As exigências de Deus - Spurgeon

As exigências de Deus - Spurgeon

(Parte 1 de 3)

AS EXIGÊNCIAS DE DEUSAS EXIGÊNCIAS DE DEUS Charles Haddon Spurgeon

Digitalização: Levita Digital

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C. H. Spurgeon

"Sabei que o Senhor é Deus: foi ele, e não nós, que nos fez povo seu e ovelhas do seu pasto. Entrai pelas portas dele com louvor, e em seus átrios com hinos; louvai-o e bendizei o seu nome. Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade estende-se de geração a geração." - Salmos 100:3-5

E um truque de satanás tirar nossas mentes das questões mais importantes e essenciais, distraindo-nos com a sugestão de considerações triviais. Quando as melhores bênçãos estão solicitando que as aceitemos, ele trará às nossas mentes as coisas mais insignificantes. Quando Jesus pregava, o diabo tentava distrair a atenção humana através de debates sobre dizimar a hortelã, o endro e o cominho, alargar as franjas dos vestidos, usar filactérios, coar mosquitos, e não sei o que mais. Satanás empregou esse método junto ao poço de Jacó. Quando o nosso Senhor falou com a mulher sobre a água viva, e a salvação de sua alma, o maligno a impeliu a perguntar sobre Gerizim e Sião: "Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve orar".

Satanás ainda opera com essa mesma astúcia.

Conhecendo as sutilezas do inimigo, é nossa responsabilidade superá-lo, deixando de lado as questões triviais e concentrando-nos nas verdades fundamentais, as pedras principais da fé, as realidades da vida eterna, a vitalidade da santidade; e essas nos levam a Deus e a Cristo, longe da sombra de cerimônias e das nuvens de vãs especulações, na direção da rocha eterna e das colinas eternas cujos topos são, aos olhos da fé, resplandecidos com a aurora. Corramos para lá, afastemo-nos das vaidades terrenas, e que o sopro do Espírito nos apresse em direção às realidades do céu, para que demos às coisas essenciais a atenção que lhes é devida.

Para o que, então, fomos criados? Não conheço melhor resposta do que a do Pequeno Catecismo: "O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-10 para sempre" (deleitar-se com Ele). Há grande quantidade de teologia e filosofia nessa simples resposta, que nossos velhos sábios têm colocado na boca de crianças. Se o homem tivesse permanecido como Deus o fez, teria sido seu grande prazer glorificar a Deus; fazer a vontade de Deus seria tão natural para nós quanto respirar, se não tivéssemos caído da perfeição original. As criaturas que permanecem como Deus as fez obedecem à Sua vontade - inconscientemente, eu diria, mas onde há consciência um supremo prazer é acrescentado, o qual torna a consciência e a boa vontade em maiores bênçãos.

Vejam os planetas - eles não são teimosos; ao contrário, giram alegremente nas suas trajetórias predestinadas, porque Deus os ordena a manterem-se nos seus cursos estabelecidos. Olhem as estrelas vigilantes: não fecham seus olhos brilhantes, porém sorriem sobre nós de era em era; aquelas sentinelas do céu não extinguem suas luzes, mas continuam brilhando ininterruptamente, porque Deus disse: "Haja luz", e delas a luz há de vir. Não ouvimos falar de rebelião entre os corpos celestes ou de revolta contra a lei que os mantém nos seus cursos celestiais.

E onde há inteligência, contanto que a inteligência permaneça conforme Deus a tem feito, não há revolta contra a Sua vontade. O poderoso anjo conta como honra voar igual a um relâmpago à ordem do Eterno. Não rebaixa a sua dignidade, não diminui o seu prazer, cumprir as ordens do Altíssimo, respondendo à voz de Sua palavra. Se fôssemos hoje aquilo que deveríamos ser, seria nosso prazer amar, servir e adorar a nosso Deus, e não necessitaríamos de pastores para mover-nos à nossa obrigação prazerosa ou para lembrar-nos das reivindicações de Jeová. Até mesmo a augusta linguagem do nosso texto não seria necessária para nos exortar a adorar, a nos curvar e a saber que Jeová é Deus. Ele nos tem feito, e não nós mesmos, portanto devemos exibir essa verdade em toda partícula do nosso ser. Devido as coisas serem como são, no entanto, precisamos ser chamados de volta ao dever e impelidos à obediência, e agora, com a ajuda do bom Espírito de Deus, submeteremos nossos corações a tal chamado.

