Criação e técnica as histórias em quadrinhos como recurso metodológico para o ensino de arte - monografia completa

Criação e técnica as histórias em quadrinhos como recurso metodológico para o...

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UBERLÂNDIA-MG 2009

Monografia apresentada ao curso de Educação Artística (Habilitação em Artes Plásticas), da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal de Uberlândia, como requisito para obtenção do título de Licenciatura em Educação Artística: habilitação em Artes Plásticas.

Orientadora: Prof.ª Drª. Heliana Ometto Nardin

UBERLÂNDIA-MG 2009

Prof.ª Drª. Heliana Ometto Nardin Orientadora da Monografia

Prof. ª Drª. Sônia Maria dos Santos Membro da Banca Examinadora

Prof.ª Ms. Eliane de Fátima Vieira Tinoco Membro da Banca Examinadora

A presente monografia visa analisar as histórias em quadrinhos inseridas na sala de aula como recurso metodológico para o ensino de arte, por meio de um mini-curso realizado com esse tema em uma escola estadual de Uberlândia, Minas Gerais, com uma turma de quinto ano do ensino fundamental. O objetivo proposto foi analisar as produções gráficas – HQ’s finais – desenvolvidas durante esse mini-curso, no qual foi necessário o levantamento bibliográfico de autores para que pudessem subsidiar teoricamente o desenvolvimento deste trabalho durante a análise dos dados obtidos. Como procedimento metodológico, a pesquisa se caracteriza como qualitativa, com abordagem etnográfica, pois o objeto de estudo colocado nesta investigação se iniciou na sala de aula, em âmbito escolar, no qual os dados coletados foram obtidos nesse ambiente de estudo com o contato direto do pesquisador com os alunos envolvidos no mini-curso. Além de nos instigar a compreender melhor a relação imagem e texto, podendo constituir uma fonte de atrativos para a imaginação da criança durante o seu processo criativo nas aulas de ensino de arte, procuramos neste trabalho dar ênfase a essa expressão artística e meio de comunicação enquanto recurso metodológico para o ensino de arte, verificando não apenas questões de sua estrutura gráfica, mas também ressaltando as que estivessem relacionadas aos recursos metodológicos dos quais o professor pode ter em mãos para trabalhar com uma educação com qualidade em âmbito escolar, tendo como referência, as histórias em quadrinhos enquanto recurso metodológico, entendidas também como Arte Sequencial.

Palavras-chave: História em quadrinhos; Ensino de Arte; Recurso Metodológico; Minicurso.

5 ABSTRACT

This research seeks to analyze the comics included in the classroom as a methodology for teaching art, through a workshop with this theme in a state school in Uberlandia, Minas Gerais, with a class of fifth year of teaching fundamental to a state school in the city of Uberlandia. The objective was to analyze the graphic productions - HQ's enddeveloped during this workshop, which was necessary in the bibliography of authors so that they could theoretically support the development of this work. The methodology, the research is characterized as qualitative, with an ethnographic approach, because the object placed in this research study was initiated in the classroom in the school context in which the data were obtained in this study environment with direct contact of researchers and students involved in the workshop. Besides tempting us to better understand the image and text, may be a source of attraction for the child's imagination during his creative process in art education classes, we emphasize in this work that artistic expression and media as methodological resource for teaching art, verifying not only issues of their graph structure, but also highlighting that were related to various methodological resources of which the teacher can have on hand to work with quality in the school, as a reference, the stories in comics as a methodological resource, or sequential art.

Keywords: Comics; Teaching art; Methodological procedure; Workshop.

Agradecimentos

À Deus, por estar sempre presente em minha vida, em todos os momentos. À minha família, especialmente a minha mãe CLEURI, irmãos GABRIEL e

CAMILA e avós RUBENS, FLORISBELA e MARIA, por terem sempre acreditado em meus potenciais, durante toda a minha vida de estudos, antes, durante e depois da graduação.

Aos professores HÉLIO DE LIMA e ELIANE DE FÁTIMA TINOCO, pela grande ajuda na elaboração do projeto inicial e paciência que tiveram comigo, durante o desenvolvimento da monografia;

À professora HELIANA OMETTO NARDIN, pelas relevantes e sábias contribuições enquanto orientadora final da monografia;

À professora SÔNIA MARIA DOS SANTOS, por ter me iniciado na pesquisa acadêmica, a qual me fez enriquecer enquanto aluno e pesquisador.

Ao amigo e colega de minicursos e oficinas de quadrinhos MAURÍCIO ALVES DA

COSTA, e a todos os alunos participantes das oficinas e mini-cursos de quadrinhos, realizados ao longo da graduação, e a todas as outras pessoas que participaram direta ou indiretamente na realização deste trabalho, contribuindo para o enriquecimento desta monografia e para a socialização e disseminação de conhecimento na área de Artes e Educação para a nossa sociedade.

