Rumos para a formação de ecólogos no Brasil

Rumos para a formação de ecólogos no Brasil

(Parte 3 de 4)

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 35 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

Não faltam exemplos das lacunas de articulação entre a formação atual do ecólogo e a realidade do trabalho relacionado as políticas públicas. Também não faltam exemplos da pouca informação ecológica necessária para a construção dessas políticas, como, por exemplo, para a elaboração das listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção. Sem dúvida, o método escolhido para sua construção é extremamente relevante, mas, infelizmente, para um grande número de espécies, ainda dispomos apenas de um número reduzido de informações sobre sua distribuição e sobre a dinâmica das suas populações, especialmente quando se deseja avaliar as flutuações ou alterações de longo prazo. Optamos pelo ‘princípio da precaução’, isso é considerar espécies ameaçadas de extinção, quando há lacunas de conhecimento sobre elas. No entanto, poderíamos assumir nosso desconhecimento e lutar para promover pesquisas que sirvam para subsidiar o julgamento do grau de ameaça sobre determinadas espécies, caso não seja viável julgá-las pelos critérios estabelecidos pela União Mundial pela Natureza que foram incorporados pelo Brasil na elaboração de suas listas oficiais. Por outro lado, talvez seja necessário readequar estes critérios para melhor aplicá-los às condições brasileiras.

Ecologia, Filosofia e História da Ciência

Além do que foi até agora discutido, consideramos importante na formação do ecólogo que este tenha a oportunidade de se inteirar de aspectos da história e filosofia da ecologia referentes à estrutura teórica que utiliza. Esse conhecimento permitirá que o ecólogo defina com clareza o foco de sua pesquisa, elaborando hipóteses e testando as previsões delas provenientes. Um bom ponto de partida é o de reconhecer o que se considera como conhecimento científico.

Uma concepção ingênua de senso comum da ciência é a de que conhecimento científico é conhecimento provado; as teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção de dados adquiridos por observação e experimentação; a ciência é baseada nos nossos sentidos e, finalmente, opiniões e suposições não têm lugar na ciência (CHALMERS 1993). Durante o século X, na Filosofia da Ciência desenvolveram-se novas visões da natureza da ciência (e.g., HANSON, 1965; KUHN, 1978; FEYERABEND, 1989, entre outros). Esta nova visão identifica a ciência como uma construção humana, provisória, suscetível de reformulação e reconstrução (OLIVEIRA, 1993). Portanto, as teorias, hipóteses e leis científicas seriam passíveis de questionamento por serem construções individuais, dependentes das concepções do pesquisador. Em um estudo sobre concepção de ciência realizado junto a alunos de pós-graduação em Ecologia

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 36 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

– mestrado e doutorado – Silva et al. (2002) notaram que tais alunos têm concepções sobre a ciência bem próximas da concepção ingênua caracterizada por Chalmers. Além disso, não foram encontradas diferenças importantes entre as concepções dos alunos de pós-graduação e alunos de graduação. Talvez apenas isso bastasse para justificar a introdução da Filosofia da Ciência em cursos de formação de ecólogos, bem como de formação de cientistas em geral.

A ciência ecológica atravessou um substancial progresso desde que surgiu há pouco mais de cem anos. Neste rápido crescimento, geraram-se uma grande série de subdisciplinas, tais como ecologia de organismos, de populações, de comunidades, de ecossistemas, de paisagem etc. Em tais subdisciplinas, novos dados, conceitos, testes, metáforas, modelos e generalizações estão constantemente aparecendo (cf. PICKETT et al., 1994). Na medida em que há uma proliferação de subdisciplinas, há também um aumento de lacunas em nossa compreensão dos fenômenos ecológicos. Estas lacunas, que podemos chamar de áreas de agnosia, surgem nas interfaces entre as subdisciplinas e, em nossa opinião, colocam a necessidade de pesquisas que possam abranger diversas subdisciplinas, aumentando nossa compreensão das relações entre fenômenos e processos. Toda subdisciplina tende a desenvolver seus próprios pontos de vista, pressuposições, definições, vocabulário e métodos. Nessa progressão, acaba tornando-se uma disciplina distinta, com a conseqüência de que um mesmo termo pode adquirir significados distintos em diferentes (sub) disciplinas. Pickett et al. (1994) citam como exemplos os termos “regulação”, “desenvolvimento” e “evolução”, que têm significados diferentes em Ecologia de populações, de comunidades ou de ecossistemas. Assim, para uma estruturação conceitual da Ecologia, torna-se necessário relacionar os pontos de vistas das diferentes subdisciplinas.

