Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Paulo Francis Diário da corte

ORGANIZAÇÃO E APRESENTAÇÃO Nelson de Sá POSFÁCIO Luiz Felipe Pondé

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Diário da corte / Paulo Francis; organização e apresentação Nelson de Sá; posfácio Luiz Felipe Pondé. - São Paulo: Três Estrelas, 2012.

1. Artigos jornalísticos - Coletâneas 2. Crônicas 3. Francis, Paulo, 1930-1997 4. Jornais - Seções, colunas etc. I. Sá, Nelson de. I. Pondé, Luiz Felipe. II. Título.

Índice para catálogo sistemático: 1. Artigos jornalísticos: Coletâneas 070.442

1. Coletâneas: Artigos jornalísticos070-442

Este livro segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor desde 1º de janeiro de 2009. Editora TRÊS ESTRELAS

Al. Barão de Limeira, 401,6a andar

Texto da Contra-capa Paulo Francis iniciou sua carreira jornalística como crítico de teatro no final dos anos 1950.

Enveredou pelo comentário político na década de 1960, quando atuou na Última Hora e ajudou a criar O Pasquim, marco da imprensa alternativa. A independência intelectual e a ferocidade crítica de seus comentários levaram-no a ser preso quatro vezes pela ditadura militar. Mudou-se para Nova York em 1971 e, quatro anos depois, passou a escrever para a Folha de S.Paulo, sobre os mais variados assuntos: da hegemonia mundial dos EUA ao cinema de Coppola e Woody Allen, da crise do comunismo ao assassinato de John Lennon, dos impasses da redemocratização brasileira à ascensão de Lula no cenário político. Este livro traz os artigos que fizeram de Francis o polemista mais audacioso da história recente da imprensa brasileira. POSFÁCIO DE LUIZ FELIPE PONDÉ

Texto das orelhas “Aos cinquenta anos, sofro do que se chama accidie, um desinteresse por praticamente todos os temas a que dedico minha atenção. Um ceticismo natural, ou que ao menos data dos meus oito anos de idade, se tornou compulsivo e obsessivo. Não acredito em nada, não espero nada, de religião (isso há muito tempo), política, filosofia etc.” Assim Paulo Francis descreveu a si mesmo em 1980.

Ainda que desinteressado “por todos os temas”, não houve assunto relevante que não passasse por sua pena ao longo de quinze anos de trabalho na Folha de S. Paulo, de 1975 a 1990: da política americana no pós-Watergate à literatura de John Updike, da emergência da Aids ao cinema de Woody Allen, da derrocada da URSS ao assassinato de John Lennon.

O ceticismo “compulsivo e obsessivo”, por outro lado, transformou Francis no mais audacioso polemista do país na segunda metade do século X. Sua opinião independente desafiou os ditames ideológicos, desbaratou lugares-comuns da crítica e gerou várias controvérsias, envolvendo a nata da política e da cultura do país, como Roberto Campos, José Guilherme Merquior, Caetano Veloso, e Luiz Inácio Lula da Silva.

Suas posições políticas não deixaram o leitor aquietar-se no consenso. Francis fez um trajeto inesperado: pouco a pouco abandonou seu passado marxista e nacionalista, desenvolveu uma suspeita generalizada pelas ideologias e por fim desembocou no conservadorismo.

Organizado pelo jornalista Nelson de Sá, este livro abarca as diversas dimensões do trabalho de Francis: como crítico erudito da cultura, analista atento da história mundial e americana, implacável observador da política brasileira e satirista impiedoso. São artigos que conservam impressionante vitalidade e interesse.

PAULO FRANCIS (1930-1997), jornalista e escritor, trabalhou em vários jornais, entre eles, Última Hora, O Pasquim, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, onde assinou a coluna “Diário da corte”. É autor de Cabeça de papel, Cabeça de negro, O afeto que se encerra, Filhas do segundo sexo e Carne viva (editora Francis).

NELSON DE SÁ é jornalista da Folha de S. Paulo. Foi crítico de teatro e editor da “Ilustrada”. Em 1987, trabalhou ao lado de Francis em Nova York.

Nelson de Sá

Em 1977, dois anos depois de Paulo Francis estrear como correspondente da Folha de

S.Paulo em Nova York, o embaixador dos Estados Unidos foi recebido em um almoço no jornal.

No final da refeição, abriu o jogo: um artigo do jornalista - naturalmente, vertido para o inglês - havia chegado às mãos de Jimmy Carter, alvo preferencial de Francis à época, e o presidente americano solicitara ao diplomata que transmitisse à Folha seu desagrado com o que lera.

