Diario da Corte - Paulo Francis

Diario da Corte - Paulo Francis

(Parte 7 de 9)

Lênin não aceitou a tese de Trótski. É uma questão aberta se ele considerava a NEP um fenômeno transitório, o que é, claro, religiosamente afirmado pela propaganda comunista, ou se voltara à concepção social-democrata, menchevique, de que a URSS precisava de um período de desenvolvimento capitalista antes de ingressar no socialismo. O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do Partido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stálin para destruir a facção radical de Trótski (enriquecida depois de 1926 de Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ou ao menos que tenha vindo a público.

Deixou, porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stálin do todopoderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de Trótski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por “métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade do stalinismo. Fora da URSS, Trótski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.

A violência com que Stálin industrializou a URSS na década de 1930 é provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA. O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stálin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas. A destruição da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de Adolf Hitler. E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora.

Muito se discutiu na polêmica Stálin-Trótski sobre a posição do primeiro em favor de “socialismo num só país” e a visão internacionalista de Trótski. Há exagero de parte a parte. Stálin nunca desistiu da revolução mundial, nem Trótski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS. Trótski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado. Stálin, porém, forçado a fixar-se na URSS, graças ao renascimento do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero. Em 1927, sob os protestos de Trótski, inaudíveis fora do país, Stálin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA,

Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang. Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na Segunda Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia. Em 1938, na Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto de 1939. Na

Alemanha de 1933, insistiu em que o pc considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler. Também no fim da

Segunda Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu

(apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares). E difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler. Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stálin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã. Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia. Se Stálin, em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que realidade. Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stálin e 3 milhões de homens. Stálin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922.

Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stálin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo. Resta da URSS de Stálin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos. Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou fosse a meca do internacionalismo revolucionário. É difícil imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética no

Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em loucos “santos” do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo que lhes foi imposta. E dentro da própria URSS tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos meros relances. O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB. Não era esse o sonho de Lênin e Trótski e, talvez, nem do próprio Stálin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.

Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trótski e Stálin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um? Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova. Trótski “não existe” na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stálin. Um crime histórico que dispensa comentários. E o próprio Stálin virou assunto que não se discute em “casa de família”. Depois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo. Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 9% da humanidade. 06.1.1977

“Só fala mal da sociedade quem não consegue frequentá-la”, diz uma personagem de Oscar

Wilde, presumivelmente expressando a opinião do autor. Nos tempos de Wilde, porém, só na Inglaterra, o que se chama “sociedade”, e que é, em verdade, o grupo no alto da escala social, era perfeitamente definido: aristocracia rural, não necessariamente nobre, mas com família ilustre, os primeiros industriais que eram aceitos (considerados vulgares pelos aristocratas) e alguma gente de grande (ainda que suposto, apenas) mérito nas artes. Hoje, nem na Inglaterra é possível ser tão definitivo. As estruturas foram para o brejo.

Vivemos na era da celebridade. A palavra é indefinível. Abrange gente que fez alguma coisa na vida, boa ou má não vem ao caso, como, digamos, Kissinger e Candice Bergen. Mas inclui prostitutas, de alto coturno, Jacqueline Onassis, ou de médio coturno, Bianca Jagger. Isso não aconteceria nos tempos de Wilde. Logo, só muita experiência e uma certa inteligência permitem ao observador dizer quem é quem.

A visão que a imprensa brasileira tem da celebridade americana me diverte ocasionalmente.

Outro dia, li num jornal do Rio que as três boates mais frequentadas de Nova York são Ipanema, Cachaça e Regine’s. A informação é inteiramente falsa; à parte brasileiros e outros latinoamericanos ricos, o Regine’s é um fracasso completo junto às celebridades, que vão apenas a duas discos, o que chamei caretamente de boates, a saber, Studio 54 e New York, New York. Cachaça e Ipanema são frequentadas por brasileiros de classe média, o que inclui jornalistas, e talvez daí a confusão. Brasileiro faz muito barulho, o que sugere movimento.

Um lugar “pega” porque esse grupo heterogêneo, de Kissinger a Bianca Jagger (que não se sabe se é homem ou travesti), faz ponto lá. Os intelectuais de Nova York, certamente um dos “ápices” do rótulo de celebridade, fazem ponto no Elaine’s e no P. J. Clarke’s. Este último menos que antigamente, porque a classe média ouviu tanto falar dele que o inunda todas as horas do dia, para ver as celebridades, o que as afastou. Já Elaine, a proprietária do outro botequim, não senta desconhecidos, logo as celebridades comparecem. Elas sentam.

