Os Dois Tributos - A Cesar, A Deus - Natanael Cortez

Os Dois Tributos - A Cesar, A Deus - Natanael Cortez

(Parte 1 de 6)

Letras - Economia - Religião - Sociologia JUBILEU MINISTERIAL 1915 — 18 DE JANEIRO — 1965 REV. NATANAEL CORTEZ

Este livro foi composto e impresso na

Livraria e Gráfica Ediprés, 1965

Rua da Saudade, 299 Recife. Pernambuco

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Profa. Donana Soares Cortez, ajudadora dos primeiros anos do meu ministério. Em sua Memória.

Fortaleza6
Qualidades da Vida8
Pocahontas, a Iracema Virginiana10
Elegias, Milagre de duas Ressurreições12
Elogio de Heráclito Braga14
Os que Sofrem Agradecem21
Notas de Viagem23
Pioneiros do Norte27
Relatório Ministerial34
Seminário Presbiteriano do Norte, Campanha dos Leigos36
A Reforma Agrária38
A Igreja Presbiteriana do Recife Celebra o 80º Aniversário41
Retrato das Secas45
Pastor e Evangelista49
A Igreja Presbiteriana no Ceará5
O Cristianismo no Laboratório da Idade Média60
Os Cinco Sentidos da Campanha do Centenário da IPB6
O Drama do Algodão e sua Repercussão na Vida Econômica do Estado67
Agitado mais uma vez o Problema do Algodão72
Sinfonia da Civilização Econômica7
Bolchevismo e Cristianismo79
Joana d’Arc e a Guerra dos Cem Anos83
O Sermão do Monte, Lei Substantiva da Sociedade Ideal ,87
Absolutismo das Coletividades90
Pontos de Nossa Fé93
Descobrimento do Nordeste96
Meu Padrinho Que Eu Batizei9
As Imagens De Meu Pai101
“Eu Hoje Como Carne de Bode, Inda que Seja Bode Magro"103
“Num Pago Obrêro Fora da Obra”105
“Na Minha Casa se Reza Depois da Comida”107
Eu Com o Padre Cícero109
A Circular 64 de D. Lustosa1
Cartas da The North Brazil Presbyterian Mission113
O Espírito Santo e o Novo Nascimento118
A Bíblia Sagrada, Símbolo da Unidade dos Cristãos121
O Espírito Santo e a Vida Espiritual127
Síntese de Sermões132
“Que Espera o Senhor do Concilio Ecumênico?”138
O Que Outros Disseram140
Resposta ao Tte. Severino Sombra145
A Vitória das Democracias149
A Chave da Bastilha, que Eu Vi152
A Bomba Atômica153
A situação econômica de nosso Estado155
O Presbiterianismo160
Conheça o Nordeste163
Esta é a Palavra da Fé que pregamos166
“Os Direitos do Homem”168
Princeton, a Universidade, o Seminário, o Congresso170
Montreat175
Fundamentando Boatos179
Carta Aberta181

Fortaleza

Fortaleza do primeiro quartel do século X! Como era diferente Fortaleza de 50 mil almas, desta Fortaleza de hoje de 700 mil,

Fortaleza dos 4 quiosques da Praça do Ferreira, desta Fortaleza dos arranha-céus de Severiano Ribeiro, da Sul América, e dos Jereissatis.

Fortaleza calçada de areia, desta Fortaleza calçada de pedras. Fortaleza do bonde de burro do Cel. Solon, desta Fortaleza dos coletivos motorizados.

Fortaleza do acendedor de lampeão, desta Fortaleza eletrificada. Fortaleza do telefone do Dr. José de Ponte, desta Fortaleza do telefone da

Cia. Ericsson.

Fortaleza alimentada pelos comboios de jumentos e burros, desta

Fortaleza alimentada pelos caminhões interestaduais.

Fortaleza que distava do Rio de Janeiro dez dias de transporte marítimo, desta Fortaleza separada do Rio de Janeiro por apenas poucas horas de confortável passeio aéreo.

salpicadas de casas

Fortaleza do Barão de Studart, desta Fortaleza de Raimundo Girão. Fortaleza das praias salpicadas de coqueiros, desta Fortaleza das praias

Como era diferente Fortaleza! Nisto, porém, se identificam a Fortaleza de ontem e a de hoje: Os seus mares ainda são bravios, as águas, verdes, e seus jangadeiros heróis.

E não estranhe a Fortaleza dos 12 clubes elegantes, se eu disser que tenho saudade da Fortaleza bucólica dos 4 quiosques da Praça do Farmacêutico Ferreira. Da Fortaleza que me recebeu, há meio século, com esposa e os dois primogênitos.

