Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 6 de 8)

Foi demais para Zunga.

E no último jogo, o Vasco se tornou campeão carioca invicto vencendo o Botafogo por 2x1. Depois de tudo isso, o coração botafoguense de Roberto Carlos não resistiu e ele se bandeou definitivamente para o Vasco da Gama.

Nem todo mundo tinha um aparelho de rádio naquela época, por isso era comum as pessoas se aglomerarem na calçada de algum vizinho ou na sala de algum amigo para ouvir a transmissão dos jogos ou os demais programas, como novelas e seriados. Roberto Carlos não precisava fazer isso, pois na sua casa havia um rádio grande, trabalhado em madeira, com bonito visor, repleto de válvulas. Tão logo ele chegava da escola, a primeira coisa que fazia era ligar esse rádio que reinava na sala. A audiência do público infantojuvenil cresceu muito a partir do fim dos anos 40, quando as emissoras passaram a investir em uma programação de heróis, a maioria importada dos Estados Unidos. São dessa época, por exemplo, seriados radiofónicos como Buck Rogers, Homem Pássaro, Fantasma Voador, Tapete Mágico e O Vingador. Numa época em que ainda não havia televisão, computador, brinquedos eletrônicos e shopping centers, sobrava tempo e imaginação para a garotada ouvir rádio, o grande veículo de comunicação daquele tempo.

Um dos programas preferidos de Roberto Carlos - e de muitos guris pelo Brasil afora -era Jerônimo, o Herói do Sertão, apresentado na Rádio Nacional sob o patrocínio de Melhoral e do Leite de Magnésia de Philips. Criação de Moisés Weltman, esse seriado tinha um marcante tema de abertura, e que na época Zunga até sabia de cor:

"Quem passar pelo sertão vai ouvir alguém falar/ o herói já está cantando/ e eu vim aqui cantar...". Era também a maior emoção acompanhar o seriado O Sombra, transmitido pela Rádio Nacional às terças-feiras, nove da noite. Muitos garotos tremiam de medo ao ouvir a voz cavernosa do locutor Saint-Clair Lopes na vinheta do programa:

"Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O

Sombra sabe, hahahahahaha...". Esse seriado narrava as aventuras de um policial que tinha uma grande qualidade:

ficava invisível e, assim, penetrava em todos os esconderijos dos bandidos. A sonoplastia mexia com a imaginação das crianças - que também se assustavam ao ouvir o Incrível, Fantástico, Extraordinário, no qual o famoso Almirante contava histórias fantasmagóricas, místicas, eletrizantes.

Em 1955, aos catorze anos, Roberto Carlos ouviu sua voz registrada em disco pela primeira vez. O responsável por isso foi seu colega na Rádio Cachoeiro, o cantor Genaro Ribeiro, que foi até a capital, Vitória, e comprou quatro acetatos (discos de alumínio usados para gravações sonoras experimentais). O objetivo de Genaro Ribeiro era registrar sua própria voz em disco, mas, generoso, deu um acetato para o menino Roberto Carlos também gravar a dele. A gravação foi feita na oficina de um técnico em eletrônica, o único que na época sabia realizar aquela operação com acetato em Cachoeiro de Itapemirim.

Genaro Ribeiro, Roberto Carlos e os músicos do Regional L-9 foram até lá e realizaram a gravação numa sala da oficina improvisada em estúdio. Roberto Carlos gravou uma canção inédita, o bolero Deusa, composição de Joel Pinto, um jornalista de Cachoeiro que se aventurava pelos caminhos da música. Como o próprio título indica, Deusa é um bolero de exaltação à mulher amada, naquele estilo consagrado por Rosa, de Pixinguinha. "Não gostei quando ouvi minha voz gravada", afirma Roberto Carlos. Mesmo assim, essa sua gravação de Deusa foi tocada algumas vezes para anunciar o seu programa na Rádio Cachoeiro.

Paralelo ao seu trabalho com o Regional L-9, o violonista Zé

Nogueira formou um conjunto de baile que se apresentava todo domingo na Casa do Estudante de Cachoeiro de Itapemirim. E junto com ele lá estava Roberto Carlos dando canja com seu repertório de tangos, boleros e sambas-canções.

