A fantasia em face da realidade tradicional

A fantasia em face da realidade tradicional

A FANTASIA EM FACE DA REALIDADE TRADICIONAL

UMA REBELIÃO CONTRA A HABITUAL NORMALIDADE LITERÁRIA

Tentei, a princípio, contar esta historia a sério. Descobri que era impossível, que ela exigia a paródia e a gargalhada. Foi uma experiência libertadora, que me revelou — só então! — as possibilidades da brincadeira e do humor na literatura.

(Mario Vargas)

É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem saber ver.”

(Gabriel Garcia Marquez)

De acordo com a adaptação cinematográfica de Francisco J. Lombardi, baseada no romance homônimo do escritor peruano MARIO VARGAS LLOSA, “PANTALEÃO E AS VISITADORAS”, e no registro textual de GABRIEL GRACÍA MÁRQUEZ,“A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DE CÂNDIDA ERÉNDIRA E SUA AVÓ DESALMADA”, constata-se que tais histórias possuem como ponto de ligação, a nítida e forte presença da fantasia interferindo no conceito do real, afastando-se daquilo que é convencional, rompendo com a lógica. Apesar de abordarem temas de relevância social, consideram a existência da realidade dos sonhos, crenças e do fantástico. Estabelecer o elo existente nas histórias mencionadas é o objetivo deste trabalho, assim como identificar suas características mais evidentes.

O filme “PANTALEÃO E AS VISITADORAS” conta a história de um oficial do exército, sério, integro, discreto, organizado, competente, rigoroso cumpridor do dever, amante de seu ofício que é designado a atuar na selva amazônica, para organizar um serviço secreto de prostitutas a fim de amenizar as necessidades sexuais soldadescas, além de resolver os casos dos estupros, que estavam ocorrendo na cidade e que eram atribuídos a tais soldados, por se encontrarem isolados da civilização por um período considerável e por isso enlouquecedor. A obra retrata de modo sutil, porém, interessante os problemas sociais comuns a cultura latino-americana contemporânea como a prostituição, corrupção, adultério, analfabetismo, violência sexual e a hipocrisia, funcionando como uma crítica social e política, ainda que repleta de humor. Apesar da história possuir temas presentes e atuais, em certos momentos assume uma tendência calcada no delírio, no fantástico, no absurdo e no deslumbramento, como se percebe na cena em que ocorre o enterro de uma prostituta com homenagens e honras militares. Esta cena pode ser considerada inusitada, surreal, porque se percebe claramente que a história se libertou da lógica e da razão, ultrapassando o senso de consciência diário, logo, possui um toque da estética surrealista, pois aqui, a imaginação se manifesta livremente, sem sofrer limitações críticas, importando apenas o impulso psíquico. A obra surrealista abandona a possibilidade ou o real para adentrar no irreal ou no hipotético, tendo em vista que a emoção mais intensa tem maior probabilidade de se manifestar quando a razão não está no controle. Os artistas surrealistas criam obras abarrotadas de humor, sonhos, utopias e qualquer informação contra a lógica. O pensamento é ditado com a ausência de qualquer restrição da razão.

Da mesma forma, pode ser considerado improvável o fato de o protagonista militar transformar a prostituição em dever pátrio, conferindo às “Visitadoras”, certo prestígio e posição de destaque como operárias “legais”, como servidoras da nação (igualando-as aos trabalhadores do exército) já que proporcionando prazer aos soldados, contribuíam com um melhor desempenho e eficiência na produtividade dos militares, servindo como estímulo, além de solucionar a questão dos crimes de violência sexual. Assim, acrescenta-se que o “Serviço de Visitadoras” pode ser considerado um eufemismo.

Já o texto de GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, escritor considerado um dos principais expoentes do realismo mágico na literatura latino-americana, narra a história de Eréndira, menina de apenas 14 anos, criada por sua avó, a qual a trata como escrava, e que devido às árduas e diárias tarefas domésticas, sem direito ao repouso, acidentalmente provoca um incêndio que destrói a mansão da anciã (que continua a viver no passado, em tempos de esplendor e riqueza) sendo obrigada por esta a se prostituir até conseguir pagar-lhe tal prejuízo financeiro. Percebe-se que a obra se encaixa perfeitamente nos parâmetros da estética do realismo fantástico, uma vez que possui um tom absurdo, fantástico e estranho. Nota-se uma nítida transgressão do cotidiano, sem que haja explicações, tendo em vista que intenciona tratar o estranho como algo comum e rotineiro, isto é, considera o irreal como sendo normal, não explicando como se deu o acontecimento mágico. A lógica é quebrada e o fantástico se instala. Há uma ruptura com a realidade, onde o que é natural aceita ser regido por novas regras. O natural e o sobrenatural, a fantasia e a realidade se misturam, se estabelecendo num clima real causando estranheza àquele que lê, já que a realidade mágica, de sonho, de maravilhoso, adotada por esta escola literária, não se limita à concepção de realidade experimentada e conhecida pelo leitor. Tem a pretensão de dar verossimilhança interna ao fantástico e ao irreal, conferindo ao extraordinário status de algo habitual.

