Daniel berg- enviado por deus

Daniel berg- enviado por deus

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David Berg

A história de Daniel Berg, um simples aldeão que ajudou a deflagrar o maior movimento pentecostal da história da Igreja, as Assembléias de Deus no Brasil.

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Casa ruliliciidiirii das Assembléias de Deus 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 1® Edição/l 995

P refá cio7
1. Daniel Hogberg1
2. Pelo Mundo Afora19
3. Rumo ao Ocidente23
4. Boston35
5. A Chegada ao Lar43

/índice

Vingren51
7. Rumo ao Sul59
8. Pará65
9. De Volta em Belém83
10. Chegam as Primeiras Bíblias87
I I. A Saída93
1 2. Dia I 8 de Junho de 1911101
13. De Volta às Ilhas107
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Prefácio

Sempre me pareceu tão natural, quanto necessário, deixar registrado algo acerca da vida e da obra de Daniel Berg, meu pai. Natural porque, na condição de filho, sempre o tive como exemplo de vida em tudo; e, sobretu do necessário, porque sei que a leitura desta obra será de grande valia à edificação de quantos a possuírem. É in dispensável saber como Deus, há mais de 80 anos, con vocou um de seus servos para trabalhar na sua seara no

Brasil.

Diversas vezes pedi a meu pai que me contasse sobre

;i época em que tudo começou, quando percorria ele a linha do trem que ia de Belém a Bragança, ou ainda quando, de canoa, remava por entre as ilhas do território ama/ônico, levando consigo uma mala cheia de Bíblias, Novos Testamentos e folhetos, e outra com objetos de uso pessoal, que era tudo o que possuía de bens terrenos.

No decorrer dos anos, muita coisa foi publicada sobre tomo Deus aluava e continua atuando neste gigantesco país .1 piuiii de cartas missionárias que papai, através de m u amigo de infância I .ewi Pethrus, enviara à Igreja F ila-

8Enviado por Deus délfia de Estocolmo, nas quais ele laia a respeito do traba lho no território recém evanyeli/mlo A primeira delas foi publicada pelo seminário / viinelii Ilíiroltl em 09/12/1915,

Nesse ínterim de l')h a 1992 , outros escritores também discorreram acerca do Movimento Pentecostal do Brasil, línlre esses servos de Deus, podemos citar A. P. Franklin que, partindo de I .ha olmo cm 03/02/1926, efetuou uma viagem de seis meses ao Brasil e à Argenti na, o que lhe possibilitou a pnaluçíio do livro Entre

Pentecostais e Santos Abandonados na América do Sul, o qual dedica especialmente aos missionários destes paí ses.

Podemos citar também Sven I idman, no seminário

“Nosso l-ar", na primavera de 1931, onde relata, numa série de contos auto biográficos intitulados De Mãos Va zias as aventuras de dois homens, Daniel Berg e Gunnar

Vingren, que acreditavam em Jesus ( Visto como seu Sal vador pessoal, e anunciavam que o Lspírito Santo atua hoje da mesma forma como aluou em Jerusalém no Dia de Pentecostes, quando levou os discípulos a experimen tarem o batismo com fogo e em novas línguas.

Em seu livro O Ateu de Variou, Brita Lidman tam bém retrata aquele período. Dc igual modo o faz Emílio Conde, autor do livro História das Assembléias de Deus no Brasil, publicado no Brasil em 1960. No Diário do Pioneiro, publicado em 1968, Ivar Vingren deixa regis trado à eternidade as memórias inestimáveis de seu pai Gunnar. Por fim, temos os artigos do diário sueco Dagen.

Em meu livro Enviado por Deus, editado pela CPAD,

Brasil, faço um relato das histórias de papai até o ano de 1916, retratando a época na cidade de Belém, suas cami nhadas a Bragança, e o trabalho entre as ilhas do territó rio amazônico. Muitos destes fatos já foram, de uma forma ou de outra, publicados na Suécia. Mas o seu

Prefácio 9 conteúdo, como um todo, permanece inalterado em rela ção às edições precedentes. Neste livro, esforcei-me por ser l iei aos fatos em sua ordem cronológica, pesquisando Ioda sorte de informações sobre datas que pude encon trar.

