A revolução   gramscista  no  Ocidente

A revolução gramscista no Ocidente

(Parte 1 de 9)

A REVOLUÇÃO Gramscista NO OCIDENTE

A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere

ÍNDICE EXPANDIDO (Alexander Gieg) =================================

NOTA INTRODUTÓRIA (Alexander Gieg)01
OBSERVAÇÕES INICIAS (Alexander Gieg)02
CAPA03
LOMBADA03
CONTRA-CAPA03
PÁGINAS INICIAIS03
Página 103
Página 304
Página 404
DEDICATÓRIA05
UMA PEQUENA FÁBULA05
APRESENTAÇÃO06
ÍNDICE SINÓPTICO07
PRÓLOGO - ANTÔNIO GRAMSCI E O GRAMSCISMO08
O GRAMSCISMO10
I. SUPERAÇÃO-CONSERVAÇÃO DO MARXISMO- LENINISMO10
1. Sociedade Civil e Hegemonia ............................................ 1
2. Partido e Estado ....................................................... 14
3. Internacionalismo e Nacionalismo ....................................... 15
4. Luta de Classes e Reformismo ........................................... 16
5. Liberdade e Democracia ................................................. 17
6. À Guisa de Conclusão ................................................... 18
I. CONCEPÇÃO ESTRATÉGICA DE GRAMSCI19
1. Guerra de Movimento e Guerra de Posição ................................ 19
2. Conceito Estratégico de Gramsci ........................................ 20
3. À Guisa de Conclusão ................................................... 23
TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO23
I. FASE ECONÔMICO-CORPORATIVA23
1. A Organização do Partido ............................................... 24
2. Defesa da Democracia ................................................... 25
IV. LUTA PELA HEGEMONIA27
1. O Partido e os Intelectuais Orgânicos .................................. 28
2. Organização das Classes Subalternas .................................... 30
3. Reforma Intelectual e Moral da Sociedade ............................... 31
a) Superação do Senso Comum ............................................. 31
b) A Conscientização Político-Ideológica ................................ 32
c) Formação do Consenso ................................................. 3
4. Neutralização do Aparelho Hegemônico e de Coerção do Grupo Dominante ... 34
5. Ampliação do Estado .................................................... 35
6. À Guisa de Conclusão ................................................... 36
V. FASE ESTATAL37
1. O Moderno Príncipe ..................................................... 38
2. A Crise Orgânica ....................................................... 39
a) Crises Político-Sociais .............................................. 40
b) Crises de Hegemonia ou de Autoridade ................................. 40
c) Crise Institucional ou Crise Orgânica ................................ 41
3. A Tomada do Poder ...................................................... 42
a) A Relação de Forças .................................................. 42
b) Modelos Históricos de Tomada do Poder ................................ 43
1) Levante Armado ..................................................... 4
2) Guerra Civil Revolucionária ........................................ 4
5) Via Pacífica para o Socialismo ou "Etapismo" ....................... 45
6) Rebelião Popular ................................................... 45
c) Braço Armado do Partido .............................................. 46
4. Fundação do Novo Estado ................................................ 47
a) Estado-Classe e o Estado Ético ....................................... 48
b) Imposição da Nova Ordem .............................................. 49
5. Transformações para o Socialismo ....................................... 49
a) As Transformações da Estrutura Econômica ............................. 50
b) As Transformações da Sociedade Civil e do Indivíduo .................. 50
1) Unidade do grupo social dominante .................................. 51
2) Reforma intelectual e moral dos indivíduos ......................... 51
3) A vontade coletiva nacional-popular ................................ 52
c) As Transformações no Sistema Político ................................ 52
6. À Guisa de Conclusão ................................................... 53
EPÍLOGO - A UTOPIA54
1. A Sociedade Comunista5
a) Sociedade Comunista Marxista ........................................... 5
b) Visão Gramsciana da Sociedade Comunista ................................ 56
c) O Desaparecimento do Estado ............................................ 57
2. A Passagem para o Comunismo57
a) Bloco Histórico Concreto ............................................... 58
b) A Catarse .............................................................. 58
3. À Guisa de Conclusão58
POST SCRIPTUM - O GRAMSCISMO NO BRASIL59
a) Partido Comunista Brasileiro e Gramsci60
b) A Constituinte e a República Socialista61
c) Partido Comunista Brasileiro e o Gramscismo62
d) As Esquerdas Brasileiras e o Gramscismo63
1) Partido Comunista do Brasil ............................................ 64
2) Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados ........................ 64
3) Partido Comunista Brasileiro (o novo) .................................. 64
4) Partido Popular Socialista ............................................. 64
5) Partido Socialista Brasileiro .......................................... 64
6) Partido dos Trabalhadores .............................................. 65
7) Partido Democrático Trabalhista ........................................ 65
8) Partido da Social Democracia Brasileira ................................ 65
e) Brasil e a Revolução no Ocidente6
f) Superação do Senso Comum67
g) Neutralização das "Trincheiras" da Burguesia69
h) "Estado Ampliado"72
i) Finalizando73
BIBLIOGRAFIA74
NOTAS DO AUTOR (SÉRGIO AUGUSTO DE AVELLAR COUTINHO)74
NOTAS DE ALEXANDER GIEG76
NOTAS DE EDWARD WOLFF89
NOTAS DE FÁBIO LINS89
NOTAS DE JOAQUIM NETO89
NOTAS DE NIVALDO CORDEIRO90
NOTAS DE THOMAS KORONTAI90
NOTAS DE REFERÊNCIAS90
Complemento: "OUTRA VEZ A 'VIA PACÍFICA'?"93

