Apologia a História ou Oficio de Historiador - Marc Bloch

Apologia a História ou Oficio de Historiador - Marc Bloch

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A segunda é “O homem também mudou muito: em seu espírito e, sem dúvida, até nos mais delicados mecanismos de seu corpo. Sua atmosfera mental transformou-se profundamente; não menos sua higiene, sua alimentação.” Daí a legitimidade do estudo das mentalidades como objeto da história, mas também o apelo, sempre atual, ao estudo da história do corpo, seguindo-se o que Marc Bloch chama em outro trecho de “as aventuras do corpo”. Mas acrescenta: “Decerto é preciso, todavia, que exista na natureza humana e nas sociedades humanas um fundo permanente, sem o qual os próprios nomes ‘homem’ e ‘sociedade’ nada significariam.” Como exprimir melhor a legitimidade, a própria necessidade, de uma antropologia histórica que atualmente faz progressos, apesar das recriminações dos tradicionalistas? Enfim, essa história ampla, profunda, longa, aberta, comparativa não pode ser realizada por um historiador isolado: “A vida é muito breve.”

“Isolado, nenhum especialista nunca compreenderá nada senão pela metade, mesmo em seu próprio campo de estudos.” A história “só pode ser feita com uma ajuda mútua”. O ofício de historiador se exerce numa combinação do trabalho individual e do trabalho por equipes. O movimento da história e da historiografia levou uma grande parte dos historiadores a abandonar sua torre de marfim.

Assim delimitados, sem outras fronteiras senão as dos homens e do tempo, seu domínio e sua démarche, o historiador pode sentar-se à sua mesa de trabalho. Seu primeiro trabalho será a “observação histórica” (capítulo I). Ele não deve ignorar “a imensa massa dos testemunhos não escritos”, aqueles da arqueologia em particular. Deve portanto deixar de ser, “na ordem documentária, obcecado pelo relato, assim como, na ordem dos fatos, pelo acontecimento”. Mas deve também se resignar a não poder compreender tudo do passado, a utilizar “um conhecimento através de pistas”, a recorrer a procedimentos de “reconstrução”, dos quais “todas as ciências oferecem inúmeros exemplos”. Mas se “o passado é, por definição, um dado que nada mais modificará …, o conhecimento do passado é uma coisa em progresso que se transforma e aperfeiçoa incessantemente”. A respeito de um ponto muito importante, o conhecimento das mentalidades individuais, os historiadores dos períodos antigos, incluindo a Idade Média, estão desarmados, pois não possuem “nem cartas privadas, nem confissões” e essa época nos legou, no máximo, apenas “péssimas biografias em estilo convencional”. Resulta daí que “toda uma parte de nossa histórica afeta necessariamente o aspecto, um pouco exangue, de um mundo sem indivíduo”.

É preciso escutar o honesto Marc Bloch, que aconselha ao historiador saber dizer “não sei, não posso saber”; nesse ponto, porém, acho-o um pouco pessimista. Os historiadores das épocas remotas, e sobretudo da Idade Média, buscam atualmente escrever biografias que respondem a métodos rigorosos, porém mais sofisticados, de reconstituição das vidas, ao menos das dos homens ilustres do passado, e a história do indivíduo nesses tempos antigos deveria beneficiar pesquisas atuais ligadas ao “retorno do sujeito” em filosofia e nas ciências sociais, retorno que não deixa indiferentes os historiadores. Aliás, em sua busca dos testemunhos, o medievalista, segundo Marc Bloch, deverá interrogar por exemplo a vida dos santos, que ele achará

“de um valor inestimável” quanto às informações que fornecem “sobre as maneiras de viver ou de pensar (título de um capítulo memorável de A sociedade feudal) específicas das épocas em que foram escritas”. Mas, ao fazê-lo, não deverá esquecer, como muitos medievalistas, mesmo depois de Marc Bloch, que trata-se aí de “coisas que o hagiógrafo não tinha o menor desejo de nos expor”.

