Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

(Parte 2 de 9)

Dois meses antes de deixar a Folha, descreveu na coluna um episódio de desentendimento com um garçom negro em Nova York, a quem chamou repetidamente de “crioulo”: “Pensei logo numa chibata. Ando pensando muito em chibata”. Não foram muito diferentes os anos seguintes, quando passou a colaborar nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo.

Francis morreu em fevereiro de 1997, de ataque cardíaco, em meio a um processo movido por diretores da Petrobras que ele acusara de ter contas na Suíça. Era casado com a jornalista

Sônia Nolasco. Não deixou filhos. *

Uma nota curta, no meio de um “Diário da corte”, em 1987: “Soube que este jornal instituiu um concurso para meu assistente aqui, em Nova York. O lema é ‘trabalhe com Francis’. Aviso desde já aos candidatos que, entre três e seis da tarde, ladro e mordo”. Francis não latia nem mordia. Fui um de seus assistentes, precedido por José Arbex e seguido por Renata Lo Prete, Fernando Rodrigues, Zeca Camargo, Maria Ester Martinho, Marcelo Calliari e Vitor Paolozzi. Ele era carinhoso, quase paternal. Abria seu apartamento, pagava almoços e jantares em restaurantes caros, chamava para passeios a pé até as livrarias preferidas, introduzia autores.

Era solitário. Ligava de madrugada e começava a falar. Falava sem parar por uma hora, discorria sobre o mundo, o Brasil, como se estivesse testando o que escreveria depois. Por suas contas, publicava nove textos por semana em praticamente todos os cadernos da Folha, sobre variados assuntos. Em quinze anos de jornal, produziu mais de 8 mil artigos. No escritório que mantinha no prédio em que morava, na rua 46 com a Segunda avenida, ele escrevia diretamente no telex, relia uma vez apenas - ou nenhuma - e enviava.

Na seleção dos artigos desta coletânea, todos publicados pela Folha de S.Paulo, o primeiro critério foi tentar ser fiel às diferentes fases de Francis, não impor um olhar nem uma interpretação ao leitor. O segundo foi sublinhar sua trajetória política, da esquerda para a direita. Outro foi reproduzir as polêmicas mais célebres em que se envolveu.

Em 1977, o jornalista escreveu que o único epitáfio que desejava era o seguinte: “Paulo

Francis, 1930-etc., não era um chato”. O objetivo deste livro é lembrar que, ao menos nesse tópico, ele estava certo.

Referindo-se à escolha de convencionais democratas em Iowa, dia 19, Roger Mudd, um dos comentaristas da CBS, declarou: “O importante não é quem ganhe, em números. É quem a imprensa interprete como vencedor”.

É bastante rara essa candura em televisão e se substituirmos imprensa por televisão exclusivamente estaremos mais próximos da realidade. A TV é o principal eleitor americano. E Mudd, o segundo homem da CBS, uma peça-chave desse processo.

Consideremos: cerca de 60 milhões de americanos veem o “jornal das sete”, o jornal nacional, como diríamos no Brasil, com a diferença de que, nos EUA, é internacional, ganhando manchete o que for importante, ponto. São 23 minutos de notícias, sete de comerciais, nas três cadeias, CBS, NBC e ABC, que, no horário “nobre”, de sete às onze da noite, dominam 91% da audiência. Isso exclui mais umas duas horas de noticiário, espalhado pelo dia (o último é à uma da manhã).

É estimado que 70% dos americanos sabem o que se passa no mundo pela TV. A CBS lidera em todas as pesquisas, por 1 ou 2%. Ainda assim, serve de base. Um minuto de comercial custa 80 mil dólares.

É um poder temido, vigiado e exercido, pelos que o possuem, com extrema cautela, TV, nos

EUA, ao contrário da imprensa, precisa de licença para funcionar. Nunca ficou esclarecido se o noticiário de TV está coberto pela primeira emenda da Constituição, que garante à imprensa total liberdade e impede até o Congresso de fazer leis que estabeleçam a censura prévia.

O poder, porém, se faz sentir, nos mínimos detalhes. O ar de tédio de Walter Cronkite, da

CBS, quando anunciava as baixas do Vietnã do Norte, durante a guerra, afirmando, em seguida, que as estatísticas eram de Saigon, valia mil editoriais.