NOTA INTRODUTÓRIA (Alexander Gieg) ====================================

Caríssimos,

Finalmente recebi de volta minha cópia do "A Revolução Gramscista no Ocidente – A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em Os Cadernos do Cárcere", de Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, ed. Ombro a Ombro, que havia emprestado a conhecidos.

O livro explica passo a passo a estratégia revolucionária de adulteração cultural projetada por Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, e para cada novo conceito introduzido remete às páginas exatas onde estes podem ser encontrados na obra "Os Cadernos do Cárcere", de Antônio Gramsci, trad. Carlos Nelson Coutinho, ed. Civilização Brasileira (se não me engano, 4 volumes).

A partir de agora, sempre que me sobrar um tempinho vou copiar um trecho do livro e enviar para a lista. Isso é violação de direitos autorais? Sim, mas tenho convicção de que o assunto é por demais importante para me preocupar com esses detalhes. Se alguém quiser me processar, sugiro que faça isso *depois* que o risco de entrarmos numa ditadura do proletariado tiver acabado.

Por outro lado, é uma leitura difícil? Sim, e por isso os interessados terão que prestar muita atenção. Quem acha que não consegue, melhor nem tentar.

muito medo

Enfim: quem não conhece, vai conhecer, e tremer. E quem já conhece, vai finalmente entender, e também tremer. Qualquer que seja o caso, preparem-se para ter medo, []'s Alexander Gieg (13/Set/2002) ----------------------------------------------------------------------------------

OBSERVAÇÕES INICIAS (Alexander Gieg) ====================================

Antes de mais nada, gostaria de lembrar que o livro "A Revolução Gramscista no Ocidente: A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere", de Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, Rio de Janeiro: Estandarte Editora E.C. Ltda., 202, 128p., pode ser adquirido com a editora a R$19,0, o que sugiro seja feito por quantos estejam considerando o texto útil. Fone: (21) 2232- 0375. Fax: (21) 2224-1028. E-mail: ombro@ombro.com.br

Informo também que inseri várias notas de rodapé de minha autoria. Estas aparecem ao longo do texto como "(Ax)", onde "A" é a letra A maiúscula mesmo (inicial do meu nome), e "x" é o número da nota, por exemplo, (A1), (A20) etc. No mesmo formato inseri também notas contendo comentários feitos por meus colegas de listas de discussão. Assim:

(Ax) - Alexander Gieg (Ex) - Edward Wolff (Fx) - Fábio Lins (Jx) - Joaquim Neto (Nx) - Nivaldo Cordeiro (Tx) - Thomas Korontai

As demais notas, indicadas por letras minúsculas entre parênteses: (a), (f), (i) etc., são do próprio autor. Todas as notas aparecem ao final do texto em blocos separados independentes para cada autor.

