressa por meio da valorização que o indivíduo atribui a cada aspecto da sua vida, principalmente os que dizem respeito ao bem-estar nas dimensões da saúde, lazer, relações familiares e sociais, metas e objetivos que pretende atingir, além da autoestima e grau de desenvolvimento pessoal e profissional(2,3). Assim, o trabalho é um elemento central, pois é por meio dele que o homem tem procurado satisfazer suas aspirações e alcançar sua QV(3).

Nesse sentido, torna-se importante, também, conhecer as condições da QV dos cuidadores de enfermagem. O cuidador de enfermagem tem sido definido como o humano-profissional com formação específica na área da enfermagem, podendo ou não integrar uma equipe, cujas ações de cuidado para com dependentes, no ambiente de assistência ao enfermo, vão além do conhecimento técnico- científico, pautando-se na humanização, solidariedade e respeito ao ser cuidado(4).

A QV dos cuidadores de enfermagem é influenciada por alguns fatores – tais como estresse, identificação com histórias de vida dos pacientes, crenças e valores, dilemas éticos, ansiedade, saber técnico-científico, motivação, ritmo acelerado, responsabilidade, satisfação profissional e desgaste físico – que são vividos constantemente pelos cuidadores e podem ser tanto desgastantes quanto potencializadores. Na UTI, ambiente onde todo esse processo ocorre, é fundamental o papel da enfermagem no que diz respeito à assistência ao paciente, uma tarefa considerada de alta complexidade(2,3,5-9).

Diante disso, o ambiente de trabalho de uma UTI deve ser evidenciado, visto que pode se tornar um potencial gerador de tensão e angústia nos profissionais de enfermagem. Pesquisas apontam o ritmo acelerado, os ruídos, a iluminação excessiva, a tecnologia, o estresse e os pacientes críticos e com sobrepeso como fatores que impactam negativamente a QV dos cuidadores de enfermagem, uma vez que estão constantemente com os pacientes, cobrindo os variados turnos, tendo que participar de procedimentos complexos, além de mortes. Tem-se, ainda, que a enfermagem é classificada como a quarta profissão mais estressante, devido à responsabilidade que ela exige de seus trabalhadores para com a vida dos pacientes(2,3,6,9,10).

Sendo assim, percebe-se que pouco se tem investigado sobre os aspectos que influenciam a QV do cuidador de enfermagem, que presta assistência especializada e cuidado em uma UTI(1). Dessa forma, acredita-se ser fundamental aprofundar esse tema, ao mesmo tempo em que se torna um grande desafio.

Diante desse contexto, considera-se que essa pesquisa irá contribuir para difundir, junto aos cuidadores de enfermagem, um conteúdo relevante e pouco conhecido, alargar possibilidades de pesquisas, auxiliar na construção de saberes relacionados à QV do cuidador de enfermagem, oferecer elementos para a realização de mudanças positivas no ambiente de trabalho e proporcionar ganhos em termo de melhor qualidade do cuidado ofertado.

Sendo assim, o presente estudo objetivou identificar aspectos que interferem na QV dos cuidadores de enfermagem e no cuidar em uma Unidade de Terapia Intensiva para Adultos (UTI-A).

Trata-se de um estudo do tipo descritivo, de natureza qualitativa, desenvolvido junto à equipe de enfermagem

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Alves EF da UTI-A de um hospital escola do município de Maringá- PR. A UTI-A conta com 29 cuidadores de enfermagem (enfermeiros e técnicos de enfermagem); destes, 21 participaram do estudo.

Os critérios de inclusão contemplaram: fazer parte da equipe de enfermagem (enfermeiro, auxiliar e/ou técnico de enfermagem); estar trabalhando no momento da coleta de dados, nos diferentes turnos de trabalho da UTI-A; assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram excluídos os cuidadores que se encontravam em férias ou licença e os que não aceitaram participar do estudo.

A coleta de dados ocorreu de maio a junho de 2009, por meio de entrevista realizada na instituição, em local reservado. O instrumento utilizado durante as entrevistas foi um roteiro semiestruturado, constituído de duas partes: uma fechada, abordando a caracterização do cuidador (categoria profissional, sexo, faixa etária, estado civil, número de filhos, faixa etária dos filhos, turno de trabalho, tempo de serviço, presença de outro vínculo empregatício, turno do outro vínculo), e a outra aberta, constituída de três questões norteadoras: Pensando no seu trabalho, o que você acha que poderia ser feito para melhorar a sua qualidade de vida? De que forma a sua qualidade de vida influencia na forma de cuidar das pessoas na UTI? Como é sua relação com os demais profissionais onde você trabalha?

No tratamento dos dados, foi utilizada a orientação da análise de conteúdo segundo Bardin(1), que apresenta as seguintes etapas: a pré-análise, a exploração do material, o tratamento dos resultados e as interpretações, que constituem as categorias temáticas. A análise de conteúdo é um conjunto de instrumentos metodológicos em constante aperfeiçoamento que se aplica a discursos extremamente diversificados. Essa técnica oscila entre os dois polos do rigor: o da objetividade e o da subjetividade.

