A figueira murcha - Spurgeon

A figueira murcha - Spurgeon

(Parte 1 de 3)

Charles H. Spurgeon

Digitalizado e doado por: Alcimar Da Silva Rodrigues

Lançamento e revisão: w.ebooksgospel.com.br

Neste sermão o famoso pregador faz uma análise incisiva e judiciosa da condição daqueles que professam ser cristãos, mas que realmente não o são. Enganam-se todos quantos pensam que basta produzir apenas a "folhagem" do cristianismo, sem contudo evidenciarem uma vida santa.

"A profissão de fé sem a graça divina é a pompa funerária de uma alma morta" — disse Spurgeon.

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Sermão pregado na manhã do dia do Senhor, em 29 de setembro de 1889, no Metropolitan Tabernacle em Newington, Londres.

"E, deixando-os, saiu da cidade para Betânia, onde pernoitou. Cedo de manhã, ao voltar para a cidade, teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: nunca mais nasça fruto de ti. E a figueira secou imediatamente. Vendo isto os discípulos, admiraram-se e exclamaram: Como secou depressa a figueira!" Mateus 21:17-20.

Este é um milagre e uma parábola. Temos livros sobre os milagres; temos igual número de volumes sobre as parábolas. Em qual das duas categorias devemos colocar esta história? Eu responderia: coloque-a nas duas categorias. É um milagre singular e é uma parábola notável. É uma parábola encenada, em que nosso Senhor nos dá uma lição prática. Ele coloca a verdade diante dos olhos dos homens nessa ocasião, a fim de que a lição produza uma impressão mais profunda na mente e no coração. Gostaria de enfatizar a observação de que esta é uma parábola, pois se vocês não a consideram assim, podem entendê-la erroneamente. Não somos daqueles que se chegam à Palavra de Deus com a fria impertinência do crítico, considerando que somos mais sábios do que o Livro e, portanto, capazes de julgá-lo. Cremos que o Espírito Santo é maior do que o espírito do homem, e que nosso Senhor e Mestre era melhor juiz daquilo que é bom e reto do que qualquer um de nós o pode ser. Nosso lugar é aos Seus pés; não somos capciosos, mas seguidores. Tudo quanto Jesus faz e diz, nós o consideramos com a mais profunda reverência; é nosso desejo principal aprender dEle tanto quanto podemos. Vemos grandes mistérios nas Suas ações mais singelas, e ensinamentos profundos nas Suas palavras mais claras.

Quando Ele fala ou age, ficamos como Moisés diante da sarça, sentindo como se estivéssemos em terra santa.

Pessoas frívolas têm falado de modo muito estulto a respeito da história que estamos considerando. Representam a situação como se nosso Senhor, estando com fome, pensasse somente na Sua própria necessidade, e esperando ser reanimado por uns poucos figos verdes, fosse por engano até à árvore. Não achando fruto na árvore, pois não era a estação certa para Ele pensar que houvesse fruto ali, ficou irritado e pronunciou uma maldição contra a figueira, como se ela fosse um agente responsável. Essa maneira de olhar o caso resulta da estultícia do observador: não é a verdade. Nosso Senhor queria ensinar aos Seus discípulos a respeito da condenação de Jerusalém. A recepção que Lhe foi dada em Jerusalém estava cheia de promessas, mas viria a ser nada. Os altos brados de "hosana!" brevemente se transformariam em "crucifica-o!"