Por fim, ao final do documento a cópia de um artigo do autor originalmente publicado no jornal "Ombro a Ombro" de outubro de 2002 e reproduzido no jornal eletrônico "Mídia Sem Máscara" Ano 1, n.º 4, de 16 de outubro de 2002, de onde o capturei em 17 de novembro de 2002. O artigo apresenta maiores detalhes sobre o modelo etapista de tomada do poder, e analisa sua aplicação ao Brasil contemporâneo.

Sérgio Augusto de Avellar Coutinho

A REVOLUÇÃO Gramscista NO OCIDENTE

A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere

Sergio de A. Coutinho A REVOLUÇÃO Gramscista NO OCIDENTE OMBRO A OMBRO

O grande valor da obra reside no seu ineditismo, pois é o primeiro livro publicado no Brasil que descreve o processo revolucionário concebido pelo italiano Gramsci, para realizar a transição para o socialismo e a tomada do poder, baseadas em os Cadernos do Cárcere.

ISBN 85-85965-04-5 [Código de barras] 9 788585 965044

Página 1 -=-=-=-=

Para adquirir este livro, envie um cheque nominal cruzado, no valor de R$19,0, em favor de Estandarte E ditora E.C.Ltda, Rio de Janeiro, RJ, Cep: 20211-350. Com seus dados pessoais.

E-mail: ombro@ombro.com.br Tel (21) 2232-0375 ou Fax (21) 2224-1028

Página 3 -=-=-=-=

Sérgio Augusto de Avellar Coutinho A REVOLUÇÃO Gramscista NO OCIDENTE

A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere

OMBRO A OMBRO 2002

Página 4 -=-=-=-=

Copyright (c) 2002 by Sergio Augusto de Avellar Coutinho

Capa: Heloísa Coutinho / Jorge Gallindo Gomes Digitação: Simone Paes Leme Editoração eletrônica: Jorge Gallindo Gomes

C871r

Coutinho, Sergio Augusto de Avellar, 1932 - A revolução gramscista no ocidente: a concepção revolucionária de Antonio Gramsci em os Cadernos do Cárcere / Sergio Augusto de Avellar Coutinho, Rio de Janeiro: Estandarte Editora E.C. Ltda, 2002 . 128 p .

Inclui notas
Bibliografia
ISBN 85-85965-04-5
1. Gramsci, Antonio, 1891-1937.
2. Ciência política.
3. Comunismo.
4. Comunismo - Brasil. I.
Título
CDD 320
CDU 32

Estandarte Editora e Empreendimentos Culturais Ltda

Praça da República, 13 / Sala 515 20211-350 / Rio de Janeiro, RJ

Tel (21) 2232-0375, Fax (21) 2224-1028

E-mail: ombro@ombro.com.br - Pedidos diretos ao editor -

Aos intelectuais tradicionais,

JOSÉ SALDANHA FÁBREGA LOUREIRO, que me apresentou Antônio Gramsci e que me iniciou em seu pensamento político;

PAULO CÉSAR DE CASTRO, que me instigou com uma referência à importância da obra de Gramsci;

JOÃO MANOEL SIMCH BROCHADO, que me encorajou intelectual e materialmente a escrever este trabalho,

Certo dia, um grande incêndio irrompeu na floresta e o fogo se alastrou com rapidez.

A bicharada, apavorada e em desabalada carreira, fugia das chamas, em busca de um refúgio.

O sabiá, porém, desesperado pela iminência da destruição do seu ninho, voava repetidas vezes até o rio onde enchia o bico de água e retornava para deixar cair as poucas gotas sobre as labaredas, com risco de se chamuscar.

O macaco, vendo aquele esforço em vão, perguntou ao sabiá com uma certa ironia: – Sabiá, você acha que assim vai apagar o incêndio? E o sabiá respondeu: – Realmente não sei, mas estou certo de estar fazendo a minha parte. ----------------------------------------------------------------------------------

O autor desta pequena fábula me ficou desconhecido; não consegui identificá-lo. A história, a ouvi citada na televisão.