1. Sua deidade As exigências (reivindicações) de Deus baseiam-se, primeiramente, na Sua deidade. "Sabei que o Senhor é Deus." Como Matthew Henry disse tão apropriadamente, a ignorância não gera a devoção, porém a ignorância gera a superstição. O verdadeiro conhecimento gera e faz crescer a piedade. Realmente conhecer a deidade de Deus e entender o que significa dizer que Ele é Deus, é ter imprimido sobre nossa alma o mais forte argumento para a obediência e o louvor.

A deidade deu autoridade à primeira lei que foi decretada quando Deus proibiu ao homem tocar no fruto de certa árvore. Por que Adão não podia colher o fruto? Simples e unicamente porque Deus o proibiu de fazê-lo. Se Deus tivesse permitido, teria sido lícito; todavia a proibição de Deus fez com que fosse pecado comer o fruto. Deus não deu nenhuma razão para Adão ao dizer: "porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás". Seu mandamento, desde que Ele era Deus, era a suprema razão, e ter duvidado de Seu direito de decretar a lei teria sido em si plena rebelião. Deus deveria ter sido obedecido simplesmente porque Ele era Deus. Era um caso onde a introdução de um argumento teria implicado indisposição da parte do homem para obedecer. Adão não poderia desejar mais do que saber que tal e tal coisa era a vontade de Deus. Essa mesma verdade da deidade é a base autoritária da lei moral dos dez mandamentos. Do Sinai, não houve outra reivindicação para obediência senão esta: "Eu sou o Senhor teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão". Nessa palavra, "Deus", compreendem-se as razões mais altas, mais importantes e mais justas para o homem render-se totalmente ao serviço divino. Visto que o Senhor é Deus deveríamos servir-Lhe com alegria, e apresentar-nos a Ele com canto.

Foi nessa questão que Deus testou Faraó, e Faraó pode ser visto como uma espécie de representante de todos os inimigos do Senhor. "Assim diz o Senhor Deus de Israel: deixa ir meu povo." Não foi dada nenhuma razão, nenhum argumento, mas simplesmente isto: "Assim diz o Senhor"; ao qual Faraó, entendendo perfeitamente o fundamento sobre o qual Deus estava agindo, respondeu: "Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei?". Então enfrentaram-se um ao outro, Jeová dizendo: "Assim diz o Senhor Deus de Israel: deixa ir meu povo", e Faraó respondendo: "Não conheço o Senhor, nem tão pouco deixarei ir Israel". Sabem como terminou essa refrega. Aquele cântico de Israel ao lado do Mar Vermelho, quando o Senhor dos Exércitos triunfou gloriosamente, foi uma profecia da vitória que certamente será de Deus em todos os conflitos com Suas criaturas, nos quais Seu eterno poder e Sua deidade são assediados.

O argumento derivado da deidade não tem sido usado somente com rebeldes arrogantes mas também com questionadores e argu-mentadores. Observem como fala Paulo. Ele confronta a penosa questão da predestinação, questão que nenhum de nós jamais compreenderá, questão sobre a qual é melhor acreditar do que argüir, e ele topa com isto: "Se tudo acontece como Deus ordena "por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem resiste à sua vontade?" O apóstolo responde simplesmente: "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas?". Não pode haver réplica contra Deus. Se é da Sua vontade, então que assim seja. E certo, é bom porque assim Ele decreta. Ele é Deus? Submetam-se. Se não houvesse nenhum outro argumento, nenhuma outra razão, deixem que a deidade os convença.