O essencial é enxergar que os documentos e os testemunhos “só falam quando sabemos interrogá-los …; toda investigação histórica supõe, desde seus primeiros passos, que a investigação já tenha uma direção”. A oposição aqui é nítida em relação às concepções dos historiadores ditos “positivistas”, mas Marc Bloch nesse ponto vai ao encontro de um matemático célebre, Henri Poincaré, que refletira sobre suas práticas científicas e as de seus confrades, demonstrando que toda descoberta científica é produzida a partir de uma hipótese prévia. Poincaré havia publicado A ciência e a hipótese em 1902.

Outra ilusão de certos eruditos: “imaginar que a cada problema histórico corresponde um tipo de documento, específico para esse uso”. A história só é feita recorrendo-se a uma multiplicidade de documentos e, por conseguinte, de técnicas: “poucas ciências, creio, são obrigadas a usar, simultaneamente, tantas ferramentas dessemelhantes. É que os fatos humanos são, em relação a todos os outros, complexos. É que o homem se situa na ponta extrema da natureza.” Daí essa oposição: “É bom, a meu ver indispensável, que o historiador possua ao menos um verniz de todas as principais técnicas de seu ofício.” Vemos aqui como Marc Bloch vai mais longe na concepção das “ciências auxiliares da história” do que a maioria dos historiadores tradicionais. Sua utilização não deve ser feita numa fragmentação das especializações. Aqui também se faz necessário um recurso global, total, às técnicas de coleta e de tratamento dos documentos.

Mas como organizar o procedimento e a exploração dessa observação histórica? Através do estabelecimento de guias técnicos, inventários, catálogos e repertórios, e aqui Marc Bloch encontra o grande trabalho de erudição a partir de du Cange e dom Mabillon (para os medievalistas), o grande trabalho do século XIX; porém não atribui a esse aparato técnico o mero papel passivo de um tesouro a explorar, mas a função de um viveiro a serviço das questões a serem levantadas diante dos documentos e da história.

Marc Bloch também está atento à transmissão dos testemunhos, aos encontros entre historiadores (ele próprio e Lucien Febvre foram assíduos nos grandes congressos internacionais das ciências históricas nos anos 20 e 30), às “trocas de informações”, a tudo o que chamaríamos hoje de comunicação em história. Mas vai mais longe.

Ele almeja em primeiro lugar um acordo da comunidade dos historiadores para definir “previamente, por comum acordo, alguns grandes problemas dominantes” e, além disso, espera que “as sociedades consentirão enfim em se organizar racionalmente, com sua memória, com seu conhecimento de si próprias”.

Estamos aqui em plena atualidade. Que objeto atualmente suscita mais a investigação e a reflexão dos historiadores, em colaboração com outros especialistas das ciências humanas e sociais, do que a investigação da memória coletiva, base da busca de identidade? Marc Bloch provavelmente evocava aqui os trabalhos de seu colega sociólogo de Estrasburgo, Maurice Halbwachs, cujo Estruturas sociais da memória havia sido publicado em 1925.

Eis um outro objetivo ainda não plenamente alcançado na atualidade: o relato, por parte do historiador, dos problemas e da história de sua investigação: “Todo livro de história digno desse nome deveria incluir um capítulo ou, caso se prefira, inserida nos pontos de reviravolta do desenvolvimento, uma sequência de parágrafos que se intitularia algo como: ‘Como posso saber o que vou dizer?’. Estou convencido de que, ao tomar conhecimento dessas confissões, mesmo os leitores que não são do ramo sentiriam um verdadeiro prazer intelectual. O espetáculo da investigação, com seus sucessos e reveses, é raramente tedioso. É o ‘tudo pronto’ que espalha gelo e tédio.” Que modernidade de tom e de ideias!