Quando Jerusalém estava para ser destruída por Nabucodonosor numa ocasião anterior, os profetas não somente tinham falado, como também empregado sinais instrutivos. Se abrirem o livro de Ezequiel, verão ali o registro de muitos sinais e símbolos que declaravam a desgraça vindoura. Esses-sinais excitavam a curiosidade, obtinham consideração, e aplicavam as advertências proféticas aos lares e aos corações do povo comum. Mais uma vez, os juízos divinos estavam às portas da cidade culpada. As palavras — as palavras de Jesus — tinham sido pronunciadas em vão; e até mesmo lágrimas — lágrimas do Salvador — haviam sido derramadas em vão; já estava na hora de ser dado o sinal — o sinal da condenação. Ezequiel tinha dito: "Saberão todas as árvores do campo que eu, o SENHOR, abati a árvore alta, elevei a baixa, sequei a árvore verde"; e nisso estava prevista a própria figura empregada por nosso Senhor. Ele viu uma figueira que, por uma anomalia da natureza, estava coberta de folhas numa época quando não deveria tê-las. Nosso Senhor viu que essa era uma excelente lição prática para Ele dar e, portanto, levou Seus discípulos para verem se havia figos, e não somente folhas. Quando não achou nenhum figo, ordenou a figueira a permanecer estéril, e imediatamente eia começou a secar-se. Nosso Senhor teria feito bom uso da figueira se tivesse ordenado que fosse transformada em lenha para aquecer as mãos frias, mas fez uso melhor quando a usou para aquecer os corações frios. Nenhuma injustiça foi feita contra pessoa alguma; era uma árvore em terreno baldio, e totalmente sem valor. Nenhuma dor foi aplicada; nenhuma ira foi sentida. Na lição prática, o Senhor simplesmente disse à figueira: "Nunca mais nasça fruto de ti". E a figueira secou-se. Nisto, nosso Senhor ensinou uma grande lição a todas as gerações com uma despesa mínima. O secamente de uma árvore serviu para a vivificação de muitas almas; e mesmo se não fosse assim, não era perda para ninguém quando a árvore secou-se depois de se revelar infrutífera. Um grande mestre pode fazer muito mais do que destruir uma árvore, se assim conseguir dar demonstrações da verdade e espalhar as sementes da virtude. É a máxima ociosidade da crítica pôr defeito em nosso Senhor Jesus por um item da melhor instrução poética que, se tivesse sido dado por qualquer outro mestre, teria recebido o louvor mais profuso da parte desses mesmos críticos.

A figueira crestada foi um símile singularmente apropriado do estado judaico. A nação prometera a Deus grandes coisas. Enquanto todas as outras nações eram como árvores sem folhas, sem fazer nenhuma profissão de lealdade ao Deus verdadeiro, a nação judaica estava coberta da folhagem da profissão religiosa abundante. Os escribas, os fariseus, os sacerdotes e os anciãos do povo eram defensores rigorosos da letra da lei, e se jactavam de ser adoradores do único Deus e observadores escrupulosos de todas as Suas leis. Seu brado constante era: "Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este". "Temos Abraão por nosso pai" era expressão freqüente em seus lábios. Eram uma figueira cheia de folhagens. Mas neles não havia.frutos, pois o povo não era nem santo, nem justo, nem leal, nem fiel a Deus, nem tinha arnor ao próximo. A igreja judaica era uma só massa de profissão cintilante de fé, sem estar apoiada pela vida espiritual. Nosso Senhor tinha olhado para dentro do templo, e descobrira que a casa de oração era um covil de ladrões. Ele condenou a igreja judaica a permanecer coisa sem vida, sem frutos; e assim aconteceu. A sinagoga permaneceu aberta; mas seu ensino tornou-se uma formalidade morta. Israel não teve nenhuma influência sobre a vida contemporânea. A raça judaica tornou-se, durante séculos, uma árvore seca; não possuía nada senão a falsa profissão de fé quando Cristo veio, e aquela profissão evidenciou-se incapaz de salvar a cidade santa. Cristo não destruiu a organização religiosa dos judeus; deixou-os como estavam; mas eles se secaram desde a raiz, até à vinda dos romanos que com os machados das suas legiões desfizeram 0 tronco infrutífero.

Que grande lição para as nações! As nações podem fazer uma profissão de religião, profissão essa com altos brados, mas podem deixar de exibir aquela justiça que exalta uma nação. As nações podem estar adornadas com as folhagens da civilização, das artes do progresso, e da religião, mas se não houver nenhuma vida interior de piedade, e nenhum fruto para a retidão, ficarão em pé por algum tempo, e depois se secarão.

