Apologia a História ou Oficio de Historiador - Marc Bloch

Apologia a História ou Oficio de Historiador - Marc Bloch

(Parte 6 de 22)

Entretanto, convém saber o que quer dizer a palavra “servir”. Decerto, mesmo que a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém. Ou, para ser mais exato

— pois cada um busca seus passatempos3 onde mais lhe agrada —, assim parece, incontestavelmente, para um grande número de homens.

Pessoalmente, do mais remoto que me lembre, ela sempre me pareceu divertida. Como todos os historiadores, eu penso. Sem o quê, por quais razões teriam escolhido esse ofício? Aos olhos de qualquer um que não seja um tolo completo, com quatro letras, todas as ciências são interessantes. Mas todo cientista só encontra uma única cuja prática o diverte. Descobri-la para a ela se dedicar é propriamente o que se chama vocação.

Aliás, essa inegável atração da história por si só já merece que a reflexão se detenha.

Como germe5 e como estímulo, seu papel foi e permanece capital. Antes do desejo de conhecimento, o simples gosto; antes da obra de ciência, plenamente consciente de seus fins, o instinto que leva a ela: a evolução de nosso comportamento intelectual abunda em filiações desse tipo. Podemos citar inclusive a física, cujos primeiros passos devem muito aos “gabinetes de curiosidade”. Vimos, do mesmo modo, as pequenas alegrias das quinquilharias figurarem no berço de mais de uma orientação de estudos que, pouco a pouco, se embebeu do sério. Tal a gênese da arqueologia e, mais próximo de nós, do folclore. Os leitores de Alexandre Dumas talvez não sejam mais do que historiadores em potencial, aos quais falta apenas terem sido adestrados para se proporcionar um prazer puro e, para mim, mais agudo: o da cor verdadeira.

Por outro lado, que esse encanto esteja bem longe de se apagar, uma vez abordada a investigação metódica, com suas necessárias austeridades; que, ao contrário — todos os [verdadeiros] historiadores podem testemunhar isso —, ele ganhe mais ainda em vivacidade e plenitude: quanto a isso, de certa forma, não há nada que não valha alguma coisa para qualquer trabalho do espírito6 . A história no entanto, não se pode duvidar disso, tem seus gozos estéticos próprios, que não se parecem com os de nenhuma outra disciplina. É que o espetáculo das atividades humanas, que forma seu objeto específico, é, mais que qualquer outro, feito para seduzir a imaginação dos homens. Sobretudo quando, graças a seu distanciamento no tempo ou no espaço, seu desdobramento se orna das sutis seduções do estranho. O grande Leibniz, ele próprio nos deixou uma confissão a respeito: quando das abstratas especulações matemáticas ou da teodiceia passava para o deciframento dos velhos documentos ou das velhas crônicas da Alemanha imperial, experimentava, como todos nós, essa “volúpia de aprender coisas singulares”. Resguardemo-nos de retirar de nossa ciência sua parte de poesia. Resguardemo-nos sobretudo, já surpreendi essa sensação em alguns, de enrubescer por isso. Seria uma espantosa tolice acreditar que, por exercer sobre a sensibilidade um apelo tão poderoso, ela devesse ser menos capaz de satisfazer também nossa inteligência. Se a história, não obstante, para a qual nos arrasta assim uma atração quase universalmente sentida, só tivesse isso para se justificar, se fosse apenas, em suma, um amável passatempo, como o bridge ou a pesca, valeria a pena todo o esforço que fazemos para escrevê-la? Para escrevê-la, quero dizer honestamente, indo verdadeiramente em direção, o máximo possível, às suas molas ocultas: por conseguinte, com dificuldade. Os jogos, escreveu André Gide, deixaram hoje de nos ser permitidos: inclusive, acrescentava, os da inteligência. Isso era dito em 1938. Em 1942, quando por minha vez escrevo, o quão mais carregada de um sentido mais pesado ficou tal declaração! Com toda certeza, num mundo que acaba de abordar a química do átomo e mal começa a sondar o segredo dos espaços estelares, em nosso pobre mundo que, justamente orgulhoso de sua ciência, não consegue todavia criar para si um pouco de felicidade, as longas minúcias da erudição histórica, muito capazes de devorar uma vida inteira, mereceriam ser condenadas como um desperdício de forças absurdo a ponto de ser criminoso, se devesse apenas servir para dissimular com um pouco de verdade uma de nossas distrações. Ou será preciso desaconselhar a prática da história a todos os espíritos capazes de serem melhor utilizados em outro lugar, ou é como conhecimento que a história terá de provar sua consciência limpa.

