Salto para o futuro - Edu.Musical

Salto para o futuro - Edu.Musical

(Parte 3 de 6)

Com vistas a contribuir para este debate, mais especificamente no campo da educação musical, este trabalho apresenta reflexões e perspectivas para o ensino de música, considerando a diversidade musical como elemento social de grande valor para a educação, tanto no que se refere às especificidades dos conteúdos musicais quanto no que tange a dimensões educativas mais abrangentes.

DivErSiDADE NA SAlA DE AulA

Ao considerarmos a diversidade na sala de aula, é importante ter em mente que não se trata de considerar unicamente a diversidade musical, mesmo para o professor de música. Na sala de aula, se manifestam muitos aspectos relacionados às diferenças, que estão imbricados em todas as áreas e nos conteúdos trabalhados. Nesse sentido, a diversidade na sala de aula, independente do componente curricular trabalhado, abarca fatores econômicos, étnicos, religiosos, sexuais, artísticos, entre tantos outros. É a conjuntura desses elementos que constitui a vida dos indivíduos e que faz da escola um lugar plural e complexo. Um lugar de confrontos e disputas, mas também de diálogos e interações. Essa multiplicidade que constitui a escola na atualidade é retratada nas palavras de Caliman, quando afirma que:

(...) agora quem frequenta a escola são jovens de extrações sociais diversas, cada um deles com uma história pessoal que para alguns é regular, mas para outros é marcada por fracassos, desvantagens, mal-estar e sofrimentos dos mais diferentes tipos (CALIMAN, 2006, p. 385).

Cientes dessa realidade, os profissionais que atuam em diferentes áreas do conhecimento precisam considerar que as fronteiras entre disciplinas e conteúdos são diluídas na convivência social e na inter-relação que estabelecem no contexto cultural dos indivíduos. Precisamos pensar que cada área tem suas especificidades no processo de formação escolar, mas que todas elas lidam com pessoas; pessoas de naturezas distintas, pensamentos e objetivos diversificados, vivências e acessos singulares etc.

Na sala de aula, se manifestam muitos aspectos relacionados às diferenças, que estão imbricados em todas as áreas e nos conteúdos trabalhados.

Considerando as diversidades que se manifestam na escola, me atenho a discutir, a seguir, aspectos relacionados a uma delas, a diversidade musical, que não se separa das demais, mas que tem implicações específicas à prática educacional escolar.

A múSicA como FENômENo SociAl

A música constitui uma rica e diversificada expressão do homem, sendo resultado de vivências, crenças e valores que permeiam a sua vida na sociedade. Como prática social, a música agrega, em sua constituição, aspectos que transcendem suas dimensões estruturais estéticas, caracterizando-se, sobretudo, como um complexo sistema cultural que congrega aspectos estabelecidos e compartilhados pelos seus praticantes, individual e/ ou coletivamente. De tal maneira, a forte e determinante relação com a cultura estabelece para a música, dentro de cada contexto social, um importante espaço com características simbólicas, usos e funções que a particularizam, de acordo com as especificidades do universo que a rodeia (MERRIAM, 1964; BLACKING, 1973; NETTL, 1992; QUEIROZ, 2005).

Como expressão cultural, a música pode ser considerada veículo universal de comunicação, pois não se tem registro de qualquer grupo humano que não realize experiências musicais como meio de contato, apreensão, expressão e representação de aspectos simbólicos culturais. Todavia, o fato de ser utilizada universalmente não faz da prática musical uma “linguagem universal”, tendo em vista que cada cultura tem formas particulares de elaborar, transmitir e compreender a sua própria música, (des)organizando, idiossincraticamente, os elementos que a constituem (QUEIROZ, 2004, p. 101).

Dessa forma, a música como cultura cria mundos diversificados, mundos musicais que se estabelecem não como universos e territórios diferenciados pelas linhas geográficas, mas como mundos distintos dentro de um mesmo território, de uma mesma sociedade e/ou até dentro de um mesmo grupo. Compartilhando do pensamento de Finnegan, entendo que os mundos musicais são “distintos não apenas por seus estilos diferentes, mas também por outras convenções sociais: as pessoas que tomam parte deles, seus valores, suas compreensões e práticas compartilhadas, modos de produção e distribuição, e a organização social de suas atividades musi-

A música constitui uma rica e diversificada expressão do homem, sendo resultado de vivências, crenças e valores que permeiam a sua vida na sociedade.

A DivErSiDADE DE múSicAS DA EScolA E A DivErSiDADE DE múSicAS PArA A EScolA

A diversidade musical se manifesta naturalmente na escola, já que distintas expressões musicais adentram cotidianamente o universo escolar, vindas na bagagem cultural dos alunos, a partir das experiências sociais que estabelecem em sua vida cotidiana. Assim, de forma individual ou coletiva, seja ouvindo rádio, assistindo televisão, navegando pela internet, brincando com amigos etc. o fato é que a música está no nosso dia a dia e, de forma mais ou menos consciente, todos estabelecem algum tipo de relação como essa expressão cultural.