Ateus, em períodos de tempestade e tumulto, têm encontrado pouca ajuda na sua filosofia; como Faraó, estiveram prontos a clamar: "Rogai ao Senhor". No entanto, a oscilação da terra, ou o céu em chamas, que significa isso? O toque de Seu dedo e o relance de Seu olho fariam muito mais. Ele toca as colinas, e elas entram em chamas, mas quanto a Ele mesmo, quem poderá entendê-10? Adoremos Sua majestade irresistível, e curvemo-nos diante dEle, pois o Senhor é Deus.

2. Somos criação Sua Essa é a próxima razão pelas exigências do Senhor.

"Foi ele, e não nós, que nos fez." Somos todos o fruto do poder divino. Esse é um fato do qual somos informados por revelação, todavia é também um fato com o qual concorda todo instinto de nossa natureza. Nunca viram uma criança espantar-se ao ouvir pela primeira vez que Deus a fez, pois naquela pequena mente existe um instinto que aceita essa declaração. A teoria de que não somos criados, mas que somos meros desenvolvimentos do materialismo, mostra claramente todos os sinais de ficção infundada. Certas declarações são chamadas de axiomas, porque são verdades indiscutíveis, porém esse é um axioma reverso, pois é uma mentira evidente. Não, não nos tornamos como somos por acaso ou por desenvolvimento. Deus nos fez. Essa crença é a maneira mais fácil de escapar de todas as dificuldades, e além disso, é verdade, e tudo dentro de nós nos diz o mesmo.

Uma vez que o Senhor nos fez, Ele tem direito a nós.

O direito de propriedade que Deus tem no homem é provada além de qualquer argumentação por nós sermos Suas criaturas. O oleiro tem o direito de fazer o vaso para o fim que ele quiser, entretanto ele não tem direito tão absoluto sobre seu barro como Deus tem sobre nós, porque o oleiro não faz o barro; ele faz o vaso do barro, mas o barro já existia no começo. O Senhor, no nosso caso, tem feito o barro do qual nos tem formado, e portanto estamos totalmente a Seu dispor, e devemos servir-Lhe de todo o nosso coração. Ora, ó homem, se alguém cria uma coisa, ele espera usá-la. Se ele cria um instrumento para a sua profissão, ele pretende usá-lo assim como quiser; e se esse instrumento nunca se dobrasse de acordo com a sua vontade, ou fosse útil ao seu propósito, ele o descartaria rapidamente. É assim mesmo com você. O Senhor que o fez tem direito ao seu serviço e à sua obediência. Será que você não reconhecerá Seu direito?

Considerem o que Ele nos fez. Somos criaturas nada insignificantes! Quem, senão Deus, poderia fazer um homem? Rafael pega o lápis na mão e com o toque de mestre cria sobre a tela as formas mais magníficas; e o escultor com seu cinzel e seu buril desenvolve beleza extraordinária; mas aí não há vida, pensamento, intelecto e se você falar não há voz nem resposta. Quão diferente você é da tela e do mármore, visto que no seu interior há um princípio misterioso que o torna semelhante à deidade, pois sua alma pode conhecer, raciocinar, crer, entender e amar. Eu tinha quase chamado a alma de infinita, desde que Deus a tem feito capaz de tais coisas maravilhosas. Assim Ele tem nos confiado grandes capacidades e habilidades, e tem nos elevado a uma alta posição; certamente, então, cabe a nós servir-Lhe com terna lealdade.

Gosto de pensar que o Senhor nos tem feito e de dar-me a Ele por esse motivo, porque enquanto a grandeza do que Ele nos tem feito chama-nos a prestar- Lhe homenagem, até mesmo o lado ínfimo tem também seu direito. Nossas capacidades são finitas, e às vezes nos preocupamos com esse fato, desejando que pudéssemos fazer mais pelo nosso Senhor: entretanto não precisamos temer quando lembramos que Ele nos tem feito, e portanto tem determinado a medida de nossa capacidade.