Os núcleos temáticos utilizados para a categorização dos dados obtidos se centraram em palavras ou sentidos contidos nas falas dos entrevistados. Foi possível organizar os seguintes núcleos: 1) vislumbrando a melhora da qualidade de vida relacionada aos recursos em uma UTI–A, no qual os participantes apontam a melhora da QV condicionada à ampliação dos recursos humanos, à diminuição da carga horária de trabalho e realização de horas extras, à obtenção de novas tecnologias e aos programas de apoio e aperfeiçoamento do cuidador; 2) a qualidade de vida influenciando na forma de cuidar, no qual os sujeitos expressam alguns fatores que influenciam a sua QV e sua forma de cuidar, como a (des)harmonia pessoal e o ambiente de trabalho; e 3) as relações interpessoais da equipe multiprofissional refletindo na qualidade de vida do cuidador e no cuidar. Os aspectos mencionados pelos entrevistados nesta categoria são traduzidos em quatro subcategorias: falha na comunicação como um fator de interferência no cuidado ao paciente, relacionamento interpessoal influenciando o estado de saúde do paciente, (des)equilíbrio emocional do cuidador, e traços da personalidade refletindo na QV e influenciando no cuidar.

O desenvolvimento do estudo ocorreu em conformidade com os princípios éticos disciplinados pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(12), e o projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (COPEP) da Universidade Estadual de Maringá (Parecer nº181/2009). Solicitou-se a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e as entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas na íntegra. Na apresentação dos dados, identificaram-se os cuidadores por números e letra C.

Neste estudo, procurou-se apresentar os resultados seguidos das respectivas discussões. Iniciar-se-á, pois, com a caracterização da população, partindo, a seguir, para a apresentação das categorias e subcategorias emergidas do estudo.

Conhecendo os cuidadores

noite

As entrevistas foram realizadas com 21 cuidadores: 10 (47,6%) enfermeiros e 1 (52,4%) técnicos de enfermagem. Destes, 16 (76%) pertenciam ao sexo feminino; 12 (57%) eram casados; 14 (6%) tinham idade entre 30 e 49 anos. Em relação ao número de filhos, 16 (76%) possuíam um ou mais filhos; destes, 10 (48%) eram menores de dez anos de idade. Quanto ao vínculo empregatício, 12 (57%) tinham tempo de serviço acima de três anos; 8 (38%) possuíam outro vínculo empregatício; 4 (50%) atuavam no turno da

Vislumbrando a melhora da qualidade de vida relacionada aos recursos em uma UTI-A

Essa categoria se refere às declarações expressas pelos cuidadores pesquisados sobre os aspectos relativos à QV do cuidador de enfermagem em uma UTI-A. Os sujeitos entrevistados condicionam a melhora da QV à presença de diversos recursos que eles consideram necessários para a oferta do cuidar em uma UTI-A.

Percebeu-se que os cuidadores fazem menção à necessidade da ampliação dos recursos humanos em uma UTI-A:

[...] A gente não tem uma pessoa, um piloto pra cobrir. Sempre o outro horário que tem que cobrir aquele funcionário faltando e vai sobrecarregando a gente. Chega uma hora que a gente não aguenta mais. É como uma obrigação de fazer hora extra. Você fala assim: “Eu

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Qualidade de vida do cuidador de enfermagem não vou porque não sou obrigada a fazer hora extra”, mas você pensa: “O meu companheiro está se matando lá”, aí eu acabo indo [...]. (C6)

[...] Se aumentasse o número de funcionário pra diminuir as horas extras, assim a assistência seria melhor, até mesmo pra fazer uma assistência planejada. Isso não é realizado porque o serviço é atropelado mesmo, muito corrido [...]. (C9)

Os cuidadores compreendem o quadro de funcionários incompleto diante da complexidade que a UTI apresenta e se sentem obrigados a realizar horas extras. Possivelmente, estão assumindo um turno que não é o seu, devido à responsabilidade que desenvolvem e, acima de tudo, ao respeito pela sua profissão. Entretanto, essa dedicação altruísta pode resultar em um fardo, levando ao comprometimento do cuidado prestado através da exaustão a que podem estar submetidos.

O número de profissionais em uma UTI responsáveis por procedimentos complexos e pacientes críticos é tomado pelos cuidadores como insuficiente, pois estes precisam preencher as lacunas existentes, cobrindo os que faltam. Isso gera sofrimento, pois, apesar de fazer o melhor que podem para o conforto e recuperação dos que estão sob sua responsabilidade, percebem como ineficiente essa assistência, causando-lhes sentimento de impotência, o qual afeta sua QV e a forma como vão cuidar(8,13).

A disponibilidade de trabalhadores que compõe a equipe de enfermagem em uma UTI pode ser considerada deficiente frente às tarefas a serem executadas, pois, caso não se leve em conta o tipo de paciente e o tipo de atividade profissional realizada nessa unidade, o resultado se traduz em sobrecarga para aqueles que permanecem no posto(7,14).

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