Que saudade que tenhodessa Fortaleza matuta de há cinqüenta anos!...

E que saudade que tenho dos amigos, dessa Fortaleza dos idos, de 1915! De duas coisas, porém, não tenho saudade: do camburão sanitário e da seca de 1915 que então assolava o Ceará, calamidade que Raquel de Queiroz gravou em seu romance de estréia no cenário das letras pátrias.

Faz 50 anos que firmei, em Fortaleza, o quartel de minhas atividades, pagando, em boa consciência, tributo a César e a Deus.

Fortaleza de Matias Beck. Fortaleza noiva “desposada do sol”. Fortaleza da minha vida. Fortaleza testemunha do pagamento do meu tributo a César e a Deus...

7 Templo da Igreja Presbiteriana de Fortaleza.

Qualidades da Vida

A vida vale pelos anos vividos, mas não apenas pelo número de anos.

Vale pela qualidade. Mas vale ainda mais quando estes dois objetivos são alcançados: anos e qualidade.

Persuado-me de que alcancei estes goals da vida. Tenho vivido e imprimido qualidade à vida.

Já percorri desertos e oásis durante algumas décadas de anos. O povo de Israel apreciava a vida sob o duplo aspecto de número de anos vividos e da família. Viver muito e criar muitos filhos. Ecles. 6:3.

Posso considerar a vida por prisma ainda mais amplo. Criei filhos, e tenho filhos que não criei. Tenho netos que são filhos duas vezes.

A família imprime o primeiro sentido de qualidade à vida. À esposa, aos filhos que criei, e aos filhos que não criei, mas que são verdadeiros filhos; aos netos, filhos duas vezes, o penhor da minha gratidão pelo sentido de qualidade que tem emprestado à minha vida. As qualidades espirituais valem mais do que os anos. Dos patriarcas bíblicos, Enoque foi o que viveu menos anos, mas Enoque qualificou a vida porque andou com Deus.

Como ministro da Igreja Presbiteriana, pregando e ensinando, escrevendo e presidindo concílios, eu, em boa consciência, tenho andado com Deus como o patriarca da Bíblia. Essas atividades do espírito têm dado sentido específico à minha vida.

“Os Dois Tributos” são a minha prestação de contas, em síntese, das atividades de 50 anos.

“Deus pede estrita conta do meu tempo. É forçoso do meu tempo prestar contas”. Paguei “Tributo a César”, militando no setor das letras, do magistério, da economia, da política e da vida pública,

Paguei “Tributo a Deus”, como ministro da Igreja Presbiteriana do

Brasil, como pastor da Igreja Presbiteriana de Fortaleza, evangelista, presidente de concílios, pregador e doutrinador, servindo-me da palavra falada e da escrita.

“Os Dois Tributos” assinalam, pois, qualidades à minha vida no século e na Igreja.

9 Preito de reconhecimento e gratidão a Nina Cortez, esposa e ajudadora.

Pocahontas, a Iracema Virginiana

Seja coincidência! Não tento explicar! O fato é que ocorrem notáveis afinidades, do ponto de vista histórico, literário e social, entre o Estado de Virgínia, dos Estados Unidos da América do Norte, e o Ceará, dos Estados Unidos do Brasil.

As duas unidades integrantes das grandes Repúblicas do Norte e do Sul entram no palco da história da civilização concomitantemente, na primeira década do século XVII. Ao mesmo tempo em que a bandeira de Pero Coelho chega ao “Siará”, a expedição do Cap. Bartholomew Gosnold explora o rio Shallow que toma o nome de “James River”, em honra do então rei da Inglaterra.

Lá os Ingleses, cá os Portugueses tomam posição contra o inimigo comum, os Franceses que ameaçam fixar seu domínio nas disputadas colônias.

Os mares cearenses, no século XIX, abrigaram belonaves virginianas, dos Confederados, que vinham a estas plagas de Iracema abastecer-se de carvão e víveres. Entre essas unidades de guerra, o Alabama, o Sumter, o Flórida, o Shenandoah. (Hugo Vitor).

Era a guerra de Secessão que se feria entre os Estados do Sul, dos quais Virgínia era cérebro e coração, e a “União”, os “Yankees”, do Norte.

Virgínia, como o Ceará, tem sua Iracema. Pocahontas era filha de Powhatan, poderoso chefe dos índios que dominavam a região das “Tidewaters”, em 1607.

O Cap. John Smith teve papel saliente no grupo expedicionário do

Cap. Bartholomew. Eleito chefe e aclamado por seus companheiros, entra em luta com os índios. Preso, estava para ser executado, quando Pocahontas se arremessa entre ele e o carrasco e implora ao pai, para ela, a vida do prisioneiro. A súplica da princesa é deferida.

