Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 5 de 8)

Ao chegar ao hospital, Zunga foi imediatamente atendido pelo médico Romildo Coelho, de 36 anos, que estava de plantão naquele domingo. Segundo ele, ao ver o menino constatou que a parte de baixo da perna acidentada estava pendurada apenas pela pele, mas o garoto não chorava muito, porque não estaria sentindo dor. "Quando o trem esmagou a perna, arrancou todos os nervos e tirou a sensibilidade", explicou o médico. Ele recorda que o menino parecia ainda não ter a noção exata da gravidade do acidente. "Em certo momento, ele apontou para o sapato que estava na perna acidentada e me disse: "Doutor, cuidado para não sujar muito o meu sapato porque ele é novo"." Foi uma reação típica de uma criança, e de uma criança que não estava acostumada a ganhar sapatos novos com muita frequência.

Os pais e irmãos de Roberto Carlos só ficaram sabendo do fato quando ele já tinha sido socorrido pelo bancário Renato Spíndola. Em seguida foram todos imediatamente para o hospital, sem ainda saber a real gravidade do acidente. A primeira reação foi de revolta contra o maquinista Walter Sabino. O pai de Roberto Carlos estava convencido de que aquilo fora resultado de imprudência e desatenção do condutor do trem. Este, por sua vez, se explicava dizendo que não viu ninguém na linha férrea no momento em que fez a manobra para pegar um outro trilho e seguir viagem. Quando ele percebeu alguma coisa, numa fração de segundo a máquina já tinha atingido o garoto. Robertino Braga não se conformava e queria fazer justiça com as próprias mãos. "Ele ficou tão fora de si que disse que ia matar meu marido. Walter teve que se esconder dentro da estação até que Robertino se acalmasse", afirma Anita Sabino, esposa do maquinista.

30 Naquela mesma manhã, no hospital da Santa Casa, o médico aplicou uma anestesia local de novocaína no acidentado e deu início à cirurgia. Para distrair um pouco a criança, o doutor Romildo pegava

peixes, lagartixas, cavalos

uma folha de papel em branco e ficava recortando bichinhos como

Na época, em casos semelhantes, era comum fazer a amputação da perna acima do joelho, prática mais rápida e segura. Mas Romildo ktinha acabado de ler um estudo americano sobre ciência médica que explicava que os membros acidentados devem ser cortados o mínimo possível. Assim, a amputação da perna do garoto foi feita entre o terço médio e o superior da canela - apenas um pouco acima de onde a roda de metal passou. Essa providência fez com que Roberto Carlos não perdesse os movimentos do joelho direito e pudesse andar com mais desenvoltura. Mas por causa dela a cirurgia demorou mais, deu mais trabalho e exigiu um acompanhamento mais cuidadoso ao paciente. Durante seis meses, o doutor Romildo e um outro cirurgião da Santa Casa, Dalton Penedo, tiveram que fazer curativos diários na perna do garoto - tudo acompanhado com grande expectativa pela família, pelos amigos e pelo próprio Zunga.

As coisas não andavam fáceis para o relojoeiro Robertino Braga e depois do acidente com seu filho ficaram ainda mais complicadas. O orçamento da família estava no limite e sem um fundo de reserva para uma emergência como aquela. Cioso de seus compromissos, Robertino andava muito preocupado com uma dívida que tinha com um fornecedor de peças de relógio da cidade mineira de Ubá. Sem condições de pagar a duplicata, decidiu escrever ao credor explicando os motivos que o impediam de honrar o compromisso na data marcada. A resposta do comerciante - datada de 19 de julho de 1947, ou seja, vinte dias depois do acidente - emocionou a família de Roberto Carlos e deixou marcas profundas na memória solidária do futuro ídolo da música popular: "Prezado amigo Robertino: Tenho em mãos sua última carta a qual respondo. Com grande pesar soube do acontecido com teu idolatrado filho, que pedimos a Deus pelo pronto restabelecimento. São essas atribuições que o Poderoso Deus nos dá, e temos que nos conformar e sermos de ânimo forte, conforme é o bom amigo [...] Peço a Deus que o pequeno logo se restabeleça e neste mês se Deus quiser irei visitá-lo. Para a sua senhora o choque deve ter sido tremendo, conforme nós pais que tudo fazemos para os nossos filhos. Robertino, o seu pequeno débito fica cancelado. Compre doces e brinquedos para o pequeno".

