Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

(Parte 6 de 9)

Por que persistimos nessa ilusão? Literatura no Brasil, como de resto quase tudo, é feita para a classe média e desta para cima. Essa gente admira Jorge porque acha divertidas as suas histórias, porque partilha a generosa visão do autor sobre os fracos e oprimidos ou, o que é mais provável, as duas coisas. O povo cava o seu suado que pague a geral nos estádios ou vê televisão, comprada a prestações. E ainda sobre a questão do elitismo é difícil lembrar um único escritor de primeira ordem que não tenha se concentrado na classe dirigente do seu tempo e país. A única exceção de gênio que me ocorre é Charles Dickens, cujo retrato da aristocracia é pateticamente inadequado. Em qualquer lista de grandes romances colocaríamos Guerra e paz e Ana Karenina, que não tratam do campesinato sob o tzarismo, para dizer o mínimo. Apesar disso, são lidos avidamente pelos operários soviéticos, estão entre os favoritos dos operários, me disse Ilya Ehrenburg, quando o entrevistei em 1966. E é muito justo. Afinal, se “o povo” quer ler alguma coisa não será sobre si próprio, e sim sobre seus senhores. No Brasil, isso sugere sânscrito. A tradição dominante é a de Jorge Amado e

Rachel de Queiroz (embora esta hoje esteja à direita de Genghis Khan e não escreva nada há mais de quarenta anos, o que a tornou, naturalmente, candidata ideal para a Academia Brasileira de Letras). É a tradição do “realismo socialista”, da década de 1930. E a contribuição do stalinismo às letras. O burguês, que domina o mundo, se converte em caricatura malévola. O oprimido é idealizado, o homem Rousseau perfeito, embora vítima de circunstâncias intoleráveis.

Tamanho é o talento de Jorge que ele nos deu um grande livro dentro dessas limitações, Capitães de areia, mas o approach me parece eminentemente discutível. Será possível que ninguém sinta a necessidade, à la Stendhal e Balzac, de dar ao leitor brasileiro um quadro de gente como João

Goulart, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitscheck, dos presidentes de federações industriais, dos generais, dos plutocratas e tecnocratas que decidem nosso destino e o das grandes cidades, em suma, da nossa classe dirigente? Certamente “o povo” gostaria de conhecer quem o oprime, certo?Gullar se refere ao “realismo mágico” de Jorge, que ele já identifica em Jubiabá. Pode ser. A maioria de nós percebeu que Jorge, a partir de Quincas Berro d’Água (abreviei o título), 1958 ou 1959, começou discretamente a despir a camisa de força do “realismo socialista” e a dar vazão às fantasias, à molecagem, ao romance da boêmia, do sensualismo desinibido, que finalmente o tornaram aceitável aos que lhe recusavam a rigidez política de antanho. Se bem que nunca abriu a boca sobre o assunto, no que fez muito bem. Jorge não resistiu ao “realismo socialista” do discurso secreto de Kruschev sobre Stálin, no vigésimo congresso do Partido Comunista, em 1956. Passou a produzir uma literatura que, se ainda contém a simpatia pelos fracos e oprimidos, e repulsa a seus opressores, enfatiza as relações humanas no nível sensorial e até extrassensorial, pois pelo que sei aderiu ao Babalaô dos terreiros.

Não me sinto qualificado a julgar esse tipo de literatura. Dado o talento de Jorge, não duvido que mereça todos os aplausos e a popularidade que conquistou. Nunca estive sequer na Bahia. Também nunca subi o Pão de Açúcar na cidade onde nasci, o que talvez faça de mim um elitista, não sei. É evidente que Gullar admira o autor das duas fases e tenho confiança no julgamento dele.

Não posso aceitar, porém, que Gullar considere estigma de subdesenvolvimento que Jorge seja julgado em função de padrões externos. Por que estigma, por que subdesenvolvimento? Os escritores e críticos americanos frequentemente se comentam em função precisamente da literatura francesa ou inglesa. Literatura não é universal? E futebol? Não julgamos o nosso escrete em relação aos estrangeiros? O nosso PIB? A nossa música? Por que Jorge, ou qualquer outro escritor, deve ser julgado estritamente sob privilégios nacionalistas? Deixemos isso para a Petrobras.

