Politica- para nao ser idiota - Mario Sergio Cortella

Politica- para nao ser idiota - Mario Sergio Cortella

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POLÍTICA Para não ser idiota

Mario Sergio Cortella

Renato Janine Ribeiro

N.B. As palavras em destaque remetem para um glossário ao final do livro, com dados complementares sobre as pessoas citadas.

Mario Sergio Cortella por Renato Janine Ribeiro Por que será que em nossa área, a filosofia, as pessoas acham que sério é quem não tem humor? Pois o que agrada de imediato no Mario é que ele é engraçado. Um dia em que um ministro se gabava de ter visitado não lembro qual universidade, que nunca antes na história deste país recebera visitas ministeriais, ele disse – gentil, sem maldade, sem ofender nem mesmo a autoridade: “será que ela não funciona bem justamente porque, nunca, nenhum ministro esteve lá?”. Para mim, a essência do filosofar está numa frase de Nietzsche diz algo assim: zombei de todo pensador que não zombou de si mesmo. Mario tem essa capacidade. Foi secretário da Educação da cidade de São Paulo, ocupou cargos, é uma das grandes referências brasileiras no campo da educação. Mas só dá para entender o conteúdo que ele colocou nisso tudo quando conhecemos sua capacidade de rir, em especial de rir do poder, que geralmente é sisudo, e de ir direto ao ponto. Não é por acaso que seus livros, programas, intervenções conhecem tanto sucesso. Trabalhar com ele é uma experiência que eu realmente recomendo.

Renato Janine Ribeiro por Mario Sergio Cortella No idioma tupi a palavra “ara’as tuba” significa “lugar de araçás em abundância”. Pois foi assim, da paulista cidade de Araçatuba, que despontou um dos mais merecidamente afamados professores titulares da Universidade de São Paulo, um filósofo e professor de filosofia de cepa especial (diriam os antigos), uma pessoa-árvore que, frondosa, abriga ética, filosofia política, mídia etc.

Docente da USP desde 1976 (na qual fez seu doutorado), ali entrara para cursar filosofia no inesquecível ano de 1968. Concluída a graduação, foi para a Sorbonne em 1972, onde fez o mestrado (“très chic”, devemos ressaltar, para alguém que, como ele, tirou o primeiro lugar no exame de francês, o que lhe rendeu a bolsa).

Autor de vintena de livros, quase uma centena de capítulos de outros tantos, escreve para jornais e revistas, participa de programas de televisão, já recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico (1997), o Prêmio Jabuti (2001) e a Ordem de Rio Branco (2009). Atuou em órgãos públicos ligados à pesquisa (como conselheiro e diretor) e, com competência, se mete em tudo que a vida pública requer de gente honrada. Renato, ainda bem, nunca foi nem é idiota.

Sumário

O indivíduo e a sociedade: Política não é coisa de idiota Conviver: O mais político dos atos A política como pulsão vital Corrupção causa impotência? Quem deve ser o dono do poder? Política: Encargo ou patrimônio? Mundo da política, mundo da cidadania Uma cidadania contra o colapso A política como tema de sala de aula Da importância da transparência Entre o confronto e o consenso: Formas de lidar com as diferenças A favor da vida: Política faz bem Glossário Sobre os autores Outros livros dos autores Redes sociais Créditos

O indivíduo e a sociedade: Política não é coisa de idiota

Mario Sergio Cortella – Sabe, Renato, ao pensar neste nosso encontro, eu me dei conta de que a ideia para esta conversa surgiu quando fiquei pensando no conceito de idiota.

Renato Janine Ribeiro – E você se lembrou de mim...

Cortella – Brincadeira à parte, lembrei sim, mas em razão de sua formação filosófica que possibilita uma reflexão particularmente interessante de como lidar com nosso tema. Esse termo aparece em comentários indignados, cada vez mais frequentes no Brasil, como “política é coisa de idiota”. O que podemos constatar é que acabou se invertendo o conceito original de idiota, pois a expressão idiótes, em grego, significa aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política. No cotidiano, o que se fez foi um sequestro semântico, uma inversão do que seria o sentido original de idiota. O que você pensa a respeito da retomada desse conceito como aquele que vive fechado dentro de si e só se interessa pela vida no âmbito pessoal? Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”. Como você vê essa postura?