Dedico esta monografia a minha mãe, meus irmãos e a minha avó, que sempre acreditaram em meus estudos e também em memória de meu pai, que mesmo não estando presente, sempre acreditou em meus potenciais, e sonhou em ver um filho formado.

A arte diz o indizível; exprime o inexprimível; traduz o intraduzível.

Leonardo Da Vinci

9 LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Imagem de uma obra de Roy Lichenstein. S/D16
Figura 2 – Arte rupestre na caverna de Lascaux, França. Pré-História20
Figura 3 – Hieróglifos egípcios. S/D20
Shazam. Álvaro de Moya, 197721
Figura 5 – Os sete lamentos da virgem. 1496-1497. Albrecht Dürer21

Figura 4 – Cenas de gravura feitas pelo alemão Albrecht Dürer, sobre a paixão de cristo.

Álvaro de Moya, 19772
Figura 7 – Yellow Kidd. Richard Outcault. S/D24
Figura 8 – Yellow Kidd. Richard Outcault. S/D25
Figura 9 – Duas capas de The Spirit. Will Eisner. 199827

Figura 6 – Cenas de uma obra de Goya, retratando momentos de uma guerra civil. Shazam.

1883”Athos Eichler Cardoso. Senado Federal. 200230

Figura 10 – Capa de luxo da obra reeditada “As Aventuras de Nho Quin e Zé Caipora: 1869-

Senado Federal. 200231
Figura 12 – Capa de Tico-Tico. 191231
Figura 13 – Capa de “Pererê”. Ziraldo. 200234
Figura 14 – Capa de Turma da Mônica. Maurício de Sousa. 200735

Figura 1 – As Aventuras de Nho Quin e Zé Caipora: 1869-1883. Athos Eichler Cardoso.

Spiderman. Marvel Comics. 198538

Figura 15 – Exemplo do uso de balões em uma página de quadrinho. The Superman e

197039

Figura 16 – Exemplo de onomatopéias. A Explosão Criativa dos Quadrinhos. Moacy Cirne,

de Ziraldo. A Explosão Criativa dos Quadrinhos. Moacy Cirne, 197039

Figura 17 – Exemplo de onomatopéia em uma página de revista de histórias em quadrinhos

dos Quadrinhos. Moacy Cirne, 197040

Figura 18 – Exemplo de requadros nos quadrinhos de Charles Schulz. A Explosão Criativa

em Quadrinhos. Zilda Anselmo, 197040

Figura 19 – Exemplo de cartum, de um personagem criado por Mauricio de Sousa. Histórias

no Brasil: teoria e prática. Flavio Calazans, 199741
Figura 21 – Exemplo de caricatura. Honoré Daumier. S/D42

Figura 20 – Charge retratando uma obra de Francisco de Goya. As Histórias em quadrinhos

200943

Figura 23 – Ritmo visual em uma página de quadrinhos. The Superman. Marvel Comics.

Marvel Comics. S/D4

Figura 24 – Exemplo da utilização de reticula em uma página de quadrinho. The Superman.

Hulk e X-men. Marvel Comics. 20074

Figura 25 – Exemplo de utilização da calha (espaço em branco) entre os quadros na página.

McDaniel. Marvel Comics e D.C. Comics. 199845
Figura 27 – Exemplo de hachura em uma HQ. Batman. Neil Gaiman. D.C. Comics. 200946

Figura 26 – Exemplo de sangria em uma página de HQ. Demolidor e Batman. Chichester e

199746

Figura 28 – Exemplo de linhas de movimento. Samurai X. Nobuhiro Watsuki.

Os Mutantes. Marvel Comics. 200947

Figura 29 – Exemplo de enquadramento em uma página de história em quadrinho.

S/D48
Figura 31 – Exemplo de rafe. Batman. Neil Gaiman. 200948

Figura 30 – Exemplo de letreiramento nos balões. Asterix. Abert Uderzo.

Angelo Agostini. 200249
Figura 3 – Exemplo de layout. Batman. Neil Gaiman. 200949

Figura 32 – Exemplo de diagramação de uma página de HQ.

D.C. Comics. S/D50

Figura 34 – Exemplo de quadrinho para adultos: Sandman. Neil Gaiman.

Jornal Folha de São Paulo, 6 de Abril de 200950

Figura 35 – Exemplo de tira em quadrinho. Garfield. Jim Davis.

