O Homem que Amava os Cachorros  Leonardo Padura

O Homem que Amava os Cachorros Leonardo Padura

(Parte 1 de 7)

Esta premiadíssima e audaciosa obra do cubano Leonardo Padura, traduzida para vários países (como Espanha, Cuba, Argentina, Portugal, França, Inglaterra e Alemanha), é e não é uma ficção. A história é narrada, no ano de 2004, pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava com seus cães, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo. Esse ser obscuro, que Iván passa a denominar “o homem que amava os cachorros”, confia a ele histórias sobre Mercader, um amigo bastante próximo, de quem conhece detalhes íntimos. Diante das descobertas, o narrador reconstrói a trajetória de Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS, e a de Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta que o matou, um personagem sem voz na história e que recebeu, como militante comunista, uma única tarefa: eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações. As duas trajetórias ganham sentido pleno quando Iván projeta sobre elas sua própria experiência na Cuba moderna, seu desenvolvimento intelectual e seu relacionamento com “o homem que amava os cachorros”. A narrativa das histórias entrelaçadas dá o ritmo a uma leitura tensa, influenciada pela experiência de Padura na literatura policial, sob a sombra do final trágico que se aproxima a cada página. “Mesmo para quem não se interessa pelos fatos históricos subjacentes à narrativa de Padura, seu romance impele o leitor a uma tensão permanente em torno dos preparativos para a realização de um crime de repercussões mundiais”, afirma Frei Betto na orelha do livro

Sobre o autor

Nascido em Havana em 1955, Leonardo Padura Fuentes é pósgraduado em Literatura Hispano-Americana, romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema. Ganhou reconhecimento internacional com uma série de romances policiais estrelada pelo detetive Mario Conde, mas foi com O homem que amava os cachorros, publicado originalmente em 2009, que se consolidou deϐinitivamente no mundo literário. Traduzida para vários países (como Espanha, Portugal, França, Estados Unidos e Alemanha), esta obra é resultado de mais de cinco anos de rigorosa pesquisa histórica e recebeu diversos prêmios internacionais – Prix Initiales (França, 2011), Prix Roger Caillois (França, 2011), Premio de la Critica (Cuba, 2011), XI Prix Carbet de la Caraïbe (2011) e V Premio Francesco Gelmi di Caporiacco (Itália, 2010). Em 2012, Padura recebeu ainda o Premio Nacional de Literatura de Cuba pelo conjunto de sua obra.

Um thriller histórico

Gilberto Maringoni [a]

Este é um livro de ficção que conta fatos acontecidos.

Os personagens tiveram existência real e são apresentados com seus nomes verdadeiros. Trata do isolamento, da perseguição e do assassinato de Leon Trotski (1879-1940), um dos principais líderes da Revolução Russa, por parte de agentes de Joseph Stalin (1879-1953), secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Não é uma tese, mas evidencia ideias que são objeto de encarniçados debates há pelo menos sete décadas.

Os principais protagonistas enfrentaram dilemas muito além de sua vida particular. Encarnaram o complicado choque de tensões políticas, sociais e culturais de um período que vai da Revolução Russa de 1917 até os primeiros meses da Segunda Guerra Mundial (1940). Nesse intervalo de pouco mais de vinte anos, a atual configuração do mundo foi traçada.

Os eventos são conhecidos e já geraram uma quantidade oceânica de testemunhos, reϐlexões, reportagens, análises e digressões teóricas de variados tipos. Há muita coisa na internet e alguns bons documentários no portal YouTube. E pelo menos duas obras ϐiccionais merecem menção. A primeira é o ϐilme O assassinato de Trotski (1972), de Joseph Losey, com Richard Burton no papel principal e Alain Delon como Ramón Mercader, seu algoz. A outra é o livro A segunda morte de Ramón Mercader (1969), de Jorge Semprún, escritor e ex-dirigente do Partido Comunista espanhol.

O narrador ϐictício deste O homem que amava os cachorros, Iván Cárdenas Maturell, num dos capítulos iniciais, tira de sua mochila um livro de

Raymond Chandler (1888-1959), que carregara consigo para a praia. Em seguida, começa a falar de sua predileção pelo autor, que, entre outros, elevara o romance policial ao patamar de literatura séria. Um dos contos daquele volume tem por título “O homem que gostava de cachorros” [b] .

Chandler publicou o conto originalmente em 1936, na revista Black

Mask, impressa em papel barato e marcada por capas que exibiam tipos mal encarados, pistolas ϐlamejantes e moças de generosas curvas. O conto não é o melhor do criador do detetive Philip Marlowe, mas já demonstra sua maestria na produção de altas doses de tensão, diálogos velozes e descrições telegráϐicas. A violenta história mencionada pelo personagem de Leonardo Padura exibe um assassino proϐissional com uma exagerada predileção cinófila.