Mas aqui uma nova pergunta se coloca: o que, precisamente, torna legítimo um esforço intelectual? Ninguém, imagino, ousaria mais dizer hoje em dia, como os positivistas de estrita observância, que o valor de uma investigação se mede, em tudo e para tudo, por sua aptidão a servir à ação. A experiência não apenas nos ensinou que é impossível decidir previamente se as especulações aparentemente as mais desinteressadas não se revelarão, um dia, espantosamente úteis à prática. Seria infligir à humanidade uma estranha mutilação recusar-lhe o direito de buscar, fora de qualquer preocupação de bem-estar, o apaziguamento de suas fomes intelectuais. À história, mesmo que fosse eternamente indiferente ao homo faber ou politicus, bastaria ser reconhecida como necessária ao pleno desabrochar do homo sapiens. Entretanto, mesmo assim limitada, a questão não está, por isso, logo resolvida.

Pois a natureza de nosso entendimento o leva muito menos a querer saber do que a querer compreender. Daí resulta que as únicas ciências autênticas são, para ele, aquelas que conseguem estabelecer ligações explicativas entre os fenômenos. O Ora, a polimatia pode muito bem passar por distração ou mania; tanto hoje quanto na época de Malebranche, seria incapaz de representar uma das boas obras da inteligência. Independentemente até de qualquer eventualidade de aplicação à conduta, a história terá portanto o direito de reivindicar seu lugar entre os conhecimentos verdadeiramente dignos de esforço apenas na medida em que, em lugar de uma simples enumeração, sem vínculos e quase sem limites, nos permitir uma classificação racional e uma progressiva inteligibilidade.

Não se pode negar, no entanto, que uma ciência nos parecerá sempre ter algo de incompleto se não nos ajudar, cedo ou tarde, a viver melhor.

Em particular, como não experimentar com mais força esse sentimento em relação à história, ainda mais claramente predestinada, acredita-se, a trabalhar em benefício do homem na medida em que tem o próprio homem e seus atos como material? De fato, uma velha tendência, à qual atribuir-se-á pelo menos um valor de instinto, nos inclina a lhe pedir os meios de guiar nossa ação: em consequência, a nos indignar contra ela, como o soldado vencido de cuja frase eu lembrava, caso, eventualmente, pareça mostrar sua impotência em fornecê-los. O problema da utilidade da história, no sentido estrito, no sentido “pragmático” da palavra útil, não se confunde com o de sua legitimidade, propriamente intelectual. Este, a propósito, só pode vir em segundo lugar: para agir sensatamente, não será preciso compreender em primeiro lugar? Mas sob pena de não responder senão pela metade às sugestões mais imperiosas do senso comum, este problema tampouco poderá ser elucidado. A essas perguntas, alguns, entre nossos conselheiros ou entre os que gostariam de sê-lo, já responderam. Foi para zombar de nossas esperanças. Os mais indulgentes disseram: a história é tanto sem utilidade como sem solidez. Outros, cuja severidade despreza meias-medidas: ela é perniciosa. “O produto mais perigoso que a química do cérebro já elaborou”: assim pronunciou-se um deles [e não dos menos notórios]. Essas condenações têm um temível atrativo: justificam, antecipadamente, a ignorância. Felizmente, para o que ainda subsiste em nós de curiosidade intelectual, não são irrecorríveis.

