AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA DE MULHERES IDOSAS NA COMUNIDADE

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA DE MULHERES IDOSAS NA COMUNIDADE

(Parte 2 de 3)

Aliadas à baixa escolaridade observaram-se desvantagens socioeconômicas. Embora reconhecendo a limitação do presente estudo no que se refere á generalização dos resultados, outros estudos apontaram idosas em condições semelhantes. Em um estudo realizado na zona urbana do município de Uberaba-MG, 30% das mulheres idosas da amostra tinham condições financeiras aproximadas á realidade dos deste estudo(10). Em Jequié-Ba 70% das mulheres idosas pertenciam às classes econômicas “D e E” indicando baixo nível socioeconômico(1).

Neste estudo observou-se que 60,6% das mulheres idosas eram aposentadas e um percentual importante de mulheres ainda inseridas no mercado de trabalho ocupando a função de diarista (13,9%). Diversos estudos apontam que a aposentadoria é a principal fonte de sobrevivência das pessoas idosas, ainda que ela não seja suficiente para atender suas necessidades básicas. Devido às graves distorções na distribuição de renda no país,

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muitos idosos vivem em extrema pobreza, enquanto outros, para não ver reduzido o seu padrão de vida, são forçados a prolongar sua permanência no mundo do trabalho, ou conforme o caso, obrigados a retornar às atividades laborais para garantir condições mínimas de sobrevivência(12-14).

Quanto ao numero de pessoas que vivem no domicilio observou-se que a maior parte das idosas tinha 122 (57,8%) de 1 a 3 pessoas no vivendo no domicilio, além disso, 36 (17,1%) viviam sozinhas. Neste sentido, nos países mais desenvolvidos, a proporção de idosos vivendo com os filhos diminui substancialmente com o avançar da idade. Em contrapartida, em muitos países em desenvolvimento, a porcentagem de pessoas idosas que moram com os filhos continua elevada, mesmo com o aumento da longevidade, sugerindo que os pais tendem a viver com pelo menos um dos filhos durante todo o ciclo de vida(15).

Observou-se que a maior parte das mulheres idosas dependia do Sistema único de Saúde para tratamento de patologias. Com o elevado número de idosas que estão sendo incorporadas anualmente à população brasileira, não podemos deixar de considerar suas consequências para o sistema de saúde, como o aumento de atendimentos aos portadores de doenças crônicas não transmissíveis, complexas e onerosas, típicas da população idosa que perduram por anos e exigem cuidados constantes, medicação contínua e exames periódicos(16).

Em caso de doença, constatou-se que a maior parte das idosas prefere busca a rede hospital e farmácias do bairro, possivelmente essas mulheres não encontram acolhimento na UBS, quando estão doentes. Dentro do princípio de que a rede básica pode e deve tratar cerca de 85% das doenças mais comuns, seu fortalecimento pode vir a racionalizar o uso dos serviços mais especializados e ao mesmo tempo produzir melhores resultados na saúde da população. Além de ser a “porta de entrada” do sistema municipal de saúde, a UBS, funcionando dentro dessa nova estratégia, acaba sendo o elo articulador do percurso do usuário no interior de todo o sistema de saúde, pressionando a organização da referência para os níveis mais especializados, quando necessário(17-18).

Tratando-se do tabagismo, percebeuse que mais da metade das mulheres idosas tiveram tinham este hábito, considerando-se as idosas ex-fumantes e as que fumavam, na ocasião deste estudo. Em um estudo realizado na cidade de Londrina-PR, em 2010, foram observado resultados semelhantes aos encontrados neste estudo considerando o gênero feminino(19).

Em relação ás doenças crônicas, observou-se neste estudo alto percentual de idosas com hipertensão arterial sistêmica (HAS). Um estudo de base populacional realizado com 208 mulheres idosas no município de Campinas-SP em 2006, revelou um percentual menor de idosas comparados com este estudo(20).

Quanto ao Diabetes Mellitus, este estudo mostrou percentual alto de idosas com esta condição crônica de saúde.

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Neste sentido, estudos apontam que o controle metabólico rigoroso, associado a medidas preventivas e curativas relativamente simples, é capaz de prevenir ou retardar o aparecimento das complicações crônicas do diabetes mellitus, resultando em melhor qualidade de vida ao indivíduo diabético(21). Para o controle desta patologia, são necessárias medidas que envolvem mudanças no estilo de vida do indivíduo. O manejo do diabetes mellitus deve ser feito dentro de um sistema hierarquizado de saúde, sendo sua base o nível primário de atendimento. A equipe de Saúde da Família possui um papel fundamental neste processo, fazendo o levantamento epidemiológico e propondo medidas preventivas, de controle e tratamento(2).