McDaniel. Marvel Comics e D.C. Comics. 199850
Figura 37 – Imagem da sala de aula69

Figura 36 – Exemplo de Legenda em uma página de HQ. Demolidor e Batman. Chichester e

expostos na sala de aula70
Figura 39 – Imagem de aluno fazendo desenho de personagem70
Figura 40 – Imagem de aluno produzindo a história final71
Figura 41 – Entrega dos certificados aos alunos73

Figura 38 – Imagem de algumas obras de artistas da história da arte

na escola73
Figura 43 – Exposição dos alunos74
Figura 4 – História final produzida por um grupo de alunos78
Figura 45 – História final produzida por um grupo de alunos81
Figura 47 – Esboço de personagem com características feito por um aluno95

12 LISTA DE TABELAS

13 SUMÁRIO

1.1 Questões que nos levam a enveredar por este caminho14

CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 2: MAPEAMENTO TÉORICO

de imagens19
2.2 A história dos quadrinhos no Brasil30
2.3 Os quadrinhos e os meios de comunicação35
2.4 Termos característicos das histórias em quadrinhos: elementos específicos37
2.5 A história da Educação em Arte: a imagem no ensino de arte51
2.6 O ensino de arte no Brasil: as tendências pedagógicas para este ensino60

2.1 A história das histórias em quadrinhos: a arte de contar história por meio da sequência

3.1 O procedimento metodológico64
3.2 Os objetivos propostos6

CAPÍTULO 3: A TRAJETÓRIA DE UMA PESQUISA

4.1 O relato de experiência68
4.2 As análises das produções gráficas dos alunos: as histórias produzidas75
CONSIDERAÇÕES FINAIS84
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS86

1. INTRODUÇÃO 1.2. Questões que nos levam a enveredar por este caminho

Ao longo de minha trajetória acadêmica, venho tendo contato com pesquisas acerca da História da Educação e Pesquisa em Artes Visuais, companheiras fundamentais para o amadurecimento de ideias que foram se desenvolvendo a partir do interesse em me tornar pesquisador, ainda durante a graduação.

Esse interesse surgiu quando comecei a ter contato, enquanto aluno de iniciação científica, com a professora Drª. Sônia Maria dos Santos, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, com o intuito de iniciar-me em pesquisas acadêmicas sobre as histórias em quadrinhos. Porém, devido ao fato de não ser esta, exatamente, a linha de pesquisa de investigação da referida professora, mas sim ser sobre historiografia e história da educação, e após sugestão da mesma com larga experiência acadêmica nessa área, optei então em trabalhar com alfabetização, impressos didáticos e imagens no ensino de arte. A minha formação inicial sendo em Artes Visuais, o interessante seria intercalar informações e experiências dessas áreas que pudessem contribuir para a construção de conhecimento.

Assim, atuando e desenvolvendo pesquisas desde o ano de 2005 com o tema Arte

Sequencial - histórias em quadrinhos e, em especial, realizando oficinas e minicursos de quadrinhos na Universidade Federal de Uberlândia e em escolas municipais1 e estaduais2 dessa mesma cidade, venho observando que esse tema tem despertado o interesse de diversos alunos e professores do próprio curso de Artes Visuais e também de outras áreas do conhecimento, como história, pedagogia, psicologia e publicidade, que veem nos quadrinhos, uma forma de arte e de comunicação bastante profícua.

Ao estudar sobre quadrinhos na graduação, comecei a participar de eventos científicos das áreas da educação e artes, por meio de apresentação de trabalhos3 e como ministrante de oficinas e minicursos sobre a linguagem e produção de histórias em quadrinhos, com o intuito de estudar profundamente a sua estrutura gráfica e a relação que este meio artístico poderia ter quando utilizado na sala de aula, enquanto recurso metodológico, contribuindo para a disseminação e produção de conhecimento para as Artes Visuais e educação. Foi neste momento que tive contato com outros alunos da graduação

1 Escola Municipal Professor Otávio Batista Coelho Filho - Universidade da Criança, localizada na cidade de Uberlândia, Minas Gerais. 2 Escola Estadual Joaquim Saraiva, localizada na cidade de Uberlândia, Minas Gerais.

3 ARAÚJO, Gustavo Cunha. As histórias em quadrinhos em oficinas na universidade federal de Uberlândia:

linguagem e produção. In: Anais IV Semana do Servidor e V Semana Acadêmica da Universidade Federal de Uberlândia. 2008, Uberlândia: EDUFU, 2008. 1 CD-ROOM.

envolvidos com estudos e produção de quadrinhos, despertando ainda mais o interesse em investigar essa linguagem artística.