Mas se o debate deve ser reconsiderado, convém que seja sobre dados mais seguros. Pois há uma precaução que os habituais detratores da história parecem não ter percebido. A palavra deles não carece nem de eloquência, nem de espirituosidade. Em sua maioria porém, omitiram-se de se informar exatamente sobre aquilo de que falam. A imagem que fazem de nossos estudos não foi captada na oficina. Recende antes a oratório e a Academia do que o gabinete de trabalho7 . Está sobretudo caduca. De maneira que tanta verve poderia afinal ter sido gasta para exorcizar apenas uma fantasia. Nosso esforço, aqui, deve ser bem diferente. Os métodos cujo grau de certeza buscaremos avaliar serão aqueles que a pesquisa realmente utiliza, até na humilde e delicada minúcia de suas técnicas. Nossos problemas serão os problemas mesmos impostos ao historiador, cotidianamente, por sua matéria.8 Em resumo, gostaríamos, antes de tudo, de dizer como e por que um historiador pratica seu ofício. Ao leitor cabe decidir, em seguida, se tal ofício merece ser exercido. Prestemos, no entanto, atenção. É apenas aparentemente que, mesmo assim compreendida e limitada, a tarefa pode passar por simples. Sê-loia, talvez, se nos encontrássemos em presença de uma dessas artes aplicadas sobre as quais já nos detemos o suficiente ao enumerar, umas após as outras, suas manipulações longamente experimentadas. Mas a história não é a relojoaria ou a marcenaria. É um esforço para o conhecer melhor: por conseguinte, uma coisa em movimento. Limitar-se a descrever uma ciência tal qual é feita será sempre traí-la um pouco. É mais importante dizer como ela espera ser capaz de progressivamente ser feita. Ora, da parte do analista, semelhante empreendimento exige forçosamente uma imensa dose de escolha pessoal. [Toda ciência, com efeito, é, a cada uma de suas etapas, constantemente atravessada por tendências divergentes, que não são possíveis de dirimir sem uma espécie de aposta sobre o futuro.] Não se pretende aqui recuar diante dessa necessidade. Em matéria intelectual, não mais que em qualquer outra, o horror das responsabilidades não é um sentimento muito recomendável. Entretanto, ao menos seria honesto alertar o leitor.

Do mesmo modo, as dificuldades com as quais inevitavelmente se choca qualquer estudo dos métodos variam muito segundo o ponto alcançado por cada disciplina na curva, sempre entrecortada, de seu desenvolvimento. Há cinquenta anos, quando Newton reinava soberano, era, imagino, singularmente mais fácil que hoje construir, com um rigor de épura, uma exposição sobre a mecânica. Mas a história ainda se encontra numa fase bem mais desfavorável às certezas.

Pois a história não apenas é uma ciência em marcha. É também uma ciência na infância: como todas aquelas que têm por objeto o espírito humano, esse temporão no campo do conhecimento racional. Ou, para dizer melhor, velha sob a forma embrionária da narrativa, de há muito apinhada de ficções, há mais tempo ainda colada aos acontecimentos mais imediatamente apreensíveis, ela permanece, como empreendimento racional de análise, jovem. Tem dificuldades para penetrar, enfim, no subterrâneo dos fatos de superfície, para rejeitar, depois das seduções da lenda ou da retórica, os venenos, atualmente mais perigosos, da rotina erudita e do empirismo, disfarçados em senso comum. Ela ainda não ultrapassou, quanto a alguns dos problemas essenciais de seu método, os primeiros passos. E eis por que Fustel de Coulanges e, já antes dele, Bayle provavelmente não estavam totalmente errados ao dizê-la “a mais difícil de todas as ciências”. 9

[Porém, será uma ilusão? Por mais incerta que permaneça, em muitos pontos, nosso caminho, estamos na hora presente, parece-me, mais bem situados do que nossos predecessores imediatos para ver um pouco mais claro.

As gerações que vieram logo antes da nossa, nas últimas décadas do século XIX e até os primeiros anos do X, viveram como alucinadas por uma imagem muito rígida, uma imagem verdadeiramente comtiana das ciências do mundo físico. Ao estender ao conjunto das aquisições do espírito esse prestigioso esquema, parecia-lhes então não existir conhecimento autêntico que não devesse desembocar em demonstrações incontinenti irrefutáveis, em certezas formuladas sob o aspecto de leis imperiosamente universais. Esta era uma opinião praticamente unânime.