Devemos ter orgulho de Jorge pelo prazer e iluminação que nos dá, assim como devemos admirar Dalton Trevisan, Clarice Lispector e outros escritores bem diferentes. Isso me parece óbvio, mas eu gostaria que Ferreira Gullar, cuja influência sobre os jovens é imensa, aderisse à minha “causa”, que, ao lado dos mestres que já possuímos, ele exigisse a emergência de romancistas que tentassem nos mostrar como a máquina do “Brasil grande” funciona, quem são seus engenheiros e maquinistas, e gostaria de rever Gullar de A luta corporal, que, à maneira de Joyce, sentia uma profunda repulsa pela linguagem convencional da literatura brasileira, o Gullar que um dia me falou entusiasmado de uma linha de Murilo Mendes em que o poeta combinava “Lua luar”, “luar” aí sendo verbo. A linguagem, se verdadeira, é revolucionária, e não preciso dizer a Gullar que toda verdade é revolucionária. 2.08.1977

Meu título causará surpresa em certos círculos, pela inclusão do nome de Trótski, afinal desalojado do poder em 1925, mas ela será explicada. Trótski é, na minha opinião, o autor intelectual da Revolução Soviética, o que ele próprio nega, modestamente, na sua monumental obra A revolução russa, atribuindo a honra a Lênin e às massas. E Trótski foi o principal inspirador de Stálin, o homem que o destruiu, um paradoxo aparente, intolerável para leninistas, trotskistas e stalinistas. Tenho muito a explicar, reconheço.

Antes, porém, eu diria que a Revolução Soviética é um dos três acontecimentos decisivos no que chamamos pitorescamente de “civilização cristã”, na cultura (Kultur) que emergiu do Império Romano, a oeste de Constantinopla, ou seja, a cultura ocidental. O primeiro é a Reforma de Lutero, que destroçou a coerência ideológica do cristianismo. O segundo é a Revolução Francesa, a partir de 1791, como decorrência do governo de Robespierre e Saint-Just (que me lembram extraordinária e respectivamente Lênin e Trótski). A Revolução Soviética é o mais profundo e cismático. A Reforma é um subproduto do nascimento do nacionalismo e do capitalismo. A Revolução Francesa eliminou as últimas travas feudais à explosão capitalista e liberal, mas é argumentável que a beneficiária central, a burguesia, já controlava os meios de produção quando tomou o poder no século xvin, na esteira da Revolução Industrial, que a nobreza e o clero se recusavam obstinadamente a aceitar como determinante do futuro, que está conosco até hoje, um decadente presente.

A Revolução Soviética surgiu do nada. Em nação alguma do mundo existia a condição sine qua non da tomada do poder pelo proletariado, que Marx e Engels haviam previsto e postulado em extensas análises. E, especificamente, haviam vetado países sem uma economia de abundância, industrial, sem uma numerosa classe operária urbana capaz de administrar os meios de produção. A Rússia de 1917 era semifeudal, possuía quando muito 3 milhões de operários, de uma população de 85% de camponeses, habituados secularmente a uma férrea autocracia lastreada “espiritualmente” pela reacionaríssima Igreja Ortodoxa. Marx achava possível revoluções socialistas na Alemanha, Inglaterra e EUA, que ele e Engels começavam a estudar, antes de morrer. Na Rússia, por escrito, decretaram um inequívoco nyet. Considerariam a tese de Mao Tsé-tung ou a do líder vietnamita Ho Chi Minh grotesqueries, porque se basearam no campesinato à exclusão de um inexistente operariado urbano. Logo, a frase - e clichê - “revolução marxista”, muito usada pela nossa imprensa popular e por polemistas anticomunistas, deveria ser arquivada de vez. É um mito. Na hipótese mais caridosa, permanece inédita. Lênin, ao contrário da lenda, aceitava a análise de Marx e Engels. Na sua luta contra os mencheviques, o centro da discórdia não era, não importa o que diga a propaganda comunista subsequente, que os bolcheviques pretendiam instalar o comunismo na Rússia e que os mencheviques desejavam primeiramente que o país passasse por uma fase capitalista. A briga era entre a concepção leninista do partido único, de revolucionários profissionais, a “vanguarda”, e a visão menchevique de um partido aberto a todos que simpatizassem com ideias socialistas. O chamado “eurocomunismo” de hoje é o “retorno do reprimido” menchevique à arena polêmica do comunismo.