A integração do conhecimento em Ecologia é uma necessidade premente, que desempenharia um papel crucial para o aumento de nossa compreensão dos fenômenos ecológicos, bem como para fazer avançar a Ecologia como um todo. A integração envolve a combinação de dados, perspectivas, aproximações, modelos ou teorias que são aparentemente díspares (PICKETT et al., 1994). Suas aplicações práticas são imediatas. O chamado manejo ecológico, por exemplo, é a aplicação das conquistas científicas da Ecologia a problemas socialmente definidos. Pode-se imaginar, portanto, a importância da constituição de um conhecimento mais integrado em Ecologia para um gerenciamento mais responsável e eficaz dos recursos naturais.

Para que isso ocorra, um projeto de desenvolvimento teórico da

Ecologia deve estar aliado às pesquisas empíricas e estudos de caso que normalmente são desenvolvidos nos Programas de Pós-graduação, não obstante a boa qualidade desses estudos. A integração do

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 37 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

conhecimento requer que a estrutura conceitual de uma disciplina esteja explicitada na forma de uma teoria. Conseqüentemente, a teoria é o meio pelo qual se organiza nossa compreensão sobre o mundo. Historicamente, teorias são construídas entrelaçadas a outras teorias e campos de pesquisas. Portanto, o estudo histórico de um determinado campo científico é necessário para o aumento de nossa compreensão sobre a natureza e o status das teorias constitutivas daquele campo de conhecimento (cf. PICKETT et al., 1994).

Se quisermos promover o avanço teórico da ecologia brasileira e contribuir para a formulação de uma Ecologia científica autônoma, devemos manter em mente que a constituição de um campo científico está intimamente ligada a atividades de elaboração de teorias.

Muitos desses conceitos mais gerais se situam na fronteira entre as ciências e a metafísica e cumprem papel integrativo dentro das teorias científicas das quais fazem parte, dando um contorno claro ao objeto de estudo, organizando modelos, teorias, metáforas e entidades de maneira unificada e coerente (EMMECHE; EL-HANI, 2000). Tal organização unificada e coerente, apesar de insuficiente, é necessária para tornar a ecologia uma ciência autônoma, distinguindo seu objeto de estudo do objeto de estudos de outras ciências, tais quais a Engenharia Ambiental ou a Geografia.

Finalmente, é necessário ter em mente que a introdução de Filosofia e Histórica da Ciência nos currículos formadores de pesquisadores deve, na medida do possível, fazer parte de um projeto mais amplo de compreensão da natureza do conhecimento humano, seus modos de validação, seus pressupostos e suas implicações filosóficas. Nesses termos, esse projeto deve estar aliado à construção de significados para a conexão entre ciência e os aspectos culturais não científicos, éticos e políticos da sociedade. Assim, percebe-se a relevância das diretrizes da Capes quando esperam que os cursos garantam acesso aos seus alunos a estes conteúdos.

Ecologia e Conservação da diversidade biológica

Atestando a natureza da Ecologia como ciência autônoma, a mesma já pode ser observada como geradora de novas subáreas, em particular aquelas que buscam em seus preceitos aplicações práticas para problemas gerados por um planeta crescentemente dominado pelo homem. Restam poucas grandes áreas naturais relativamente inalteradas pela espécie humana, e mesmo estas não estão livres da influência de fenômenos globais, como alteração do clima e da composição da atmosfera. A Amazônia está sendo revelada nos diversos modelos de mudança climática como a área de floresta

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 38 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

tropical do mundo onde as mais severas modificações irão ocorrer. Medidas adaptativas são, portanto urgentemente necessárias para antecipar as mudanças previstas. Nesse sentido, a Ecologia e as suas subdisciplinas oferecem as melhores opções para uma ciência que sirva às necessidades de se gerenciar um planeta essencialmente modificado pelo homem buscando-se minimizar a erosão progressiva da diversidade biológica do único lugar no universo onde comprovadamente existe vida. Ressalte-se aqui o papel de um dos principais “filhotes” da Ecologia, a chamada Biologia da Conservação.

Diferentemente da Ecologia, a Biologia da Conservação, que inclui o conceito de manejo de ambientes naturais, da flora e da fauna, foi definida desde o início como uma disciplina com uma agenda bastante urgente. De nascença, apresentou-se também como uma disciplina híbrida utilizando-se de partes não só da Ecologia, mas também da Genética, Demografia, Fisiologia e de outras áreas das ciências biológicas e meio ambiente em geral. Em sua adolescência, a Biologia da Conservação começou a agregar novos preceitos oriundos das ciências econômicas e sociais. Essa hibridização se deu parcialmente porque os problemas de conservação são multifacetados e requerem um tratamento multidisciplinar, mas principalmente porque há necessidade de respostas rápidas a problemas ambientais igualmente prementes.