Mesmo quando não cantava, o garoto ficava no palco batendo o bongô ou as maracas. A Casa do Estudante mantinha grande atividade, promovendo concursos de oratória, concursos literários, jogos estudantis e escolha da Rainha dos Estudantes. Mas no domingo, das 16 às 20, era o momento de os brotos dançarem ao som do Conjunto de Ritmos de Zé Nogueira. Para isso, ele tinha dois crooners, Maria Angélica e Nilo Correia, que se revezavam no palco, mas sempre deixando uma brecha para o menino Roberto Carlos cantar. Um de seus números mais aplaudidos era o da canção portuguesa Coimbra, de Raul Ferrão e José Galhardo - que anos depois Roberto Carlos gravaria como uma lembrança desse seu tempo de crooner-mirim nas domingueiras da Casa do Estudante.

Com o crescente envolvimento de Roberto Carlos no universo do rádio, sua mãe começou a ficar preocupada. Temia pela saúde do filho e pelo seu desempenho na escola, porque ele estava cada vez menos interessado nos estudos e começava a passar noites sem dormir. A visão que prevalecia na época era a de que o ambiente radiofónico era mesmo dominado por pessoas sem estudo, de vidas desregradas e muitas vezes doentes de tuberculose. Definitivamente, não era isso o que dona Laura queria para seu filho. Mas a preocupação dela não se traduzia em proibição, e sim em alerta para que o filho tivesse cuidado com tudo à sua volta. E o sinal vermelho piscou quando se descobriu que um dos cartazes da Rádio Cachoeiro, o cantor Genaro Ribeiro, estava com tuberculose. Sim, a "maldita", que já havia vitimado Noel Rosa, Sinhô, Nilton Bastos e tantos outros artistas do rádio, estava ali, bem próxima do menino cantor Roberto Carlos.

Na época um dos mais queridos artistas de Cachoeiro de

Itapemirim - e uma promessa de carreira vitoriosa no futuro -, o jovem cantor Genaro Ribeiro padecia tuberculoso num leito de hospital. A Rádio Cachoeiro decidiu então promover um grande show de auditório em seu benefício. Marcado para o dia 12 de agosto de 1955, dessa vez o público teve que pagar ingresso, pois a renda seria revertida para o tratamento do artista. Todo o elenco da emissora foi mobilizado para esse show beneficente, que contou, entre outros, com o cantor Ricardo Assunção, a cantora Marlene Pereira, a pianista Elaine Manhães e também com o croo-ner-mirim Roberto Carlos. Acompanhado do Regional L-9, nesse dia ele interpretou o samba-canção Olinda, cidade eterna, de Capiba: "Olinda, cidade heróica/ monumento secular da velha geração/ Olinda, serás eterna/ e eternamente viverás no meu coração...".

Infelizmente, pouco pôde ser feito em benefício de Genaro

Ribeiro porque ele acabou morrendo treze dias depois daquele show. Assim, a Rádio Cachoeiro perdia prematuramente uma de suas principais atrações. Mas as perdas não pararam aí porque meses depois foi a vez de Roberto Carlos também deixar definitivamente os microfones da ZYL-9. Aquela sua participação no show coletivo do dia 12 de agosto foi praticamente a sua despedida do microfone da rádio que o lançou para a carreira artística.

Depois de cinco anos atuando ali, o objetivo maior de Roberto Carlos era agora cantar nas emissoras de rádio do Rio de Janeiro.

Ele sabia que os programas radiofónicos da então Capital Federal eram os que ditavam os sucessos no Brasil.

Uma das grandes atrações era A Hora do Pato, programa de calouros apresentado por César de Alencar, na Rádio Nacional.

