Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

(Parte 3 de 9)

Há momentos em que parecemos num asilo de loucos. Em novembro de 1973, por exemplo, sob pressão do Judiciário e do Congresso, Nixon entregou ao público vários dos famosos tapes, eliminando, antes, a evidência que o inculpava em Watergate. Fez um discurso em tv. Este correspondente viu o show, em companhia de alguns jornalistas americanos. A impressão geral foi a pior possível, instantaneamente. E, no entanto, Woodward e Bernstein nos contam que na Casa Branca, excetuando alguns jovens assessores, a maioria entrou em festejos regados a champanhe, crente de que Watergate fora superado. No dia seguinte, a imprensa desceu o sarrafo em Nixon, Congresso e promotoria especial continuaram exigindo a evidência suprimida. E os tapes dados à luz (o que Kissinger logo percebeu), apesar de insuficientes juridicamente, arruinaram o que ainda restava da reputação de Nixon, tal a vulgaridade, a mesquinharia, a baixeza de linguagem.

O nível “botequim do cais do porto” da Casa Branca de Nixon é ainda tema de conversas aqui. Gente tolerante nota que os políticos, ou qualquer adulto na intimidade, falam assim. É uma meia verdade. É óbvio que pessoas acostumadas à dureza da vida raramente se expressam como Filhas de Maria. Um bom exemplo seria Churchill, que, uma vez, definiu a contribuição da Marinha inglesa à humanidade como “látego, sodomia e rum”. O palavrão é o rotineiro, nas altas esferas. Há, porém, outras coisas. Na conversa de Churchill, ficando num exemplo, há passagens de grandeza, de intelectualidade e de sabedoria. No grupo de Nixon, não. A vileza é a constante.

Ford aparece trêmulo e hesitante, defendendo Nixon quase até o fim, apesar do conselho contrário de seus mais íntimos assessores. A imagem de “presidente acidental” é novamente sublinhada por Woodward e Bernstein. Reagan já a utiliza, com frequência.

Os democratas, quando escolherem o candidato, encontrarão no livro um arsenal infinito para bombardear Ford. Não há escapatória.

Não será difícil mostrar ao eleitorado que os líderes conservadores republicanos de 1968,

Nixon e Agnew, eram gângsteres. Esse papel, o de líderes conservadores, está sendo agora aspirado por Ford e Reagan. E um democrata inteligente saberá até salvar a reputação do conservadorismo autêntico, pois, em verdade, Nixon nem conservador era. Via política exclusivamente em termos de vantagens pessoais. Não há uma única declaração ideológica em toda a obra. Os atores só falam dos próprios interesses, acima ou, no caso, abaixo dos partidos e correntes de pensamento.

Gente boa critica Woodward e Bernstein por terem sido cruéis expondo as intimidades de

Nixon e família. Há momentos, sem dúvida, em que nos constrangemos em participar da vida vazia, vulgar e podre desse pessoal, mas é preciso notar o ménage Nixon e a base da carreira política do patriarca, vantagens pessoais e nada mais.

Logo, o enfoque artístico de Woodward e Bernstein tem valor histórico. Nixon, convém não esquecer, nunca revelou a menor piedade pelas vítimas que fez ao longo de uma carreira montada em vítimas. E é preciso lembrar também que, no auge do sofrimento pessoal, Nixon ordenava o massacre incessante dos camponeses no Vietnã do Norte e Sul.

Filme e livro são uma vingança da arte contra a vida, por assim dizer, já que Woodward,

Bernstein e Redford representam o liberalismo americano, que vence batalhas, mas jamais a guerra. Afinal, depois da desmoralização de Nixon pelos liberais, assumiu o poder Gerald Ford, que, se é um indivíduo limpo de crimes, propõe politicamente o mesmo que o antecessor. E a eleição de 1976, dados os candidatos disponíveis, não oferece alternativa ao gosto dos liberais, Jackson propondo (por elipse) novos Vietnãs, Jimmy Carter fugindo às questões em “Jesus”, Ford

REAFIRMA-SE O ESPÍRITO LIBERAL DE 1776

Os EUA comemoram hoje o bicentenário da Declaração de Independência. A nação que o mundo teme, respeita, inveja, admira ou detesta evolui aos poucos, sendo ao menos argumentável que se consolidou, no sentido moderno do termo, depois da Guerra Civil de 1861- 1865, em que a autonomia dos Estados, uma das premissas básicas da Revolução de 1776, foi substituída pelo poder central, pelo conceito de união indissolúvel.