Tal citação do autor cubano não é gratuita. As duas ϐiguras centrais da trama que se inicia nas próximas páginas têm a mesma preferência. E Padura, ele próprio um competente autor de romances policiais, parece render homenagem a um dos mestres da narrativa contemporânea. Exibe, como Chandler e seus contemporâneos, uma escrita seca, daquelas capazes de segurar o leitor pelo fígado.

Poderíamos chamar esta obra de “thriller histórico”. Nela, a costura narrativa se impõe sobre suas demais qualidades. Embora enfrentamentos políticos emanem de cada linha, suas páginas extraem dessas características dois dramas humanos sufocantes, construídos paulatina e concomitantemente entre si, ao longo dos anos 1920-1930.

Mas Padura não fala apenas de uma perseguição que se arrastou por metade do planeta. Há um terceiro tempo, no qual o autor reϐlete a partir de e sobre Cuba, entre os anos 1970 e 2000. Aqui entram diϐiculdades econômicas, questões de comportamento, êxitos e insuϐiciências de uma revolução tropical e “daquele sonho tão cubano e tão insular de sair da ilha”.

Narrativa e argumento se completam. Versado nas artes do jornalismo e revelando-se um paciente historiador, o autor empreendeu uma exaustiva apuração de eventos, tempos, deslocamentos, opções, hesitações e decisões que embalaram os protagonistas, além de indiretamente se colocar como personagem. Se o leitor conhecer os fatos narrados, tanto melhor. Caso conheça apenas superficialmente o assunto, não há problema. A construção estética de cada ϐigura supre eventuais lacunas históricas que alguém possa ter.

Este não é um livro apenas para iniciados nos incontáveis conϐlitos da esquerda. Antes de tudo, é um livro para quem gosta de boas histórias.

Liev Davidovitch Bronstein e Jaime Ramón Mercader del Río Hernández amavam os cachorros. O primeiro ϐicaria conhecido como Leon Trotski, um dos principais líderes e teóricos da Revolução Russa e organizador do Exército Vermelho. O segundo foi celebrizado como Jacques Mornard Vandendreschs, ou Ramón Mercader (1913-1978). Comunista e combatente na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Mercader tornou-se agente de elite da Narodnyy Komissariat Vnutrennikh Del (NKVD), ou Comissariado do Povo para Assuntos Internos. Em bom português, a polícia política do Estado soviético. O encontro desses dois homens resultou num dos mais brutais e emblemáticos crimes políticos do século X.

Há um terceiro ator no proscênio, quase invisível ao longo dos capítulos. Trata-se de Iossif Vissarionovitch Djugashvili, que entraria para a história com o nome de Joseph Stalin e seria, por três décadas, o senhor absoluto da União Soviética, além de principal líder do que se convencionou chamar de movimento comunista internacional.

O planejamento do assassinato de Trotski envolveu o alto comando do

Estado soviético e uma intrincada operação secreta. Pavel Anatolievich Sudoplatov (1907-1996), chefe do departamento de missões especiais da NKVD e responsável por dirigir a ação, relata em suas memórias uma reunião da qual participou no Kremlin, em março de 1939. Estavam presentes Stalin, Lavrenti Beria (1899-1953), o temido chefe da NKVD, e Sudoplatov. A certa altura, o secretário-geral pede a palavra: “Trotski deve ser eliminado dentro de um ano, antes que a guerra inevitavelmente seja

Para Sudoplatov, “Trotski e seus seguidores eram um desaϐio signiϐicativo para a União Soviética, competindo conosco para ver quem seria a vanguarda da revolução mundial” [2] .

As palavras do ex-chefe de missões especiais da NKVD parecem um tanto exageradas, se olharmos as dimensões efetivas do trotskismo à época. A IV Internacional, articulação lançada em 1935 para se contrapor à “linha justa” emanada de Moscou, fracassara [3] . A liderança de

Trotski não ganhara as massas e era reconhecida apenas por pequenos círculos intelectuais. A grande imprensa dos Estados Unidos abria espaço para Trotski na esperança de vê-lo atacando a União Soviética.

Isaac Deutscher, o principal biógrafo do ex-comandante do Exército

Vermelho e um assumido simpatizante de suas convicções, lembra que em momento algum ele cedeu a tal tentação: “Sob esses aspectos – o de que a União Soviética, por mais ‘burocraticamente deformada’ que estivesse, continuava sendo um Estado dos trabalhadores – Trotski era inϐlexível” [4] .

Mais precisamente, o líder exilado declarou, em 1937, o seguinte: “A União Soviética é uma sociedade intermediária entre o capitalismo e o socialismo, na qual [...] as forças produtivas ainda são insuϐicientes para dar à propriedade do Estado um caráter socialista” [5] .

Sua capacidade de articulação estava emparedada pela perseguição da qual ele e seus seguidores eram vítimas e pela crescente inϐluência da União Soviética entre os partidos comunistas de todo o mundo. O historiador inglês Eric Hobsbawm assinalou que, nessa época, “ser um social-revolucionário cada vez mais signiϐicava ser um seguidor de Lenin e da Revolução de Outubro, e cada vez mais um membro ou seguidor de algum partido comunista alinhado com Moscou” [6] .

