Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 2 de 8)

No meio do caminho um imprevisto. Uma passeata de estudantes e funcionários da UFRJ, um punhado de bandeiras vermelhas do PT e, principalmente, do PC do B, com seu tradicional símbolo comunista quase roçando o vidro do automóvel. Trânsito parado, o tempo passando. "Não é possível que vamos perder a entrevista do Roberto por causa de uma foice e um martelo", ironizou Lula ao volante do carro.

A minha preocupação era outra e tinha um nome: Ivone Kassu, assessora de imprensa de Roberto Carlos. Em 1990, iniciei a pesquisa que resultou neste livro. Naquele ano, tentei pela primeira vez uma entrevista com Roberto Carlos. Liguei para o escritório de Ivone, a

Kassu Produções, e consegui participar da coletiva daquele ano, no Copacabana Palace. Uma entrevista exclusiva, ela disse que não poderia ser. No ano seguinte, a coletiva foi no mesmo local, mas não consegui convite. Entrei no meio de jornalistas e fiquei ali escondido pelos cantos, evitando me encontrar com a assessora de imprensa. Em 1992, tentei novamente, e já me contentava em participar apenas da coletiva. Afinal, numa coletiva, em meio a uma série de perguntas absolutamente invariáveis através dos tempos, sempre podia surgir alguma informação nova, que eu poderia juntar às outras que estava acumulando. Não consegui falar com Ivone, nem convite. Fui assim mesmo para a coletiva do Imperator, no Méier, onde Roberto faria uma temporada. Dessa vez, não fiquei escondido pelos cantos, arrisquei falar com Ivone Kassu. Mas, assim que ela me viu, chamou um garçom e ordenou: "Por favor, não sirva nada a este rapaz. Ele não foi convidado para a coletiva". E me virou as costas. Fiquei ali alguns minutos paralisado. Mais uma vez estava barrado de um evento com Roberto Carlos. Por tudo isso, o possível encontro com Ivone Kassu na portaria do prédio de Roberto me deixava ansioso. Como ela iria reagir?

Mas, justamente por causa da passeata, chegamos 25 minutos atrasados, e o porteiro informou que a assessora havia acabado de subir. Ele ligou para o apartamento e veio a ordem para o Lula subir. Eu subi junto. No elevador, já fui pensando: "Benditas foice e martelo...". Não tinha dúvida de que, se encontrasse Ivone Kassu na portaria, iria ser barrado mais uma vez.

Mas agora o elevador subia e eu já estava a um passo da porta da sala de Roberto Carlos. A um passo de um encontro e de uma conversa frente a frente com o rei.

Roberto mora na cobertura de um prédio de cinco andares, todos com apenas um apartamento, situado de frente para a baía de Guanabara com o Cristo Redentor ao fundo. Quando saímos do elevador, a porta já estava aberta. Em pé, lá estava ele, Roberto Carlos vestido de Roberto Carlos, com seu tradicional traje de calça jeans azul, camisa branca e tênis brancos. Ivone estava sentada em um sofá de frente para a porta. Lula foi o primeiro a entrar, sendo apresentado a Roberto por ela. Foi logo pedindo desculpas pelo atraso e em seguida me apresentou. "Roberto, este é meu amigo Paulo César..." Roberto estendeu-me a mão efusivamente, fitando meus olhos, e disse: "Já nos conhecemos não é, bicho?". Sem pestanejar, e também olhando no fundo dos seus olhos, respondi: "Com certeza, Roberto. Eu sou o Brasil".

A conversa iniciou de forma descontraída na ampla sala de visitas de seu apartamento decorado em tons azuis e brancos. Bom anfitrião, ele perguntou se queríamos beber alguma coisa, sugerindo água, café ou suco.

Pedimos apenas água, que nos foi servida por uma empregada devidamente uniformizada de azul e branco.

Durante todo o tempo que ali permaneci não pude evitar a lembrança daquele dia do show de Roberto em Vitória da Conquista. Agora, ali estava eu, na sala de sua casa, conversando com ele. É verdade que tinha entrado sem ter sido convidado. Mas só poderia mesmo ter sido daquela maneira: sem convite, sem ingresso, quase pela porta lateral. Como seria naquele show em Vitória da Conquista.