Conservação e manejo são áreas perpetuamente em crise. A

Biologia da Conservação é considerada a “disciplina da U.T.I.” – a demora no tratamento pode matar o paciente, mesmo arriscando-se o mesmo resultado se o tratamento ministrado for incorreto devido à pressa com a intervenção. A resposta tradicional dos pesquisadores da área acadêmica de que “precisamos de mais dados para poder opinar sobre essa questão” já não mais se adequa às necessidades da sociedade, em particular daqueles países que detêm uma fração desproporcionalmente alta da biodiversidade mundial, como é o caso do Brasil. O nosso país disputa com a Indonésia o privilégio de ser o mais megadiverso do mundo, em particular considerando-se a biodiversidade terrestre. Somos hoje, por outro lado, também os campeões em níveis absolutos de conversão de hábitats naturais em áreas utilizadas ou degradadas pelo homem.

As decisões sobre o destino dos habitats naturais não são colocadas nas mesas dos ecólogos ou biólogos da conservação, e mesmo se fossem as mesmas não iriam esperar até o momento quando houvesse confiança suficiente para emitir uma opinião dentro dos limites considerados adequados no mundo acadêmico tradicional. Mas a ciência tem muito a dizer sobre questões prementes, mesmo face às deficiências nas bases de informação, sem necessidade de violaremse os preceitos da prática científica. Na realidade, a Biologia da Conservação segue com seu apetite híbrido inabalado. Dentre as novas

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 39 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

ferramentas apropriadas de outras áreas, encontra-se o gerenciamento de risco, ou seja, poder matematicamente estimar-se o risco de certas decisões frente à incerteza quanto aos dados utilizados para propor-se o diagnóstico e as soluções associadas. Posições mais cautelosas frente aos riscos implicam em perdas potenciais de alvos importantes para a conservação, como espécies endêmicas e áreas insubstituíveis. Posições mais flexíveis podem acarretar em exageros quanto aos problemas e quanto ao custo das soluções, mas estão no cerne do já comentado “princípio da precaução” – na dúvida, tome a decisão mais segura a favor da biodiversidade e do meio ambiente, já que os erros na direção oposta podem ser irreparáveis. Em outras palavras, é aceitável errar, utilizando-se de parâmetros técnicos e científicos adequados, quando o objetivo final da intervenção visa proteger um alvo de conservação cuja eliminação resultaria em uma perda irreparável. Esse princípio já faz parte de acordos internacionais.

Apesar de o Brasil possuir hoje 30 Programas de Pós-Graduação na área abrangente de Ecologia, o país precisa urgentemente formar quadros com amplo embasamento teórico e senso prático nessas questões. Não basta apenas a formação de ecólogos com sólida base teórica. Apesar de a maioria destes programas abordar em grau variado a ciência e as técnicas associadas à conservação e ao manejo de biodiversidade e ambientes naturais, a experiência com o recrutamento dos egressos desses programas pelo mercado de trabalho indica que a exposição dos mesmos a esses assuntos não tem sido adequada. Essa deficiência tende a produzir profissionais com dois tipos de viés: aquele do profissional tímido por falta de conhecimento teórico e prático adequado (o tímido por ignorância), e aquele do tímido produzido por superexposição aos problemas que podem resultar das proposições baseadas em dados relativamente parcos (o tímido por aversão ao risco). Nenhum dos dois serve às necessidades que confrontam a biodiversidade brasileira. Desse modo, talvez uma alternativa seja a dos mestrados profissionais, defendida por Scarano e Oliveira (2005)

Mas há lados positivos dessa equação. O Brasil é hoje, sem dúvida, o país megadiverso em vias de desenvolvimento melhor capacitado para gerir seus recursos naturais. Esse quadro é relativamente recente, a partir de uma linha base muito precária, iniciada há apenas 30 anos. Isso pode parecer muito tempo, mas não se formam recursos humanos em menos tempo que o de uma geração. Com um pouco mais de foco e direcionamento, impulsionado tanto por parte dos programas de capacitação quanto pelas agências de fomento, poderá se avançar muito no preenchimento das lacunas aqui identificadas.

Recebido em 27/2/2007 Aprovado em 21/6/2007

Martins et al./A formação de ecólogos e s t u d o s 40 R B P G, Brasília, v. 4, n. 7, p. 25-41, julho de 2007.

Referências

BARBOSA, F. A. R.; SCARANO, F. R.; SABARÁ, M. G.; ESTEVES, F. A. Brazilian LTER: Ecosystem and biodiversity information in support of decision-making. Environmental monitoring and assessment, Dordrecht – The Netherlands, v. 90, p. 121-133, 2004.

BROWN, J. H.; GILLOOLY, J. F.; WEST, G. B.; SAVAGE, V. M. The next step in macroecology: from general empirical patterns to universal ecological laws. In: BLACKBURN, T. M.; GASTON, K. J. (Eds.). Macroecology: concepts and consequences. Blackwell, 2003. p. 408-424.

BURNHAM, K. P.; ANDERSON, D. R. Model selection and multimodel inference: a practical information-theoretic approach. 2. ed. Springer, New York. 2002.

(Parte 3 de 4)

Comentários