Muito nos apraz em participar da faina que traz à lume a presente obra, de transcendental importância para entendimento do que se passa na atual quadro da vida política nacional.

O autor, Sergio Augusto de Avellar Coutinho, é dono de belo curriculum vitae forjado na constância das lides castrenses, em que pontifica a sensibilidade crítica e a capacidade de análise dos fatos que emolduram a História do Mundo e do Brasil.

Analisa, de forma serena e imparcial, com objetividade e calcado na melhor didática, o pensamento de Antônio Gramsci. Desvenda a estratégia desse inteligente e grande pensador que, na qualidade de membro do Comitê Central do Partido Comunista Italiano, já na década de 1920, mal consolidada a vitoriosa Revolução Comunista de 1917, na Rússia, apontava as falhas em que incidiram Lenine e seus camaradas. Ao mesmo tempo, Antônio Gramsci mostrava as correções dos rumos a serem adotadas para a implantação do Comunismo nas sociedades do tipo "Ocidental".

As idéias de Gramsci, embora seguidas por poucos, na verdade mergulharam num sono letárgico por décadas, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, que marcou o fim do império soviético, vale dizer a Meca do Comunismo marxista-leninista.

O esfacelamento da União Soviética despertou nos neomarxistas as remembranças das lições de Gramsci, motivando-os a colocarem-nas em marcha. E isso está ocorrendo, com incrível velocidade, sem que as elites brasileiras e a própria Nação como um todo, à exceção dos gramscistas, estejam percebendo.

O grande valor da obra reside no seu ineditismo, pois é o primeiro livro publicado no Brasil que descreve o processo revolucionário concebido pelo italiano Gramsci, para realizar a transição para o socialismo e a tomada do poder, baseadas nos Cadernos do Cárcere.

Além de inédito é oportuno porque desmistifica o senso comum modificado de que o comunismo acabou, uma falácia dos que movem as engrenagens de uma *revolução surda em curso*, no Brasil e alhures.

É isso que nos revela a presente obra.

Pedro Schirmer Editor

PRÓLOGO - ANTÔNIO GRAMSCI E O GRAMSCISMO13
I. SUPERAÇÃO-CONSERVAÇÃO DO MARXISMO-LENINISMO19
1. Sociedade Civil e Hegemonia ........................................... 20
2. Partido e Estado ...................................................... 25
3. Internacionalismo e Nacionalismo ...................................... 26
4. Luta de Classes e Reformismo .......................................... 28
5. Liberdade e Democracia ................................................ 29
6. À Guisa de Conclusão .................................................. 32
I. CONCEPÇÃO ESTRATÉGICA DE GRAMSCI3
1. Guerra de Movimento e Guerra de oposição .............................. 3
2. Conceito Estratégico de Gramsci ....................................... 34
3. À Guisa de Conclusão .................................................. 38
I. FASE ECONÔMICO-CORPORATIVA39
1. Organização do Partido ................................................ 40
2. Defesa da Democracia .................................................. 42
IV. LUTA PELA HEGEMONIA45
1. O Partido e os Intelectuais Orgânicos ................................. 47
2. Organização das Classes Subalternas ................................... 50
3. Reforma Intelectual e Moral da Sociedade .............................. 52
4. Neutralização do Aparelho Hegemônico e de Coerção do Grupo Dominante .. 57
5. Ampliação do Estado ................................................... 59
6. À Guisa de Conclusão .................................................. 60
V. FASE ESTATAL63
1. O Moderno Príncipe .................................................... 65
2. A Crise Orgânica ...................................................... 6
3. Tomada do Poder ....................................................... 71
4. Fundação do Novo Estado ............................................... 80
5. Transformações para o Socialismo ...................................... 83
6. À Guisa de Conclusão .................................................. 89
EPÍLOGO - A UTOPIA93
1. A Sociedade Comunista ................................................. 94
2. A Passagem para o Comunismo ........................................... 97
3. À Guisa de Conclusão .................................................. 9
POST SCRIPTUM - O GRAMSCISMO NO BRASIL101
1. O Partido Comunista Brasileiro e Gramsci ............................. 101
2. A Constituinte e a República Socialista .............................. 104
3. O Partido Comunista Brasileiro e o Gramscismo ........................ 105
4. As Esquerdas Brasileiras e o Gramscismo .............................. 107
5. O Brasil e a Revolução no Ocidente ................................... 113
6. Superação do Senso Comum ............................................. 115
7. Neutralização das Trincheiras da Burguesia ........................... 119
8. O Estado Ampliado .................................................... 122
9. Finalizando .......................................................... 124