Durante minhas viagens ao Brasil, eu próprio, para obter informações para este livro tive que, juntamente com o responsável pelo arquivo da Igreja de Belém, pastor Borges, seguir as pegadas de papai. Nos lugares onde estive e sobre os quais escrevo, encontrei pessoas que se recordavam e nos contavam sobre aquela época, mas levando em conta os anos passados desde que tudo aconteceu conclui-se, por uma simples questão de lógica, que a maior parte dos entrevistados eram demasiado jo vens naquele tempo e o que contaram sabiam-no por intermédio de seus pais. No entanto, depois de haver leito um estudo destes relatos, me foi possível encontrar o ponto de ligação entre eles, de sorte que eu, em minha condição de filho, me senti privilegiado em ter podido conhecer mais sobre a obra de meu pai no Brasil, este maravilhoso país, tão distante geograficamente, mas tão próximo do coração!

A música “Nossa vida - um semear”, de Gunvor Haag- Strand, era freqüentemente cantada por papai ao som de seu violão.

Quanto à última parte do livro, a reservei para regis trar fatos que aconteceram depois de 1916. Menção espe cial às fontes de informação na realização deste livro e suas respectivas referências foram feitas na introdução do mesmo.

Daniel Hõgberg

Daniel nasceu em 19 de abril de 1884 na Suécia, numa pequena aldeia chamada Vargõn. Filho de Gustav Verner e Fredrika Hõgberg, tinha uma família numerosa; além de Daniel, havia ainda mais seis filhos: Oskar, Hilda,

Elisabet, Erik, Ester e Ida.

Sua família era batista e acalentava, sob a liderança do papai Verner o desejo de, juntamente com os demais ir'snãos da vila - que não eram muitos - construir uma igrejinha na região. Embora os recursos à disposição não fossem muito animadores, pouco a pouco a igreja foi sendo levantada, ficando sua manutenção por conta dos interessados.

Os batistas da região eram “almas de fogo” e a neces sidade de um local para cultos nas proximidades de casa e do trabalhoe fazia grande. Era com muito sacrifício que, depois de'um dia inteiro de trabalho, faziam todo o percurso de ida e volta a pé até a cidade, Vanersborg, onde era situada a sede congregacional. Com efeito, o pequeno templo da congregação se transformou numa espécie de segundo lar, onde as pessoas se reuniam para

1 2 Enviado por Deus participar nas diversas atividades, que incluíam a escola dominical, os ensaios do coral e a mocidade, além dos cultos normais. Para as ocasiões mais solenes, todavia, a sede continuava a ser o ponto de encontro.

Daniel tinha poi hábito preencher seu tempo livre dedicando-se à prática de percorrer as íngremes e pedre gosas veredas epie levavam ao ponto mais alto de Halleberg. A força que ora se exigia do seu físico era tão extraordinária quanto o era sua vontade de chegar ao topo o quanto antes. Os olhos lixos 110 alvo davam-lhe asas aos pés para subir.

Sempre que alcançava o cume, ocupava logo seu lu gar predileto, o qual já lhe era cativo. A tranqüilidade e o silêncio do local transportavam-no às alturas, e este últi mo - o silêncio - somente era quebrado pelo gorjeio dos pássaros, que para ele mais soava como um harmonioso Hino Nacional de seu pequenino império. “Que bòm seria se eles afluíssem em um número ainda maior lá embaixo...”, divagava Daniel. “Poupariam nossos ouvi dos de ouvir tanta tolice se pusessem-se a cantar mais alto durante o dia...”.

Do alto da montanha tinha-se uma encantadora vita panorâmica de todo o seu lugarejo.

Às vezes, quando ousava chegar mais perto da riban ceira, podia contemplar o vertiginoso despenhaJeiro ao pé do qual também se estendia a vila Dalen. r

Sua família morava em uma pequena casa pintada de vermelho, lá embaixo, do outro lado do caminho. Dava muito bem para vê-la do ângulo onde elee encontrava.

