PROST, Antoine. Doze Lições Sobre História. BH; Autentica, 2008 (estudada)

PROST, Antoine. Doze Lições Sobre História. BH; Autentica, 2008 (estudada)

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Biblioteca - ICHS/UFOP930 P966cí

Nas páginas a seguir o leitor vai poder vislumbrar a maestria de Antoine Prost e de seu olhar sobre a História.

Valioso para historiadores, estudantes e demais envolvidos na área de Ciências Humanas, este livro surpreende por tecer, em uma única edição, uma rede informacional rica, profun da e articulada sobre a História, suas práticas e suas nuances. Esta tradução, feita cuidadosa mente por Guilherme João de

Freitas Teixeira, convida os his toriadores a uma viagem que

passa por caminhos instigantes e reveladores, escapando à idéia de que História se refere a algo que já passou.

Como forma de estimu lar o pensamento crítico, este livro mostra como o "fazer história" veio se configurando até a contemporaneidade. O leitor tem em mãos, portanto, uma fonte inesgotável de leitura prazerosa, para reflexão e ques tionamentos sobre a História, seus processos e o ofício do historiador.

O AUTOR Antoine Prost é historiador, professor da Université Paris I e pesquisador na área de história da sociedade francesa no século X nos seus múltiplos aspectos: gru pos sociais, instituições, mentali- dades. É autor de La grande guerre expliquée à mon petit fils (Seuil) e organizador de História da vida pri vada v. 5 (Companhia das Letras).

Leia também da coleção História e Historiografia: A leitura e seu público no mundo contemporâneo: ensaios sobre História Cultural Jean-Yves Mollier

Doze lições sobre a história Doze lições sobre a história

Coleção HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA

Antoine Prost Doze lições sobre a história

TRADUÇÃO Guilherme João de Freitas Teixeira autêntica

Título original: "Douze leçons sur l'histoire", de Antoine Prost. Copyright © Éditions du Seuil, 1996

COORDENADORA DA COLEÇÃO HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Eliana de Freitas Dutra

PROJETO GRÁFICO DE CAPA Teco de Souza capa: Sobre imagem de

Puvis de Chavannes. Le Bois sacré (detalhe). Grand Amphithéâtre de la.

Archives Giraudon. Sorbonne, Paris Tales Leon de Marco

REVISÃO Aiko Mine

REVISÃO TÉCNICA Vera Chacham

EDITORA RESPONSÁVEL Rejane Dias

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora.

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

w.autenticaeditora.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro)

Doze lições sobre a história / Antoine Prost ; [tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira]. — Belo Horizonte : Autêntica Editora , 2008.

Título original: Douze leçons sur l'histoire. Bibliografia.

ISBN 978-85-7526-348-8 1. Historiografia 2. História - Metodologia I. Título.

Índices para catálogo sistemático: 1. Historiografia 907.2

Introdução7
(séculos XIX e X)13
Capítulo I - A profissão de historiador3
Capítulo I - Os fatos e a crítica histórica53
Capítulo IV - As questões do historiador75
Capítulo V - Os tempos da história95
Capítulo VI - Os conceitos115
Capítulo VII - A história como compreensão133
Capítulo VIII - Imaginação e atribuição causal153
Capítulo IX - O modelo sociológico169
Capítulo X - A história social189
Capítulo XI - Criação de enredos e narratividade211
Capítulo XII - A história se escreve235
Conclusão - Verdade e função social da história253
Referências2 7 3

Capítulo I - A história na sociedade francesa Lista dos livros em destaque..................................................................... 286

Introdução

Se é verdade — aliás, este estudo tenta fazer tal demonstração — que a história depende da posição social e institucional de quem a escreve, não ficaria bem ocultar o contexto em que estas reflexões foram elaboradas; tendo surgido de um curso, o título deste livro — Lições sobre a história — é utilizado em seu sentido próprio.