Participar desse programa era o desejo de todos os cantores iniciantes. Roberto Carlos também sonhava com isto ou pelo menos conhecer o famoso apresentador, entrar na Rádio Nacional. Em casa ele não falava em outra coisa. Tanto insistiu que certa vez, quando seu Robertino foi ao Rio comprar peças de relógio, levou o filho para conhecer a emissora. E eis que o menino-cantor chegou à praça Mauá, número 7, sede da PRE-8 Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Roberto Carlos atravessou deslumbrado aqueles corredores e se espantou com o tamanho do auditório (mais de seiscentos lugares) e o tamanho do estúdio, ambos bem maiores do que os da sua Rádio Cachoeiro. Naquele tempo, os estúdios das principais emissoras eram enormes porque a produção das radio-novelas exigia um espaço amplo para conter o grande número de radioatores participantes.

Em outra viagem ao Rio, seu Robertino levou Zunga para se apresentar no programa Papel Carbono, de Renato Murce, também na Rádio Nacional. Mas nessa época Roberto Carlos estava na idade de mudar a voz e de repente não se sentiu cantando tão bem quanto antes. Chegou até a pensar que encerraria a carreira de cantor porque se surpreendia com alguns falsetes inesperados que desafinavam tudo. Entretanto, depois ele mesmo constatou que aquilo foi apenas uma breve fase de transição. Logo sua voz ficou definida e novamente afinada. E, com a confiança reconquistada, entre uma viagem e outra ao Rio, ia tentando escalar a programação das rádios cariocas.

No início do ano de 1956, Roberto Carlos foi passar as férias escolares em Niterói, na casa de sua tia Jovina Moreira, a Dindinha, irmã de dona Laura. Depois de percorrer mais uma vez alguns programas de rádio, ele se convenceu de que precisava mesmo morar no Rio para tentar com mais afinco a carreira artística. Próximo do final das férias, ele voltou para Cachoeiro e decidiu então conversar com os pais e pedir para ficar morando na casa da tia em Niterói. Roberto Carlos argumentou que, para obter realmente uma chance, teria que ir todos os dias às emissoras de rádio cariocas, conhecer os bastidores da produção, travar contato com outros artistas.

E não dava para fazer isto morando em Cachoeiro de Itapemirim.

Os pais concordaram com a mudança, desde que o filho continuasse os estudos regularmente. Isto não seria problema, garantiu Roberto Carlos, porque havia bons colégios em Niterói e bastava pedir sua transferência do Liceu Muniz Freire para lá.

Tudo acertado, ele foi então se despedir de seus colegas da

Rádio Cachoeiro. Lá procurou se certificar com o violonista Mozart Cerqueira, chefe do regional da emissora, se aquela era realmente uma boa decisão. "Mozart, você acha que eu tenho condições de tentar a carreira de cantor profissional no Rio? O que você acha disto?" Mozart deu a resposta que Roberto Carlos gostaria e precisava ouvir. "Acho que você tem condições, sim, Roberto.

Você tem uma vozinha bonitinha, canta no ritmo. Vai firme e se Deus quiser vai dar tudo certo."

E foi então que, no início de março de 1956, um mês antes de completar quinze anos de idade, Roberto Carlos se preparou para partir de vez da cidade em que nasceu.

Ainda não era dia quando ele acordou para embarcar no chamado trem expresso, que sairia da estação ferroviária às 4 e meia da manhã com destino ao Rio de Janeiro. Depois de arrumar sua bagagem e tomar café, ele se despediu de dona Laura e foi acompanhado por seu Robertino até a estação. "Andando pela rua/ meu pai junto a mim/ olhava com ternura/ a lágrima manchar meu paletó de brim...", descreveria anos depois numa canção que recorda esse momento da sua vida. Naquela manhã de março de 1956, Roberto Carlos partiu definitivamente de Cachoeiro de Itapemirim levando uma mala, uma muleta e um violão. E muitos sonhos também.

Chegando em Niterói, Roberto Carlos matriculou-se imediatamente no Colégio Brasil, tradicional grupo escolar no bairro de Fonseca, onde sua tia morava. Ele optou por estudar no horário noturno, deixando o dia livre para se dedicar à carreira artística. E quase todos os dias ele pegava a barca e ia tentar a sorte nas principais emissoras cariocas, como a Rádio Nacional, a Rádio Tupi, a Rádio Mayrink Veiga e a Rádio Tamoio. Nessa época estava no auge um jovem cantor chamado Cauby Peixoto.