A medida que a família ia crescendo, a casa ia aumen tando para onde quer que se encontrasse espaço. Muitas foram as vezes em que sua mãe, para comprar uma sim ples porção de pregos por 25 centavos ou qualquer outra coisa do gênero, era obrigada a caminhar cinco quilôme-

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Iros a pé até Vanersborg e o mesmo trajeto de volta. Muitas vezes o dinheiro nem dava para tanto.

Finfrentavam as dificuldades de todas as formas e, assim, sobreviviam. Os dias, um a um, iam passando, mas o luturo sempre se lhes apresentava incerto e obscuro.

Voltando seu olhar novamente para baixo, enxergou a fábrica de papel Wargõns AB. Não era preciso muito para isto; bastava olhar para baixo, de onde vinha a fumaça em pleno domingo, visto que a diária de trabalho era dividida em três turnos. As altas chaminés se encarre gavam de indicar o trajeto para a única fábrica de grande porte na região, na qual quase tòdos os moradores da vila trabalhavam.

Daniel não fazia exceção à regra, assim como seu pai, seus irmãos e seu amigo Pethrus.

Foi então que a fábrica começou a despedir os seus funcionários. Os mais jovens e com menos tempo de serviço eram os primeiros.

O principal produto da fábrica era o papel, que vendia para diversos jornais. Entre estes, se incluía o jornal “Dagen”, do qual com um maço debaixo do braço ma mãe, no início do século, contribuía para o sustento da família, percorrendo as ruas de Karlskrona a gritar: “Olha o Dagen! Só dois centavos!”

Olhando para baixo, pôde observar que as pessoas não eram maiores do que formiguinhas. O alto da montanha, aliás, proporcionava uma visão equânime das pessoas. Ninguém era maior do que ninguém; quer fosse este um pároco, quer fosse este um professor formado, quer fosse este um meridtgo.

Talvez o pároco se distinguisse um pouco dos demais, sim. Sua rotina havia de certa forma se modificado, des- de que, há algum tempo, já não era o único sacerdote na aldeia. Sua função era de ministro do Senhor na igreja li Enviado por Deus luterana local do governo. Na qualidade de presidente do

Conselho Escolar, também fazia visitas esporádicas à escola com a finalidade de, por meio de chamada oral, testar o aprendizado dos alunos na disciplina de religião. Averiguava também, se estavam se mantendo dentro do conteúdo curricular estabelecido.

Certa vez, quando perguntava a Daniel por que ele se chamava um cristão, este lhe respondeu: “Sou cristão, porque pertenço à igreja cristã”. Ao obter de todos os outros filhos de batistas a mesma resposta, o pároco explicou à classe que todos os que não eram batizados eram pagãos e encontravam-se automaticamente excluí dos da comunidade. v-v # j|r ' • k ' A medida que permanecessem como sectários, não alcançariam o desenvolvimento normal próprio das ou tras crianças, não tendo sobre si a bênção de Deus, ele mento essencial para um futuro seguro. O pároco não ia deixá-los participar das aulas preparativas à primeira co munhão. (A condição exigida para ser aceito como mem bro integrante, era se confirmar segundo os dogmas do Livro de Catecismo do ano de 1811 e cumprir, desta forma, a doutrina estabelecida.) A pressão a que seriam submetidos e o medo de serem condenados a jamais deixar a própria aldeia os faria hesitantes sobre se deveri am ou não se confirmar. Em meio a tantas contendas e mal-entendidos, ocorria ainda, vez por outra, de se depa rar com um eventual amigo ou irmão na fé, embora se encontrassem estes em lugares diferentes que não o de sua convivência. Ali sim, o sentimento de solidão e de samparo era mais latente. A repercussão do cognome “pagão” provocava nas pessoas, especialmente nos jo vens, forte reação de menosprezo e ironia. Mesmo os mais velhos, no intuito de preservarem sua boa imagem diante do pároco, vez ou outra, soltavam seus comentari- ozinhos maledicentes.