Foi o que fez seu Robertino Braga, procurando trazer um pouco de alegria para seu filho naquele momento de dor. Devido aos poucos recursos da família, Roberto Carlos atravessou o restante de sua infância andando de muleta. Só depois que se mudou para o Rio de Janeiro, aos quinze anos, conseguiu colocar sua primeira prótese, ainda precária, mas com a qual já dava para circular sem chamar tanto a atenção. Engana-se, entretanto, quem imagina que a tragédia o tornou uma pessoa infeliz, solitária, recolhida e triste na infância e na adolescência. A ideia de Roberto Carlos como um pobre menino, estigmatizado, a suportar em silêncio a galhofa dos outros, não corresponde à verdade. A auto-estima dele foi muito bem trabalhada pela família e o garoto não se deixava abater.

"Roberto era muito alegre, sempre sorridente e meio gozador.

Estava sempre fazendo brincadeiras com um e outro", afirma Marlene Pereira, sua colega na Rádio Cachoeiro.

Sua amiga de infância, Fifinha, enfatiza a mesma coisa. "Naquela época eu me acostumei a ver Roberto sempre rindo, brincando com a gente, com a avó dele, com as professoras.

Ele era bem descontraído."

A Rádio Cachoeiro costumava levar seu elenco de cantores e músicos para se apresentar em feiras ou eventos em cidades vizinhas. Era a chamada Caravana musical, que percorria cidades como Alegre, Marataíses, Guaçu e Mimoso do Sul. Às vezes, Roberto Carlos viajava com a caravana e para isso Zé Nogueira ia até a casa dele pedir autorização a dona Laura, se responsabilizando pelo garoto. Uma das primeiras "excursões" do menino-cantor foi para Mimoso do Sul, cidade que fica a trinta minutos de Cachoeiro de Itapemirim. Roberto Carlos estava com doze anos de idade quando se apresentou lá, no dia 15 de julho de 1953. Era o dia da festa de São José, padroeiro de Mimoso do Sul, cidade que não era propriamente estranha para Roberto Carlos. Seus tios Lúcio e Antonica moravam lá e nas férias escolares ele costumava ficar na casa deles. Mas agora era diferente: ele estava ali como artista, para cantar para o público da cidade. E dessa vez ele viajou acompanhado do próprio dono da Rádio Cachoeiro, Alceu Fonseca, que morava no Rio e naquela semana foi fazer uma visita à sua emissora.

"Ele me levou no carro dele. Me lembro que era um carrão bonito, uma Mercury, uma beleza", recorda Roberto Carlos. Chegando lá, o menino subiu ao palanque da praça central da cidade e soltou a voz, cantando o tango Mano a mano, composição de Carlos Gardel que Roberto Carlos aprendeu na versão em português cantada por Albertinho Fortuna: "Naufragado na tristeza/ hoje vejo o desatino/ que tu foste em meu destino/ uma mulher, nada mais...". A voz de Roberto Carlos começava a se expandir para além de Cachoeiro de Itapemirim.

Percebendo o interesse cada vez mais do filho pela prática musical, em 1954 dona Laura o matriculou no Conservatório de Música

Cachoeiro. Ali, duas vezes por semana, às quartas e sextas-feiras, Roberto Carlos estudava piano com as professoras Helena Gonçalves Elaine Manhães. Mas logo nos primeiros dias de aula ele disse para a professora Helena:

"Olha, eu sei que não vou ser pianista estou aqui por causa da música". As professoras insistiam para que o novo aluno aprendesse a ler partitura, mas ele teimava em tocar de ouvido - aquela altura já bastante para um garoto de treze anos.

Numa época em que o estudo da música era uma atividade basicamente reservada para as meninas, Roberto Carlos foi um dos primeiros garotos matriculados no conservatório da cidade.

