Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

(Parte 4 de 9)

Mundo, investindo maciçamente na próspera e estável economia americana. Nunca se calculou quanto ouro veio para Nova York e Virgínia.

Se os EUA já eram a maior nação industrial do mundo em 1960, disputando mercados imperiais com as competidoras europeias na China, Japão e América Latina, o centro político permanecia na Europa, particularmente o Império Britânico, dominando 500 milhões de pessoas e uma extensão de terra que deu origem à frase de que “o sol nunca se põe” sobre a bandeira inglesa. O capitalismo liberal europeu, porém, se despedaçou na guerra de 1914-1918, permitindo que os EUA “apanhassem os pedaços”, ao entrar no conflito em 1917, quando os adversários estavam esgotados de recursos e moralmente arrasados.

O “problema soviético” emergia somente no pós-guerra de 1945.0 presidente Woodrow

Wilson, que levou os EUA à chamada Grande Guerra, é a figura dominante do período. Propôs o internacionalismo, que, até hoje, 1976, é a política externa do país. Wilson via um mundo à maneira norte-americana, povoado de democracias representativas, liberto de esferas de influência (a causa das guerras, segundo o presidente), aberto ao livre comércio, que aproximaria os homens pelos interesses em comum.

A imagem é bonita e não há dúvida de que foi, em parte, baseada em convicções sinceras. A realidade, porém, era e é diferente. Já em 1919 a democracia representativa estava longe de ser a forma de governo preferida pela maioria das elites dirigentes do mundo. E o “livre comércio”, dada a superioridade industrial dos EUA, significaria, na prática, a hegemonia de Washington, que, de resto, emergiu do conflito credora de praticamente todas as nações envolvidas. E obrigaria os velhos impérios, Inglaterra e França, a desmontar o sistema autárquico e protecionista pelo qual mantinham as respectivas colônias.

A visão de Wilson também não correspondia à própria realidade do continente americano.

Os EUA mantinham as mais altas tarifas protecionistas do mundo, na época, e queriam preservar a parte da Doutrina Monroe que lhes interessava, a não interferência europeia nas Américas, quando já haviam infringido outra componente da doutrina, a que haviam descartado na guerra, o não envolvimento dos EUA na Europa.

Os líderes econômicos norte-americanos, a comunidade de negócios, fizeram coro com

Clemenceau e Lloyd George, rejeitando o curioso e seletivo idealismo wilsoniano. Daí o mito do “isolacionismo”, entendido como abstenção dos EUA dos assuntos mundiais, quando, em verdade, quer dizer apenas desligamento político, pois as multinacionais se expandiam em todos os continentes, querendo evitar, isto sim, acordos diplomáticos que lhes restringissem os movimentos.

A Depressão de 1929 foi, em grande parte, causada pelo que Wilson abominava, esferas de influência que se traduziam em sistemas econômicos fechados, protecionismo, a luta anárquica por matérias-primas, a falta de coordenação do comércio mundial, a inexistência de uma comunidade mundial que gerisse harmoniosamente os recursos da Terra em favor das potências industrializadas e a praga corrosiva do nacionalismo.

Franklin Roosevelt, presidente de 1933 a 1945, encaminhou os EUA à hegemonia mundial e à reforma interna. O New Deal, o programa rooseveltiano, adotou ipsis litteris a visão internacionalista de Wilson, ao mesmo tempo que lançou os alicerces do Welfare State no país, criando a previdência social, o seguro contra o desemprego, e estendeu as franquias democráticas do povo. Foi um fracasso no sentido de que não resolveu o problema estrutural da Depressão (em 1940, os EUA enfrentavam 15% de desemprego), minorando apenas, pelo reformismo, a miséria social.

Em 1937, num agravamento da crise econômica, Roosevelt pronunciou o famoso discurso

“Quarentena para os agressores”, a plataforma da política intervencionista que os EUA seguiriam a partir de 1941. Os “agressores”, naturalmente, eram Hitler, Mussolini e Hiroíto, nacionalistas ressentidos, derrotados direta ou indiretamente em 1918, que exigiam agora um lugar ao sol, usando violência se necessário, num mundo devastado pela Depressão e, mais grave, sob ameaça de uma revolução das massas no modelo do abominado bolchevismo.

