Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 4 de 8)

No Programa Infantil havia um concurso para escolher o melhor cantor da semana e o vencedor era decidido pelo público. Mas o candidato tinha que apresentar o número inteiro, sem tropeçar. Quem esquecia a letra ou errava a melodia de uma canção era automaticamente desclassificado.

Cumprida essa exigência, o candidato ia para o trono esperar o próximo concorrente. Os dois eram submetidos aos aplausos do público e quem tivesse um apoio maior continuava no trono aguardando o candidato seguinte. E assim transcorriam as duas horas do programa, coroando ao final o candidato vencedor do concurso. Participava uma média de vinte garotos por programa, pois nem todos conseguiam fazer seu número até o final. As inscrições eram no sábado e os violonistas Zé Nogueira ou Mozart Cerqueira orientavam os calouros na escolha da música e no tom ideal para a apresentação no palco.

Nos três primeiros domingos que participou, Roberto Carlos foi o mais aplaudido pelo público. Não houve concorrente que conseguisse tirá-lo do trono - o que já revelava uma vocação inata para rei. Ele tornou-se então um participante hors-concours do Programa Infantil. Zunga não concorria mais com os outros garotos, simplesmente ensaiava um número com o regional para cantar na abertura ou no final de cada programa. Agradou tanto que semanas depois passou a cantar dois números, abrindo e encerrando o programa. E assim constata-se que, antes de comandar as jovens tardes de domingo na TV Record, nos anos 60, Roberto Carlos viveu as infantis manhãs de domingo na Rádio Cachoeiro, nos anos 50. Foi ali que ele começou a desenvolver a sua grande intimidade com o palco, com o público e com o microfone.

Acompanhado pelos músicos do Regional L-9, ou às vezes apenas pelo violão de Zé Nogueira, o garoto interpretava sucessos como Minha casa, de Joubert de Carvalho, Folha morta, de Ari Barroso, La estrada del Bosco, de Nisa e Rusconi, e Abrazame así, composição do argentino Mário Clavell, que Roberto Carlos gravaria décadas depois, como faixa de abertura do seu CD Canciones que amo. Foi uma distinção especial a um bolero que ele costumava cantar nas manhãs de domingo na Rádio Cachoeiro: "Abrazame así/ que esta noche yo quiero sentir/ de tu pecho el inquieto latir/ cuando estás a mi lado...".

Naquela época não havia música infantil, aliás, não tinha nem a tal da música jovem, e os cantores-mirins tinham mesmo que interpretar o repertório adulto, em sua maioria com muitos dramas passionais, vinganças - o que Roberto Carlos, já com uma forte veia romântica, tirava de letra. Quando não cantava um bolero mexicano ou um tango argentino mandava ver nos sambas-canções de Nelson Gonçalves - outra das referências musicais da infância de Roberto Carlos. Poderia ter sido Orlando Silva, mas, a partir de meados dos anos 40 -quando Zunga começou a se ligar nos cantores do rádio -, o intérprete de Carinhoso já estava em franca decadência, tendo seu posto ocupado exatamente por Nelson Gonçalves. E, depois de ouvi-lo, era com a maior seriedade que o garoto ia para o microfone cantar temas como Renúncia, Caminhemos e Carlos Gardel, tango composto por David Nasser e Herivelto Martins. "Enquanto existir um tango triste/ um otário, um cabaré, uma guitarra/ tu viverás também Carlos Gardel..."

O público devia gostar porque, além do Programa Infantil,

Roberto Carlos ganhou a chance de cantar também em outros programas da emissora, como o Vendaval de Alegria, comandado pelo cantor Genaro Ribeiro nas noites de domingo, Ás suas ordens, programa de dedicatórias apresentado diariamente pelo locutor Jair Teixeira. Era tanto trabalho que Zunga teve até direito a receber o seu primeiro cachê na emissora. "Eu ganhava seiscentos cruzeiros velhos, que naquele tempo eram novos e representavam muito na minha vida", afirma Roberto Carlos, que se tornou, assim, uma atração da Rádio Cachoeiro e o mais famoso cantor-mirim da cidade. Todos na escola e no bairro o reconheciam como artista e davam dicas de músicas para ele interpretar no rádio. O garoto, que antes se escondia atrás da porta ao cantar para as visitas em casa, depois de estrear no rádio foi aos poucos perdendo a timidez, ganhando experiência e uma definitiva e inseparável intimidade com o microfone.

