O Livro Dos Mediuns - Allan Kardec

O Livro Dos Mediuns - Allan Kardec

(Parte 1 de 8)

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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.

O Livro dos Médiuns

O Livro dos Médiuns

Por Allan Kardec

Tradução de Evandro Noleto Bezerra

Federação Espírita Brasileira

Copyright 2008 by FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA - FEB Brasília (DF) - Brasil

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida, total ou parcialmente, por quaisquer métodos ou processos, sem autorização do detentor do copyright.

ISBN (versão ePub): 978-85-7945-186-7 Titulo do original francês: LE LIVRE DES MÉDIUMS ou Guide des Médiums et des Évocateurs (Paris, 15 de janeiro de 1861) Tradução: Evandro Noleto Bezerra

Capa: Agadyr Torres Pereira (seguindo projeto de Julio Moreira) eBook desenvolvido por: Rones José Silvano de Lima

Edição do CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL SGAN Q. 909 - Conjunto F 70790-090 - Brasília (DF) - Brasil w.edicei.com edicei@edicei.com 5 61 3038 8400

Primeira Edição – 5/2011 Edição autorizada pela Federação Espírita Brasileira. DADOS INTERNACIONAIS PARA CATALOGAÇÃO NA FONTE - CIP

O livro dos médiuns, ou, Guia dos médiuns e dos evocadores: espiritismo experimental [recurso eletrônico] / por Allan Kardec ; [tradução de Evandro Noleto Bezerra]. – Dados eletrônicos. – Brasília : Conselho Espírita Internacional, 2011.

672 p. ; 18 cm Tradução de: Le livre des médiums ISBN 978-85-7945-186-7 (ebook) 1. Espiritismo. 2. Médiuns. I. Bezerra, Evandro Noleto, 1949-. I. Federação Espírita Brasileira. II. Título.

Introdução

Todos os dias a experiência nos traz a confirmação de que as dificuldades e os desenganos encontrados na prática do Espiritismo resultam da falta de conhecimento dos princípios desta ciência, e felizes nos sentimos por haver podido comprovar que o nosso trabalho, feito com o objetivo de prevenir os adeptos contra os perigos do aprendizado, produziu frutos e muitos conseguiram evitar os escolhos, graças à leitura atenta desta obra.

Um desejo muito natural entre as pessoas que se ocupam com o Espiritismo é o de poderem entrar em comunicação com os Espíritos. Esta obra se destina a lhes facilitar o caminho, levando-as a tirar proveito dos nossos longos e laboriosos estudos, porquanto formaria ideia muito falsa quem julgasse que, para tornar-se perito nesta matéria, basta saber colocar os dedos sobre uma mesa, a fim de fazê-la girar, ou segurar um lápis para escrever.

Enganar-se-ia igualmente quem pensasse encontrar nesta obra uma receita universal e infalível para formar médiuns. Embora cada um traga em si o gérmen das qualidades necessárias para se tornar médium, tais qualidades existem em graus muito diferentes e o seu desenvolvimento depende de causas que criatura alguma pode provocar à vontade. As regras da poesia, da pintura e da música não fazem que se tornem poetas, pintores ou músicos os que não possuem o gênio dessas artes; apenas os guiam no emprego de suas faculdades naturais. Dá-se a mesma coisa com o nosso trabalho; seu objetivo consiste em indicar os meios de desenvolver a faculdade mediúnica, tanto quanto o permitam as disposições de cada um e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de maneira proveitosa, quando existir a faculdade. Este, porém, não é o único objetivo a que nos propusemos.