Ouviu como resposta que a Folha não tiraria um articulista que conseguia provocar uma reação da Casa Branca. Francis foi informado do episódio, mostrou-se preocupado, mas recebeu orientação para prosseguir. E o consulado americano passou a recolher diariamente, de madrugada, cada nova edição na alameda Barão de Limeira, sede do jornal, para enviar os textos aos Estados Unidos. Francis havia começado na Folha como colaborador, escrevendo, por exemplo, sobre Pelé no Cosmos ou sobre a CIA desvendada pelo jornalista Seymour Hersh. Mas a cobertura que marcou de fato sua entrada no jornal foi a que fez em Madri, como enviado especial, da longa agonia do ditador Francisco Franco, em 1975. Antes que terminasse o trabalho, ele recebeu uma ligação de Cláudio Abramo, então diretor de redação, e foi contratado. Retornou a Nova York, e os meses e anos seguintes confirmaram que seu principal papel seria o de registrar os impasses do império americano num “Diário da corte”, título que passou a usar eventualmente em sua coluna na “Ilustrada”, a partir do final dos anos 1970 e sobretudo nos anos 1980. “Se dei uma contribuição ao jornalismo brasileiro, foi a de desmistificar os EUA”, resumiria em 1983. * Paulo Francis pisara pela primeira vez em Manhattan duas décadas antes, em 1954, para morar com o pai, funcionário da Esso, num apartamento na rua 5, lado oeste, a poucas quadras do coração da Broadway. Aos 23 anos, era apenas um apaixonado do teatro. Estava distante do jornalismo; seu horizonte era o palco, e seu objetivo, ser ator.

Fora um jovem tímido de classe média no Rio, estudante de colégios internos católicos, muito ligado à mãe. Entrou na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas pouco a frequentou. Aproximou-se do palco pelas mãos de Paschoal Carlos Magno, protagonista do teatro brasileiro moderno por três décadas - e o homem que, ao aceitar o jovem Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn como ator no Teatro do Estudante do Brasil, mudou seu nome para Paulo Francis. “Nome de bailarino de teatro de revista”, segundo o próprio jornalista. Interpretou o frei Lourenço de Romeu e Julieta e outros pequenos papéis, em tumês pelo Norte e Nordeste. Depois de farras e bebedeiras nas madrugadas de Manaus a Recife, acabou dispensado por Paschoal.

Foi ator em outras companhias cariocas, chegando a ser indicado como revelação por

Romeu e Janete, de Jean Anouilh, e partiu para Manhattan. Via todas as peças que conseguia e esperava o New York Times nas bancas para ler as críticas e checar se elas correspondiam a suas preferências; fez até mesmo um curso com o crítico Eric Bentley, na Universidade de Nova York.

Ao retornar ao Rio, dois anos depois, buscou a sorte como diretor no estatal Teatro Nacional de Comédia. Encenou desde George Bernard Shaw até Millôr Fernandes, mas só ganhou algum reconhecimento em setembro de 1957, ao dirigir Pedro Mico, de Antonio Callado, numa montagem sobre favelados com cenários de Oscar Niemeyer. * No mesmo ano, passou a escrever uma coluna de críticas e notas sobre produções teatrais no

Diário Carioca, não muito diferente, na forma, do que faria depois na Folha. Não deixaria mais o jornalismo, “a segunda mais antiga profissão”, dizia.

Na coluna, atacava as revistas decadentes da praça Tiradentes e exaltava Cacilda Becker.

Tinha por referência, de início, o teatro americano de Tennessee Williams e Elia Kazan. Mais tarde, mudou de direção: abriu campanha nacionalista por Gianfrancesco Guarnieri e Flávio Rangel e abraçou Brecht. “Teatro político é o que eu quero”, afirmou.

Em episódio escandaloso, escreveu em outubro de 1958 uma coluna na qual ofendia Tônia

Carrero e “seus colegas de palco”, com frases como “nunca dormimos juntos, que eu me lembre”. Em resposta, foi agredido por Paulo Autran, com uma cusparada, e depois por Adolfo Celi. Francis dizia que a briga com o diretor italiano, que envolveu socos, terminou empatada; outros garantiam que ele apanhou de Celi. A disputa se tornou lendária no teatro brasileiro.

Aqui e ali, nas colunas quase diárias, Francis abordava a obra de George Orwell e Norman

Mailer, escritores que seguiriam como referências para ele por várias décadas. Cansado, descreveu o crítico no Brasil como “um estoico”. Nos últimos anos no Diário Carioca, tratou de política cultural, saudou o Centro Popular de Cultura (CPC) e elogiou o modo como Fidel Castro fazia “a afirmação da liberdade na arte”.

Aos poucos, personagens como João Goulart e Kruschev ganharam sua atenção. Em 1962, trocou de vez o teatro pela política e mudou-se do Diário Carioca para o jornal Última Hora. “Samuel Wainer me deu uma coluna de TV e eu comecei a comentar programas políticos. Usei métodos para criticar políticos como fazia com os atores.” Guiava-se pelo governador Leonel Brizola, não pelo presidente Goulart, que até recebia do jornalista alguns ataques eventuais, a ponto de o janguista Wainer demitir Francis, para em seguida recontratá-lo. Com o golpe militar, passou três anos desempregado.