Depois da observação, “a crítica” (capítulo I). Marc Bloch esboça sua história e designa seu momento decisivo, o século XVII: “A doutrina de pesquisas foi elaborada apenas ao longo desse século XVII, cuja verdadeira grandeza nem sempre ocupa o lugar merecido, e sobretudo por volta de sua segunda metade.” Eis as datas de nascimento dos três grandes nomes da crítica histórica: o jesuíta Paperbroeck, fundador da hagiografia científica e da congregação dos bollandistasI , nascido em 1628; dom Mabillon, o beneditino de Saint-Maur, fundador da diplomática, nascido em 1632; Richard Simon, o oratoriano que marca os primórdios da exegese bíblica crítica, nascido em 1638. E por trás deles, pois Marc Bloch está sempre preocupado em situar a história em um momento de pensamento, dois grandes filósofos, Espinosa, nascido em 1632, e

Descartes, cujo Discurso do método é publicado em 1637.

Mas a crítica histórica enrosca-se numa erudição rotineira que se priva “dessa surpresa sempre renascente que a luta com o documento é a única a proporcionar”. Faço questão de citar essas frases que mostram que, para Marc Bloch, o ofício de historiador é fonte de prazer. Marc Bloch fustiga ao mesmo tempo “o esoterismo rebarbativo” (que alegria ler, repito, distante de qualquer jargão, o estilo simples e límpido de

Apologia da história!), o “triste manual” e “os falsos brilhantes de uma história pretensiosa, tristemente ilustrada por Maurras, Bainville ou Plekhanov”. Marc Bloch encontra então um tom carinhoso para falar de “nossas humildes observações, nossas pequenas e escrupulosas referências”.

Marc Bloch estende-se longamente sobre um problema caríssimo a ele, o da “busca do erro e da mentira”, dos quais teve a experiência não apenas em seu trabalho de historiador, mas também em sua vida de homem e de soldado, através das falsas notícias da Grande Guerra.

Experiência que o marcou a ponto, como observamos Carlo Ginzburg e eu próprio5 , de ter influenciado sua pesquisa sobre os Reis taumaturgos, beneficiários da credulidade popular, que acreditou, durante séculos, no poder dos reis da França e da Inglaterra de curar os escrofulosos. Marc Bloch desfia então minuciosamente as condições históricas dos tipos de sociedades sujeitas, como a do Ocidente medieval, a crer não no que se via na realidade, mas naquilo que, em uma certa época, “achava-se natural ver”.

E saúda o nascimento de uma disciplina “quase nova”: a psicologia dos testemunhos (a reflexão de Marc Bloch se pauta incessantemente pelas possibilidades que a psicologia pode oferecer ao historiador), disciplina que se desenvolveu e que inspirou claramente um grande colóquio realizado recentemente em Munique e uma importante publicação sobre “As falsificações da Idade Média” (Fälschungen im Mittelalter).

Marc Bloch desenvolve “uma tentativa de uma lógica do método crítico” que lhe permite recolocar novamente, com características próprias, a história no conjunto “das ciências do real”: “limitando sua responsabilidade pela segurança em dosar o provável e o improvável, a crítica histórica não se distingue da maioria das outras ciências do real senão por um escalonamento dos graus sem dúvida mais nuançado”. Assim, sempre sensível à unidade do conhecimento, Marc Bloch pode afirmar: “o advento de um método racional de crítica aplicado ao testemunho humano” foi “um ganho imenso … não só para o conhecimento histórico, mas para o conhecimento tout court”.

O capítulo desemboca em “horizontes bem mais vastos: a história tem o direito de contar entre suas glórias mais seguras o fato de ter, ao elaborar sua técnica, aberto aos homens uma estrada nova rumo à verdade e, por conseguinte, à justiça”.