Se Cronkite emitisse opiniões diretamente, notou o presidente Lyndon Johnson, seria o homem mais influente dos EUA. Cronkite, editor e locutor do “jornal das sete”, em 1971, obteve, numa pesquisa, 70% da confiança do público americano, contra 40% do segundo colocado, Richard Nixon, isso, bem entendido, quando Watergate nem existia.

Não é glamouroso ou engomalinado como os locutores da TV brasileira. Escreve (ou reescreve) o que diz. É um respeitável senhor de sessenta anos, que ganha 500 mil dólares ao ano, fora preferência na compra de ações da CBS (stock options) e outros truques legais de driblar o fisco.

A TV derrubou Richard Nixon. Se Watergate ficasse circunscrito à chamada imprensa nacional, New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, The Times e Newsweek (o resto, em imprensa, acreditem, não conta), teria havido uma séria crise política, principalmente porque a Justiça Federal (ou melhor, o juiz John Sirica) resolveu ir ao fundo da questão e o Congresso deu um certo respaldo a Sirica, mas crise superável.

A TV, porém, cobria diariamente, em cerca de quinze minutos (uma eternidade, no vídeo), todos os lados do escândalo. Certo, era noticiário objetivo, como dizem os professores de jornalismo. Mas a simples visibilidade constante da equipe de Nixon e do próprio presidente encurralado é que levara a verdade a todos os cantos dos EUA, a gente que jamais leria o Times ou o Post, considerando-os excessivamente difíceis. E havia a arma letal do videoteipe. Nixon declarava, em Washington: “Eu jamais disse que respeitaria a neutralidade do Camboja”. Pausa. Em seguida, vinha o videoteipe de Nixon, com a mesma cara, o olhar furtivo de quem foi pilhado em flagrante, declarando: “Juro solenemente que respeitaremos a neutralidade do Camboja”. Ler sobre essas coisas não se compara nem de leve a vê-las.

E houve aquela tarde memorável de 1974, em Key Biscayne, num dos palácios de recreação do presidente. A equipe de Nixon tentou usar a TV (todo mundo tenta). Colocou-o contra o céu azul e o mar manso da Flórida, um fundo de filme da Metro. Entrevista ao vivo. Perguntas suaves, de início. Até que Dan Rather, o repórter da CBS na Casa Branca, perguntou alto e bom som: “Como é que o sr. se sente sabendo que 6% dos americanos acham que o sr. não tem hombridade moral para exercer a Presidência dos EUA?”. Câmeras sobre Nixon, que tremeu, titubeou, enfiou a mão nervosamente no bolso, tentou sorrir, perdeu, em síntese, o rebolado.

Naqueles tempos, de Watergate, a audiência de entrevistas presidenciais era de 100 milhões de espectadores. E 100 milhões de americanos viram as investigações do Senado, em que John Dean, durante seis horas, sem interrupção comercial, descreveu o que era a vida na Casa Branca de Nixon.

Lembro que um amigo brasileiro me telefonou. Segurei o telefone, balbuciei algumas incoerências polidas e bati-lhe com o telefone na cara. Afinal, era o julgamento de Luís xvi, em cores, ao vivo, fenômeno jamais visto na história.

Lyndon Johnson também disse que, se a Segunda Guerra tivesse sido coberta em TV, nunca teria terminado. Na do Vietnã, o fator decisivo, na repulsa crescente do povo americano, foi que, toda noite, as violências perpetradas pelos EUA entravam em todos os lares, e com a desvantagem de que o Vietcongue não permitia aos câmeras que cobrissem a cena do outro lado.

Em 1972, as TVS mostraram o candidato favorito Edmund Muskie chorando nas neves de

New Hampshire, ao comentar um editorial de um jornaleco local que lhe insultara a esposa. Homem não chora. No dia seguinte, a candidatura Muskie estava encerrada.