Com efeito, a formação dos estudantes em história inclui, tanto na universidade da qual sou professor quanto em um grande número de outras, o ensino de historiografia ou de epistemologia que, através de diferentes abordagens, visa suscitar um olhar crítico sobre o que se faz quando se pretende fazer história. Esse ensino inscreve-se, por sua vez, em uma tradição secular: antes de ter sido professado, em seu tempo, por Pierre Vilar ou Georges Lefebvre, ele havia sido inaugurado em 1896 1897, na Sorbonne, por Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, cujo curso foi publicado, em 1897, com o título — que teríamos adotado de bom grado — Introduction aux études historiques.

No entanto, trata-se de uma tradição frágil e ameaçada; até o final da década de 1980, na França, a reflexão metodológica sobre a história foi considerada inútil. É verdade que alguns historiadores, tais como Ch.-O. Carbonell, F. Dosse, F. Hartog, O. Dumoulin e ainda outros, chegaram a manifestar interesse pela história da história, mas eles deixaram a reflexão epistemológica nas mãos dos filósofos (R. Aron, P. Ricreur). É significa tivo que, atualmente, as únicas obras de síntese disponíveis em livraria sejam iniciativas oriundas do exterior: o livro Histoire et mémoire, de J. Le Goff, foi publicado, inicialmente, em italiano; por sua vez, o compêndio de E. Carr deve-se a George Macaulay Trevelyan lectures de Cambridge, assim como o livrinho — que continua sendo notável — de H.-I. Marrou, De la connaissance historique, contendo as aulas administradas em Louvain, na cá tedra Cardinal-Mercier. Os inspiradores da escola dos Annales — F. Braudel, E. Le Roy Ladurie, F. Furet, P. Chaunu — multiplicaram as coletâneas de artigos ou promoveram a publicação de obras coletivas, por exemplo, aquelas organizadas por J. Le Goff e P. Nora; no entanto, Marc Bloch, com seu livro Apologie pour l’histoire — infelizmente, inacabado — foi o único que se empenhou em explicar o oficio de historiador.

Aliás, essa é a conseqüência de uma atitude deliberada: até aqui, os historiadores franceses haviam feito pouco caso das considerações gerais. Para L. Febvre, “filosofar” constituía “o crime capital”;1 na aula inaugural no Collège de France, ele já havia observado que “os historiadores não pos suem grandes necessidades filosóficas”. E, para confirmar sua afirmação, citava o “depoimento irônico” do poeta Charles Péguy (1988):

Habitualmente, os historiadores fazem história sem meditar a respeito dos limites, nem das condições dessa matéria. Sem dúvida, eles têm razão; é preferível que cada um exerça seu ofício. De maneira geral, um historiador deveria começar por fazer história sem delongas: caso contrário, nunca conseguirá fazer seja lá o que for!2

Tal postura vai além da simples divisão das tarefas: mesmo que lhes fosse oferecida tal oportunidade, inúmeros historiadores recusariam em preender uma reflexão sistemática sobre sua disciplina. Tal rejeição relativa às filosofias sobre a história é considerada por Philippe Ariès, em seu livro Le temps de l’histoire, como “uma insuportável vaidade”: “Elas são ignoradas ou postas de lado, deliberadamente, com um simples dar de ombros, como se tratasse de falatório teórico de amadores sem competência: a insuportável futilidade do técnico que permanece confinado dentro de sua técnica, sem nunca ter tentado observá-la de fora!” (Ariès, 1986 p. 216).

Abundam as declarações para confirmar a pertinência desse depoi mento. Tendo freqüentado assiduamente os historiadores, sem se eximir de criticá-los, Paul Ricreur — em sua obra, Temps et Récit, I — cita a este propósito, de forma um tanto pérfida, Pierre Chaunu:

A epistemologia é uma tentação que deveria ser afastada resoluta mente [...] No máximo, admite-se que seja oportuno que essa tarefa

1 Resenha do livro de Marc Bloch, Apologie pour Vhistoire, na Revue de métaphysique et de morale (LVII, 1949), em Combats pour l’histoire (FEBVRE, 1953, p. 419-438): “O autor não poderá ser acusado de filosofar — o que significa, na boca de um historiador, estejamos certos disso, o crime capital” (p. 433).

