O Olho e o Pensamento - Ana Monique Moura

O Olho e o Pensamento - Ana Monique Moura

(Parte 1 de 3)

1O Olho e o Pensamento O OLHO E O PENSAMENTO

2Ana Monique Moura D’Araújo 2Ana Monique Moura D’Araújo

3O Olho e o Pensamento

Sal da Terra

Uma contribuição de óticas da filosofia para filmes

Ana Monique Moura D’Araújo

4Ana Monique Moura D’Araújo

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Impresso no Brasil Foi feito o depósito legal

©Copyright 2013 by Ana Monique Moura D’Araújo

Editoração Eletrônica: Fabiana Gomes

Este livro foi impresso no verão de 2013

Sal da Terra

Praça Dom Adauto, 49, Centro, João Pessoa – PB 58010- 670 Telefone/Fax (83) 3031-0330 — E-mail: graficasaldaterra@hotmail.com

Araújo, Ana Monique Moura D’

O Olho e o Pensamento/Ana Monique

Moura D’Araújo - João Pessoa: Sal da Terra, 2013.

72p. ISBN 978-85-8043-271-8 1. Pensamento I. Título

A837o

CDU 21.03

5O Olho e o Pensamento

Cega-te para sempre: também a eternidade está cheia de olhos lá se afoga o que fiz caminhar às imagens

Paul Celan

6Ana Monique Moura D’Araújo 6Ana Monique Moura D’Araújo

7O Olho e o Pensamento

comum ao olho que adormeceTalvez

Certa vez Jean Cocteau disse que os sonhos são a literatura do sono. Isto seria a literatura onírica primária, seja oportuno acrescentar que uma das literaturas não primárias seja o cinema. O cinema, como um sonho, é uma literatura do olho que imagina e fantasia como qualquer sonho de um sono comum é capaz de fazer...

8Ana Monique Moura D’Araújo 8Ana Monique Moura D’Araújo

9O Olho e o Pensamento Índice

90 minutos]1

A dúvida como certeza [Filme: Histórias de amor duram apenas

A arte das lágrimas]19

Morte, para sempre morte [Filme:

Lágrimas de palhaço]3

O riso como ironia da tragédia [Filme:

10Ana Monique Moura D’Araújo

[Filme: Quatro]45

Uma filosofia canina

Ensaio extra: O cinema como ressignificação do olhar ................................ 57

11O Olho e o Pensamento A dúvida como certeza

Filme: Histórias de amor duram apenas 90 minutos Direção: Paulo Halm Elenco principal: Caio Blat (Zeca); Maria Ribeiro (Júlia); Luz Cipriota (Carol). Roteiro: Paulo Halm

“Existe uma meta, mas não um caminho, o que chamamos de caminho não passa de uma hesitação” Franz Kafka

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Zeca jovem/adulto de 30 anos, bom escritor, porém bloqueado com a escrita, decidido, mas idealista e procrastinador, enquanto Julia parece instantânea, entre a decisão e a ação.

Ele a admira e não encontra nela motivo para se afirmar insatisfeito. Mas, para Zeca, um grande sofrimento é, como ele mesmo diz, “sofrer por mulher”, e isto ele não atingiu, até o momento em que começa a acreditar que Julia o trai com outra garota.

Zeca é um sujeito com preguiça de viver. Casado, mas vive com a sua mulher, como um filho solitário e frágil que passa os dias entre a rua e o quarto, a converter seus deveres em algo como um nada-a-sefazer, e escapulir do que todos, antes dele, acreditam ser sua melhor tarefa, a escrita.

O cotidiano de Zeca pode parecer um marasmo aos olhos de quem assiste ao filme, mas pode ser um marasmo atraente, contagioso e contagiante, pela carga irônica e ao

13O Olho e o Pensamento mesmo tempo cômica que Paulo Halm concedeu às cenas.