O interessante e profundamente irônico nessa história é que CBS, NBC e ABC abriram departamentos de jornalismo justamente para não ofender as autoridades, ou seja, para se livrar da pecha de meros balcões de secos e molhados, de produtores de enlatados idiotas, de comediotas de Lucille Bali, de “novelas” e coisas assim. Os jornais seriam prova de classe, de serviço público. Nunca foram destinados a ganhar dinheiro. Ganham. E custam caro. O programa de Cronkite sai por 18 milhões de dólares ao ano, rendendo no bruto 48 milhões. E daí, também, a ideia de cobrir as convenções políticas de martelada a martelada, ou seja, tudo que acontece (em 1972, cerca de 36 horas de TV, no último dia indo até as seis da manhã).

Da mesma forma, as três grandes cadeias abrem espaços para lançamentos de foguetes e outros eventos extraordinários. Isso começou com o assassinato de Kennedy, em 1963, em que estiveram no ar três dias, noites inclusive.

Assim imaginavam os proprietários. Quando comissões do Congresso se queixassem da banalidade ou violência da maioria dos programas, desfilariam todas aquelas horas (em que, efetivamente, perdem dinheiro) de “serviço público”. Foram bem-sucedidas. Demais. O “serviço público” se converteu na maior arma política do século. E, pouco a pouco, a TV deixa de ser parasitária. Sempre visada pelos políticos, em geral dava as notícias mais escandalosas, apoiando-se no New York Times ou no Washington Post, os dois jornais mais fortes e intocáveis do país. Hoje, já iniciam as notícias. Um exemplo é a atividade de Daniel Schorr, da CBS, que descobriu vários dos segredos mais vergonhosos da CIA. E Nixon jogou, sem sucesso, o FBI sobre Schorr.

Os meios políticos e outros se preocupam muito com o tema. Já existe a lei do “tempo igual”, que garante o direito de resposta a candidatos quando atacados por outros candidatos.

As TVS a combatem como idiota, lembrando que cobrem tudo que for notícia, enquanto o “tempo igual” as obriga a dar direito de resposta ao candidato vegetariano (há sempre um) à Presidência, se Ronald Reagan, candidato sério, disser que carne é bom para a saúde. Em verdade, isso não passa de desconversa.

A força da TV vem do noticiário, do que seleciona para noticiar. A simples escolha de uma notícia é uma decisão editorial, em TV mais forte que qualquer editorial explícito. Só o Congresso pode conter a TV e, assim mesmo, correndo o risco de ser coibido pela Corte Suprema, por violar a primeira emenda.

O governo Nixon se queixava amargamente que tinha as TVS contra ele. Nixon, como todo chefe de governo, de Washington ao Nepal, não gosta de ser criticado. As esquerdas acusam as TVS de pró-establishment, de não tomarem conhecimento das reivindicações de minorias. Ninguém gosta das TVS, exceto os 6o milhões de americanos que veem o “jornal das sete”.

Uma nota pessoal: sempre achei que a TV deveria ser estatal. Meu modelo: a BBC. Hoje, minha opinião é que deve ser estatal em sociedades civilizadas, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Holanda, por exemplo. No resto, é preferível a iniciativa privada. Se a TV fosse estatal nos EUA,

Richard Nixon teria continuado no poder e os EUA estariam celebrando o bicentenário em estado de semiditadura, na melhor das hipóteses. 20.01.1976

Platão considerava que a arte era um empecilho ao bom funcionamento da República, opinião adotada por todos os totalitários que estabelecem censura, ainda que não tenham o estilo de Platão. Gerald Ford, provavelmente, nem sabe quem é Platão e está longe de ser totalitário, mas aprende, no momento, a lição, a duras penas, na própria carne.

Robert Redford e Dustin Hoffman foram duas das muitas vedetes que fizeram campanha por George McGovern, em 1972. Perderam e não gostaram. Agora, aparecem no filme (produção de Redford) All the President’s Men, {1} baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein, os dois repórteres do Washington Post que projetaram nacionalmente a conspiração de Watergate. Este correspondente viu uma sessão especial (o filme estreará dentro de quatro dias), reservada a jornalistas, num enorme cinema da Broadway. Os jornalistas saíam pelo ladrão. É um bom thriller, com algumas conotações políticas, se bem que não reproduz o livro todo, estacando antes de caracterizada a responsabilidade de Richard Nixon, que fica apenas (fortemente) insinuada.

Os jornalistas riram, particularmente, de uma cena em que o então deputado Gerald Ford “lança” o nome de Richard Nixon na convenção republicana de 1972. Ford exibe a mesma cara compenetrada e o entusiasmo artificial, à la professora primária em aula de cívica, hoje familiar a todo americano.