Desde essa época Roberto Carlos já se comportava como um profissional da música, um compenetrado cantor do rádio. "Ele costumava chegar antes da gente para se preparar melhor", afirma Zé

Nogueira, que também orientava o garoto no aprendizado do violão. Como os dedos de Roberto Carlos ainda eram pequenos, ele tinha dificuldade de fazer as pestanas. Zé Nogueira então lhe ensinava a fazer o fá maior da quarta corda para baixo. "É a mesma coisa?", perguntava Zunga, que numa caderneta desenhava os acordes, anotava os tons maiores, menores e escrevia a letra das músicas. E, sempre cauteloso, observava se o violão estava afinado e conferia seus tons de voz.

Diante disso, o passo seguinte e natural foi Roberto Carlos ganhar o seu próprio programa na Rádio Cachoeiro. Em 1952, aos onze anos de idade, ele estreou um programa semanal de quinze minutos que começava pontualmente ao meio-dia e meia. Acompanhado dos violonistas Mozart Cerqueira (violão de seis cordas) e de Zé Nogueira (violão de sete cordas), o cantor-mirim desfilava um repertório de tangos, boleros e sambas-canções. O detalhe curioso é que o programa de Roberto Carlos começava imediatamente após o programa que Francisco Alves apresentava na Rádio Nacional.

Líder absoluto de audiência no horário de meio-dia, o Programa

Chico Alves tinha como uma de suas marcas registradas aquela pomposa introdução feita pela locutora Lúcia Helena: "Ao soar o carrilhão das doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, os ouvintes da Rádio Nacional também se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz...". E o cantor entrava cantando a valsa Boa noite, amor, composição de Francisco Matoso e José Maria de Abreu, que foi uma espécie de Emoções de Francisco Alves. Todos os seus shows e programas de rádio, mesmo que apresentados ao meiodia, começavam e terminavam ao som da belíssima valsa Boa noite, amor. Pois logo em seguida ao programa de Francisco Alves na Rádio Nacional, começava o programa de Roberto Carlos na Rádio Cachoeiro. Era uma dobradinha não combinada entre o "rei da voz" e o futuro "rei" da música popular brasileira.

E assim foi durante várias semanas, até o domingo de 23 de setembro de 1952. Naquele dia, enquanto Roberto Carlos já se ajeitava em frente ao microfone da Rádio Cachoeiro, Francisco Alves mais uma vez terminava seu programa na Rádio Nacional dizendo: "Meus amigos e ouvintes, aqui me despeço, desejando um bom domingo para todos. E até o próximo, se Deus quiser". Infelizmente, não houve mais domingo com Francisco Alves. No final da tarde de sábado, dia 29 de setembro, ele ia de São Paulo para o Rio a bordo de seu Buick quando se chocou em alta velocidade com um caminhão na via Dutra. Francisco Alves tinha 54 anos e quase três décadas de carreira e sucesso. E, tão logo a sua morte foi confirmada, todas as emissoras de rádio do país passaram a recordar seus sucessos, principalmente Adeus (Cinco letras que choram), composição de Silvino Neto, lançada pelo cantor em 1947: "Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram/ num soluço de dor...".