Júlia, esposa de Zeca, mantém uma amizade com a aluna, uma jovem argentina judia e dançarina. Ela é vista pela primeira vez por ele em um momento de espreita. Quando Zeca está fazendo sua caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro e segue em direção à sua casa, enxerga, por uma fresta, Júlia e sua aluna no quarto, seminuas, abraçadas, olhando-se no espelho, como se cada uma contemplasse o corpo da outra. Aqui nasce a perspectiva da ambiguidade, para não dizer confusão, no filme. A cena de Julia com sua aluna é ambígua porque não diz de fato se elas duas estão tendo um affair ou não. Mas, para Zeca, duvidar é ter certeza.

Ele poderia ser chamado de um paranóico cartesiano, ou seja, que lança a dúvida para acreditar e não para celebrar a dúvida, como se faz em uma filosofia plenamente cética, se é que ela realmente tenha existido, ou exista.

14Ana Monique Moura D’Araújo

Zeca lança um princípio dedutivo da existência de algo tal como Descartes (1596- 1650), autor das Meditações Metafísicas (Méditations sur la philosophie premièrie, 1641) obra tanto interessante e adorável como absurda e negável. Mas, ao contrário de Descartes, que fizera a pressuposição da existência de Deus, Zeca faz a dedução da existência de uma traição. Indaga-se sobre isto, mas é exatamente na medida em que indaga que, em verdade, ele quer achar um fundamento, uma certeza clara e distinta para sua hipótese se transformar em hipóstase. É uma dúvida em função da crença, em relação a uma opinião já hibernada para

A partir disso Zeca envereda na angústia do traído e, no que, segundo ele, é o real sofrimento de um homem, a tristeza por uma mulher, a dor provocada por ela. Cf. René DESCARTES. Meditações. Tradução: J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 91-97.

15O Olho e o Pensamento

Ele acredita que o verdadeiro herói é o herói suicida e, ainda, um herói suicida é o que tira a vida a fim de vencer a dor por uma mulher. Zeca guarda um jovem Werther dentro de si, argumenta a favor do suicídio com a certeza de que fala sobre uma solução corajosa, heróica e inteligente.

Este declarado apreciador do Jazz, dentre outros ritmos inconclusos e instáveis que soam com insistente poesia na existência, está de frente ao fim de um ideal de amor sólido, que se fazia seu sustentáculo. O amor para Zeca se torna, para utilizar um termo baummiano, líquido, porque duvidoso, frágil. Ele existe, porém não se fixa. Sem continuidade efetiva, é um amor sincopado.

“Sendo um componente permanente da vida urbana, a presença perpétua e ubíqua de estranhos visíveis e próximos aumenta em

16Ana Monique Moura D’Araújo grande medida a eterna incerteza das buscas existenciais de todos os habitantes. Essa presença, impossível de evitar senão por breves momentos, é uma fonte de ansiedade inesgotável, assim como de uma agressividade geralmente adormecida, mas que volta e meia pode emergir.”2

Zeca é um exemplo de homem que se perde naquilo que ele faz parte, a saber, a cidade, as pessoas, das quais ele culmina por extrair o espírito oblíquo, terrível de suportar, porque inevitável. A cidade e as pessoas se lhe exibem como a certeza de uma existência possuída de dúvidas.

O fim do filme marca o ponto importante da perspectiva de ambiguidade no enredo, no caminho da dúvida como certeza, nãoZigmund BAUMAN. Amor Líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, p. 60.

17O Olho e o Pensamento apenas advindo de Zeca, mas do próprio filme na relação com o espectador. Em termos abstratos, o fim do filme pode ser a única parte em que é um filme, com um único personagem e uma única cena, e o resto até aí seria um romance, claro, dentro filme, ou melhor, em um filme de minutos, que narra uma história de amor, isto é, narra uma narração!

18Ana Monique Moura D’Araújo 18Ana Monique Moura D’Araújo

19O Olho e o Pensamento

Filme: A Arte das Lágrimas Título original: Kunstenatgræde i kor Direção: Peter Schønau Fog Elenco principal: Hanne Hedelund (mãe) Jannik Lorenzen (Allan) Jesper Asholt (pai) Julie Kolbech (Sanne) Thomas Knuth- Winterfeldt (Asger).