Trótski favorecia os mencheviques no debate com Lênin, prevendo, corretamente, que a “vanguarda” levaria a uma ditadura, incompatível com o socialismo. Discordava, porém, dos grupos de Lênin e Martov (o líder menchevique) quanto à possibilidade de revoluções comunistas no que hoje chamaríamos de nações subdesenvolvidas. Em 1905, ele e Parvus (brilhante teórico que depois se autodegradou, servindo ao Kaiser na Primeira Guerra) desenvolveram a tese da revolução permanente, que de relevante ao tema deste artigo propõe que uma revolução socialista em país tão atrasado como a Rússia seria o estopim que conflagraria todo o mundo desenvolvido, levantando as classes operárias dos ditos, que, no poder, iriam em socorro da atrasada Rússia e, em pouco tempo, unidas, estabeleceriam o socialismo em escala mundial.

Em 1905, isso sugeria quimera ou, no máximo, especulação interessante, típica do brilho inegável de Trótski. Em 1917, porém, com as principais nações capitalistas da Europa arrasadas pela guerra, com levantes de marinheiros alemães e soldados franceses, em reação ao morticínio, Lênin começou a dar crédito a Trótski. Em todos os livros contemporâneos dignos de créditos (o do menchevique Sukhanov é o melhor), quando Lênin desembarcou na Estação Finlândia, em Petrogrado, cuspindo fogo, o comentário dos outros bolcheviques foi que Lênin se transformara em “trotskista”. Os líderes bolcheviques, Stálin, Sverdlov, Kamenev e Zinoviev, estavam na linha marxista tradicional, de colaborar com os partidos progressistas que emergiram depois da queda do tzarismo em fevereiro, objetivando a entrada da Rússia na revolução capitalista.

Se Lênin se tornou “trotskista”, Trótski se converteu em “leninista”, isto é, aceitou os direitos à exclusividade revolucionária dos bolcheviques. Desse acordo nasceu a liderança real da Revolução Soviética. Vale notar que, até julho de 1917, a maioria do Comitê Central do Partido Bolchevique ainda estava contra a tese de tomada imediata do poder proposta por Lênin e Trótski. Foi uma mudança no comportamento das massas bolcheviques, que se insurgiram nas ruas, que convenceu o resto da liderança comunista. Ainda assim, à última hora, Kamenev e Zinoviev, bolcheviques da velha guarda, alcaguetaram o plano de insurreição de Lênin e Trótski, o que levou Lênin a chamá-los de “furadores de greve” e a querer expulsá-los do Partido, do que foram salvos pela rara concordância e união de Trótski e Stálin.

A tese de Trótski pressupunha que o Outubro soviético fosse seguido da revolução alemã. Isso se tornou axiomático entre os bolcheviques. Ninguém acreditava que a precária Revolução Soviética se mantivesse de pé sozinha. Bem, em 1918, o levante “spartakista” de Rosa Luxemburgo e Karl Leibknecht fracassou na Alemanha, traído pelos sociais-democratas, aliados ao Exército imperial. Em 1923, nova tentativa redundou em semelhante fracasso. Até levantes em países subdesenvolvidos (Hungria) deram em nada. Em 1920, a tentativa do Exército Vermelho de levar a revolução sob ponta de baioneta à Polônia terminou em derrota. Data desse período o dilema da liderança bolchevique que terminaria resolvido no stalinismo.