Na casa de Roberto Carlos a tristeza também foi geral. Na noite de sábado, ele, seus pais e irmãos ficaram juntos ao pé do rádio, quase numa reverência, rezando, comentando o trágico acontecimento. Aquela foi até então a maior comoção coletiva testemunhada pelo menino Roberto Carlos. Nunca antes ele tinha visto uma morte provocar tanta dor. No domingo, pela primeira vez seu programa foi apresentado sem a dobradinha com Francisco Alves, mas com a presença deste no repertório. Aliás, naquele dia todos os programas da Rádio Cachoeiro foram dedicados ao ídolo tragicamente falecido. Até mesmo um dos moradores da cidade, o fiscal da Receita Federal Júlio Barbosa, fã incondicional do "rei da voz", prestou sua homenagem. Enquanto o funeral do cantor transcorria no Rio de Janeiro, ele acoplou um alto-falante ao motor de seu Chevrolet conversível e saiu pelas ruas tocando músicas de Francisco Alves. "Me lembro como se fosse hoje. Aquele homem sozinho, desolado, rodando com aquele carro de som pelas ruas de Cachoeiro", recorda o compositor cachoeirense Arnoldo Silva.

A sensibilidade, o espírito solidário, o carinho pelas plantas e os animais, a intensa religiosidade - características que marcarão a personalidade do futuro ídolo Roberto Carlos -, já estavam presentes no menino Zunga, especialmente após um grave acidente que o vitimou aos seis anos de idade. "Nos dias que permaneci no hospital criei minha estrutura, inventei orações que repito até hoje", afirma Roberto Carlos.

O fato aconteceu numa manhã de domingo, 29 de junho de 1947, dia de São Pedro. A brisa deslizava do alto das serras.

Naquele dia, Cachoeiro amanheceu sorrindo e em festa para saudar o seu santo padroeiro que, segundo a Igreja Católica, foi morto e crucificado nessa data em Roma, durante o reinado do imperador Nero, no ano 65 d. C. Era feriado na cidade, dia de desfiles, músicas, bandeiras, discursos, ruas cheias de gente e muita alegria.

As duas bandas da cidade, a Lira de Ouro e a Banda 26 de Julho, faziam retreta na praça, tocando dobrados. E muitos meninos já brincavam em volta do coreto ouvindo os músicos tocar.

Como tantas outras crianças da cidade, naquele dia Roberto Carlos saiu cedo e animado de casa para assistir aos festejos.

Era tanta bada-lação que muitos pais preparavam roupa nova para os filhos estrearem justamente nesse dia. Por isso Zunga estava ainda mais contente, porque iria desfilar com os sapatinhos novos que ganhara na véspera. E qual criança não fica feliz ao ganhar uma roupinha ou um novo par de sapatos? Logo que saiu à porta de casa, Roberto Carlos se encontrou com sua amiga Eunice Solino, uma menina da sua idade, que ele carinhosamente chamava de Fifinha. Frequentemente os dois estavam juntos, porque moravam na mesma rua e, mais tarde, foram estudar no mesmo colégio. Por várias vezes, a caminho da escola, era ela quem carregava o material de Roberto Carlos. "Fifinha foi a minha grande companheira da infância", diz o cantor.

Pois naquela manhã os dois desceram mais uma vez juntos em direção ao local dos desfiles. Ao chegarem num largo, logo abaixo da rua em que moravam, já encontraram todos em plena euforia. Desfiles escolares, balizas e muitos balões coloriam o céu do pequeno Cachoeiro, ao mesmo tempo em que locomotivas se movimentavam para lá e para cá. Construída na época dos barões do café, no século XIX, quando a cidade era um paradouro de trem de carga, a Estrada de Ferro Leopoldina Railways atravessava Cachoeiro de ponta a ponta.

Por volta de nove e meia da manhã, Zunga e Fifinha pararam numa beirada entre a rua e a linha férrea para ver o desfile de um grupo escolar. Enquanto isso, atrás deles, uma velha locomotiva a vapor, conduzida pelo maquinista Walter Sabino, começou a fazer uma manobra relativamente lenta para pegar o outro trilho e seguir viagem. Uma das professoras que acompanhava os alunos no desfile temeu pela segurança daquelas duas crianças próximas do trem em movimento e gritou para elas saírem dali. Mas, ao mesmo tempo em que gritou, a professora avançou e puxou pelo braço a menina, que caiu sobre a calçada. Roberto Carlos se assustou com aquele gesto brusco de alguém que ele não conhecia, recuou, tropeçou e caiu na linha férrea segundos antes de a locomotiva passar. A professora ainda gritou desesperada-mente para o maquinista parar o trem, mas não houve tempo. A locomotiva avançou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vagão, tendo sua perninha direita imprensada sob as pesadas rodas de metal. E assim, na tentativa de evitar a tragédia com duas crianças, aquela professora acabou provocando o acidente com uma delas.