Ao lado dos médiuns propriamente ditos, aumenta diariamente o número de pessoas que se ocupam com as manifestações espíritas. Guiá-las em suas observações, assinalar-lhes os obstáculos que certamente encontrarão por se tratar de uma coisa tão nova, iniciá-las na maneira de conversarem com os Espíritos, ensinar-lhes os meios de conseguirem boas comunicações, tal é a esfera que devemos abranger, sob pena de fazermos trabalho incompleto. Ninguém se surpreenda, pois, se nele encontrar instruções que, à primeira vista, pareçam descabidas; a experiência mostrará a sua utilidade. Quem estudar cuidadosamente este livro compreenderá melhor os fatos de que venha a ser testemunha, parecendo-lhe menos estranha a linguagem de alguns Espíritos. Como instrução prática, portanto, ele não se destina exclusivamente aos médiuns, mas a todos os que estejam em condições de observar os fenômenos espíritas.

Algumas pessoas gostariam que tivéssemos publicado um manual prático muito sucinto, contendo em poucas palavras a indicação dos processos que se devem empregar para entrar em comunicação com os Espíritos. Pensam elas que um livrinho dessa natureza, em razão do seu baixo custo e pela possibilidade de se espalhar profusamente, representaria um poderoso meio de propaganda, pela multiplicação do número de médiuns. A nosso ver, semelhante obra, em vez de ser útil, seria nociva, ao menos por enquanto. A prática do Espiritismo é cercada de muitas dificuldades e nem sempre é isenta de perigos, que só um estudo sério e completo pode prevenir. Seria, pois, de temer que uma indicação muito resumida provocasse experiências feitas com leviandade, das quais os experimentadores viessem a arrepender-se; são atitudes inconvenientes e imprudentes, com as quais não se deve brincar, de modo que julgaríamos prestar mau serviço, pondo-as ao alcance do primeiro estouvado que achasse divertido conversar com os mortos. Dirigimo-nos aos que veem no Espiritismo um objetivo sério, aos que compreendem toda a sua gravidade e não fazem mero passatempo das comunicações com o mundo invisível.

Havíamos publicado uma Instrução Prática[1] com o objetivo de guiar os médiuns. Essa obra está hoje esgotada e, embora a tenhamos feito com um fim grave e sério, não a reimprimiremos, porque ainda não a consideramos bastante completa para esclarecer acerca de todas as dificuldades que se possam encontrar. Substituímo-la por esta, na qual reunimos todos os dados que uma longa experiência e conscienciosos estudos nos permitiram colher. Esperamos que ela contribua para imprimir ao Espiritismo o caráter sério que constitui a sua essência e para evitar que haja quem nele veja objeto de frivolidade e de divertimento.

A essas considerações ainda acrescentaremos outra, muito importante: a má impressão que produzem nos novatos as experiências feitas com leviandade e sem conhecimento de causa. Elas apresentam o inconveniente de gerar ideias falsas acerca do mundo dos Espíritos e de se prestarem à zombaria e à crítica, quase sempre fundada. É por isso que os incrédulos raramente saem convertidos dessas reuniões e pouco dispostos a reconhecer que haja alguma coisa de sério no Espiritismo. A ignorância e a leviandade de certos médiuns têm gerado mais prejuízos do que se pensa na opinião de muita gente.

Nos últimos anos o Espiritismo tem realizado grandes progressos, imensos progressos, sobretudo os que conseguiu efetivar depois que tomou o rumo filosófico, porque passou a ser apreciado pelas pessoas esclarecidas. Hoje, já não é um espetáculo, mas uma Doutrina de que não mais riem os que zombavam das mesas girantes. Esforçando-nos por levá-lo para esse terreno e aí mantê-lo, estamos certos de que lhe conquistaremos mais adeptos úteis, do que provocando a torto e a direito manifestações que se prestariam a abusos. Temos a prova disso todos os dias pelo número de adeptos conquistados pela simples leitura de O Livro dos Espíritos.

Depois de havermos exposto a parte filosófica da ciência espírita em O Livro dos Espíritos, damos nesta obra a parte prática, para uso dos que queiram ocupar-se com as manifestações, seja por iniciativa própria, seja para se inteirarem dos fenômenos a que sejam chamados a observar. Verão aí as dificuldades que podem encontrar e terão também um meio de evitá-las. Estas duas obras, embora uma seja a continuação da outra, são independentes até certo ponto. Diremos, porém, a quem desejar ocupar-se seriamente da matéria, que primeiro leia O Livro dos Espíritos, porque contém princípios fundamentais sem os quais talvez seja difícil a compreensão de algumas partes desta obra.