Para o professor, há pelo menos duas vertentes centrais para lidar com a diversidade musical: a primeira está relacionada ao universo musical trazido pelos alunos, o que caracteriza a diversidade de músicas da escola. Assim, músicas que os alunos ouvem em casa, que compartilham em suas relações sociais, que assimilam a partir da veiculação midiática, entre outras, devem ter lugar garantido na prática docente. Essas músicas, além de terem significados culturais para os estudantes, possibilitam diversos trabalhos relacionados à linguagem musical, explorando aspectos como: sonoridades e timbre dos instrumentos, formas de cantar, padrões rít- micos, estruturas melódicas etc.

A segunda vertente do trabalho com a diversidade está relacionada à inserção, na prática escolar, de músicas de diferentes contextos culturais, visando à ampliação e/ ou transformação do universo musical dos alunos, a partir da descoberta e da incorporação de estéticas e experiências musicais variadas. Trata-se de planejar e estruturar uma diversidade de músicas para a escola. Nessa categoria podem ser incluídas músicas locais, que não têm veiculação midiática e que, muitas vezes, são desconhecidas pelos estudantes; músicas singulares de outras cidades, estados, regiões, países etc. O objetivo não é, simplesmente, levar para a escola um amontoado de expressões musicais desvinculadas de suas realidades sociais, mas sim, possibilitar que os alunos reconheçam vários “sotaques”, para que, assim, possam reconhecer melhor, inclusive, o seu próprio “sotaque” e, a partir daí, a seu critério, (re)significá-lo, ampliá-lo e/ou transformá-lo.

Todavia, é preciso ter em mente que, em ambas as vertentes, considerar a diversidade significa reconhecer as várias músicas como legítimas, havia vista que não é possível afirmar, segundo determinados critérios estéticos, que uma música é melhor que outra. Em hipótese alguma, deve-se trabalhar a diversidade para se chegar à homogeneidade, como ainda sinalizam algumas propostas na área de educação musical. Assim, seria como, por exemplo, trabalharmos maracatu, congadas, bumba-meu-boi, cavalhadas, fandango, rock, samba, entre outras práticas da cultura popular para, a partir daí, chegar à música de Mozart, Beethoven, Bach etc., como se um tipo de música fosse melhor e/ou superior ao outro. O que precisamos e que essas diversas músicas dialoguem na sala de aula e, dessa forma, convivam democraticamente, trabalhando as diferenças e os seus distintos valores e significados que permeiam cada expressão musical.

PErSPEcTivAS PráTicAS PArA o ENSiNo DE múSicA DiANTE DA DivErSiDADE

No que se refere especificamente ao trabalho de educação musical, lidar com diferentes expressões culturais permite contemplar uma série de objetivos fundamentais para o ensino de música nas escolas, como: desenvolver práticas integradas com os temas transversais, contemplando a “pluralidade cultural” de múltiplos contextos sociais; compreender diferentes expressões culturais (do bairro, da cidade, do estado, da região, do país e do mundo), conforme enfatizado na proposta para a área de música dos Parâmetros Curriculares

Nacionais (BRASIL, 1997; 1998); pesquisar e descobrir diversificados aspectos musicais de distintas culturas (instrumentos, ritmos, melodias, estéticas vocais etc.); conhecer e vivenciar a diversidade do patrimônio cultural imaterial do mundo, caracterizado pela música de diferentes etnias, entre outros (QUEIROZ; MARINHO, 2009).

Todavia, um trabalho dessa natureza exige do professor habilidades para lidar com as diferenças e para estabelecer diálogos entre diferentes universos musicais, pois todo trabalho, independente do tipo de música que contemple, deve propiciar uma experiência significativa e reveladora de descobertas musicais. Ao lidar com várias manifestações culturais, não se pode cair, simploriamente, na reprodução de músicas “exóticas”, desprovidas de valor simbólico para os alunos.

Assim, ao contemplar a diversidade musical da sala de aula, e para a sala de aula, é possível planejar, elaborar e realizar atividades de interpretação, apreciação e criação musical trabalhando elementos como:

• Pesquisa de aspectos organológicos: visando a descobertas de instrumentos mu-

Em hipótese alguma, deve-se trabalhar a diversidade para se chegar à homogeneidade, como ainda sinalizam algumas propostas na área de educação musical.

sicais de várias culturas musicais, suas sonoridades, formas de execução etc.

• Exploração e descoberta de elementos relacionados à estética vocal: trabalhando múltiplas formas de colocação da voz, timbres utilizados, efeitos vocais, alturas, técnicas de canto coletivo e individuais, entre outros aspectos.

• Desenvolvimento rítmico: conhecendo e explorando singularidades do ritmo de manifestações musicais diversas.

• Compreensão e práticas de estruturas sonoras em geral: alturas, melodia, harmônica etc.