Já fui a todos os lugares acima e é difícil dizer onde se come pior, qual o mais desagradável.

Acho perfeito que um intelectual, depois de um dia exaustivo, queira tomar um pileque em companhia de seus pares e falar mal dos pares ausentes. Mas a hierarquia de mesas no Elaine’s, cuja comida é infecta e os preços de bebida um assalto, tornou o lugar ridículo para quem se dá ao respeito. Há pouca gente que se dá ao respeito.

A política do Studio 54 é simples e inteligente. Entram gente conhecida, moças e rapazes bonitos, que sirvam de “carne” a gente conhecida. O leão de chácara do lugar, Steve Rubell, nega que seja essa a política da casa, fomentar a prostituição para os célebres e muito ricos (nos EUA, em geral a mesma coisa). Pode continuar negando. Sei do que falo.

O que bebem as celebridades? Bem, intelectuais acima de quarenta anos continuam tomando os pileques habituais. A nova safra, do Studio 54, fica no vinho branco, qualquer um, ou Tab, coca-cola, sem açúcar, preservando seu organismo para cocaína e Angel Dust, as drogas da moda. Não estamos mais na sociedade do álcool, e sim da droga. É bom que as autoridades tomem tento, como se dizia antigamente, pois caso contrário terminarão em conflito sério com as pessoas que são pagas para proteger os poderosos. No Rio e São Paulo, falando nisso, é a mesma coisa. Essas pessoas todas moram no lado leste de Manhattan, entre as ruas 60 e 80, e têm uma casa de verão em Southampton, Long Island. Os intelectuais já têm domicílio mais incerto e preferem, em Long Island, Sag Harbor.

Sobre o que conversam as celebridades quando estão juntas? Nada, se juntam para serem fotografadas e citadas. É uma profissão, juro, isso de aparecer em coluna de jornal, em reportagens etc. Sexo caiu muito de moda. Algumas celebridades corajosas, como Andy Warhol, admitiram em público que acham muito trabalho tirar a roupa, exceto para dormir. Droga é o que os mantém vivos, se isso é vida. Não há, claro, um escritor sério que frequente o Elaine’s ou gente de família aristocrática, à la Wilde, que vá ao Studio 54 ou ao New York, New York. O que resta de gente que se dá ao respeito, quando sai, é para um restaurante cuja comida seja excelente, o que não falta em Nova York, em todas as cuisines.

Celebridade é prostituição em vários sentidos. A carreira de Jackie Onassis, analisada a frio, foi vender aqueles preciosos sete centímetros anatômicos a um milionário que se tornou presidente dos EUA e, viúva, a um gângster e picareta internacional grego. Não sei se Bianca Jagger tem os sete centímetros naturalmente ou se foram enxertados por algum Pitanguy, mas o fato simples de que aparece em todos os jornais e revistas do país a torna um modelo, uma promotora de produtos comerciais de alto valor. Dentro de algum tempo, se imagina, não precisará mais extorquir dinheiro do delinquente canoro, Mick Jagger, de quem usa apenas o nome. Escrevo estas notas com dois objetivos: o primeiro, solidariedade profissional. Os editores de outros jornais, sem precisarem aceitar minhas opiniões, têm agora um manual de fatos para julgar o que faz ou não sucesso social em Nova York. O segundo é sociológico. Toda noite, vários graus abaixo de zero, centenas de pessoas se aglomeram em frente ao Studio 54, pedindo pelo amor de Deus a Steve Rubell que lhes dê uma chance de se prostituírem junto às celebridades ou, no mínimo, serem fotografadas. Isso nos diz bastante sobre a sociedade americana. É uma sociedade cujo único valor é a notoriedade (todos os gângsteres de Watergate enriqueceram “escrevendo” livros). Revistas do tipo People, New York etc. atestam o fenômeno que reflete uma total corrupção e uma subserviência completa em face dos que darwinianamente sobreviveram no mar de lama, criaturas da lama, mas perfumadas. Falem mal de mim, desde que falem, é a moral dessa sociedade. Claro. Nova York não é os EUA, mas será muito diferente do resto do país? O presidente é o símbolo da nação. Aceita no seu círculo íntimo de amizades, frequenta jantares que Bert Lance, trambiqueiro, patrocina. Demitiu um promotor republicano da Filadélfia porque estava botando na cadeia, por crimes vários, metade do Partido Democrata.

(Parte 7 de 9)

Comentários