Foi preso quatro vezes pela ditadura no final da década de 1960, época em que trabalhava para revistas e para o jornal Correio da Manhã, além de colaborar com a Tribuna da Imprensa e o alternativo O Pasquim. Neste último, disputando atenções com os amigos Millôr Fernandes, Henfil e outros, ele passou a adotar a dicção mais coloquial e o humor que o caracterizariam. Começou também a ganhar expressão fora do Rio e junto aos leitores mais jovens. Em 1971, recebeu uma bolsa da Fundação Ford, com duração prevista de quinze meses, e seguiu outra vez para Nova York. * Quatro anos depois, estreou na Folha de S.Paulo, onde ficaria durante uma década e meia, período em que seu personagem ganhou projeção nacional e ajudou a moldar uma geração, assim como o país democrático que emergiria do regime militar.

No pouco espaço que então dedicava ao Brasil, no fim dos anos 1970, Francis defendia o líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, que fora condenado à prisão, algo “digno da Alemanha nazista”, segundo os sindicalistas americanos ouvidos pelo jornalista. No entanto, ele já não vivia o engajamento da juventude. Não propunha a estatização da TV como antes, por exemplo. Dizia ser este seu ideal para sociedades civilizadas, como a britânica, mas não para o restante dos países. Foi a lição que tirou de Watergate, escândalo revelado por um jornal e sustentado por TVS privadas. Em teatro, porém, continuou irredutível. Preferia o palco londrino, subvencionado pelo Estado, o que permitia aos grandes atores não se prostituir em Hollywood. Até o fim, tratou o teatro como exceção, batendo-se, entre outras causas, pelo Oficina a partir de 1980, contra a tentativa de tomada do espaço por Silvio Santos.

Além da crítica à sociedade americana, o socialismo era seu tema obsessivo. Questionava a burocracia soviética, mas via qualidades em Mao Tsé-tung. Apontava a aceitação de facções internas pelo Partido Comunista chinês, diferentemente do que fizera o PC russo após a revolução, como explicação para a sobrevivência do país sem “vastas burocracias”.

De outro lado, ainda no fim da década de 1970 começou a ler e a citar neoconservadores, como Daniel Bell, que proclamavam a vitória do capitalismo e a prosperidade que esse sistema permitiria - embora só para as “nações líderes”, acrescentava Francis. Também registrou sua “suspeita crescente de qualquer Estado”. No entanto, nas memórias O afeto que se encerra, lançadas em 1980 e seu livro mais bem recebido, afirmou: “Aos cinquenta anos, politicamente, continuo, de coração, na esquerda”.

No ano seguinte, tornou-se colaborador da Rede Globo, como comentarista internacional.

Em 1971, havia publicado no Pasquim um ataque furioso a Roberto Marinho, intitulado “Um homem chamado porcaria”, no qual dizia ser “caso de polícia que [seu poder] continue e em expansão”. Em 1981, escreveu que “a Globo está reaprendendo a fazer jornalismo a sério”. *

Sua lenta travessia entre os dois extremos políticos ainda tomaria anos. Cada vez mais voltado para os temas brasileiros, o polemista cruzou a primeira metade da década de 1980 entre ataques - e até mesmo embates ruidosos - contra José Guilherme Merquior e Antonio Cândido, contra Chico Buarque e Caetano Veloso, sem distinguir a cor política do adversário da vez. Parte dos confrontos se devia, antes de tudo, à recepção negativa dos dois romances nos quais ele tanto apostou, Cabeça de papel (1977) e Cabeça de negro (1979).

Para marcar a virada de Francis, a melhor referência é Roberto Campos, seu alvo por dez anos, não faltando sequer insultos. Até que, em fevereiro de 1985, tudo mudou, na coluna “O guerreiro Roberto Campos”. Dizendo que o economista “melhora horrores, em pessoa”, ele se desculpou: “Escrevi coisas brutais sobre Campos. São erradas. Retiro-as”. E acrescentou:

“Cheguei à conclusão de que capitalismo num país rico é opcional. Num país pobre, no tipo de economia inter-relacionada de hoje, a suposta saída que se propõe no Brasil de o Estado assumir e administrar leva à perpetuação do atraso”. Daí por diante, escrevendo sobre o governo Sarney no Brasil ou as reformas de Gorbachev na Rússia, encarnou outro personagem. O novo Francis passou a atacar seguidamente a Petrobras. Tratou Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) com crescente repulsa. De início simpático a Fernando Henrique, com o tempo também o repudiou, dizendo não ver nele “uma pessoa séria”. Terminou próximo de Fernando Collor, “alto, bonito e branco, branco ocidental. E outra imagem do Brasil, com que fui criado, francamente”. Não o abandonou nem depois do sequestro da poupança e da invasão da Folha pela Polícia Federal, dois meses após a posse - eventos que criticou de imediato, para voltar em seguida a defender o presidente.

A campanha de 1989, que o aproximou de Collor e estimulou ataques em série a Lula, já o havia distanciado do jornal. Francis foi questionado pelo primeiro ombudsman, Caio Túlio Costa, e respondeu furiosamente, iniciando uma escalada de confrontos que terminou por envolver o diretor de redação, Otávio Frias Filho. Em 1990, que seria seu último ano na Folha, escreveu que “o mundo acaba, não com uma explosão, mas com um gemido”, citando T. S. Eliot. No final daquele ano, recebeu uma proposta para sair e decidiu deixar a Folha.

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