Importantes melhorias foram introduzidas na segunda edição, muito mais completa do que a primeira. Foi corrigida com especial cuidado pelos Espíritos, que lhe acrescentaram grande número de notas e instruções do mais alto interesse. Como eles reviram tudo, aprovando-a ou modificando-a à vontade, pode-se dizer que ela é, em grande parte, obra deles, porque a sua intervenção não se limitou a alguns artigos que assinaram. Só indicamos os nomes quando isso nos pareceu necessário para assinalar que algumas citações um tanto extensas procederam deles textualmente. A não ser assim, teríamos de citá-los quase que em todas as páginas, especialmente em seguida a todas as respostas dadas às perguntas que lhes foram feitas, providência que julgamos inútil. Em tais assuntos, como se sabe, os nomes têm pouca importância. O essencial é que o conjunto do trabalho corresponda aos objetivos a que nos propusemos. O acolhimento dado à primeira edição, embora imperfeita, faz-nos esperar que a presente seja considerada, pelo menos, com a mesma benevolência.

Como lhe acrescentamos muitas coisas e muitos capítulos inteiros, suprimimos alguns artigos, que ficariam em duplicata, entre outros o que tratava da “Escala espírita”, que já se encontra em O Livro dos Espíritos. Suprimimos igualmente do “Vocabulário Espírita” o que não se ajustava bem ao plano desta obra, substituindo vantajosamente o que foi excluído por coisas mais práticas. Esse vocabulário, além do mais, não estava completo, sendo nossa intenção publicá-lo mais tarde, em separado, sob o formato de um pequeno dicionário de filosofia espírita. Conservamos nesta edição apenas as palavras novas ou especiais, relativas ao assunto com o qual nos ocupamos.

[1]N. do T.: Trata-se da obra Instrução prática sobre as manifestações espíritas, traduzida e publicada pela FEB.

Primeira Parte

Noções Preliminares

Cap. I – Há Espíritos?

Cap. I – O Maravilhoso e o Sobrenatural

Cap. I – Método Cap. IV – Sistemas

Há Espíritos?

1. A dúvida relativa à existência dos Espíritos tem como causa principal a ignorância acerca da sua verdadeira natureza. Geralmente, são figurados como seres à parte na Criação e cuja necessidade não está demonstrada. Muitas pessoas somente os conhecem pelos contos fantásticos com que foram acalentadas em criança, mais ou menos como as que só conhecem a História pelos romances. Sem indagarem se tais contos, desprovidos dos acessórios ridículos, encerram algum fundo de verdade, essas criaturas só se deixam impressionar pelo lado absurdo que eles revelam. Não se dando ao trabalho de tirar a casca amarga, para achar a amêndoa, rejeitam o todo, como fazem, em relação à Religião, os que, chocados por certos abusos, englobam tudo na mesma reprovação.

Seja qual for a ideia que se faça dos Espíritos, a crença neles necessariamente se baseia na existência de um princípio inteligente fora da matéria. Essa crença é incompatível com a negação absoluta deste princípio. Tomamos, pois, como ponto de partida, a existência, a sobrevivência e a individualidade da alma, que têm no espiritualismo a sua demonstração teórica e dogmática e, no Espiritismo, a demonstração positiva. Contudo, deixemos de lado, por alguns instantes, as manifestações propriamente ditas e, raciocinando por indução, vejamos a que consequências chegaremos.

2. Desde que se admite a existência da alma e sua individualidade após a morte, é preciso que se admita, também: 1o , que a sua natureza é diferente da do corpo, visto que, separada deste, deixa de ter as propriedades peculiares ao corpo; 2o , que goza da consciência de si mesma, pois é passível de alegria ou sofrimento, sem o que seria um ser inerte e de nada nos valeria possuí-la. Isto posto, tem-se que admitir que essa alma vai para alguma parte. Que vem a ser feito dela e para onde vai?