Conseqüentemente, se formos pouco belos ou se tivermos pequeno talento, não queixemo--nos, mas sirvamos Aquele que nos tem feito o que somos. Se ficarmos maravilhados com uma verdade que não conseguimos entender, se encontrarmos porções da Palavra de Deus que ficam além da nossa compreensão, não queixemo-nos, mas lembremos que Deus poderia nos ter feito entender todas as coisas se assim Ele quisesse, e Ele não tem feito isso, "foi ele, e não nós, que nos fez". Quando outros nos disserem: "Olhem, sua religião está fora de seu alcance, as verdades nas quais vocês acreditam estão além de sua compreensão", responderemos, "Estamos satisfeitos de que seja assim, pois foi Ele, e não nós, que nos fez". Se Ele nos tem feito mais capazes do que outras pessoas, daremo-Lhe ainda mais honra; mas se formos vasos de pequena capacidade não desejaremos ser mais que o nosso Criador quiser que sejamos.

Não consigo imaginar exigência reivindicação) mais elevada que esta para o nosso serviço, que Deus nos tem criado, a não ser que a mesma verdade seja cantada a um oitavo mais elevado. Homens comuns podem cantar: "Foi ele, e não nós, que nos fez"; até mesmo as criaturas irracionais podem concordar com essa confissão. Entretanto, rentes, sua nota é mais alta, porque têm sido eitos duas vezes, nascidos de novo, criados novamente em Cristo Jesus, e podem cantar de maneira mais esplêndida: "Foi ele, e não nós, que nos fez povo seu e ovelhas do seu pasto". criação tem as suas reivindicações, mas a eleição e a redenção elevam-se ainda mais alto; daqueles especialmente favorecidos o Senhor deve receber louvor especial.

3. Seu apascentamento de nós Somos "povo seu e ovelhas do seu pasto". Deus não tem nos deixado e ido embora. Ele não tem nos deixado como a avestruz deixa seus ovos, para serem quebrados pelos pés dos que passam. Ele está cuidando de nós a toda hora; assim como um pastor cuida de seu rebanho. Sobre todos nós Ele exerce um cuidado contínuo, uma providência vigilante, e por isso deveríamos louvá-lO diariamente. Tem sido bem expresso que algumas pessoas têm a visão de Deus como Alguém que, tomando o universo como um relógio, deu-lhe corda, colocou-o debaixo do travesseiro e foi dormir; mas esse não é o caso. O dedo de Deus está sobre toda roda da maquinaria do mundo; o poder de Deus é aquilo que dá força a todas as leis do universo, seriam meras leis sem força se Ele não estivesse poderosamente ativo para todo o sempre. Deus nos dá dia após dia o nosso pão diário. Deus nos veste; Ele dá respiração aos nossos pulmões ofegantes, e sangue aos nossos corações que pulsam; Ele nos mantém vivos, e se Seu poder fosse retirado, cairíamos mortos imediatamente. Portanto, devido ser assim, somos obrigados a prestar serviço diariamente ao nosso grande Pastor.

Vocês são as ovelhas de Sua mão; a vocês a provisão de hora em hora, a vocês a proteção contínua, a vocês o governo sábio e judicioso, a vocês a liderança real através do deserto até os pastos além do Jordão, a vocês o poder que faz fugir o lobo, a vocês a habilidade para encontrar pastos no deserto, a vocês aqueles sublimes confortos que vêm da presença do anjo remidor, e que fluem do próprio fato de que Ele é seu. Portanto, prestem homenagem ao Senhor e louvem-nO. Homens, visto que são homens, adorem ao Senhor que os mantém vivos; mas homens santos, renovados e alimentados dos tesouros da graça divina, sirvam ao seu Deus, rogo-lhes, de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças, pois vocês em particular são as ovelhas de Seu pasto e o povo de Sua mão redentora.

4. O caráter divino A razão para adorar e servir a Deus encontra-se no último versículo do nosso texto: "Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade estende-se de geração a geração". Aí estão três motivos principais para servirmos ao Senhor nosso Deus. O, que todos possam sentir o peso deles!

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