Depois de uma outra amenidade, Lula Branco Martins deu início à entrevista, antes colocando o pequeno gravador na ponta da mesa de centro, para não intimidar muito Roberto, que não se sente à vontade na presença do gravador. Roberto permaneceu a maior parte do tempo encostado no braço direito do sofá. Diante da primeira pergunta, ele sorri e hesita. Mas depois percebi que sempre sorri e hesita quando alguém lhe faz uma pergunta. E responde lentamente, em seguida, procurando as palavras como se estivesse pensando no assunto pela primeira vez. Já diante de perguntas mais embaraçosas, Roberto pára, abaixa a cabeça, esfrega as mãos, olha para o alto, fica algum tempo em silêncio, e só então responde. Outras vezes, ele pára e olha fixamente algum ponto no espaço perdido antes de responder - sempre tomando um cuidado extremo para evitar mal-entendidos.

que história bonitabonita e triste".

Uma das últimas perguntas foi sobre a relação de Roberto com o palco, Lula então aproveitou o tema e disse: "Aliás, Roberto, o Paulo tem uma história antiga com você em um show em Vitória da Conquista". Eu relatei tudo, passo a passo até o desfecho final. Roberto riu em algumas passagens, mas depois contraiu seu semblante e com aqueles seus olhos fundos cravados em mim, comentou: "Pôxa, bicho,

Ao final, ele e Ivone Kassu nos acompanharam até a porta do elevador.

Então a assessora abriu a sua agenda, nos entregou dois convites e falou pra mim sorrindo: "Agora você não vai mais ficar do lado de fora de um show de Roberto Carlos".

Este livro é resultado de uma história de vida com Roberto

Carlos, mais quinze anos de pesquisa em jornais, revistas, arquivos, além de quase duas centenas de entrevistas exclusivas.

Para melhor entender a obra musical de Roberto Carlos é necessário conhecer a trajetória de Roberto Carlos. Ele canta o que vive e o que sente. Nas suas canções, fala de sua infância, de sua mãe, de seu pai, de sua tia, de seus amores. Mesmo numa canção como Caminhoneiro, que trata de um personagem distante de sua realidade de astro pop, o fermento que o inspirou a compô-la está nos caminhões que via passar na frente de sua casa em Cachoeiro e no desejo que o menino Roberto acalentou de um dia dirigir um veículo daqueles. Enfim, se outros cantores-compositores têm uma produção musical desvinculada de sua trajetória de vida, este não é o caso de Roberto Carlos. Sua obra é marcadamente pessoal e autobiográfica.

"O maior mérito de meu pai é cantar a sua verdade. A verdade é o que importa. Se alguém quer conhecê-lo ou saber o que pensa ou já pensou, é só ouvir suas músicas", diz seu filho Dudu Braga. Mas o caminho inverso também se faz necessário. Se alguém quer conhecer melhor suas canções e o que elas dizem, é necessário conhecer a trajetória de Roberto Carlos, sua história, seus embates, seus dramas, porque todos estão de certa forma retratados em sua obra. Este livro persegue este desafio, contar a trajetória artística de Roberto Carlos desde o início, canção por canção, detalhe por detalhe.

CAPÍTULO 1

"Eu estava muito nervoso, mas muito contente de cantar no rádio.

Ganhei um punhado de balas, que era como o programa premiava as crianças que lá se apresentavam. Foi um dia lindo."

Dois acontecimentos, um relacionado ao futebol, outro à música popular, marcaram a história do Brasil no ano de 1950. O primeiro teve como palco o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, e foi percebido e sentido no momento exato em que aconteceu: a derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da IV Copa do Mundo. Naquele domingo ensolarado de 16 de julho, o grito "Brasil campeão" foi silenciado aos 3 minutos e meio do segundo tempo do jogo, quando Alcides Edgardo Ghiggia avançou pela ponta direita e marcou o segundo gol uruguaio. Um sentimento de frustração, vergonha e humilhação tomou conta dos brasileiros assim que o juiz George Reader apitou o fim da partida. Em uma crônica, Nelson Rodrigues escreveu que o Uruguai "extraiu de nós o título como se fosse um dente".