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()s fracos e oprimidos muito tiveram de sofrer com a expectátiva de se realizarem as previsões ameaçadoras do pároco. Daniel mantinha-se inabalável no que dizia respeito à sua fé e estava absolutamente convicto de que Jesus era o seu único Salvador pessoal; sobre esta verda- de desejava edificar sua vida.

De mais a mais, aquela estória de primeira comunhão uno linha sido muito bem compreendida por Daniel, que .1 considerava pura ostentação. Sempre que se punha a ouvir as conversas entre os alunos do Catecismo, procu- i .i va encontrar nelas algum conteúdo espiritual, mas nada ide n li ficava a não ser a eufórica expectativa de um sabo- ioso jantar que posteriormente haveria em suas casas, sem contar os relógios que aTuns «teles haveriam de receber como prêmio: o primeiríssimo dè suas vidas. Os garotos haviam naturalmente recebido seu tradicional ter no preto com calças compridas que, diga-se de passagem, ei a um ótimo recurso para impressionar as garotas; o uso de ealças compridas era sinal de que finalmente se havia chegado à idade adulta.

Sim, a idade adulta que, para Daniel, fora antecipada pela necessidade de lutar pela sobrevivência, quando con tava apenas com a idade de 1 anos. Nem sempre era fácil conciliar a escola com o trabalho e as lições de casa. Muilas vezes o cumprimento de uma das tarefas, impli cava 110 descumprimento de outra. Com isto, as lições de casa eram sempre as que ficavam em prejuízo. E do professor não lhe vinha nenhum gesto de complacência,

.ao contrário; recebia apenas reprimendas ou palmatórias. Roupa e comida, entretanto, eram coisas indispensáveis à subsistência, e um terno preto bonito como aquele estaria dentro de suas posses, se fosse o caso. Porém, seu bom senso lhe dizia haver coisas mais importantes que um simples terno. E em que ocasiões lhe seria permitido usá- lo? Ninguém, no entanto, era de ferro, e ele decerto não sei ia exceção; o terno era deveras muito bonito.

16 Enviado por Deus

Sentado no alto da montanha, Daniel se recordava de quando seu amigo Pcthrus, certo dia, ao vê-lo chegar da floresta trazendo um saco nas costas, perguntou-lhe se eram pinhas para acender o logo; este, por sua vez, res pondeu-lhes que eram apenas pedras para a construção do novo templo. Estava aí algo com que Daniel também pretendia servir ao Senhor no futuro: sua força física.

Os dois amigos eram completamente diferentes um do outro, tanto exterior, quanto interiormente. Enquanto apas centavam seus rebanhos, tinham tempo de sobra para se dedicarem a meditações, durante as quais haviam ambos chegado à conclusão que o mais importante na vida era a salvação. Ao se encontrarem, descobriram os dois que, acima de qualquer coisa, tinham em mente servir a Deus, custasse o que custasse. Deus haveria dc guiá-los.

O topo da montanha era um ótimo lugar para se falar com Deus. A noite anterior fora decisiva para Daniel; dirigira-se até à frente do púlpito a fim de entregar sua vida para Jesus, pedindo que orassem por cie e também com ele. Olhando na direção em que seus pais estavam sentados, pôde perceber o quanto seus rostos brilhavam de alegria. Toda congregação havia orado, e Jesus lhe havia perdoado os pecados. Daniel não imaginava qual o papel que os pais exercem sobre a vida espiritual dos filhos, especialmente quando estes, deixando a adoles cência, mostram sinais de independência c predisposição a se influenciar por amigos da mesma idade. Eram mui tos os exemplos de famílias, cujos filhos, apesar de have rem recebido a mesma educação, optavam por caminhos opostos. Uns, com maior necessidade espiritual, decidi am seguir a Cristo; outros, tornavam-se indiferentes. Esta era a maior prova de que a salvação era algo estritamente pessoal, não sendo recebida dos pais por herançaT O que realmente conta é a fé e o compromisso de cada um com Cristo. Lewi Pethrus, em seu livro A Pura Verdade, con-

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