O discurso foi mal recebido nos EUA, pois a concepção de expansionismo econômico sem amarras políticas, o “isolacionismo”, continuava dominante. Os acontecimentos, porém, trabalhavam a favor de Roosevelt.

A guerra europeia de 1939, em 1941, se tornou mundial, atraindo os EUA, a URSS e o Japão.

A aliança entre EUA, URSS e Inglaterra foi um casamento de conveniência que se desfez rapidamente na realidade da paz. Stálin queria segurança no Leste Europeu, em suma, uma esfera de influência soviética. Churchill pretendia, cego à ruína econômica inglesa, manter o império e o sistema de “bloco da libra”, que obrigava colônias e domínios a negociar exclusivamente em termos favoráveis à Inglaterra. Uma quimera que a necessidade inglesa de obter auxílio dos EUA, quando sozinha em face da Alemanha, destruiu rapidamente, tornando a Grã-Bretanha sócia menor de Washington, condição em que se encontra até hoje.

A URSS era diferente. Venceu a guerra na Europa, arcando com 70% da luta contra Hitler, o que fica evidente nos documentos da Conferência de Ialta (fevereiro de 1945). Estabeleceu seu sistema no Leste Europeu. O resto do mundo caiu sob controle americano, ao menos até que ocorressem as revoluções chinesa, cubana e vietnamita.

O enriquecimento dos EUA na Segunda Guerra pode ser aferido pelos seguintes dados: em 1941 o PIB do país era 96 bilhões de dólares: em 1942,122 bilhões: em 1943,149 bilhões; em 1944,160 bilhões. Hoje, é 1 trilhão e 300 bilhões, dobrando praticamente a cada ano do pósguerra.

Roosevelt montou, em Dumbarton Oaks e Bretton Woods, os sistemas político (Nações

Unidas) e econômico (Banco Mundial etc.) em que se alicerçaria a hegemonia americana. Se atas de conferência valem alguma coisa, sem falar de extensos estudos históricos disponíveis, Roosevelt pretendia respeitar algumas aspirações soviéticas a uma esfera de influência no Leste Europeu. Não viveu o bastante para que saibamos, com certeza.

O sucessor, Harry Truman (1945-1953), inseguro, temeroso de que o desmantelamento da economia de guerra trouxesse de volta a Depressão e armado da “invencível” bomba nuclear, então monopólio dos Estados Unidos, interpretou diferentemente o acordo (ambíguo, é verdade) de Ialta e resolveu enfrentar a “ameaça soviética”. Nenhum estrategista norte-americano previra que a Europa Ocidental, devastada pelo conflito, se sentisse atraída a modelos socialistas de recuperação, o que aconteceu entre 1943 e 1947, quando então a influência dos EUA e programas de rearmamento (Otan) e recuperação econômica (Plano Marshall), sem falar da Doutrina Truman, de 1947, que prometia intervir em qualquer canto do globo sob risco de subversão, contiveram o surto revolucionário. O preço foi a divisão permanente da Europa, oficializada em Helsinque, 1975.

Se a hegemonia dos EUA não foi total, pós-1945, não há dúvida de que se imprimiu na maior parte do mundo, toda aquela, de resto, que não caiu sob controle comunista. O país prosperou de maneira estupenda, dobrando o PIB de 1950 a 1960, de 1960 a 1970, enquanto missionariamente bloqueava surtos nacionalistas que suspeitava fossem de origem ou em proveito da “outra igreja”, com base em Moscou.

Uma guerra entre nações industrializadas se tornou difícil depois que a URSS atingiu paridade nuclear com os EUA. A luta ideológica se transferiu para o Terceiro Mundo, onde está até hoje.