Essa guerra nos deu muitos mitos, populares até nos EUA, O mais conhecido de todos, naturalmente, que o “Norte”, sob Abraham Lincoln, lutou para emancipar os escravos negros. Lincoln libertou os escravos em 1863, os do Sul, mantendo durante algum tempo a escravidão em territórios favoráveis à união.

Um dos documentos mais sutis e profundos da história norte-americana é o discurso de

Jefferson Davis, presidente dos secessionistas, quando da “revolta”, pois põe a nu a hipocrisia antiescravagista de Lincoln e os interesses econômicos por trás da retórica patriótica e libertária.

A guerra ia incerta. Era constitucional que qualquer Estado se desligasse da união, quando bem entendesse. Estabelecido o recrutamento compulsório, em 1863, houve motins violentos. Um, em Nova York, provocou a morte de mil pessoas. Lincoln deu um molho liberal à luta.

Todo país vive, em parte, de mitos, homens até morrem por mitos, e a justiça da causa sulista e os motivos que levaram Lincoln a proclamar a emancipação não mudam a realidade de libertação dos escravos ou sequer a qualidade da retórica de Lincoln, que recebeu a aprovação do maior homem de letras que o país produziu, Edmund Wilson, cuja obra Patriotic Gore [1962] é indispensável à compreensão dos EUA.

É interessante que os EUA e a URSS sejam os únicos países do mundo criados por intelectuais, em vez de reis, príncipes, padres ou bons burgueses. A Carta de Direitos (os dez primeiros artigos da Constituição) permanece um modelo de libertarismo que sugere ideais sobre-humanos, assim como a visão de mundo leninista, em que “Estado e Revolução” são uma promessa utópica jamais sonhada pelos meros beletristas do gênero, de More a Wells. Entre teoria e prática, há, claro, abismos, mas talvez o impulso de poder e autossuficiência das duas nações se deva, até certo ponto, às origens eminentemente intelectuais. Cessam aí as semelhanças.

A riqueza de 1776, em inspiração liberal para o resto do mundo, da Revolução Francesa (incomparavelmente mais profunda) à busca de soberania no resto das Américas, dispensa comentários. É preciso notar, porém, que as colônias, como eram conhecidos os doze Estados que fundaram os EUA (Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island, Connecticut, Nova York,

Pensilvânia, Nova Jersey, Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia), pouco tinham em comum com o que, hoje, entendemos por “colônias”. Se fiéis à Coroa inglesa, se declararam logo independentes do Parlamento em Londres. Elegiam os próprios governadores-gerais e deputados. Dispunham de uma imprensa livre. Consideravam-se associadas e não dependentes da Inglaterra, o que já é sensível nos documentos existentes sobre

Jamestown, fundada em 1607. A mais famosa, estabelecida entre 1630 e 1642, na Nova Inglaterra, trouxe ao Novo Mundo os chamados puritanos, que viam na terra uma nova Canaã, superior moralmente à “dissoluta” matriz.

Um dos grandes controversistas americanos, Gore Vidal, numa alusão à “caça às feiticeiras” - que permeia a história dos EUA -, nota, ironicamente, que, ao contrário da lenda, os puritanos não foram perseguidos na Inglaterra. Deixaram-na porque a Coroa não permitia que perseguissem o próximo.

E, tão importante, o cerne étnico da colonização jamais possuía a pureza anglo-saxônica, que virou também mito. Os EUA receberam, de início, uma população cosmopolita, holandeses, alemães, anglo-irlandeses (protestantes), franceses (huguenotes), escoceses, suíços, judeus, escandinavos e os esquecidos e subjugados negros. Essa mistura de povos e raças e as dificuldades tremendas que os colonizadores encontraram, tendo de resolvê-las por si próprios, criaram uma consciência especificamente americana.