Talvez se ache que uma “política ditatorial” é uma contradiçãoEsse é o

Janine – Vejo uma coisa meio paradoxal hoje. Por um lado, gosto muito de nosso tempo porque estamos vivendo o período de maior liberdade de toda a história. Nunca antes, na história deste mundo, houve tanta liberdade política e pessoal. Metade da humanidade se expressa, se organiza, vota, tem a orientação sexual de seu agrado. Logo, dessa perspectiva, a política se expandiu muito. Tanto é assim que atualmente há certa convergência de conceituação entre política e democracia. Quando os teóricos definem uma ou outra, dizem que as duas passam pela fala, pela conversa, pelo diálogo. Elas se opõem às ditaduras porque nestas não há liberdade de expressão. Daqui a um tempo é possível que predomine a ideia de que não há política que não seja democrática, e então talvez não se ouça mais falar em política stalinista, em política ditatorial etc. aspecto positivo do mundo contemporâneo. Por outro lado, o negativo – ou, pelo menos, preocupante – é o desinteresse pela política, que você apontou. Quer dizer, ao mesmo tempo em que meia humanidade está se beneficiando de avanços democráticos, boa parte das pessoas está enojada pela descoberta ou pelo avanço da corrupção (aliás, é discutível se ela realmente aumentou ou apenas se tornou mais visível).

Cortella – De fato, mas elas se sentem assim em relação a um determinado modo de fazer política. Não corresponde à ideia mais abrangente de política. Você tocou num ponto que é a conexão entre liberdade, democracia e política. Vale lembrar que, para a própria sociedade grega – nossa mãe antiga, idosa, agora um pouco desprezada –, não haveria liberdade fora da política. Quer dizer, o idiota não é livre porque toma conta do próprio nariz, pois só é livre aquele que se envolve na vida pública, na vida coletiva.

Janine – Mas para nós, modernos, a liberdade pessoal é fundamental. Isso pressupõe uma sociedade muito mais diversificada do que a grega ou do que qualquer outra. Até 200 anos atrás, toda sociedade exigia de seus membros uma conformidade religiosa, e até uma conformidade alimentar, para subsistir – mesmo entre os gregos era assim. Já a nossa sociedade admite uma diversidade fabulosa: pode-se jantar no restaurante indiano sem ser hinduísta, ou no italiano sem ser católico-romano. Tais escolhas não implicam necessariamente uma postura social ou política. Esse avanço da vida pessoal, que é o que você está falando do idiótes, realmente é entendido por nós como algo positivo, e nos melhores momentos conseguimos fazer com que haja convergência entre liberdade política e liberdade pessoal.

Cortella – Claro, a liberdade pessoal é necessária. O avanço da noção de indivíduo, desde a Renascença, foi decisivo para o desenvolvimento da sociedade como a conhecemos. Contudo, o individualismo se transformou em obsessão em vários momentos, o que é especialmente evidente na substituição do indivíduo pelo individual – entendido como exclusivo, e não como identidade.

Até quando você evoca a possibilidade de eu ter minha orientação sexual, religiosa ou alimentar, existe aí uma determinação – para usar um termo antigo de Marcuse – da indústria cultural, da ideologia da sociedade industrial, que cria alguns padrões de comportamento. De fato, algumas pessoas (aquelas com mais condições econômicas ou mais autonomia intelectual) podem fazer escolhas mais livres. Eu posso ir a um restaurante indiano sem ser hinduísta ou indiano; posso frequentar um culto sem praticá-lo. Mas também sou constrangido – conscientemente ou não – a uma série de práticas que suponho serem minhas escolhas no mundo do consumo, da indústria cultural, mas que não são realmente minhas. Você considera que esse é um traço característico do moderno, isto é, de uma ideologia cujas plataformas são mais eficazes do que as de outros tempos?

Janine – Sim, no sentido de que já não é preciso matar pessoas, levá-las à fogueira ou ameaçá-las para conseguir que os comportamentos se ajustem ao que é socialmente desejável. Nesse quesito, acho que temos um misto de avanço e de recuo. Quer dizer, é ótimo que ninguém seja morto por divergir das correntes dominantes na política ou mesmo no comportamento, mas também é preocupante pensar que somos governados por determinações das quais mal temos consciência. Uma discussão interessante a esse respeito se levantou, quando se aprovou em São Paulo a lei limitando o uso do tabaco em público. Muita gente a questiona de uma forma marota, mas, na verdade, o que a lei proíbe é que o indivíduo terceirize a sua fumaça. Não se proíbe ninguém de fumar, mas de fazer o outro aspirar o seu fumo.

Cortella – A proibição visa evitar que não fumantes sejam constrangidos pelos fumantes.

Janine – Mas há gente que questiona: “A lei pode me impedir de fazer mal a mim? Pode determinar que eu não fume porque isso fará mal à minha saúde?”. Ora, sinto vontade de responder: “Mas quem disse que você escolheu tão livremente fumar? Quem disse que não houve uma propaganda maciça para levar você a escolher fumar (ou a escolher comida gostosa, escolher engordar)? Que liberdade é essa?”. Você tem razão, Mario, quando afirma que somos alvo de n constrangimentos. Por isso, penso que a resposta ideal à sua primeira pergunta poderia ser: A política seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las.