Que grande lição para as igrejas! Tem havido igrejas nas quais se destacaram os números e a influência, contudo a fé, o amor e a santidade não foram mantidos, e o Espírito Santo as deixou à exibição vã de uma profissão infrutífera; e ali ficam aquelas igrejas com o tronco da organização e com os galhos amplamente estendidos, mas estão mortas, e ano após ano tornam-se cada vez mais decadentes. Irmãos, temos nesta hora igrejas desse tipo entre os protestantes evangélicos. Que nunca seja assim com esta igreja! Podemos ter um bom número de pessoas que vem para ouvir a Palavra, e um grupo considerável de homens e mulheres que professam estar convertidos; mas a não ser que a piedade vital esteja em seu meio, o que são as congregações e as igrejas? Podemos ter um ministério de valor, mas o que ele seria sem o Espírito de Deus? Podemos ter grandes ofertas, e muitos esforços exteriores, mas o que valem sem o espírito da oração, o espírito da fé, o espírito da graça e da consagração? Eu ficaria apavorado se um dia nós chegássemos a ser como uma árvore precoce, ostentando uma profissão superlativa, mas sem valor aos olhos do Senhor, por estar ausente a vida secreta da piedade e da união vital com Cristo. Seria melhor o machado derrubar todo vestígio da árvore, do que deixá-la em pé sob o céu como uma mentira aberta, uma zombaria, uma ilusão.

É essa a lição do texto. Mas não quero que vocês a considerem apenas a grosso modo, no seu relacionamento com as nações e com as igrejas; pelo contrário, o desejo do meu coração é que aprendamos a lição detalhadamente, e que cada um a aplique ao seu próprio coração. Que o próprio Senhor fale pessoalmente a cada um de nós hoje! Ao preparar o sermão, senti meu coração profundamente perscrutado, e oro para que ao ouvilo ele produza os mesmos resultados. Tremamos de medo de haver feito uma profissão de piedade, e de a ter ostentado abertamente, sem, porém, termos a frutificação que é a única justificativa de tal profissão. O nome de santo, se não for justificado pela santidade, é uma ofensa aos homens honestos, e muito mais a um Deus santo. Uma profissão nítida e precoce do cristianismo sem uma vida cristã por trás dela é uma mentira, uma abominação a Deus e aos homens, um ultraje contra a verdade, uma desonra à religião, e a precursora de uma maldição crestante.

Que o Espírito Santo me ajude a pregar com muita solenidade e poder nesta ocasião! Nossa primeira observação é a seguinte: há no mundo casos de profissão promissora, porém infrutífera; nossa segunda observação será esta: esses casos serão inspeccionados pelo Rei Jesus; e nossa terceira observação será: o resultado daquela inspecção será muito terrível. Ajuda-nos, ó Espírito Santo!

I. Em primeiro lugar, então, HÁ NO MUNDO CASOS DE PROFISSÃO PROMISSORA, PORÉM INFRUTÍFERA.

Os casos aos quais nos referimos não são tão raros assim. As pessoas envolvidas neles superam, em muito, tantas outras. Sua promessa é bem audível, e seu exterior é muito impressionante. Parecem árvores frutíferas; esperamos delas muitas cestadas dos melhores figos. Elas nos impressionam com a sua conversa, nos deixam assoberbados com os seus modos. Invejamos a elas, e açoitamos a nós mesmos. Essa última atitude talvez não nos faça mal; mas invejar hipócritas não pode deixar de ser danoso a longo prazo; isto porque quando for descoberta a hipocrisia delas, tenderemos a desprezar a religião, como também os que fingem ser religiosos. Acaso vocês não conhecem pessoas que na aparência são tudo e na realidade não são nada? Ó pensamento tenebroso! Nós mesmos poderíamos ser assim? Vejam o homem: ele está forte na fé, até o ponto da presunção; está alegre na esperança, até o ponto da leviandade; é amoroso de espírito, até o ponto de total indiferença quanto à verdade! Como é loquaz na conversa! Como está profundo na especulação teológica! Como é fervoroso em conclamar a movimentos de avanço! Nunca, porém, entrou no reino mediante o novo nascimento. Nunca foi ensinado por Deus. O evangelho chegou a ele somente em palavras. A obra do Espírito Santo lhe é desconhecida. Porventura não existem tais pessoas? Não há pessoas que são defensoras da ortodoxia, no entanto, heterodoxas na sua própria conduta? Não conhecemos homens e mulheres cujas vidas negam o que os seus lábios professam? Temos certeza de que assim é. Todas as vinhas já tiveram nelas figueiras cobertas de folhas, que se destacaram pela folhagem da sua profissão de fé, todavia não produziram frutos para o Senhor.