Roteiro: Bo Hr. Hansen senta-se à nossa frente, pra nos fazer companhia, o Nada. Bertolt Brecht

Morte, para sempre, morte

20Ana Monique Moura D’Araújo

Na Dinamarca, no sul de Jutland, vivia um pobre leiteiro, que morava com sua esposa e seus três filhos, Allan, Sanne e Asger. O leiteiro demonstrava estar na mais aterradora ânsia de cometer um suicídio. Seu cotidiano era marcado por suas lamúrias e lágrimas diante da família, que tenta, ao máximo, ser leniente com ele.

Allan, seu filho mais novo, com 1 anos de idade, se preocupa com grande frequência em relação à situação do pai, que solicita, com a conivência indireta da sua esposa, relações incestuosas com sua filha Sanne, como meio de apaziguar seus lamentos. O irmão mais velho, Asger, chega a ser expulso de casa por agredir o pai quando descobre tais relações.

Quando o filho de um leiteiro concorrente faleceu, o pai de Allan proferiu a missa fúnebre no velório e conseguiu comover de uma maneira tão atraente as pessoas que Allan logo percebeu que aquilo deixou seu pai contente. Daqui surgiu-lhe

21O Olho e o Pensamento a ideia de conseguir mais velórios para a alegria do pai. A partir disso Allan e Sanne se unem para facilitar a morte de algumas pessoas.

Allan, por querer prezar a vida do pai, era ao mesmo tempo e por causa disso, o motor das relações incestuosas entre sua irmã e seu pai - mais tarde o próprio Allan passou a fazer parte de tais relações - e, também, com a ideia de buscar velórios, influenciou Sanne a queimar a casa de sua avó e tirar dela a vida.

Com a finalidade de sentir-se perto da vida, Allan precisa da morte de outras pessoas para evitar a morte do pai. O cenário de seus dias segue-se entre os tormentos suicidas da figura paterna, as mortes alheias e os velórios.

Parece convidativo assistir este filme com uma ótica apoiada em uma reflexão específica de Martin Heidegger [1889-1876]. Dado isto, há na sua teoria da análise existencial do ser o que podemos chamar de

22Ana Monique Moura D’Araújo duas estruturas importantes: a angústia e a morte.1

A angústia, entenda-se aqui uma angústia em seu sentido menos psicológico, se direciona para algo indeterminado. É na angústia que se revela o homem como o ser para a morte (Sein-zum-Tode). Aqui o ser se revela suspenso no nada. Assim, a angústia da existência abre-se para o nada, como aquilo que nadifica o ser. O nada é aquilo ante o qual a angústia se prostra. Aqui, a morte é condição própria da existência. Estar para a morte é estar no próprio existir.

Para o pai de Allan, a morte era algo temível porque a própria existência era por ele negada. No decorrer do filme, fica cada vez mais visível que suas lamúrias e ameaças de suicídio são mais engodos para chamar atenção do que propriamente uma Cf. Martin HEIDEGGER. Que é metafísica? Os pensadores. Tradução: Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 207.

23O Olho e o Pensamento vontade de se matar. Ele convive, constantemente, com o temor da morte.

Assim, ao direcionar seu medo à morte, ele nega a existência autêntica de assumirse enquanto um ser-para-a-morte, e tenta se ver como um ser que quer a morte, que a escolheu e não que a tem como condição de existência. Por isso, quando nega o serpara-a-morte nega interinamente a existência.

Ele temia a condição de morte porque temia a própria existência; não foi a ela indiferente e negou uma existência autêntica afirmadora de sua própria finitude.