Cortella – A política é vista aí como convivência coletiva mesmo. Quando se poderia imaginar que o conjunto da sociedade aceitaria a interdição do uso do tabaco em determinados espaços? Ou mesmo a limitação do uso dos carros particulares em algumas cidades em dias e horários específicos, ou ainda de fazer ruído a partir de determinada hora, mesmo que moremos cada um em sua própria domus, ou seja, em sua casa? Mas a questão é que não temos domus, só temos con-domínios. Viver é conviver, seja na cidade, ainda que em casa ou prédio, seja no país, seja no planeta. A vida humana é condomínio. E só existe política como capacidade de convivência exatamente em razão do condomínio. Daí o indivíduo pergunta: “Mas e meu direito de sair com meu carro quando quiser, ou de fazer ruído até a hora que eu desejar?”.

Outro dia, eu voltava de Campinas para São Paulo pela rodovia dos

Bandeirantes, e na frente havia um caminhão-baú, desses fechados e grandes, ostentando, na traseira, aquela frase obrigatória para algumas empresas: “Como estou dirigindo?”. Mas ele deu sequência à frase, assim: “Como estou dirigindo? Mal? Dane-se, o caminhão é meu”. Essa lógica “do caminhão é meu” significa “eu faço o que quero, sou livre”. Ora, esse exercício da liberdade como soberania é algo que se aproxima da ideia da idiótes. Não sou soberano. Entretanto o indivíduo afirma: “Eu sou soberano sobre mim mesmo”. Mas ser soberano sobre si mesmo não é política. Ou será que é?

Conviver: O mais político dos atos

Janine – Retomando sua questão, Mario, acho que alguns hoje entendem liberdade e direito como uma propriedade ou como um objeto de consumo. Por essa razão, o indivíduo reivindica o direito a fumar, a viver sua sexualidade, ou seja o que for, mas a partir de uma visão consumista. Como é dono do carro, pensa que o utiliza como quiser. Como tem o direito de votar, acha que se trata apenas de uma questão de consumo. Nos dois casos, tende a pensar que são direitos sem obrigações.

Isso reduz muito o alcance do direito e da justiça, porque nas ideias de direito, justiça e liberdade está embutido, ainda que indiretamente, certo sentido de dever. Quando compro um produto, de fato tenho sobre ele o poder de usar e

Uma vez encontrei um homem reclamando no aeroportoEle ia passar

não usar, até de jogá-lo fora. Mas os direitos ligados à vida em sociedade estão ligados a obrigações. O indivíduo não pode ter direitos se não cumprir certos deveres. Tanto isso é verdade que pode perder o direito à liberdade de movimento – e, em algumas sociedades, até o direito à própria vida –, dependendo do crime que cometer. Se não for capaz de viver em sociedade, ela pode, desde que por meio de um processo legal, concedendo-lhe todo o direito de defesa, tirar sua liberdade. Esse lado complexo da liberdade é mais difícil de ser entendido. Vivemos numa sociedade em que o consumismo chegou ao ponto de entender os próprios sentidos jurídicos – como direito, dever e liberdade – enquanto objetos de consumo. Então, é muito fácil uma pessoa dizer: “Faço isso porque quero, porque tenho”. pela alfândega e dizia: “Acho que uma pessoa, com o dinheiro que ganhou, deveria poder comprar o que quisesse no exterior”. Argumentei: “Tem razão. Mas o senhor já pode comprar o que quiser! É só pagar o respectivo imposto”. Ele ficou chocado, pois na verdade o que ele queria não era apenas comprar, mas comprar sem pagar à sociedade os tributos correspondentes. Ora, a sociedade arrecada impostos de acordo com a atuação de cada cidadão. Se levarmos longe esse modo de pensar dele, e de muitos outros, ocorrerá a destruição completa da ideia de imposto, da ideia de voto, da ideia de construção de um espaço público.

Cortella – Muito pertinente sua reflexão. Mas permita-me voltar um pouco à noção de condomínio. As noções subjacentes a esse termo – dominar, domus, domar, domesticar – são todas apropriadas e válidas também no campo da política e da educação. Ao imaginarmos a vida em condomínio, já pressupomos que há regras, deveres. No campo do direito condominial, a propriedade de cada condômino é chamada “unidade autônoma”. Veja que, curiosamente, a legislação denomina cada apartamento de unidade autônoma, não de unidade soberana. Tem bastante sentido isso, pois a palavra soberano vem do latim superanus, super (sobre), aquele que está acima de todos e não se subordina a ninguém. Autonomia, por sua vez, a partir do vocábulo grego autós (por si mesmo) e nómos (o que me cabe por direito ou dever) indica limites oriundos da vida em meio a outras pessoas, também elas autônomas. Existe uma convivência, num condomínio, que exige participação em determinadas situações. Penso, Renato, que às vezes encontramos indivíduos que não vão às reuniões de condomínio, por exemplo, porque não gostam, porque são reuniões chatas, ou porque há gritaria. Ora, não ir é um ato político, pois também a omissão política, ou seja, a recusa em participar da vida pública em qualquer instância, é uma decisão política. Vale tanto para um condomínio quanto para a inserção nos rumos da cidade, do estado, da nação e do planeta.

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