artista, um rei

O outro histórico acontecimento daquele ano se deu no auditório de uma pequena rádio do interior do país. Mas, ao contrário do primeiro, não teve, na época, nenhuma repercussão. Nenhum cronista comentou o fato. Não mereceu sequer uma mísera nota de jornal. Só ganharia relevância anos mais tarde, porque nele houve a estréia do cantor que se tornaria o mais popular da história do Brasil. Como que para compensar tanta dor e sofrimento, no ano em que os brasileiros choraram a perda da Copa do Mundo, o país ganhou uma voz, um

A voz do cantor Roberto Carlos foi mostrada ao público pela primeira vez numa manhã de domingo, pouco depois das nove horas, no mês de outubro do longínquo e trágico ano de 1950. Roberto Carlos tinha apenas nove anos quando estreou num microfone de rádio, em sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, interior do Espírito Santo. Era ainda uma criança e apenas mais uma daquelas que semanalmente se apresentavam no Programa Infantil da ZYL-9, Rádio Cachoeiro, a única emissora da região.

Como o próprio título do programa indica, aquela era uma atração destinada exclusivamente para artistas de calças curtas. E quando o menino Roberto Carlos se aproximou do microfone para cantar, ninguém ali poderia imaginar que naquele momento subiria ao céu a voz que seria a mais ouvida até hoje na história do rádio brasileiro. Desde que houve a primeira transmissão de rádio no Brasil, em setembro de 1922, nenhuma outra voz foi tão veiculada nele quanto a do cantor Roberto Carlos.

Vozes de locutores que marcaram época como Heron Domingues ou Luís Jatobá foram exaustivamente ouvidas no rádio enquanto eles estiveram na ativa. Vozes de presidentes da República como Getúlio Vargas ou Fernando Henrique Cardoso foram irradiadas diariamente enquanto eles estiveram no poder. Cantores como Francisco Alves e Orlando Silva tiveram suas vozes bastante ouvidas no passado; as de novos ídolos da música popular são muito ouvidas no presente. A permanência da voz de Roberto Carlos extrapola tudo isso porque, desde que ele se tornou um fenômeno de popularidade, a partir de 1965, suas canções são tocadas diariamente em diversas emissoras de norte a sul do país. Tanto as novas canções de seu disco anual como, e principalmente, os antigos sucessos do cantor aparecem no ar todos os dias em quadros de flashback ou em programas dedicados exclusivamente ao seu repertório. Há muitos anos, em várias emissoras do Brasil existem programas especiais diários só com músicas de Roberto Carlos. É certo que, no momento em que você lê esta página, alguém esteja ouvindo alguma daquelas canções do Roberto. Portanto, já são mais de quatro décadas de execução maciça e cotidiana. E tudo indica que as suas gravações a maioria realizada num padrão de alta tecnologia - continuarão a ser tocadas por anos a fio. A voz de Roberto Carlos tornou-se, assim, a mais ouvida até hoje pelo povo brasileiro - e uma das mais ouvidas do mundo porque alcança multidões da América Latina, África e países da Europa como Portugal, Espanha e Itália.

É óbvio que ninguém poderia prever isto quando aquele menino chegou para cantar na pequena emissora de Cachoeiro de Itapemirim, em 1950. Se soubesse o que o futuro tinha reservado para aquela criança talvez o apresentador do programa não tivesse faltado ao trabalho justamente naquele dia. Sim, o titular do Programa Infantil, o locutor Jair Teixeira, não foi trabalhar naquele domingo perdendo a chance histórica de anunciar ao público a estréia do menino-cantor Roberto Carlos. Quem ganhou esse privilégio foi o locutor reserva Marques da Silva, improvisado na apresentação do programa.

Mas não foi apenas o locutor titular que faltou ao trabalho naquele dia. Porque não tinham bola de cristal, os músicos do Regional L-9 (referência ao prefixo da emissora) também não estavam lá para acompanhar o menino Roberto Carlos. Embora fossem contratados justamente para tocar com as atrações da Rádio Cachoeiro, a maioria dos integrantes do regional tirou sua folga semanal naquele dia. No palco, para acompanhar a estréia do garoto, estava apenas um dos músicos do regional, José Nogueira, um violonista de 2 anos, recém-contratado pela emissora. Os demais integrantes - Mozart Cerqueira (violão), Valdir de Oliveira (acordeom), Angelo dos Santos (cavaquinho), Moacir Borges (contrabaixo), e os ritmistas Hamilton Silva, Carlos César e Zuzu ficaram em casa de papo pro ar.