Lênin e Trótski subestimaram a capacidade do capitalismo vigoroso e intocado pela guerra dos EUA de revitalizar a decadente Europa burguesa. Não esperavam que os imperialismos pobres da Inglaterra e França tivessem forças de organizar uma intervenção na Rússia que terminaria envolvendo 2 países, acabando de arrasar o país, já devastado pela Guerra de 1914 e por viver na idade da pedra. Essa guerra civil, cujo cerne era a própria reação interna, custou a vida de 13 milhões de pessoas. Foi a guerra civil mais violenta da história e, no entanto, existe um mínimo de análise e de compreensão sobre o efeito que teve na psique dos bolcheviques.

Atrocidades foram cometidas de lado a lado, mas está incontrovertivelmente provado que quem as iniciou foi a Legião Tchecoslovaca, a ponta de lança do intervencionismo de Clemenceau e de

Lloyd George, os dirigentes da França e Inglaterra. Em julho de 1918, os bolcheviques dominavam o equivalente a 10% da URSS atual. Uma social-revolucionária, Dora Kaplan, tentou matar Lênin. Antes, os comunistas se haviam magnânimos. Soltavam generais tzaristas sob promessa de que não pegariam armas contra a revolução (não faziam outra coisa). Aboliram, para escândalo de Lênin, cuja memória das “gentilezas” da Comuna de Paris era vívida, a pena de morte. Pensavam conciliar com todos os partidos, desde que reconhecessem a supremacia bolchevique. Pós-Dora Kaplan, Lênin chamou Félix Dzerzhinsky, revolucionário polonês, discípulo de

Rosa Luxemburgo, cuja ambição professa era dirigir um comissariado de bem-estar da infância, e deu-lhe plenos poderes de combate à contrarrevolução, via a famosa Cheka, a antecessora da atual KGB. Numa noite, conta Victor Serge, a Cheka matou 150 mil pessoas em Petrogrado, o sangue jorrava como água pelas ruas em direção aos bueiros. Começara o terror vermelho. Trótski erigiu do nada o Exército Vermelho e, revelando gênio militar que seus escritos sobre o tema já deixavam antever, derrotou a reação interna e os intervencionistas. A batalha decisiva foi em Leningrado, 1919, em que mulheres comunistas atacavam tanques usando facas de cozinha. A revolução triunfara, embora a guerra civil só terminasse oficialmente em 1922.

Triunfara, porém, sobre o quê? Em 1921, isolada do mundo, devastada internamente, com fome e canibalismo em todos os cantos, à URSS restava o partido único de Lênin, governando massas exaustas e hostis, que não entendiam as sofisticadas esperanças de uma liderança que sonhava ainda com a revolução mundial. O Partido que se permitia uma “espantosa liberdade de debate”, na frase do historiador (hostil) Robert V. Daniels, se fracionara de tal forma que ameaçava o próprio suicídio. Lênin sugeriu e todos aceitaram que fosse proibida a formação de facções, de que se valeria Stálin mais tarde para esmagar todas as oposições. Em 1921, o levante dos marinheiros da fortaleza Kronstadt foi impiedosamente esmagado por Trótski, mas, no comentário de Lênin, iluminou dramaticamente a cena de miséria e sofrimento do povo. Lênin criou a NEP, Nova Política Econômica, economia mista, em que as grandes (e falidas) companhias do Estado permaneceriam sob controle estatal, mas aos camponeses e donatários de indústrias médias se permitiria o capitalismo. Foi um período de conciliação de classes que se estendeu até 1929, o período mais pacífico da Revolução Soviética até a ascensão de Kruschev, depois da morte de Stálin, em 1953.

Novamente, Trótski se insurgiu, ainda que disciplinadamente, dentro das reuniões do Partido.

Trótski propunha a acelerada industrialização do país, a militarização do trabalho, um regime draconiano de desenvolvimento da indústria pesada (elaborado pelo economista Preobrazhensky), que seria adotado ipsis litteris por Stálin, pós-1929, sem reconhecer a autoria, porque expulsara o autor do país nesse mesmo ano e o mandaria assassinar no México, em 1940. As explicações de trotskistas ilustres, como Isaac Deutscher, de que o programa de Trótski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stálin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.

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