Mas, aplicada aos estudos históricos, dará origem, segundo os temperamentos, a duas tendências opostas.

Alguns julgaram possível, com efeito, instituir uma ciência da evolução humana que se conformasse a esse ideal de certo modo pancientífico e deram o melhor de si para estabelecê-la: livres, a propósito, de se reginarem no sentido de finalmente deixar fora do alcance desse conhecimento dos homens muita coisa de realidades bem humanas, mas que lhes pareciam desesperadamente refratárias a um conhecimento racional. Esse resíduo era o que eles chamavam, desdenhosamente, de acontecimento; era também uma boa parte da vida mais intimamente individual. Essa foi, em suma, a posição da escola sociológica fundada por Durkheim. Ao menos se não ignorarmos concessões que, à primeira inflexibilidade dos princípios, vimos pouco a pouco introduzidas por homens inteligentes demais para não sofrerem, a não ser à revelia, a pressão das coisas. Nossos estudos devem muito a esse grande esforço. Ele nos ensinou a analisar mais profundamente, a cerrar mais de perto os problemas, a pensar, ousaria dizer, menos barato. Não falaremos dele senão com reconhecimento e respeito infinitos. Se hoje parece ultrapassado, é, para todos os movimentos intelectuais, cedo ou tarde, o resgate de sua fecundidade.

Entretanto, outros pesquisadores tomaram, no mesmo momento, atitude bem diferente. Não conseguindo inserir a história nos quadros do legalismo físico, particularmente preocupados, além disso, em razão de sua formação inicial, com as dificuldades, as dúvidas, os frequentes recomeços da crítica documental, colheram nessas constatações, antes de tudo, uma lição de humildade desiludida. A disciplina à qual consagravam seus talentos não lhes pareceu, no fim das contas, capaz, nem no presente nem no futuro, de muitas perspectivas de progresso. Inclinaram-se a ver nela, em lugar de um conhecimento verdadeiramente científico, uma espécie de jogo estético ou, melhor dizendo, de exercício de higiene benéfico à saúde do espírito. Foram denominados, às vezes, “historiadores historizantes”: apelido injurioso para nossa corporação, uma vez que parece fazer a essência da história consistir na própria negação de suas possibilidades. De minha parte, de bom grado acharia para eles, no momento do pensamento francês ao qual se vinculam, um sinal de identificação mais expressivo.

O amável e fugidio Sylvestre Bonnard, se considerarmos as datas que o livro fixa para sua atividade, é um anacronismo: assim como esses santos antigos que os escritores da Idade Média descreviam, ingenuamente, sob as cores de sua própria época. Sylvestre Bonnard (por menos que se queira imaginar, por um instante, uma existência carnal sob essa sombra inventada), o verdadeiro Sylvestre Bonnard, nascido sob o Primeiro Império, ainda teria pertencido à geração dos grandes historiadores românticos; ele teria compartilhado seus entusiasmos comoventes e fecundos, a fé algo cândida no futuro da “filosofia” da história. Ignoremos a época à qual supõe-se ter pertencido e dirijamo-nos àquela que viu sua vida imaginária ser escrita; ele merece figurar como padroeiro, o santo corporativo de todo um grupo de historiadores que foram praticamente os contemporâneos intelectuais de seu biógrafo: trabalhadores profundamente honestos, mas de fôlego um pouco curto e sobre os quais se pensaria às vezes que, semelhantes às crianças cujos pais se divertiram demais, trazem em seus ossos a fadiga das grandes orgias históricas do romantismo; dispostos a se fazerem bastante pequenos diante de seus confrades do laboratório; em suma, mais inclinados a nos aconselhar a prudência do que o impulso. Seria excesso de malícia buscar sua divisa nessa frase espantosa, que escapou um dia ao homem de inteligência tão viva que no entanto foi meu caro professor Charles Seignobos: “É muito útil colocar-se questões, mas muito perigoso respondêlas”? Esta não é, seguramente, a declaração de um fanfarrão. Mas se os físicos não tivessem feito profissão de intrepidez, onde estaria a física?

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