2 Ver a aula de Lucien Febvre em Combats pour Vhistoire (1953, p. 3-17; em particular, p. 4).

seja executada por alguns mentores — não é esse, absolutamente, nosso caso, nem alimentamos tal desejo — a fim de que os robustos artesãos de um conhecimento em construção — aliás, essa seria a nossa única pretensão — fiquem mais bem preservados das perigosas tentações da mórbida Cápua. (Ricur, 1983-1985, p. 171)

Com efeito, os historiadores franceses adotam, naturalmente, a pos tura de um modesto artesão: para a foto de família, eles posam em seu ateliê e exibem-se como homens de ofício que, após uma longa aprendi zagem, dominam os recursos de sua arte. Elogiam a beleza da obra e valorizam a habilidade, em vez das teorias de que estão entulhados — em sua opinião, inutilmente — os colegas sociólogos. Inúmeros são aqueles que, no começo de seus livros, se eximem de definir — tarefa considerada obrigatória pelos colegas alemães — os conceitos e os esquemas de inter pretação utilizados. Por maior força de razão, eles julgam que a elabora ção de uma reflexão sistemática sobre sua disciplina é algo de pretensioso e perigoso: isso corresponderia a reivindicar uma posição de fundador de escola que é uma atribuição rejeitada por sua modéstia — mesmo que seja fingida — e que, sobretudo, deixá-los-ia expostos à crítica, nem um pouco benevolente, de colegas que, eventualmente, pudessem ter a impressão de que eles pretendem ensinar-lhes o ofício. Segundo parece, a reflexão epistemológica atenta contra a igualdade dos “mestres” da corporação; eximir-se de levá-la a efeito é uma forma de evitar, por um lado, perder seu tempo e, por outro, expor-se às críticas dos pares.

Felizmente, essa atitude está em via de mudar. A indagação metodo lógica tornou-se mais freqüente, tanto nas revistas mais antigas — por exem plo, a Revue de synthèse —, quanto nas mais recentes, como Genèses. Por sua vez, em seu sexagésimo aniversário, a revista dos Annales retomou uma reflexão que, desde então, continua a ser elaborada.

É verdade que se alterou a conjuntura do fazer história. O complexo de superioridade dos historiadores franceses, orgulhosos de pertence rem, em maior ou menor grau, à escola dos Annales — cuja excelência, su postamente, é elogiada pelos historiadores do mundo inteiro — começou a tornar-se, não propriamente irritante, mas injustificado. A historiografia francesa fragmentou-se e três questões têm lançado a dúvida relativamen te a suas antigas certezas. Assim, as tentativas de síntese aparecem como ilusórias e votadas ao fracasso; a ênfase é atribuída, neste momento, às micro-histórias e monografias sobre temas cujo inventário permanece ili mitadamente aberto. Por outro lado, a pretensão científica — compartilhada, apesar de seu desacordo, por Seignobos e Simiand — vacila sob os efeitos de um subjetivismo que incorpora a história à literatura; o universo das representações desqualifica o dos fatos. Por último, o empreendimento unificador de Braudel e dos defensores de uma história total que fosse capaz de recapitular a contribuição de todas as outras ciências sociais re dundou em uma crise de confiança: à força de servir-se de questões, con ceitos e métodos que ela pede de empréstimo à economia, sociologia, etnologia e lingüística, a história passa, hoje em dia, por uma crise de identidade que suscita a reflexão. Em poucas palavras, F. Dosse transfor mou, acertadamente, essa constatação em título de um livro: a história encontra-se, atualmente, “em migalhas”.

Neste novo contexto, um livro de reflexão sobre a história nada tem a ver com o manifesto de uma escola. Em vez de uma tomada de posição teórica, destinada a valorizar determinadas formas de história, desvalori zando as outras, trata-se de participar de uma reflexão comum para a qual todos os historiadores estão convidados; atualmente, nenhum deles pode evitar o confronto entre o que julga fazer e o que faz.