Percebem-se tais características quando Ulisses se apaixona por Eréndira, e se torna capaz de mudar as cores de certos objetos, quando os tocava. O fato de ser capaz de transformar as cores dos objetos feitos de vidro com apenas um toque, além de deixar de comer pão eram considerados comportamentos típicos de quem estava amando, como pode ser comprovado nos trechos abaixo:

(...) Quando Ulisses voltou a casa com os ferros de podar, sua mãe pediu-lhe o medicamento das quatro, que estava numa mesinha próxima. Mal ele lhes tocou, o copo e o frasco mudaram de cor. A seguir tocou por simples travessura numa jarra de cristal que estava na mesa com outros copos, e também a jarra se tornou azul. A sua mãe observou-o enquanto tomava o remédio, e quando teve a certeza de que não era um delírio da sua dor perguntou-lhe (...)”

(...)

- Há quanto tempo te acontece?

- Desde que voltamos do deserto - disse Ulisses, também em guajiro. - É só com as coisas de vidro.

Para o demonstrar, tocou um a seguir aos outros nos copos que estavam na mesa, e todos mudaram de cores diferentes.

- Essas coisas só acontecem por amor - disse a mãe. - Quem é? (...)”

(...)

(...) O rosto da mãe adquiriu de repente uma vivacidade insólita. «Mentira», disse. «É porque estás a padecer de amor, e os que estão assim não podem comer pão. (...)”

Nas passagens em que Ulisses e Eréndira planejam e intencionam praticar o assassinato da velha, também possuem traços de absurdo e fantástico, já que após a materialização de algumas tentativas consideradas letais diante de qualquer situação da normalidade, magicamente, simplesmente e inexplicavelmente não funcionam, como ocorre, por exemplo na parte em que a avó desalmada come uma estimável quantidade de arsênico misturado ao doce, obtendo como resultado final de tal tentativa apenas a calvície da anciã e um princípio de desordem mental, conforme se observa nos fragmentos em destaque:

(...) A avó comeu sozinha todo o resto. Metia os pedaços inteiros na boca e engolia-os sem mastigar, gemendo de gozo e olhando para Ulisses do limbo do seu prazer. Quando não teve mais no seu prato, comeu também o que Ulisses tinha desprezado. Enquanto mastigava o último bocado, apanhava com os dedos e metia na boca as migalhas da toalha.

Tinha comido arsênico bastante para exterminar uma geração de ratazanas. No entanto, tocou piano e cantou até à meia-noite, deitou-se feliz e conseguiu um sono natural. O único indício novo foi um rastro pedregoso na sua respiração.(...)”

(...)

- Está mais viva do que um elefante - exclamou Ulisses. - Não pode ser!

(...)

Eréndira começou a penteá-la, mas, ao passar o pente de desenredar, ficou entre os dentes um molho de cabelos. Mostrou-o, assustada, à avó. Ela examinou-o, tentou arrancar-se outra mecha grande com os dedos, e outro arbusto de cabelos lhe ficou na mão. Deitou-o ao chão e experimentou outra vez, e arrancou uma madeixa maior. Então começou a arrancar-se o cabelo com as duas mãos, morta de riso, atirando os punhados ao ar, com um júbilo incompreensível, até que a cabeça lhe ficou como um coco pelado.(...)”

Constata-se a presença do mágico e do estranho quando o casal consegue atingir seu objetivo, com muita dificuldade (assassinar a velha), tendo em vista mulher ter quase que resistido bravamente às inúmeras facadas desferidas por Ulisses.

(...) Ulisses saltou-lhe em cima e deu-lhe uma facada certeira no peito desnudado. A avó lançou um gemido, atirou-se-lhe em cima e tentou estrangulá-lo com os seus potentes braços de urso.

- Filho da puta - grunhiu. - Demasiado tarde reparo que tens cara de anjo traidor.

Não pôde dizer mais nada, porque Ulisses conseguiu libertar a mão com a faca e assentou-lhe com uma segunda facada nas costas. A avó soltou um gemido recôndito e abraçou com mais força o agressor. Ulisses assentou um terceiro golpe, sem piedade, e um jorro de sangue expulso a alta pressão salpicou-lhe a cara: era um sangue oleoso, brilhante e verde, igual ao mel de menta.

Eréndira apareceu na entrada, com a bandeja na mão, e observou a luta com uma impavidez criminosa.

Grande, monolítica, grunhindo de suor e de raiva, a avó aferrou-se ao corpo de Ulisses. Os seus braços, as suas pernas, até o seu crânio pelado, estavam verdes de sangue. A enorme respiração de fole, transtornada pelos primeiros estertores, ocupava todo o ambiente. Ulisses conseguiu outra vez libertar o braço armado, abriu um talho na barriga, e uma explosão de sangue empapou-o de verde até aos pés. A avó tentou apanhar o ar que já lhe fazia falta para viver e deixou-se cair de bruços. Ulisses soltou-se dos braços exaustos e, sem permitir-se um instante de trégua, assentou no vasto corpo caído a facada final.

(...)

Ulisses permaneceu sentado junto do cadáver, esgotado pela luta, e quanto mais tentava limpar a cara mais a lambuzava com aquela matéria verde e viva que parecia fluir dos seus dedos. Só quando viu sair Eréndira com o colete de ouro tomou consciência do seu estado. (...)”

Pelo exposto, percebe-se o instituto da fantasia como protagonista das obras analisadas, onde o mágico, o fantástico, o estranho, o extraordinário, o absurdo influencia deliciosamente a realidade habitual distanciando-se do convencional, quebrando a tradicional lógica do natural.

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