24Ana Monique Moura D’Araújo 24Ana Monique Moura D’Araújo

25O Olho e o Pensamento

Filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças Título original: Eternal sunshine of the spotless mind Direção: Michel Gondry Elenco principal: Clementine Kruczynski (Kate Winslet); Joel (Jim Carey); Howard Mierzwiake (Tom Wilkinson). Roteiro: Charlie Kaufman

“O que a memória ama fica eterno” Adélia Prado

Um brilho na (des)memória

26Ana Monique Moura D’Araújo

A personagem Clementine procura uma intrigante clínica que oferece o serviço para apagar memórias. Logo mais, Joel, seu namorado, sente-se, com isso, na obrigação de fazer o mesmo e procura uma clínica para esquecê-la. Joel, com toda a sua racionalidade e autovigilância, adentra no tratamento do expurgo de suas memórias, desde então, um pouco cético, e quer observar, porém, o que acontece ao seu redor enquanto está sendo tratado pelo Dr. Howard Mierzwiake. É a partir deste momento que acho conveniente falar um pouco da relação que o filme pode ter com um discurso sobre a memória feito pelo filósofo Henri Bérgson (1859-1941).

Para Henri Bérgson, um momento presente é uma consciência. Basicamente, ele existe na medida em que tomamos consciência de estarmos nele. Bérgson rompe a noção de tempo como sucessão quantitativa de instantes. Para ele a consciência do corpo no espaço de sensações e experiências é a condição para a consciência do presente e,

27O Olho e o Pensamento em seguida, do tempo. Estar no presente é reconhecê-lo enquanto tal. O presente constituirá a vitalidade do que virá a ser uma lembrança. Ao lembrarmos de algo, o fazemos porque aquilo que veio a constituir uma lembrança foi um momento presente consciente. Se não há consciência do presente, não é possível falar em presente e tampouco em lembrança. O presente é o caminho para o passado e não seu inverso. Ele é o elo consciente entre passado e o futuro.

Quando Joel decide esquecer lembranças que remetem a Clementine, ele não aceita fugir da dispersão de suas memórias, mesmo ao estar, já, se desfazendo delas. Em cada memória ele se torna presente, porque toma consciência de seu corpo em um espaço tido como lembrança, e intensifica-a em sua consciência.

A consciência, por determinar viver o presente, determina-o como um momento existente. Ora, disso se conclui que a consciência, aqui, é a própria antecipação

28Ana Monique Moura D’Araújo do futuro, que se fará presente. Para Bérgson, o instante em que há a antecipação do futuro delimita teoricamente a sua fronteira com o passado. Sobre isso ele anuncia:

“O que percebemos de fato é uma certa espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso passado imediato e nosso futuro iminente. Sobre este passado nos apoiamos, sobre este futuro nos debruçamos; apoiar-se e debruçarse desta maneira é o que é próprio de um ser consciente. Digamos, pois, que o traço da consciência é o traço de união entre o que foi e o que será, uma ponte entre o passado e o futuro”.1

O personagem Joel, ao entrar em sua memória e observá-la com uma agucidade quase obsessiva, culmina por encantar-se com Henri BERGSON. Conferências. Os Pensadores. Abril Cultural. São Paulo, 1974, p. 90-102. p. 7.

29O Olho e o Pensamento algumas lembranças, recusa-se a apagá-las, e, em relação aos momentos tristes, reflete como eles poderiam ser sob outras escolhas ou circunstâncias. Dentro de sua própria lembrança ele permanece entre aquilo que foi e o porvir, no qual ele apoia a meta de deixar a lembrança (aquilo que foi) na sua memória, e antecipa o seu futuro, a saber, d’a memória não ser apagada.

Aos poucos, Joel consegue autonomia dentro de sua mente, passa a controlar algumas lembranças, e tenta fazê-lo com a própria Clementine. Ambos, juntos no expurgo das lembranças, na mente de Joel, fogem ao mesmo tempo da aniquilação de si mesmos, vale dizer, enquanto amantes.

Mas a eliminação das memórias é um fim que Joel não conseguiria fugir. E ele sabe disso, bem como, em sua mente, o sabe Clementine. Caberia agora o dizer de Bergson sobre a lembrança desaparecida na relação com o sentimento:

30Ana Monique Moura D’Araújo

Interrogo enfim minha consciência sobre o papel que ela se atribui na afecção: ela responde que assiste, com efeito, sob forma de sentimento ou de sensação, a todas as iniciativas que julgo tomar, que ela se eclipsa e desaparece, ao contrário, a partir do momento em que minha atividade, tornando-se automática, declara não ter mais necessidade dela.2

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