Posto isto, não vale dissimular que esta reflexão empreendeu, aqui, o itinerário didático de um curso destinado a estudantes universitários do primeiro ciclo. Tive prazer de apresentá-lo repetidas vezes; minha im pressão é a de que ele correspondia a uma expectativa, até mesmo, a uma necessidade. Portanto, resolvi ordená-lo e introduzir notas de referência, ou seja, torná-lo mais consistente e aprimorá-lo, sem perder de vista seu público-alvo. Resolução que implica evidentes serventias: o leitor tem o direito de esperar, por exemplo, determinadas informações mais perti nentes sobre aspectos peculiares aos historiadores experientes, a crítica histórica de acordo com Langlois e Seignobos, ou os três tempos da histó ria segundo Braudel. Do mesmo modo, para garantir a nitidez do texto, tive de sacrificar algumas liberdades de estilo e todas as alusões.

Naturalmente, como qualquer professor, elaborei estas aulas a partir de reflexões elaboradas por outros. Tive um verdadeiro prazer na leitura de Lacombe, Seignobos, Simiand, Bloch, Febvre, Marrou; ou, entre os autores do exterior, Collingwood, Koselleck, Hayden White, Weber e ainda muitos outros — seria impossível mencionar o nome de todos. O desejo de fazer compartilhar este prazer levou-me a apresentar longas citações, integrando-as no meu próprio texto; de fato, pareceu-me desti tuído de interesse repetir bem, pessoalmente com menos qualidade, o que já havia sido afirmado com brilhantismo por uns, com humor por outros, e com pertinência, por todos. Daí, os “boxes” que não deverão ser postos de lado pelo leitor afobado em chegar à conclusão: tais textos constituem, muitas vezes, etapas essenciais da argumentação.

Como se pode ver, em vez de um manifesto pretensioso ou de um ensaio brilhante, este livro é uma modesta reflexão com o objetivo de ser útil: eis uma ambição de que sou capaz de avaliar a amplitude. Além disso, trata-se de uma forma, semelhante a outras, de reencontrar a postu ra — tão apreciada pelos historiadores franceses — do artesão que explica o ofício aos aprendizes...

A história na sociedade francesa (séculos XIX e X)

A história é o que fazem os historiadores

Em vez de uma essência etema, de uma idéia platônica, a disciplina chamada história é uma realidade, em si mesma, histórica, ou seja, situada no tempo e no espaço, assumida por homens que se dizem historiadores e que são reconhecidos como tais, além de ser aceita como história por diversos públicos. Em vez de uma história sub spccie aetemitatis, cujas ca racterísticas tivessem atravessado, sem qualquer alteração, as vicissitudes do tempo, existem diferentes produções que os contemporâneos de de terminada época estão de acordo em considerar como história; ou seja, antes de ser uma disciplina científica - segundo sua pretensão e, até certo ponto, conforme ela o é efetivamente a história é uma prática social.

Essa afirmação pode tranqüilizar o historiador que empreende uma reflexão sobre sua disciplina, na medida em que o remete ao que ele está acostumado a fazer: o estudo de um grupo profissional, de suas práticas e de sua evolução. Existem grupos de historiadores que reivindicam tradi ções, constituem escolas, reconhecem normas constitutivas de seu ofício comum, obedecem a uma deontologia, além de praticarem rituais de incorporação e exclusão. Os homens e as mulheres que se consideram historiadores — cuja união ocorre, efetivamente, pela consciência de per tencer a essa comunidade — fazem história para um público que os lê ou escuta, discute com eles e acha seu trabalho interessante. Certamente, eles são estimulados, também, pela curiosidade intelectual, pelo amor pela verdade e pelo culto à ciência; no entanto, seu reconhecimento social, assim como sua subsistência, dependem da sociedade que lhes atribui um status e lhes garante uma remuneração. Portanto, um duplo reconheci mento - pelos pares e pelo público — consagra o historiador como tal.

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