Antônio Gramsci (1891-1937), marxista e intelectual italiano, foi na sua mocidade socialista revolucionário e membro do Partido Socialista Italiano, no seio do qual fez sua iniciação ideológica. Ingressando no movimento, desde cedo demonstrou especial vocação para a militância intelectual.

Fez-se imediato simpatizante da revolução bolchevista de 1917. Em dezembro de 1920 participou do congresso que constituiu a fração comunista do Partido Socialista Italiano e já em janeiro de 1921, os delegados dessa facção decidiram fundar o Partido Comunista Italiano, Seção Italiana da Internacional Comunista (I Internacional). Gramsci, um dos fundadores, vem a fazer parte do Comitê Central do recém criado partido.

Em outubro de 1922, os fascistas chegam ao poder, Mussolini é nomeado Chefe do Gabinete; conseqüência da "Marcha sobre Roma" e o PCI entra na ilegalidade, ocorrendo a prisão de vários dirigentes do partido; Gramsci se encontrava então em Moscou, escapando de ser detido.

Nos anos de 1923 a 1926, apesar das condições adversas na Itália, Gramsci desenvolveu intensa atividade política no país e na Europa até quando, em novembro de 1926, os fascistas endureceram o regime a pretexto de um alegado atentado contra a vida de Mussolini. Na execução de "Medidas Excepcionais", Gramsci é preso e processado, do que resultou sua condenação a mais de 20 anos de reclusão pelo Tribunal Especial para a Defesa do Estado (Junho de 1928).

Apesar do rigor da Casa Penal de Turi, para onde finalmente fora mandado para cumprimento de pena, o prisioneiro veio a conseguir cela individual (tendo em vista a sua frágil saúde) e recebeu permissão para escrever e fazer leitura regularmente.

A partir dos primeiros meses de 1929, Gramsci começa a redigir suas primeiras notas e apontamentos que vieram a encher, no transcorrer de seis anos, trinta e três cadernos do tipo escolar. Escreveu até 1935, enquanto sua saúde o permitiu.

Não se tratava de um diário, mas de anotações que abrangiam os mais variados assuntos: exercícios de tradução, Filosofia, Sociologia, Política, Pedagogia, Geopolítica, crítica literária e comentários de diversos temas. O trabalho não segue um esquema prévio, ao contrário, os temas são apresentados fragmentariamente e sem seqüência lógica, algumas vezes reescritos ou retomados de forma melhorada e ampliada. Apesar da diversidade das notas, Gramsci guarda grande coerência e manifesta certeza já amadurecida nos seus pontos de vista e conceitos.

O tema mais importante, aliás conteúdo central da matéria dos "Cadernos do Cárcere", é o pensamento político do autor que traz contribuições inéditas e atualizadas ao marxismo e uma concepção pertinente da estratégia de tomada do poder ("transição para o socialismo"). Uma concepção melhor aplicável às sociedades "ocidentais" (países capitalistas, liberal- democratas adiantados) do que a estratégia marxista- leninista vitoriosa na revolução bolchevista da Rússia, país de sociedade do tipo "oriental", com inexpressiva "sociedade civil". Na época, a Revolução Russa se tornara o modelo clássico, dogmático, para a Internacional Comunista.

Esta concepção e estratégia desenvolvidas essencialmente nos Cadernos é o que podemos chamar *Gramscismo* ou, mais abrangentemente, *Marxismo- Gramscismo*. (b)

A redação dos cadernos foi interrompida em 1935, quando o precário estado de saúde de Gramsci se agravou, do que resultou a sua transferência para clínicas médicas onde pôde tratar-se em liberdade condicional. Em abril de 1937, já em fase final de vida, lhe é concedida a plena liberdade, recurso de que se vale o regime fascista para que o líder comunista não viesse a morrer na prisão, tornando-se um mártir. Dois dias depois, efetivamente, morre Antônio Gramsci, deixando uma inestimável herança político-cultural para o movimento comunista internacional, contida nos seus "Cadernos do Cárcere".