Até o final dos anos 50, o desenvolvimento musical de um garoto de classe era retardado por conta de um duplo preconceito: ele não era estimulado a tocar violão porque este era um instrumento identificado a vagabundo, malandro; e também não podia aprender piano porque isso era coisa de menina ou de afeminado. O próprio Tom Jobin no início de seu aprendizado musical, compartilhava desse preconceito contra o instrumento "Eu queria deixar o piano lá de casa para minha irmã estudar, porque achava que aquilo era coisa de moça.

Eu preferia ir à praia ou jogar futebol", dizia. A pianista Elaine

Manhães confirma essa dificuldade em atrair alunos do sexo masculino para as salas do conservatório em Cachoeiro de Itapemirim. "Havia garotos, filhos de médicos e advogados, que não estudavam piano porque os próprios pais não deixavam, com receio de que eles se tornassem bichas. E violão também não, porque era visto como coisa de pinguço, da ralé."

Por conta disso, para dar vazão ao seu talento musical, muitos garotos se viam obrigados a estudar acordeom, este sim, um instrumento de macho e não identificado à malandragem como o violão. Esta é a única explicação plausível para a onda de acordeons que dominou o Brasil naquela época.

Garotos bem-nasci-dos como Marcos Valle, Edu Lobo, Gilberto Gil,

Roberto Menescal, Eumir Deodato e Francis Hime iniciaram seu aprendizado musical tocando acordeom.

E quase todos foram alunos de Mário Mascarenhas, um gaúcho radicado no Rio, e que nos anos 50 montou uma rede de academias de acordeom na maioria das capitais do país. A procura era tanta que, ao final de cada ano, Mascarenhas reunia estudantes e professores de suas academias num concerto de "mil acordeons" no Teatro Municipal do Rio. Para alguém como o humorista americano Ambrose Bierce, que dizia que o acordeom é "um instrumento com sentimento de um assassino", este concerto soava como uma verdadeira carnificina.

Pior era para os alunos, que em pleno verão passavam horas com aquele instrumento pesado sobre o corpo, ensaiando. "Acordeom é um instrumento complicado porque poucos sabem tocá-lo muito bem, como um Sivuca ou um Dominguinhos. O violão, por exemplo, é mole de enganar. Você toca um pouquinho e todo mundo acha que você toca muito. Já o acordeom, não; quando o cara não toca muito bem, é um instrumento muito perigoso. E se o cara tocar mal, é um instrumento insuportável", afirma Edu Lobo, que na adolescência estudou acordeom durante sete anos.

Foi só após a eclosão da bossa nova, em 1958, que o violão (por conta de João Gilberto) e o piano (por conta de Tom Jobim) ganharam a liberdade de ser tocados por todas as classes e sexos sem preconceitos. Mas, sem esperar por isso, Roberto Carlos já praticava os dois instrumentos, além de arriscar algumas aulas até mesmo de violino. Nesse sentido, os pais de Roberto Carlos eram avançados para a época. Não se opunham a que o filho tocasse o violão dos malandros nem o piano das meninas - o que acabou tirando de Roberto Carlos o peso do acordeom que tanto marcou os ombros de seus colegas de geração.

Confirmando a regra da época, na turma dele no Conservatório de Música de Cachoeiro havia 45 alunos, e destes, além de Zunga, apenas mais dois do sexo masculino.

Para Roberto Carlos, isto não era problema, pois sempre se sentiu muito bem entre as mulheres, e estas com ele. Cuidadoso e vaidoso, Zunga procurava então se manter impecavelmente arrumado. Quando descia a escada da sua casa para ir à rua, costumava olhar sua sombra na parede. Se notasse um cabelinho levantado, ele voltava e se arrumava na frente do espelho. E a preocupação continuava ao longo do dia. "Roberto andava com um pente no bolso e de quinze em quinze minutos ele passava aquele pente nos cabelos", lembra o violonista Zé Nogueira. "Quando menino eu tinha um redemoinho nos cabelos e me sentia mal com isso. Comprei gumex. E ficava bem chateado quando não havia gumex para acabar com aquele redemoinho", confessa Roberto Carlos.