Não há vitoriosos. Ambos os blocos podem apontar sucessos e fracassos. Nos EUA, porém, a partir da guerra no Vietnã, um intenso movimento de autocrítica está em curso. Os horrores do conflito penetraram em todos os lares americanos pela televisão em cores. A tenacidade dos vietnamitas, um dos povos mais pobres da Terra, enfrentando a maior máquina militar e tecnológica da história, chocou profundamente o povo americano. O liberalismo da sociedade permitiu que a crítica virulenta às premissas básicas da política externa de Washington tivesse ampla divulgação, o país rachou entre intervencionistas e não intervencionistas, tema que sublinha a campanha eleitoral de 1976. Se isso não bastasse, o escândalo de Watergate, em 1972, levando à renúncia, pela primeira vez na história, um presidente, revelou insus- peitadas vulnerabilidades no sistema, em sua ação interna.

Essas crises certamente diminuíram muito o sentimento anticomunista, que beirou o patológico, entre 1949 e 1956. Isso não significa que haja simpatia pelo comunismo. Ao contrário. O PC tem 100 mil membros nos EUA. O regime soviético é visto como uma monstruosidade totalitária.

Há, porém, maior tolerância pela diversidade do mundo e uma repulsa forte à tese de que os

EUA devem determinar o rumo a ser seguido pelos outros países. O espírito liberal de 1776 se reafirmou em face dos desastres na Indochina e de Watergate.

A própria elite dirigente parece ter reconhecido os limites do seu poder. Esse é um dos significados da política de détente, “negociar em vez de confrontar”, só não aceita, e de boca, por um dos candidatos à Presidência de 1976, Ronald Reagan.

O quadro mundial mudou completamente. Hoje, os EUA e as demais nações capitalistas industrializadas enfrentam uma rebelião, anárquica e contraditória, porém inequívoca, do chamado Terceiro Mundo, fornecedor passivo no século X de matérias-primas e mercados, em troca de muito pouco. O símbolo dessa rebelião, encabeçado por nações na maioria conservadoras, é a Opep. Os EUA dizem-se dispostos a negociar. É provável que não exista alternativa.

O país, porém, está mais próspero do que nunca, prevendo-se em 1976 um crescimento real de 7% sobre um PIB de 1 trilhão e 300 bilhões de dólares, depois de vencida a recessão de 1974- 1975. Os americanos produzem mais e consomem mais que dois terços da humanidade. E gozam do sistema político mais livre do mundo. Têm muito por que se autocongratularem.

Existe consciência de problemas sociais profundos. Nenhum é insolúvel. É possível integrar o negro, a mais alienada componente da sociedade, às benesses que já se tornaram rotineiras para a classe média branca. Basta haver liderança. Virão com certeza um seguro médico nacional, uma garantia de emprego a cada cidadão apto e outros aperfeiçoamentos do Welfare State inaugurado por Franklin Roosevelt.

A maioria do povo permanece fiel ao sistema, se bem que um número crescente de pessoas lhe nota as deficiências internas e privilégios incompatíveis com uma ordem mundial em que a justiça prevaleça. O país, porém, é jovem e nunca revelou incapacidade de aprender. E o povo, o que é mais importante, nunca permitiu que lhe roubassem o direito de pensar e agir livremente. 04-07-1976

Quando vim pela primeira vez a Nova York, em 1954, meus críticos favoritos de teatro, Eric

Bentley e George Jean Nathan, diziam que a Broadway estava morta. Outro dia, vi em TV uma entrevista com um produtor famoso da década de 1950, Merrick (Hello, Dolly! etc.), que se lembrava, saudoso, dos anos 1950, declarando a Broadway de hoje morta.

George Jean Nathan morreu. Eric Bentley dá um curso de teoria e defesa ideológica do homossexualismo na Universidade de Nova York. A Broadway continua. Talvez seja um zumbi.