Segundo a crença vulgar, a alma vai para o Céu, ou para o inferno. Mas, onde ficam o Céu e o inferno? Antigamente se dizia que o Céu era em cima e o inferno embaixo. Porém, o que são o alto e o baixo no Universo, uma vez que se conhece a redondeza da Terra e o movimento dos astros, movimento que faz com que em dado instante o que está no alto esteja, doze horas depois, embaixo, e o infinito do espaço, através do qual o olhar penetra, indo a distâncias consideráveis? É verdade que por lugares inferiores também se designam as profundezas da Terra. Mas, que vêm a ser essas profundezas, desde que a Geologia as investigou? Que ficaram sendo, igualmente, as esferas concêntricas chamadas céu de fogo, céu das estrelas, desde que se verificou que a Terra não é o centro dos mundos, que mesmo o nosso Sol não é único, que milhões de sóis brilham no Espaço, constituindo cada um o centro de um turbilhão planetário? A que ficou reduzida a importância da Terra, perdida nessa imensidade? Por que injustificável privilégio este imperceptível grão de areia, que não se distingue pelo seu volume, nem pela sua posição, nem por um papel particular, seria o único planeta povoado de seres racionais? A razão se recusa a admitir essa inutilidade do infinito e tudo nos diz que esses mundos são habitados. Ora, se são povoados, também fornecem seus contingentes para o mundo das almas. Mas, ainda uma vez, que terá sido feito dessas almas, depois que a Astronomia e a Geologia destruíram as moradas que lhes estavam destinadas e, sobretudo, depois que a teoria, tão racional, da pluralidade dos mundos, as multiplicou ao infinito?

Não podendo a doutrina da localização das almas harmonizar-se com os dados da Ciência, outra doutrina mais lógica lhes deve marcar o domínio, não um lugar determinado e circunscrito, mas o espaço universal: é todo um mundo invisível, no meio do qual vivemos, que nos cerca e nos acotovela incessantemente. Haverá nisso alguma impossibilidade, alguma coisa que repugne à razão? De modo nenhum; tudo, ao contrário, nos diz que não pode ser de outra maneira.

Mas, então, em que se transformam as penas e recompensas futuras, se lhes suprimis os lugares especiais onde se efetivam? Notai que a incredulidade, com relação ao local das penas e recompensas, é provocada pelo fato de umas e outras serem apresentadas, em geral, em condições inadmissíveis. Dizei, em vez disso, que as almas tiram de si mesmas a sua felicidade ou a sua desgraça; que a sorte delas está subordinada ao estado moral de cada uma; que a reunião das almas boas e afins constitui para elas uma fonte de felicidade; que, de acordo com o grau de purificação que tenham alcançado, penetram e entreveem coisas que almas grosseiras não distinguem, e todo mundo compreenderá sem dificuldade. Dizei também que as almas não atingem o grau supremo senão pelos esforços que façam para se melhorarem e depois de uma série de provas adequadas à sua purificação; que os anjos são almas que alcançaram o último grau da escala, grau que todas podem atingir, desde que tenham boa vontade; que os anjos são os mensageiros de Deus, encarregados de velar pela execução de seus desígnios em todo o Universo, que se sentem felizes com o desempenho dessas missões gloriosas, e tereis dado à felicidade deles um fim mais útil e mais atraente, do que a fazendo consistir numa contemplação perpétua, que não passaria de perpétua inutilidade. Dizei, finalmente, que os demônios são simplesmente as almas dos maus, ainda não purificadas, mas que podem, como as outras, alcançar o mais alto grau da perfeição, e isto parecerá mais conforme à Justiça e à Bondade de Deus, do que a doutrina que os apresenta como seres criados para o mal e perpetuamente devotados ao mal. Ainda uma vez: tendes aí o que a mais severa razão, a mais rigorosa lógica, o bom senso, em suma, podem admitir.

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