Pocahontas está apaixonada pelo inglês, e, convertida ao Cristianismo, se constitui o elo da paz entre os colonizadores e os aborígines.

A princesa dos valorosos Powhatans, entra destarte, na história da grande nação americana, na sua literatura e no seu elenco social.

Smith, enfermo, havia regressado à Pátria, e fora dado como morto. Pocahontas casou com John Bolfe, jovem inglês do mesmo grupo do

Cap. Smith. Viveu em Londres com o nome da Lady Rebeca. Estava firmado, definitivamente, o primeiro estabelecimento inglês nas colônias da América do Norte, graças à influência de Pocahontas.

A descendência da Iracema de Virgínia é numerosa e sobremodo ilustre. Conta-se entre os Bollings, os Robertsons, os Guys, os Eldridges, os Randolphs.

A esposa do Presidente Woodrow Wilson, a segunda, Mrs. Edith

Bolling, traça sua biografia até Pocahontas.

As afinidades e relações entre o Estado de Virgínia e o Ceará se estreitaram ainda mais no século X.

Uma filha do Ceará é desposada por um Randolph, um descendente de

Pocahontas. E eu, agora, ganho a convicção de que tenho um neto que se filia à linhagem de Pocahontas, a princesinha dos Powhatans, a Iracema dos Virginianos, que eu comparo à indiazinha da ficção de José de Alencar. Há apenas um contraste: Pocahontas é a realidade, Iracema é uma criação literária.

O Ceará saúda, por mim, os amigos de Virgínia, no amplexo da fraternidade americana de que podem ser símbolos vivos da história e das letras estas duas indiazinhas — Iracema e Pocahontas, irmanadas na origem e no destino, como que para estreitarem os cearenses aos virginianos.

O casal missionário W. B. Moseley. Chegou a Fortaleza em 1946.

Elegias, Milagre de duas Ressurreições

Ela ressuscitará, dizia o ministro que oficiava no seu funeral. Fria madrugada! Manhã sombria, de tristeza e dor, aquela vivida na casa 181 da rua José Osório, na Madalena!

As lágrimas do esposo, do pai e dos amigos formavam torrente sobre uma fronte congelada e duas mãos cruzadas sobre o corpo inerte contido no esquife negro.

As flores e coroas do último adeus ao ser querido se derramavam em profusão, como adorno da saudade que desabrochava, naquela manhã de luto, nas almas amigas surpresas e desoladas.

Era a partida da esposa, da filha, da amiga, Mais. Ia-se a mãe extremosa, deixando dois inocentes seres na orfandade.

A esposa sonhada, a filha dileta, a amiga sincera, a mãe desvelada. Fria madrugada! Manhã desoladora aquela de 10 de setembro de 1947, na Madalena, Recife!

As palavras do ministro caíram nos corações como um raio de luz de animadora esperança.

“Sursum corda!” Ela apenas dorme! Ela há de ressuscitar! E Hermantine ressuscita agora — a nobre e bela Hermantine — como escreve Álvaro Lins. Volta à vida com os seus admiráveis dotes de espírito, e é restituída ao convívio dos queridos, e dos amigos e admiradores, dos quais se afastara havia seis anos, e que já agora lhe ouvem a voz, e lhe sentem a presença como que da noiva no banquete de suas bodas eternizadas.

Mauro Mota é o taumaturgo do milagre dessa ressurreição de

Hermantine.

Elegias é uma expressão poética e emocional do esmerado artista das letras e do singular filósofo da vida. É um coração às escancaras, forte na adversidade, que sabe amar e sabe sofrer, sempre generoso e sincero.

Cultura e arte, coração e inteligência, o livro todo está cheio de

Hermantine — de sua presença e de sua influência, como bem o acentua seu prefaciador, uma vez testemunha ocular da felicidade do lar que nem a morte destruiu, porque Elegias é a sua continuidade.

O livro de Mauro Mota reflete o milagre da ressurreição do próprio autor. Álvaro Lins afirma que só a morte de Hermantine seria o acontecimento capaz de ressuscitar o poeta em Mauro Mota.

O autor de Elegias é poeta porque nasceu poeta. Mas o poeta estava adormecido. O aguilhão da morte de Hermantine o despertou. O grande escritor é aquele que faz grande o seu tema. Ouvi de Mauro Mota certa vez: “Hermantine desejou tanto ver a minha vitória literária! Mas foi preciso que ela morresse para dar-me o tema”.

E ele soube engrandecer e sublimar o tema que lhe proporcionou merecida retribuição.