Não é, portanto, correto pensar que em 1750, quando as divergências entre Londres e colônias começaram a explodir, homens de gênio como George Washington, Thomas Jefferson, George Mason, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin desceram, de súbito, das árvores, armados da filosofia liberal de John Locke e da concepção de Estado de Montesquieu. Seis das maiores universidades do pais, Harvard, Yale, King’s College (Columbia), Princeton, Brown e Dartmouth, são pré-revolucionárias e educaram uma sofisticada classe dirigente “nativa”. No período, publicavam-se mil títulos ao ano, produção que, até hoje, faz inveja a muita nação subdesenvolvida. Esquecido também é que, durante o século XVII até 1763, a França disputou o controle do continente norte-americano, deixando profundas marcas na cultura nacional, até que foi derrotada no Canadá. Nova Orleans, Detroit e Mobile (Alabama) foram colonizações francesas e, mais importante, pela fertilidade, o vale do Ohio. Os colonos sentiram a própria força numa série de combates ferozes, contra franceses aliados aos índios, e partilhavam o comando das tropas com generais ingleses. Beneficiaram-se também da introversão da Inglaterra, de 1640 ao fim do século, um período altamente revolucionário, a era de Cromwell.

Logo, o 1776 foi mais evolução do que revolução. Significativamente, quando a Inglaterra decidiu tratar os colonos como tais, pela primeira vez, taxando-os e tentando confinar-lhes e controlar-lhes o comércio, é que eles se rebelaram.

A Constituição dos vitoriosos, ratificada pelo nono Estado (New Hampshire: nove era o número necessário para que valesse) em 1788, entrou em vigor em 1789. Continha sete artigos. Foi se expandindo ao correr do tempo, estando longe de ser, portanto, o “documento de uma sociedade agrária”, como a apelidou desdenhosamente Richard Nixon. Basta dizer que a Carta de Direitos só recebeu a ratificação de Massachusetts, Geórgia e Connecticut em 1939, às vésperas da Segunda Guerra.

Por trás do liberalismo abrangente havia duas concepções de Estado em conflito. A de

Jefferson, que previa uma “livre associação de Estados”, em que cada homem (branco) fosse senhor de sua terra, culti- vando-a em paz e liberdade. E a de Alexander Hamilton, que propunha um sistema federal centralizado, em suma, os EUA de hoje. Jefferson derrotou Hamilton nas polêmicas da época, da mesma forma que Rosa Luxemburgo bateu Eduard Bernstein no debate entre revolução e reformismo, na Alemanha de 1900. Em outras palavras, o derrotado em teoria estabeleceu a prática. Jefferson, ao assumir a Presidência em 1801, já era hamiltoniano e, no mesmo ano, a incipiente Marinha norte-americana procurava negócios nas costas da África, sob o pretexto de perseguir piratas. Começara a expansão nacional e imperial.

Em cem anos, até 1900, os EUA passaram de uma próspera colônia à maior potência industrial do mundo. A partir da compra da Louisiana (da França), em 1805, não importa qual a fraseologia empregada ou o invólucro autoexculpatório, seja “Doutrina Monroe” (1823) ou “Destino Manifesto” (de criar uma sociedade superior às demais; a concepção original e teocrática, de 1630, traduziu-se sem dificuldade ao mundo material...), o país se tornou imperial. Em 1848, anexou mil milhas quadradas do México (Utah, Nevada, Califórnia, Arizona, Colorado Ocidental e Novo México), pagando uma soma ridícula, 15 milhões de dólares. Em 1898, na guerra contra a Espanha, se apossou de Cuba, Porto Rico e estendeu-se às Filipinas, iniciando o avanço mundial, cujo primeiro fruto foi o controle da América Central e uma influência decisiva em toda a América Latina (já reservada aos EUA na linguagem ambígua da Doutrina Monroe).