A intenção em aprofundar esse tema foi intensificado pelos constantes estudos realizados por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Uberlândia e por um professor4 da rede municipal e estadual de ensino dessa cidade, que focam o tema Arte Sequencial em suas pesquisas5 e, por meio do interesse de alunos que participaram de oficinas e minicursos, que abordaram tal tema realizado ao longo dos últimos três anos nessa mesma instituição e em escolas estaduais e municipais da cidade. Além disso, ao investigar as histórias em quadrinhos, estaremos divulgando a pesquisa à comunidade acadêmica e a sociedade, disseminando e socializando a produção de conhecimento.

Desde a antiguidade, a arte ocupa papel relevante na vida das pessoas e na sociedade em geral, como modo de manifestação expressiva e de comunicação, além de promover a interação entre os indivíduos com o meio social em que estão inseridos, proporcionando-lhes experiências individuais e coletivas das mais diversas, importantes e necessárias para a socialização do ser humano na sociedade. A arte é tão importante para a vida das pessoas, que Barbosa (1991, p.27) é clara em suas palavras ao afirmar que “[...] se a arte não fosse importante não existiria desde o tempo das cavernas, resistindo a todas as tentativas de menosprezo”.

Diante disso, as histórias em quadrinhos, bem como os cartuns,6 as charges7 e as caricaturas8 são veiculadas constantemente pela imprensa escrita, tal como jornais, revistas, e até na internet. Nesse sentido, vem dia após dia despertando o interesse e a curiosidade de historiadores, sociólogos, arte-educadores, estudantes, comunicadores sociais e uma série de outras profissões, que veem nela uma forma de comunicação e artística com grandes potenciais.

Entendemos por mais que os quadrinhos tenham passado por algum tipo de obstáculo9 , no que diz respeito especificamente a sua aceitação como instrumento didático, a sua inserção no circuito artístico e escolar só ocorreu devido à influência de pessoas

4 Evânio Bezerra da Costa (Jimmy Rus), graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia.

5 ARAÚJO, Gustavo Cunha. As histórias em quadrinhos na escola: possibilidades de um recurso didático- pedagógico. In: Anais 11ª Reunião Anual de Ciência. 2007, Uberlândia: Editora UNITRI, 2007. 1 CD-ROOM. 6 É uma narrativa humorística, expressa por meio da caricatura e normalmente destinada à publicação de impressos de grande veiculação popular, como jornais e revistas. 7 É um cartum cujo objetivo é a crítica humorística imediata de um fato ou acontecimento específico, em geral, de natureza política. 8 Desenhos que visam representar algum personagem ou pessoa de conhecimento popular com traços humorísticos. 9 As histórias em quadrinhos seriam perniciosas quanto ao seu conteúdo e influenciariam negativamente as crianças na escola – afirmação essa sem fundamentos científicos (ABRAHÃO, 1977 apud MOYA, 1977).

respeitadas no mundo das artes como o americano Roy Lichenstein, artista da pop art10 , em meados do século 20, ter utilizado a estrutura gráfica dos quadrinhos em suas obras de arte, (LUYTEN, 2005 e VERGUEIRO, 2005), mas, o que não fez com que esta forma de expressão fosse respeitada, inicialmente, na escola, uma vez que era bastante utilizada pela Indústria Cultural.

[...] por meio de obras de arte de Roy Lichteinstein, que se inspirou nas histórias em quadrinhos para suas pinturas, o termo pop art passa a ser conhecido e traz sentido de que a arte também tende a seguir o que é transmitido pelos meios de comunicação e pela publicidade, além de se tornar popular. Dessa maneira, as histórias em quadrinhos ganharam o status de arte (LUYTEN, 2005, p. 07).

Fig. 1 – Imagem de uma obra de Roy Lichenstein. S/D. Disponível em >w.universohq.com< (acesso em 25 de maio de 2009).

Sabe-se que esta forma de arte – história sequencial – e de expressão já existia desde pinturas ou desenhos realizados pelo homem pré-histórico, que representava imagens de animais caçados ou abatidos por esse indivíduo e, que ao longo de nossa história, foram sendo veiculadas de diversas formas e disseminando informações de diferentes naturezas por meio de impressos literários, publicitários e escolares, até chegar à forma de tiras em jornais e revistas de histórias em quadrinhos, que se tornaram grandes veículos de comunicação popular em todo o mundo.

O curso de Artes Visuais tem a possibilidade de nos fornecer subsídios teóricos e práticos para podermos trabalhar melhor a utilização dos quadrinhos como um meio artístico e, como recurso metodológico em sala de aula voltado para o ensino de arte. Isso porque,

10 Movimento artístico surgido nos Estados Unidos nos anos 50/60 do século passado e que tinha como principal característica a utilização de elementos da cultura de massa em obras de artistas e que influenciaram bastante os artistas contemporâneos. (MCCARTHY, 2002).

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