Tais pessoas parecem desafiar as estações do ano. Não era a estação de figo, no entanto, essa figueira ficou coberta daquelas folhas que usualmente eram o sinal da existência de figos maduros. Suponho que todos vocês conhecem aquilo que já vi pessoalmente — a figueira produz os frutos antes das folhas. No princípio do ano podemos ver protuberâncias arredondadas que surgem nas extremidades e nas pontas dos galhos, e, ao se avolumarem, evidenciam ser figos verdes. As folhas aparecem depois, e até a árvore ficar totalmente coberta de folhas, os figos estão prontos para serem comidos. Quando uma figueira está totalmente enfolhada, esperamos achar figos nela; doutra forma, não dará mais figos durante aquela estação. A árvore nessa história produziu folhas abundantemente antes da sua estação, e nisso ela excedeu todas as demais figueiras. Sim, mas era uma anomalia da natureza, e não um resultado sadio do crescimento certo. Tais anomalias da natureza ocorrem nas florestas e nas vinhas; e casos semelhantes são encontradiços no mundo moral e espiritual. Certos homens e mulheres parecem muito adiantados por comparação com as pessoas ao seu redor, e nos deixam atônitos por causa das suas virtudes especiais. São melhores do que os melhores; mais excelentes do que os mais excelentes — na aparência, pelo menos. São tão zelosos que o mundo ao seu redor não os esfria: suas almas grandiosas criam um verão para eles mesmos. A vida retrógrada dos santos, e a iniqüidade dos pecadores, não são empecilhos para eles; são por demais vigorosos para serem afetados pelo seu meio-ambiente. São pessoas muito superiores, cobertas de virtudes, assim como essa figueira estava coberta de folhas.

Observe que ultrapassam a regra comum do crescimento. Conforme já lhes contei, a regra é: primeiramente o figo, e depois as folhas da figueira; mas já vimos pessoas que fazem uma profissão de fé antes de terem produzido o mínimo fruto para justificá-la. Gosto de ver nossos amigos jovens, quando crêem em Cristo, comprovar sua fé pela santidade em casa, pela espiritualidade fora de casa, para então virem publicamente confessar sua fé no Senhor Jesus Cristo. Isso parece ser o modo sóbrio e normal de agir. O homem é algo, e depois professa ser aquilo; ele é iluminado, e depois brilha; arrepende-se e crê, e depois confessa seu arrependimento e sua fé da maneira bíblica, mediante o batismo em Cristo. Mas essas pessoas acham desnecessário atender à ninharia da obra no íntimo do coração — ousam omitir a parte mais vital da questão. Freqüentam uma reunião de avivamento, e se declaram salvos, embora não tenham sido renovados no seu coração, nem possuam arrependimento nem fé. Vão para a frente para confessar uma mera emoção. Não têm nada melhor do que uma boa intenção; mas a ostentam como se fosse a própria realidade. Com a velocidade de um raio, o convertido se porta como um mestre. Sem prova nem teste das suas virtudes recémadquiridas, ele se apresenta como exemplo ao seu próximo. Ora, não tenho nada contra a rapidez da conversão; pelo contrário, eu a admiro, se for genuína; mas não posso julgar até ver os frutos e as evidências na vida. Se a mudança do comportamento for nítida e veraz, não me importa quão rapidamente a obra é feita; mas precisamos ver a mudança. Há um calor que leva à fermentação, e uma fermentação que gera azedume e corrupção. Ó caros amigos! nunca pensem que podem pular por cima do fruto e chegar imediatamente às folhas. Não sejam como um construtor que dissesse: "É bobagem gastar mão de obra e matérias abaixo do nível da terra. Os alicerces nunca são vistos por ninguém, posso levantar uma casa em pouquíssimo tempo; quatro paredes e um telhado serão levantados sem demora". Sim; mas quanto tempo durará tal casa? Vale a pena construir uma casa sem alicerces? Se podemos omitir os alicerces, por que não omitirmos a casa inteira? Acaso não há uma tendência, especialmente nestes dias, dos homens serem céticos ou fanáticos no cultivo de uma espiritualidade de tipo cogumelo, o qual brota numa noite e perece numa noite? Não será motivo de ruína se a convicção do pecado for menosprezada, o arrependimento omitido, a fé imitada, o novo nascimento falsificado, e a espiritualidade fingida? Amados, assim não vai! Precisamos ter figos antes de folhas, atos antes de declarações, fé antes do batismo, união com Cristo antes de união com a igreja. Vocês não podem pular por cima dos processos da natureza, nem poderão omitir os processos da graça, a fim de que não aconteça que sua folhagem sem fruto se torne uma maldição sem cura.

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