O filme em cartaz, milhões de pessoas compararão a sinceridade do presidente ao apresentar programas ao país e a sinceridade com que chama Nixon de “grande estadista” - isso é injusto, talvez, pois na convenção, em agosto de 1972, Watergate era apenas uma “insistência” jornalística de Woodward e Bernstein. A vida, porém, é cruel. O público se lembrará de que Ford perdoou Nixon, no escuro. O filme poderá ter uma renda igual à de Tubarão, influirá no voto de muita gente.

O filme não explica Watergate, digo, o começo da história, a invasão de sede democrata por ex-agentes da CIA, a serviço de Nixon. De resto, a maioria dos comentaristas também não explica, preferindo concentrar-se nas ramificações do assalto, que mostraram existir no gabinete de Nixon o potencial de uma ditadura, alicerçada em vasta e abrangente corrupção. Existe, porém, uma fonte, no episódio inicial, que merece análise.

Toda a vida política de Nixon sofreu influência de Howard Hughes, o bilionário que vive escondido do mundo. Em 1960, Drew Pearson, o colunista, descobriu que Hughes “emprestara” 200 mil dólares a Donald Nixon, irmão de Richard, contra um colateral de 13 mil dólares, para que Donald abrisse uma cadeia de hambúrgueres com o nome elegante de Nixonburgers. Pearson denunciou, Nixon perdeu a eleição (para Kennedy), sem que se soubesse quanto o ataque de Pearson havia pesado.

Em 1972, Nixon recebeu de Howard Hughes 100 mil dólares, via o mafioso cubano Bebe Rebozo, confidente de Nixon. Soube-se disso durante a investigação de Watergate, em 1973.

Nixon, claro, “sabia” antes, em 1972, na campanha. E era, então, o chefe (burocrático) do Partido Democrata um certo Larry O’Brien, velho profissional político e irlandês ligado à família Kennedy. O’Brien, entre campanhas, fora relações-públicas de Howard Hughes (embora, à maneira dos empregados de Hughes, não conhecesse sequer o patrão). Nixon temia que O’Brien tivesse documentos que provassem o suborno que apanhara de Hughes. Daí o assalto à sede democrata, em Washington, no escritório de O’Brien, à cata de comprovantes (que não existiam. O’Brien ignorava a “transação”). Não foi, portanto, um “acidente” ou “excesso de zelo”.

Mais tarde, a conspiração se expandiu tanto que o fio da meada foi esquecido. Se não bastasse o filme de Redford, desde 31 de março está em todas as livrarias o último livro de Woodward e Bernstein, The Final Days, {2} os últimos dias do governo Nixon. O preço entre o catálogo de editora e do lançamento pulou de 8 dólares e 95 a 10 e 95, mostrando a lei da oferta e procura em pleno funcionamento. Antes, Newsweek publicara excertos, a revista se esgotando em duas horas, nos EUA. A obra completa deverá vender 1 milhão de exemplares, em “capa dura”, e ninguém sabe quantos milhões na edição de bolso. Watergate continua muito vivo.

Para Ford (e, em última análise, o Partido Republicano) não poderia haver pior notícia. Mais grave do que lermos sobre Nixon bêbado, louco, imprecando contra judeus, italianos, portoriquenhos, negros etc., tentando falsificar provas e procurando refúgio da realidade num mundo de fantasias ou sob a parragem de adulação de alguns lacaios, e o próprio Partido Republicano, que, executando um ou outro líder 0ohn Anderson, de Illinois), continuou dando o benefício da dúvida ao presidente, quando o país inteiro já lhe exigia a cabeça. De março de 1973 a agosto de 1974, os EUA funcionaram praticamente sem governo, ou melhor, conduzidos burocraticamente pelo general Haig (a partir de maio de 1973), ou, em política externa, por Henry Kissinger. O próprio Haig, chefe da Casa Civil, não escondia o desprezo e o asco pelo presidente. À parte a corrupção generalizada, o que fica é uma impressão de infinita sordidez, de todo mundo, inclusive Kissinger (uma lacraia venenosa contra tudo e todos, segundo Woodward e Bernstein).

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