Internamente, a consolidação nacional também se processou a ferro e fogo, em guerras de genocídio contra os índios, no uso cruel do trabalho escravo negro e na exploração de mão de obra barata dos imigrantes europeus. É significativo, em relação ao mito da origem étnica anglosaxõnica, que, de uma população de 225 milhões, em 1976, apenas 30 milhões se declarem descendentes dos ingleses.

As mulheres só obtiveram o voto em 1920, e os negros foram excluídos oficialmente do processo político até a guerra civil e “informalmente” até a década de 1960. E vale notar que o conceito jeffersoniano de democracia, apesar das beatitudes filosóficas libertárias e de muito palavrório sobre os direitos do homem “comum”, era, em verdade, aristocrático, dando o voto em relação à propriedade do eleitor, excluindo, portanto, a maioria do povo. A reforma começou em 1830, sob o presidente Andrew Jackson, grande massacrador de índios, porém, em revolta contra a supremacia das grandes famílias, das quais a mais famosa é a dinastia de John Quincy Adams (ora glamourizada numa asnática série de televisão). Jackson abriu as porteiras à ralé, “terminando o nosso mundo”, observou o poeta e elitista americano T. S. Eliot.

A famosa frase de Jefferson na declaração de independência sobre os direitos do ser humano, “vida, liberdade e procura da liberdade”, era, no original, “vida, liberdade e propriedade”. Jefferson mudou-a aconselhado por George Mason, o inspirador da Carta de

Direitos; “Felicidade” é um conceito vago numa nação que sente os próprios músculos e os flexiona em todas as direções possíveis, derrubando obstáculos. Os mais fracos pereceram, como os índios (quatrocentos tratados entre brancos e índios. Todos, sem exceção, rompidos unilateralmente pelos brancos), ou foram submetidos a humilhações indizíveis, como os negros.

O século XIX, porém, foi a era de ouro do capitalismo liberal e nenhuma potência importante se desenvolveu de maneira muito diferente. Vale dizer que um dos admiradores das “cirurgias radicais” da elite branca dominante contra índios, mexicanos e negros era Karl Marx, sempre favorável a que o capitalismo se expandisse aos limites possíveis, antes do advento do socialismo. E seria ignorância supor que não houve resistência interna, intelectual, humanista, contra as violências peculiares à época. Escritores como Mark Twain, Waldo Emerson e Henry Thoreau castigaram verbalmente o imperialismo e a crueldade do sistema na acumulação de riquezas. Harriet Beecher Stowe, em A cabana do Pai Tomás [1852], levantou a consciência abolicionista da nação e do mundo.

O ideal democrático, nos tumultos do século XIX, sempre coexistiu com o expansionismo interno e externo.

Eugene Debs, líder socialista, obteve boa votação quando candidato à Presidência, no início do século X. Em 1932, o socialista Norman Thomas foi candidato, com apoio expressivo da intelectualidade.

Ideias radicais que transcendessem o liberalismo de 1776 nunca, porém, vingaram, e até hoje os EUA são o único país industrializado sem um movimento esquerdista consolidado em partidos e sindicatos operários.

Os motivos dessa ausência são muitos e contraditórios. Em meados do século XVIII, a população era de 1 milhão e meio e dispunha de um vasto e fértil território a conquistar. A mística de que “sobra para todo mundo” permeia a história dos EUA e tem um certo fundamento. A nação é senhora de dois oceanos, enfrenta países fracos a norte e sul, se beneficiou de um clima extremamente favorável à agricultura e de recursos materiais que tornaram o salto industrial no século XIX uma possibilidade aparentemente infinita (só em meados do século X os recursos começaram a escassear, forçando os EUA a uma dependência crescente de matérias-primas do Terceiro Mundo). Sem um passado feudal a destruir, os EUA faturaram nas guerras antifeudais europeias. No período napoleônico, por exemplo, famílias ricas, assustadas em face dos “trapos” revolucionários que os exércitos da França ainda faziam de bandeira, imigraram para o Novo

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