Essas são apenas algumas possibilidades, entre as inúmeras possíveis, que o um trabalho que lide com a variedade de músicas do mundo pode possibilitar no contexto escolar. O fato é que, se realizado com objetivos e propostas consistentes, um trabalho inter-relacionado à diversidade musical poderá ser rico de descobertas estéticas, técnicas, perceptivas e culturais no âmbito da música e, portanto, da sociedade.

Entendo que para concretizar ações educativas abrangentes, que contemplem a música em suas distintas facetas, é preciso mais que a inclusão de repertórios e de atividades relacionadas à diversidade musical. É importante ter em mente que, em qualquer processo educativo-musical, é preciso expandir os conhecimentos do alunado, mas, fundamentalmente, é necessário reconhecer as suas vivências, os seus anseios e as suas (inter)relações com a música.

Assim, é possível pensar num ensino da música democrático e inclusivo, que respeite a diferença, não para utilizá-la como base para a formação de iguais, mas principalmente para, por meio dela, construir saberes contextualizados com o universo particular de cada indivíduo e de cada grupo social.

O reconhecimento à diversidade nos fez perceber que não existe uma única música e/ ou sistema musical e que, portanto, não podemos ter uma educação musical restritiva e unilateral. Essa perspectiva nos conduz a novos direcionamentos pedagógicos e nos leva a caminhos abrangentes, reconhecendo a variedade de músicas e suas diversas possibilidades educacionais. Em face dos rumos das músicas do mundo na atualidade, nos vemos diante do desafio de estabelecer direcionamentos coerentes para o ensino de música na escola. Ensino este que precisa ser abrangente e diversificado, contemplando, principalmente, propostas e ações educativas contextualizadas com contextos escolares das múltiplas realidades socioculturais do país.

rEFErêNciAS

BLACKING, John. How musical is man? London: University of Washington Press, 1973.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 1997. v. 6: Arte.

_. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais (5a a 8a séries): Arte. Brasília, 1998.

BRAGA, Maria Lúcia de Santana; SILVEIRA, Maria Helena Vargas da (orgs.). O Programa Diversidade na Universidade e a construção de uma política educacional anti-racista. Brasília: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad); Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), 2007.

HENRIQUES, Ricardo. Apresentação. In: BRAGA, Maria Lúcia de Santana; SILVEIRA, Maria Helena Vargas da (orgs.). O Programa Diversidade na Universidade e a construção de uma política educacional anti-racista. Brasília: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad); Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), 2007.

MERRIAM, Alan P. The anthropology of music. Evanston: Northwester University Press, 1964.

NETTL, Bruno. Ethnomusicology and the teaching of world music. In: LEES, Heath. Music education: sharing musics of the world. Seul: ISME, 1992.

QUEIROZ, Luis Ricardo S. Educação musical e cultura: singularidade e pluralidade cultural no ensino e aprendizagem da música. Revista da ABEM, Porto Alegre, n. 10, p. 9-107, 2004.

_. A música como fenômeno sociocultural: perspectivas para uma educação musical abrangente. In: MARINHO, Vanildo Mousinho; QUEIROZ, Luis Ricardo Silva (org.). Contexturas: o ensino das artes em diferentes espaços. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2005. p. 49-6.

QUEIROZ, Luis Ricardo S.; MARINHO, Vanildo Mousinho. Práticas para o ensino de música nas escolas de educação básica. Música na educação básica, Porto Alegre, n. 1, p. 60-75, 2009.

TExTo 3 música nas Escolas Luciana Marta Del-Ben1 rESumo

Neste texto serão discutidas e apresentadas propostas de experiências musicais que já acontecem em escolas brasileiras. Tais experiências podem estar no currículo ou como atividade extraclasse, dependendo do contexto. Em ambos os casos, as propostas educacionais com música oferecem o acesso a experiências que contribuem para a formação dos estudantes, e tais contribuições serão também aqui tratadas.

1 Doutora em Música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é professora associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRGS.

Este texto tem como objetivo apresentar exemplos de práticas de ensino de música realizadas em escolas de educação básica. Trata-se de práticas desenvolvidas por alguns dos alunos do Curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, durante seu estágio supervisionado, e por mim orientadas. O estágio supervisionado, em que tiveram origem as práticas de ensino a serem apresentadas, compreende um conjunto de atividades para a atuação do professor, envolvendo desde a aproximação e interação com o contexto educativo até o planejamento, a execução e a avaliação das atividades docentes em música em contextos específicos. São realizados encontros semanais, em grupo, quando são discutidos coletivamente os projetos de ensino, bem como os planos e relatórios de aula. Cada licenciando desenvolve seu projeto individualmente, em uma escola ou outro espaço educativo. As práticas apresentadas neste texto aconteceram em diferentes semestres, entre os anos de 2005 e 2009. No entanto, foram orientadas pelos mesmos princípios, dentre os quais destaco as concepções de ensino e de ensino de música e a forma de organizar o ensino com que vimos trabalhando.

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