Diante da gritaria e do corre-corre, o maquinista Walter Sabino freou o trem, evitando consequências ainda mais graves para o menino, que, apesar da pouca idade, teve sangue-frio bastante para segurar uma alça do limpa-trilhos que lhe salvou a vida. Uma pequena multidão logo se aglomerou em volta do local e, enquanto uns foram buscar um macaco para levantar a locomotiva, outros entravam debaixo do vagão para suspender o tirante do freio que se apoiava sobre o peito da criança. Com muita dificuldade, ela foi retirada de debaixo da pesada máquina carregada de minério de ferro. "Eu estava ali deitado, me esvaindo em sangue", recordaria Roberto Carlos anos depois numa entrevista. Mas naquele momento alguém atravessou apressado a multidão barulhenta e tomou as providências necessárias. "Será uma loucura esperarmos a ambulância", gritou Renato Spíndola e Castro, um rapaz moreno e forte, que trabalhava no Banco de Crédito Real.

Providencialmente, Renato tirou seu paletó de linho branco e com ele deu um garrote na perna ferida do garoto, estancando a hemorragia. "Até hoje me lembro do sangue empapando aquele paletó. E só então percebi a extensão do meu desastre", afirma Roberto, que desmaiou instantes após ser socorrido. Esse momento trágico de sua vida ele iria registrar anos depois no verso de sua canção O divã, quando diz: "Relembro bem a festa, o apito/ e na multidão um grito/ o sangue no linho branco...", numa referência à cor do paletó que Renato Spíndola usava no momento em que o socorreu.

Naquela época em Cachoeiro poucas pessoas possuíam automóvel e Renato Spíndola era uma delas. Ele pegou Roberto Carlos nos braços, colocou-o no banco de seu velho Ford e partiu a toda velocidade rumo ao hospital da Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro, o único hospital daquela região. "Foi uma longa viagem. Traumas, uma de minhas composições conta bem isso", diz Roberto, citando outra canção confessional, lançada por ele em 1971, que em um dos versos fala do "delírio da febre que ardia/ no meu pequeno corpo que sofria/ sem nada entender...".

No meio daquele corre-corre, com várias crianças espalhadas pelas ruas, pais e mães se desesperavam. Chamavam por seus filhos. Perguntavam quem era a criança atingida. Qual o nome dela. A confirmação não demorou. É o Zunga, um menino que mora na rua da Biquinha. O acidente mudou o roteiro daquele dia em Cachoeiro. Para muita gente a festa perdeu a graça. O feriado acabou. Muitas crianças voltaram para suas casas. "Lembro que eu estava desfilando toda prosa de luvas e de uniforme quando houve aquele alvoroço e o desfile dispersou. Todo mundo correu pra ver. É uma coisa de que jamais me esqueci. Houve uma dispersão geral", afirma a pianista Elaine Manhães, que na época tinha quinze anos e desfilava pelo Liceu Muniz Freire.

Ao longo daquele dia, nas ruas, nos bares, nas residências, todos na pequena cidade só comentavam o acidente que vitimara o filho da costureira Laura e do relojoeiro Robertino. Como aconteceu isto?, era a pergunta que mais se fazia na cidade. Foi quando começaram a surgir as mais variadas e fantasiosas versões para o acidente, num disse-medisse que chegou até os dias de hoje. Acidentes com trem não eram raridade em Cachoeiro de Itapemirim, já que a linha férrea cortava todo o perímetro urbano da cidade. Inúmeros registros estavam na imprensa desde os primórdios, principalmente envolvendo pedestres bêbados na periferia. Esse novo caso ganhou uma repercussão maior na época porque envolveu uma criança, foi no centro da cidade e aconteceu no dia dos festejos do padroeiro, quando havia uma grande movimentação de pessoas nas ruas.

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