Marc Bloch, que detesta os historiadores que “julgam” em lugar de compreender, não deixa por isso de enraizar mais profundamente a história na verdade e na moral. A ciência histórica se consuma na ética. A história deve ser verdade; o historiador se realiza como moralista, como justo. Nossa época, desesperadamente em busca de uma nova ética, deve admitir o historiador entre aqueles que procuram a verdade e a justiça não fora do tempo, mas no tempo.

Compreender portanto, e não julgar. Eis o objetivo da “análise histórica” pela qual começa o verdadeiro trabalho do historiador depois da observação e da crítica histórica prévias (capítulo IV). Marc Bloch, sempre preocupado em evitar qualquer ociosidade do espírito, esclarece que “compreender nada tem de uma atitude de passividade”. O historiador “escolhe e peneira”, “organiza racionalmente uma matéria” cuja receptividade passiva “só levaria a negar o tempo; por conseguinte, a própria história”. O vínculo entre ordenamento racional, tempo e história é perfeitamente reafirmado. Mais que isso, essa démarche racional identifica-se com a ordem do tempo e com a natureza da história.

Essa análise dedica-se particularmente a referenciar as “ligações comuns a um grande número de fenômenos sociais”, “às constantes interpretações”, sem esquecer as “defasagens” que conferem à “vida social … seu ritmo quase sempre contrastante” e, abrindo caminho para um Paul Veyne ou um Michel Foucault — que buscam definir estilos em história —, Marc Bloch propõe a tonalidade que pode, por exemplo, caracterizar “a atitude mental de um grupo”. Sensível a essa trama, a essa rapsódia da história, Marc Bloch detecta bem essa falta de autonomia das histórias particulares e, mais especificamente, da história econômica. Isso vale sobretudo para a Idade Média, que não tinha conceito para a economia e que não se contentou “em fazer coexistir o religioso com o econômico”, mas “entrelaçou-os”. Marc Bloch apontava assim o que o economista Karl Polanyi (morto em 1964) ia chamar de economia “engastada” (na religião da moral ou da política) nas sociedades arcaicas e antigas. É preciso ler Marc Bloch com atenção nesse ponto. Pois os ciosos guardiães de sua memória, ainda mais ciosos na medida em que não são os verdadeiros discípulos, consideram “traição” quando um historiador que invoca, com todos os motivos, a autoridades dos Annales em lugar da história “global” ou “total” recorta na história um objeto particular. Ora, Marc Bloch escreve: “Nada mais legítimo, nada mais constantemente salutar do que centrar o estudo de uma sociedade em um de seus aspectos particulares, ou, melhor ainda, em um dos problemas precisos que levantam este ou aquele desses aspectos: crença, economia, estrutura das classes ou dos grupos, crises políticas.”

Um aspecto importante da análise histórica é o do vocabulário, da terminologia, da “nomenclatura”. Marc Bloch demonstra como o historiador deve conduzir sua análise com o auxílio de uma dupla linguagem, a da época estudada, o que lhe permite evitar o anacronismo, mas também a do aparato verbal e conceitual da disciplina histórica atual: “Estimar que a nomenclatura dos documentos possa bastar completamente para fixar a nossa seria o mesmo, em suma, que admitir que eles nos trazem a análise toda pronta.” Encontramos aí essa saudável fobia da passividade. Mas o historiador, se não tem o fetichismo da etimologia (“uma palavra vale bem menos por sua etimologia do que pelo uso que se faz dela”), se dedicará ao estudo dos sentidos, à “semântica histórica”, cujo renascimento hoje é preciso buscar. E se resignará com que palavras mal escolhidas, temperadas com os mais diversos molhos, esvaziadas de sentido pela história, continuem a fazer parte de seu vocabulário: assim, “feudalismo”, “capitalismo”, “Idade Média”. Pelo menos esses conceitos têm o mérito de desvencilhar a história de uma classificação por “hegemonias de natureza diplomática e militar”. Marc Bloch lembra que Voltaire já havia bradado seu protesto: “Parece que, de 1.400 anos para cá, não houve nas Gálias senão reis, ministros e generais.”

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