Consideremos. Este ano vou ver John Gielgud e Ralph Richardson, em No Man’s Land, de

Harold Pinter; o próprio Pinter dirigindo a deliciosa comédia de Simon Gray, Otherwise Engaged, estrelada por Tom Courtenay (o protagonista, no cinema, de Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Soljenítsin); Irene Worth, uma atriz americana radicada na Inglaterra e estupenda, em O cerejal, de Tchecov; Michael Moriarty em Henrique v, de Shakespeare; Vanessa Redgrave na comédia The Recruiting Officer; e Richard Chamberlain em A noite do iguana, de Tennessee Williams. E estão previstos diversos musicais de interesse, como o recente Guys and Dolls, um clássico, superior, na minha opinião, a My Fair Lady, com um animado elenco negro, que desvirtua um pouco o trabalho original de Frank Loesser e Abe Burrows, mas não o arruina. E há dezenas de shows disponíveis, de vários tipos de Brecht, off-Broadway, a Shirley MacLaine.

O leitor atento perceberá que várias dessas produções serão importadas da Inglaterra e que quase todas são revivais, reprises de obras conhecidas.

Percebendo isso, entenderá dois terços das dificuldades da Broadway, que não está morrendo ou sequer gravemente enferma. Sofre, apenas, de subdesenvolvimento cultural.

Um teatro vive de autores, que lhe conferem uma identidade cultural, e de atores, que são o veículo transmissor da “doença”. O diretor pode ser uma figura muito importante em uni-los, porém, sem um ou outro, não existe.

Em 1954, Arthur Miller nos mostrava o tormento bastante confortável, em termos materiais, da esquerda americana se adaptando ã repressão da Guerra Fria, e Tennessee Williams nos falava de outro tipo de repressão, mais abrangente, sexual e (em consequência) social. Gostemos ou não deles, davam à Broadway, ao teatro americano, uma nítida identidade cultural.

E claro que é ótimo ver Shakespeare, Tchecov, Pinter e Simon Gray. Porém é inegável que não expressam a experiência imediata americana, mais rica e complexa do que a inglesa atual, que Gray e Pinter captam tão bem. Esse problema é grave, o da falta de identidade: não apareceu nos anos 1960 ou 1970 um autor que nos desse o que Miller e Williams nos deram, nos 1950.

Os filhos de Kennedy, {3} ora encenado no Brasil, é tolerável, porém em hipótese alguma está à altura do tema, muito mais bem desenvolvido e aprofundado por romancistas como Gore

Vidal, Saul Bellow ou Norman Mailer.

Não acredito que essa falta de autores se deva a qualquer deficiência intrínseca do teatro. Um Jason Miller, que escreveu a promissora That Championship Season (também encenada no Brasil), em seguida se radicou em Hollywood, inclusive como ator, participando do ridículo e acintoso O exorcista.

E os atores também marcham para Hollywood, fazendo cinema ou TV. Abominam

Hollywood. Agora, se Peter Falk recebe 300 mil dólares por um episódio do banalérrimo Columbo, enquanto, na Broadway, no máximo, conseguiria uns 4 mil dólares semanais, submetendo-se a ensaios longos, à fúria (não raro ignorante) dos críticos e à rotina exaustiva da performance diária, não adianta: Falk preferirá Columbo. É humano.

Ingleses como Gielgud, Richardson, Redgrave e Worth fazem teatro em Londres e, no verão, aceitam papéis em cinema. É, em parte, questão de mentalidade, da sorte de terem nascido num país com uma gloriosa tradição teatral, que jamais existiu nos EUA. Mas é também o fato de que o governo inglês subvenciona gordamente diversas companhias de repertório, que dão ao ator a chance de experimentar e aprofundar o seu métier. Isso inexiste nos EUA.

Não é falta de dinheiro. É o fetiche da “iniciativa privada”, que rege a vida americana. Dez milhões de dólares ao ano garantiriam à Broadway três ou quatro companhias de repertório de primeira qualidade. Enquanto não existirem, os autores se sentirão inibidos e os atores se prostituirão. Esse obstáculo já existia em 1954. O teatro sobrevive, apesar disso, uma prova incomum de vitalidade, a meu ver. 15.08.1976

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