Por conta de todos esses cuidados, ele andava mesmo nos trinques, como se dizia. Suas roupas eram muito bem cortadas e passadas porque feitas com o capricho de sua mãe costureira. Nas apresentações no auditório da rádio, por exemplo, Roberto Carlos costumava se exibir vestido de terno. Já nas aulas de piano no conservatório, geralmente comparecia de calça e camisa brancas, suspensórios e sapatos pretos. Em ambos uniformes ficava muito bem. "Roberto atraía muito as meninas. Minhas colegas da escola ficavam ainda mais minhas amigas só para chegar perto dele.

Ele cativava e era bem cotado com as meninas", afirma sua amiga Fifinha. A sua professora de piano Maria Helena Gonçalves também enfatiza esse don-juanismo precoce de Roberto Carlos. "Ás meninas do conservatório eram gamadas por Roberto porque ele era muito bonitinho, de bochechinha rosada, arrumadinho, sempre limpinho. E, além disso, já era um artista do rádio."

E seria justamente nesse grande elenco feminino do

Conservatório de Música de Cachoeiro que Zunga encontraria a sua primeira namorada: Sirlene da Penha Oliveira, uma típica menina da boa família cachoeirense - e que por isso mesmo estava ali estudando piano. "Sirlene foi meu primeiro amorzinho", confirmou o cantor numa entrevista nos anos 70. Na época do namoro, Roberto Carlos tinha treze e Sirlene doze anos, mas ela estava um ano à sua frente no estudo do piano. Enquanto Roberto Carlos tomava as primeiras noções de aula prática, Sirlene já estudava teoria. Como geralmente a aula de Roberto terminava antes, ele ficava na porta esperando Sirlene sair. "Os dois chegavam juntinhos e sempre saíam juntinhos", lembra a professora Maria Helena Gonçalves.

Como todo brasileiro, desde cedo Roberto Carlos desenvolveu o gosto pelo futebol, escolhendo um clube para torcer. Mas, ao contrário da maioria dos torcedores, que se firmam desde o início num único clube de coração, ele torceu por dois outros antes de se tornar um notório vascaíno.

"Quando eu era menininho torcia para o Flamengo, aos quatro anos de idade eu virei Botafogo e aos oito eu passei pro Vasco e não saí mais", revela o cantor. Mas o que teria feito Roberto Carlos aos oito anos virar um torcedor do clube da Cruz de Malta?

Em Cachoeiro de Itapemirim, como na maior parte do Brasil, os moradores acompanhavam pelo rádio os jogos dos clubes do Rio de Janeiro. As transmissões esportivas, nas vozes de locutores como António Cordeiro, da Rádio Nacional, ou Oduvaldo Cozzi, da Rádio Mayrink Veiga, monopolizavam a audiência no horário. Com seus estilos épicos, grandes eloqüentes, esses locutores transformavam qualquer partida, por mais morna que fosse, numa grande epopeia.

E por força dessas transmissões, que alcançavam todo o país, os times da então Capital Federal, especialmente Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense, se tornaram times nacionais. Em Cachoeiro, por exemplo, havia dois clubes de futebol: o Estrela do Norte Futebol Clube, time mais popular, e o Cachoeiro Futebol Clube, mais identificado com a elite. Mas os moradores de lá torciam e morriam mesmo era pelos grandes clubes do Rio de Janeiro. E com Roberto Carlos não foi diferente.

Ao lado do pai e dos irmãos ele acompanhava ao pé do rádio as transmissões do campeonato carioca. E quando Roberto Carlos tinha exatamente oito anos, em 1949, estava no auge o chamado Expresso da Vitória, time do Vasco que seria a base da seleção brasileira na Copa de 1950. Com jogadores como Barbosa, Danilo, Eli, Ipojucan, Ademir, Maneco e Chico, o Vasco fez uma campanha arrasadora no campeonato carioca de 1949 e entusiasmou o menino Roberto Carlos. Naquele ano o Vasco aplicou goleadas históricas, por exemplo, 1 x 0 no São Cristóvão, 8 x 2 no América, 5 x 3 no Fluminense e, principalmente, 5 x 2 no Flamengo.

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