A qualidade de vida na velhice parte de uma avaliação multidimensional em relação aos critérios socionormativos e intrapessoais que buscam referencia tanto nas relações atuais quanto nas passadas e também prospectivas na relação entre o idoso e o ambiente que o cerca. Dessa maneira, a qualidade de vida na velhice dependeria de muitos elementos em interação constante ao longo da vida do indivíduo(23).

Ao analisar as informações relativas a pontuação dos domínios do Whoqol-old, identifica-se que na faceta funcionamento do sensório, o qual avalia a parte sensorial e o impacto da perda de habilidades sensoriais na qualidade de vida, a média do escore alcançou 1,5, com desvio padrão de 3,7. Este valor indica que nesta faceta as idosas possuem uma qualidade de vida mediana.

Já na faceta autonomia, em que se avaliou a independência na velhice e a capacidade ou liberdade de viver de forma autônoma e tomar decisões, a média do escore alcançou 1,2, com desvio padrão de 3,8. Este valor indica que nesta faceta as idosas possuem qualidade de vida positiva.

Quando nos reportamos a faceta morte e morrer, em que é possível avaliar as inquietações e temores sobre a morte e o morrer, a média do escore alcançou 12,6 com desvio padrão de 4,6. Este valor indica que nesta faceta as idosas possuem uma maior qualidade de vida e que possivelmente não se preocupam com a morte ou se estão preparadas para morrer. Neste sentido, um estudo que avaliou a qualidade de vida de mulheres idosas no município de Campinas-SP em 2010 foi observado resultados semelhantes aos deste estudo, no que diz respeito à faceta morte e morrer do whoqol-Old(24).

Em relação à faceta atividades passadas, presentes e futuras que avalia a satisfação sobre conquistas na vida e coisas a que se anseia, a média do escore alcançou 1,7 com desvio padrão de 3,5 indicando avaliação negativa de qualidade de vida. O bem-estar proporcionado pela elaboração e/ou concretização de projetos é traduzido, inegavelmente, com um aumento da autoestima e, consequentemente, na melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas. Os projetos futuros podem também se constituir como uma condição importante para o aumento da qualidade de vida na terceira idade, porque são uma forma de dar sentido à existência dos indivíduos (como

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seres que mantêm suas faculdades mentais ativas, capazes de poder projetar e concretizar seus desejos)(25).

Na faceta participação social, na qual se se avalia a participação nas atividades cotidianas, especialmente na comunidade. As idosas participantes deste estudo avaliaram de forma positiva sua interação com a comunidade com média de 1,2 e desvio padrão 4,3. Na terceira idade, cujas características principais, em relação ao comportamento social, são a diminuição das capacidades sensoriais e redução da prontidão para a resposta, outras habilidades podem ser especialmente importantes, tais como as de estabelecer e manter contato social, além de lidar com os comportamentos sociais decorrentes de preconceitos contra a velhice, geralmente expressos através de hesitação(26).

A faceta intimidade, com uma das menores pontuações atingidas, avaliou a capacidade dos idosos de ter relações pessoais e íntimas. Esse resultado pode estar associado ao se constatar que 80% das idosas não tinham cônjuge e 17,1% viviam sozinhas. Neste sentido, As mulheres têm maior índice de sobrevida do que os homens, quando atingidas pelas principais causas de morte, mas o contraponto é que elas são mais afetadas por doenças não fatais. A velhice traz à mulher maior possibilidade de ficar sozinha, sendo o elemento de referência familiar. As mulheres têm maior probabilidade de enviuvar numa idade menos avançada, com muitos anos de vida ainda pela frente(27).

Conclui-se que as mulheres idosas que participaram deste estudo são idosas jovens, afrodescendentes, sem cônjuge, vivendo em lares multigeracionais, analfabetas, aposentadas, com renda familiar de uma a três salários mínimos, dependentes do Sistema Único de Saúde. Na avaliação da qualidade de vida, as facetas intimidade e atividades presente, passadas e futuras obtiveram os piores escores de qualidade de vida.

Diante da rapidez com que o envelhecimento populacional tem ocorrido principalmente em nosso país, trazendo consigo importantes consequências no que se referem aos aspectos políticos, social, cultural e epidemiológico, os resultados deste estudo podem contribuir significativamente em ações que visem melhorar a qualidade de vida dos idosos residentes nesta área de abrangência da Estratégia Saúde da Família.

A tentativa de se avaliar qualidade de vida em pessoas idosas vai além da simples aplicação de um instrumento; em se tratando de pessoa idosa, a qualidade de vida pode ser percebida como boa ou ruim de acordo com a forma como cada um vivencia a velhice, o que pode variar entre dois extremos (muito bom ou péssimo). Assim, acreditamos que avaliação da qualidade de vida depende, na maioria das vezes, da interpretação emocional que cada indivíduo faz dos fatos e eventos que lhe ocorrem, por exemplo, a perda dos sentidos pode não significar o mesmo para dois indivíduos.

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