Cumprindo a vontade de Gramsci, Tatiana Schucht, sua cunhada e destinatária de sua correspondência no período de prisão, remeteu os Cadernos para Moscou, onde chegaram às mãos de Palmiro Togliati, líder comunista italiano e camarado do autor.

O dirigente italiano examinou detalhadamente o material gramsciano e identificou originalidades discordantes do marxismo-leninismo (e do próprio marxismo), na época assumido como dogma da Internacional Comunista soviética. Mesmo assim, ficaram reconhecidos o seu valor teórico e a conveniência de sua publicação. Mas somente após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Togliati pôde retomar o projeto de publicação dos textos de Gramsci. Deu a eles uma organização temática. Foram finalmente publicados em seis volumes, saídos em seqüência entre 1948 e 1950 ("edição temática" de Togliati), colocando o pensamento de Gramsci à disposição da intelectualidade mundial.

Em 1962, uma nova edição foi projetada pelo Instituto Gramsci, cuja preparação foi dada a Valentino Garratama. Em 1975, o trabalho estava pronto, sendo publicado em quatro volumes. Agora, os trechos foram organizados em sucessão cronológica ("edição crítica" de Garratama).

No Brasil, as primeiras iniciativas para a publicação de uma tradução dos Cadernos do Cárcere têm início em 1962, mas só em 1966 e 1968, foram publicados quatro volumes dos seis da edição temática italiana. Reeditados no final da década de 1970, foi essa publicação que introduziu Gramsci à intelectualidade do país, "uma contribuição muito importante para a formação de um novo espírito revolucionário da esquerda brasileira". (c)

Gramsci redigiu seus cadernos, desenvolvendo os assuntos à medida que vinham à consideração, o que explica a forma fragmentária e sem ordenação dos temas. Freqüentemente, tratava certos aspectos sob aparente forma teórica, generalizando comentários e opiniões que, efetivamente se referiam a conceitos específicos que queria fazer didáticos e doutrinários.

Além disto, o autor usou largamente expressões "criptográficas", ambigüidades, eufemismos e metáforas que tornam, muitas vezes, difícil a tarefa de entendê-lo. Foi um recurso que usou para se furtar à censura carcerária, mas também um deliberado estilo "hermético" que apenas insinua o real significado do pensamento, tornando-se enigmático para o leitor leigo e para o sensor adverso; intencionais contra- inteligência e desinformação. Só os iniciados e os guiados pelos entendidos conseguem perceber todo o alcance e profundidade do pensamento do autor e o real sentido e entendimento das suas teses ideológicas. Aliás, os textos de Gramsci não se destinam aos leigos mas a ele mesmo como exercício solitário e à elite intelectual orgânica (A1) como lição política.

Por outro lado, os comentadores e intérpretes da obra gramsciana geralmente se restringem à discussão de seus fundamentos e conceitos político-ideológicos, isto é, das suas "categorias" -- sociedade civil, hegemonia, consenso, aparelhos voluntários, estado ético, homem coletivo, vontade coletiva, sociedade regulada etc. Esses autores não vão além desse conteúdo conceitual, embora enriquecendo-o com uma linguagem mais atualizada e mais atraente, incluindo termos e expressões, hoje já bastante divulgados como, por exemplo, "transição pacífica para o socialismo", "via democrático-consensual", "socialismo democrático", "pluralismo socialista", "intelectual coletivo", "estado ampliado", "democracia radical" "emancipação das classes subalternas", etc. Não revelam com maior clareza descritiva a atuação e a prática revolucionária que Gramsci propõe e que passa necessariamente pela crise orgânica (institucional), pela "ruptura", pela tomada do poder, pela destruição do estado burguês e fundação do "Estado Classe" (totalitário, "estatolatria") e pela implantação da nova ordem socialista marxista. Assim, o conhecimento da concepção revolucionária gramscista fica incompleto para as pessoas comuns.

(Parte 1 de 9)

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