Assim, o assassinato de Trotski revela-se um erro ainda mais brutal quando se percebe que o oponente dispunha de poucas forças para seguir lutando.

Não se tratava de um acerto de contas individual. Entre Trotski e Stalin, a contenda estava longe de ser pessoal. Deutsher recorda: “Era como se um imenso conϐlito histórico tivesse se transformado numa controvérsia e num feudo entre dois homens” [7] .

Avaliar que Stalin, Trotski e Ramón Mercader eram fanáticos a serviço de causas autoritárias pode ser cômodo. Porém, é a melhor maneira de se interditar qualquer análise. Fanatismos não se discutem, pois encerram em si mesmos um diagnóstico. Adotar o discurso de que se estaria diante de um grande mal e de que o criador do Exército Vermelho teria sido vítima dessa anomalia leva as reϐlexões para o terreno da moral. E, no terreno da moral, o imoral deve ser eliminado e ponto. Cortem-se as ervas daninhas, e a vida social pode florescer vigorosa e tranquila.

Os anos 1920-1930 foram tempos em que a história se abriu para a disputa de distintos projetos sociais, marcada por um cruzamento de processos históricos que incluíam a crise terminal de quatro grandes impérios – o britânico, o austro-húngaro, o otomano e o russo –, uma guerra fratricida em território europeu (1914-1918), a chegada de uma nova potência hegemônica na cena mundial (os Estados Unidos) e uma hecatombe econômica no centro do sistema, a partir de 1929. É nesse cenário que se deϐlagra a Revolução Russa e que o Estado soviético tenta se firmar.

Na década seguinte, a ascensão do nazifascismo e a iminência de uma agressão militar à União Soviética – que acaba se concretizando a partir de 1941– se combinam com uma escalada repressiva interna, que levaria à execução de milhares de militantes, a um número de prisões que excederia a casa do milhão e à montagem de uma situação que não admitia dissidências.

É nesse quadro que se moldam e se solidiϐicam as personalidades políticas de militantes comunistas em todo o planeta, que devotariam a vida à causa da revolução mundial. Uma opção que levará incontáveis ativistas a suplícios indizíveis, em condições de clandestinidade, tortura e morte pelas mãos da direita na Europa, nas Américas e na Ásia.

Nesses enfrentamentos, muitas vezes as nuances políticas seriam apagadas entre defensores de ideias semelhantes, e as opções políticas deveriam ser claras e inequívocas. No interior de cada lado – esquerda e direita –, dissidências eram quase uma heresia.

Do lado da Revolução, Trotski se tornaria o mais destacado dos hereges.

A Rússia pós-Primeira Guerra Mundial e que adentrava nos primeiros anos de governo revolucionário tinha sua economia destroçada. O sistema de transportes estava arruinado e o abastecimento urbano entrara em colapso. No campo, a fome era endêmica, e apenas em 1927 a produção agrícola voltaria aos patamares de 1914. Entre 1921 e 1922, cerca de 5 milhões de pessoas morreram por falta de comida. Três anos de guerra civil e 21 ataques por parte de forças armadas francesas, alemãs, japonesas, norte-americanas e tchecas se somaram ao que restava do exército czarista. O objetivo era derrubar o novo poder.

Planejada para ser a deϐlagradora da luta pelo socialismo no mundo, a

Revolução Russa estava isolada internacionalmente dentro de uma Europa dominada pelo conservadorismo.

Através de uma série de iniciativas urgentes e defensivas – como a

Nova Política Econômica (NEP) –, o governo fez concessões à iniciativa privada e buscou desesperadamente estabilizar seu domínio sobre o território. Apenas em 1922, cinco anos após a tomada do Palácio de Inverno, o poder soviético começou a se estabilizar. Os anos seguintes foram dedicados a aumentar a produção agrícola e combater o cerco externo. Embora o impacto da Revolução tivesse sido signiϐicativo nos movimentos sociais de todo o mundo, a repressão militar por parte da direita sufocou todas as iniciativas transformadoras.

Como lembra Eric Hobsbawm, “A revolução mundial, que justiϐicou a decisão de Lenin de entregar a Rússia ao socialismo, não ocorreu, e, com isso, a Rússia soviética foi comprometida, por uma geração, com um isolamento empobrecido e atrasado” [8] .

A partir da morte de seu principal líder, em 1924, os conϐlitos internos no partido e no governo conheceram um espetacular aumento de voltagem. Em pauta estava a pergunta clássica, que dava título ao livro publicado por Lenin em 1902: o que fazer?

Stalin assumiu naquele mesmo 1924 o controle do Partido Comunista da União Soviética, que então governava uma federação de nacionalidades de 140 milhões de habitantes.

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