Os desfalques não impediram que o Programa Infantil transcorresse normalmente. Quem garante é outra testemunha da estréia de Roberto Carlos no rádio: o sonotécnico (operador de áudio), Bernardino Pim, na época um garoto de dezesseis anos, filho do diretor da rádio, Gastão Pim. Bernardino começara a trabalhar no início daquele ano porque seu pai desejava que ele aprendesse a profissão. Depois de um breve período como técnico auxiliar, ele ganhou o comando da mesa de som, começando exatamente pelo Programa Infantil. "Eu já conhecia o Roberto de vista e me lembro desse dia, quando ele apareceu para cantar na rádio", afirma Bernardino Pim.

Registre-se que a idéia e o incentivo para que Roberto Carlos fosse se apresentar lá foram de sua mãe, dona Laura. "Meu filho, por que você não vai cantar na rádio? Lá tem um programa para crianças domingo de manhã", propôs no início daquela semana. Pois uma hora antes de o programa entrar no ar, lá já estava o menino Roberto Carlos, trajando uma roupinha nova, daquelas de domingo, que sua mãe costurou especialmente para a ocasião. Quando o locutor Marques da Silva anunciou a vez de Roberto Carlos cantar, o violonista Zé Nogueira deu o tom no violão e o garoto se aproximou do microfone, soltando educadamente a voz: "Tú no sabes cuanto te quiero/ tú no sabes lo que yo tengo para ti/ tú no sabes que yo te espero para darte/ amor, amor, amor y mas amor...".

Muito romântico desde criança, Roberto Carlos escolheu para sua estréia no rádio o bolero Amor y mas amor, composição do espanhol Bobby Capó, lançada naquele ano. E o garoto cantou em espanhol mesmo, como ele ouvia no rádio na voz do cantor uruguaio Fernando Borel que na época atuava no Brasil.

Ao final da apresentação, como era de praxe, o apresentador do programa e o violonista foram cumprimentar o calouro. "Eu estava muito nervoso, mas muito contente de cantar no rádio. Ganhei um punhado de balas, que era como o programa premiava as crianças que lá se apresentavam. Foi um dia lindo", recorda Roberto Carlos.

E foi assim, por um punhado de balas, que a voz mais ouvida até hoje na história do Brasil cantou no rádio pela primeira vez. O Programa Infantil era patrocinado pela fábrica de doces Esperança e todos os domingos eles mandavam um saco de balas para distribuir entre os participantes e a garotada da platéia. Era uma festa no auditório.

"Garoto, volta no próximo domingo, que o Regional estará completo", disse Zé Nogueira para Roberto Carlos ao final do programa. "E eu posso voltar?" "Pode, quantas vezes quiser", incentivou-o o músico, abrindo-lhe assim as portas da Rádio Cachoeiro.

De propriedade do empresário Alceu Nunes da Fonseca, a ZYL-9

Rádio Cachoeiro de Itapemirim foi inaugurada em junho de 1946. Seguindo o modelo das grandes emissoras da capital, a rádio também tinha seu auditório, com capacidade para duzentas pessoas. Para ocupar esse espaço e tocar a programação, a direção montou um broadcasting a partir de atrações locais como o cantor Genaro Ribeiro, a "voz romântica de Cachoeiro", a cantora Marlene Pereira, "a internacional", com seu repertório de tangos e boleros em espanhol, a cantora Therezinha Vasconcelos, intérprete de sambas e marchinhas carnavalescas, e até a poetisa Marly de Oliveira. E, como não poderia faltar, a rádio produzia também programas de humor, de esporte e, principalmente, radionovelas, com seus radioatores e novelistas como Hercília Surrage, espécie de Janete Clair de Cachoeiro. No elenco da emissora estava também o futuro ator Jece Valadão, mineiro que morava desde criança em Cachoeiro e começara a trabalhar ali como locutor de rádio. Enfim, não seria por falta de atrações que a população de Cachoeiro de Itapemirim deixaria de sintonizar a emissora de sua cidade.

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