O tema que Mauro Mota canta e enaltece em Elegias o consagrou como um dos principais poetas de sua geração, segundo o julgamento autorizado do crítico que lhe prefaciou o livro.

“Elegias”! Milagre de duas ressurreições! Ao poeta redivivo minha admiração pelo que o seu livro é, e pelo que “significa de fidelidade a Hermantine, na vida e na morte”.

Em memória de Hermantine Cortez Mota.

Elogio de Heráclito Braga

A história do Ceará é uma farta epopéia de heróis e de bravos. Rico hagiológio de sábios e beneméritos da Pátria, orgulhece e estimula.

O conde de Affonso Celso enumera entre os fatores da grandeza dum país e dum povo a vastidão territorial, a riqueza do solo, a beleza do céu e dos campos e o seu contingente em homens prestado aos nobilitantes empreendimentos do coração e do cérebro.

No quádruplo conceito do elegante autor de “Porque me ufano de meu

País”, o Brasil é maravilhosamente grande.

O Ceará para com o Brasil se enquadra nas justas proporções do “gigante da América do Sul”, na frase de William Bryan, para com os outros países da civilização ocidental.

Não se aparelha aos maiores estados da Federação, mas também não vai na lista dos menores.

O solo cearense é rico e ubérrimo, a flora e a fauna encerram preciosidades invulgares.

O céu do Ceará, com a sua lua de prata, constitui alta expressão do agradável e do belo, e os campos com as desigualdades regionais e as alternativas de verão e de inverno; do rigor impiedoso das secas e da fartura transbordante, diluvial das chuvas, — oferecem os mais variados e surpreendentes panoramas da expressiva e bela natureza tropical.

Retardado na participação dos benefícios da colonização portuguesa até o século XVII, nunca retardou o Ceará o seu concurso aos movimentos de liberdade e independência que cedo se pronunciaram no Brasil. Jamais negou o sangue dos seus filhos ao ideal da redenção nacional, e igualmente tem concorrido a todos os prélios do pensamento que exalçam as tradições da mentalidade brasília, mesmo no estrangeiro.

Políticos e generais, juristas e guerreiros, estadistas e heróis, poetas e prosadores, jornalistas e aedos, vernaculistas e filólogos, gramáticos e romancistas, clássicos e românticos, cantadores e folcloristas, novelistas e historiadores, mestres e sociólogos, tribunos e filósofos — todos esses gêneros tem produzido a “terra do sol”.

Na revolução pernambucana de 1817, como na Confederação do

Equador de 24; nas pugnas da Independência e nas lutas da República; na campanha da abolição e na guerra do Paraguai; na peleja tenaz contra o rigor das crises climatéricas, como na empresa estóica de desbravar e amainar as terras e as gentes da Amazônia — em todas essas liças do coração, do cérebro e do braço tem o gênio extraordinário do povo cearense conquistado palmas e lauréis.

São cearenses as mais encantadoras e artísticas jóias da literatura brasileira: “O Guarany” e “Iracema”.

E entre as maiores glórias do Ceará intelectual encaixa se o nome respeitado e respeitável de Heráclito de Alencastro Pereira da Graça.

Esplêndido colar de títulos honoríficos redoira e adorna a vida do renomado filho destas plagas, vida que foi toda um exemplo falante de trabalho, de estudos e de consagração às boas causas.

Heráclito Graça é o abalizado cultor das letras jurídicas e é o legislador proficiente. É o criterioso e ponderado governador de províncias e o meticuloso e arguto distribuidor do direito e da justiça. É o jornalista vigoroso e comedido e o estilista apreciado e primoroso. Crítico e versejador, é também vernaculista e filólogo. Ao seu tempo não houve choque de idéia a que se furtasse a sua pena destra de polemista de pulso.

Depois de formado em direito, viveu 57 anos o glorioso cearense. Foi toda uma existência devotada aos livros e à causa pública, à família e à Pátria.

Duas províncias o tiveram à frente de seus destinos políticos e administrativos: a Paraíba e o Ceará. No Congresso Nacional teve assento em várias legislaturas o destemoroso compatriota.

A modéstia e a simplicidade, moldura dos valores reais, guarneceram sempre todo o quadro de sua atuação de lidador percuciente.

Feito na escola da educação da vontade, é o sábio personificado que governa, porque primeiro aprendeu a governar-se.

Político do Império, a República já o apanhou arredio dessa arena de sua mocidade e das competições partidárias, todo entregue, no Rio de Janeiro, aos misteres da advocacia, profissão em que, sempre pobre, se lhe acentuaram as desilusões e decepções da vida.

O Dr. Antônio Sales, iluminado presidente desta Academia, foi íntimo, na Capital Federal, do festejado tio e mestre de Graça Aranha.

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