Ah! como Roberto Carlos queria um pouco daquele sucesso também para ele. Em companhia do primo Alédio Moreira, nos finais de semana ele pegava seu violão e promovia serenatas ali pelo Fonseca. E por várias vezes Roberto Carlos cantou aquele famoso samba-canção que diz: "Conceição, eu me lembro muito bem/ vivia no morro a sonhar/ com coisas que o morro não tem...".

Em Niterói, Roberto Carlos conheceu um jovem violonista, Luiz

Fernandes, que começou a lhe ensinar os primeiros acordes mais dissonantes do violão. Acostumado ao violão mais tradicional dos músicos do regional da Rádio Cachoeiro, Roberto Carlos descobria entusiasmado novas possibilidades para o instrumento.

Foi quando passou a se interessar pelo repertório de cantores mais modernos como Lúcio Alves, Dick Farney e Luiz Cláudio.

Foi também nessa fase niteroiense que Roberto Carlos descobriu a música de dois artistas que se tornariam grandes influências em sua carreira: Dolores Duran e Tito Madi.

e Não diga nãoCom sua voz cálida e sentimental, vinda do fundo

As suas primeiras tentativas no meio artístico carioca foram cantando sambas-canções de Tito Madi como Chove lá fora, Eu e você da noite, Dolores Duran também enternecia os ouvidos e o coração do jovem Roberto Carlos. Ele não se cansava de ouvir e cantar temas que ela ia lançando, como Por causa de você, Não me culpe, Solidão e Fim de caso. E assim, aos poucos, foi se definindo o cantor romântico Roberto Carlos. O principal objetivo dele - e de todos os cantores da época - era conseguir um contrato no rádio. De preferência numa grande emissora como a Rádio Nacional, a Rádio Mayrink Veiga ou a Rádio Tupi, pois todas tinham seu auditório, sua orquestra e seus artistas contratados. Aquele aviso que aparecia nas capas de disco - "proibida a radiodifusão" - era uma realidade da época.

O vinil era para ser executado em casa. As emissoras de rádio tocavam basicamente música ao vivo através de seus cantores contratados ou convidados. E a competição se estabelecia: Emilinha Borba, por exemplo, era exclusiva da Rádio Nacional, Silvio Caldas da Rádio Mayrink Veiga e Dorival Caymmi da Rádio Tupi. Todos os grandes cartazes da nossa música popular eram contratados de alguma emissora de rádio. E quem não era, queria ser.

A estreia de um novo cantor era sempre no rádio. E eles se tornavam conhecidos através de programas de auditório como os de César de Alencar, Paulo Gracindo e Manoel Barcelos.

Era o rádio a porta de entrada do candidato a futuro ídolo da música popular. Antes de gravar um disco, de ser contratado por alguma gravadora, o cantor tinha que brilhar no rádio, mostrar ali sua voz e seu ritmo diante dos músicos e da plateia do auditório. Até porque o rádio era a principal referência para as fábricas de disco.

Era nos auditórios que os cantores testavam as músicas que recebiam para gravar. E só depois de passar por um microfone de rádio o cantor conseguia um bom qontrato para lançar um disco - que iria confirmar ou não o seu sucesso.

Nomes como Silvio Caldas, Orlando Silva, Luiz Gonzaga e Angela

Maria foram cantores do rádio antes de serem cantores do disco. Até mesmo João Gilberto, antes de criar a bossa nova, era crooner do Garotos da Lua, conjunto vocal contratado da Rádio Tupi. E eles tinham sua carteira assinada, precisavam marcar ponto e cumprir horário na emissora. Mesmo se o cantor tivesse um bom contrato com gravadora, continuava importante manter seu emprego no rádio. Aquele era o dinheiro certo no final de mês e sinal de prestígio e popularidade para o artista. Uma das perguntas mais frequentes que se fazia a um músico ou cantor era: em que rádio você atua? Quando ele não tinha o que responder, disfarçava constrangido: sou freelancer. Estar sem contrato no rádio era sinal de decadência para um cantor veterano e de falta de talento para um artista jovem.

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