Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 7 de 8)

Por tudo isso, quando Roberto Carlos saiu de Cachoeiro para tentar a carreira artística no Rio de Janeiro, seu objetivo primeiro e principal era conseguir um emprego de cantor do rádio, fazer parte do cast fixo de alguma emissora. Para conseguir isso ele tinha que ir lá se apresentar, mostrar sua voz, encarar o auditório.

Quem sabe, algum diretor artístico da emissora não se interessaria em contratá-lo? Com isso em mente, Roberto Carlos foi à luta.

"Eu não perdia um programa de rádio que me desse a chance de cantar", afirma.

O problema é que essa chance era mais difícil justamente nos programas de maior audiência e popularidade. Uma das boas vitrinas para um jovem cantor se projetar era o Programa Paulo Gracindo, grande sucesso nas manhãs de domingo da Rádio Nacional: "Está na hora louca/ de cantar assim sorrindo/ faz nascer na boca o nome do Programa Paulo Gracindo/ louras e morenas fazendo grande união/ cantando em coro exclamam todas as pequenas/ programa do meu coração...". Antes das nove horas da manhã, Roberto Carlos já estava lá com seu violão e um repertório de sambas-canções muito bem treinado. Mas havia uma competição muito grande para ser escalado no programa. As suas três horas de duração não davam para comportar todos os cantores da casa, muito menos os que pretendiam ganhar uma chance de se apresentar. Roberto Carlos tentava falar com a produção, os secretários e os assistentes do apresentador e nada conseguia.

Quem sabe o próprio Paulo Gracindo não seria mais atencioso? E

Roberto Carlos ficava ali pelo corredor esperando uma chance de falar com ele. "Me lembro do Roberto, bem rapazinho, encostado com um violão, sempre triste", diz Paulo Gracindo. Nem sempre era possível falar diretamente com o apresentador. Uma das poucas chances era nos intervalos comerciais, quando Paulo Gracindo deixava o estúdio para tragar um cigarro no corredor. "Seu Paulo, será que eu podia cantar hoje no programa?", perguntava timidamente Roberto Carlos. "Desculpe, meu filho, mas hoje não dá", respondia Paulo Gracindo, já apagando o cigarro.

No domingo seguinte, Roberto Carlos novamente estava lá tentando uma chance. "Às vezes não dava tempo mesmo porque os contratados da Rádio Nacional tinham prioridade. E eu tinha que escalá-los no programa", justificou Paulo Gracindo anos depois.

Nesse mesmo ano de 1956, um outro futuro grande nome da

MPB estava frequentando o auditório da Rádio Nacional: o baiano Caetano Veloso, na época um adolescente de treze anos, que veio passar as férias escolares no Rio e decidiu estendê-las por todo aquele ano. Caetano também estava hospedado na casa de uma tia, em Guadalupe, na zona norte, e, sem mais o que fazer, quase diariamente ia para a Rádio Nacional. Mas, ao contrário de Roberto Carlos, que se infiltrava nos bastidores tentando uma chance de cantar, Caetano Veloso ficava no meio das macacas de auditório, pois queria apenas ver os ídolos no palco.

Mas será que nesse entra-e-sai quase diário no edifício da praça

Mauá não teria havido um encontro entre os adolescentes Roberto Carlos e Caetano Veloso? "É bem possível que tenhamos nos esbarrado. Naquele ano eu fui com uma frequência muito grande ao auditório da Rádio Nacional", diz Caetano.

E bem que Roberto Carlos estava mesmo precisando fazer novas amizades. Esse período em Niterói foi bastante difícil porque ele andava muito sozinho. Estava distante de seus pais, de seus irmãos e de seus amigos de Cachoeiro de Itapemirim, que o acompanhavam em tudo desde pequenininho.

Nessa época, Roberto Carlos curtiu uma saudade e uma solidão que ainda não conhecia. Em Niterói, seu único companheiro mais permanente foi o primo Alédio Moreira. Era pouco para quem desde criança andava sempre em grupo. Roberto Carlos ainda não havia encontrado sua turma no Rio, nem alguém que conhecesse os meandros do mundo artístico e pudesse apresentá-lo nas emissoras de rádio. Nenhuma daquelas pessoas que seriam importantes na sua trajetória artística, como Carlos Imperial, Erasmo Carlos e Tim Maia, tinham ainda cruzado seu caminho. Nessa fase inicial no Rio de Janeiro, Roberto Carlos tinha que batalhar uma oportunidade praticamente sozinho, na base da cara-de-pau - que ele, decididamente, não tinha.

Nada conseguindo na Rádio Nacional, Roberto Carlos seguia em direção à Rádio Tupi. Quem sabe ali não poderia obter uma atenção melhor dos produtores dos programas?

"Mas que esperança! Meu nome jamais constava entre os artistas escalados. E mais uma vez eu saía triste daquele prédio da avenida Venezuela", confessa o cantor.

Para ele não estava sendo fácil a busca de um lugar ao sol na grande constelação de astros que brilhavam nas rádios do Rio de Janeiro. Que diferença com sua cidade Cachoeiro de Itapemirim. Ali tudo parecia mais fácil; ele mal batia e as portas já iam se abrindo. Agora tudo era diferente e ele tinha que começar praticamente do zero. Mas até quando Roberto Carlos poderia continuar sozinho nessa batalha?

Dona Laura andava muito preocupada com o filho e escrevia-lhe cartas frequentemente. Como estava sua saúde? Como estava nos estudos? Como estava na carreira?

No final daquele ano, Roberto Carlos não tinha notícias animadoras para dar: ele não conseguira emprego em nenhuma rádio e também não conseguira bom desempenho na escola. Não lhe foi possível conciliar a peregrinação pelas emissoras no Rio com o horário das aulas no colégio em Niterói e acabou sendo reprovado no terceiro ano ginasial. Por tudo isso, o cantor atravessou a virada do ano-novo de 1957 bastante preocupado e pensativo. Ele precisava tomar uma decisão muito séria:

continuar tentando a carreira no Rio ou voltar para Cachoeiro de

Itapemirim? Sim, como as coisas estavam muito mais difíceis do que imaginava, Roberto Carlos pensou em voltar para casa, para a Rádio Cachoeiro, para sua escola, para os seus amigos. E comentou sobre isso numa carta que escreveu para sua amiga Eunice Solino, a Fifinha. Datada de 20 de janeiro de 1957, a carta trata de assuntos comuns aos dois, mas no final Roberto Carlos fez um pedido à amiga: "Fifinha, se não lhe causar incómodo, peço-lhe para saber no Liceu quando é e o que é preciso para uma nova matrícula e exame de seleção. Peço-lhe também para não contar nada a ninguém sobre isso pois não é certo ainda a minha volta. Sem mais, aqui vou terminar enviando-lhe abraço e votos de felicidades, do seu amiguinho Zunga".

E talvez Zunga tivesse mesmo voltado para casa se seus pais não resolvessem tomar uma decisão oposta: deixar Cachoeiro de Itapemirim e ir morar no Rio de Janeiro.

"Acho que eles decidiram fazer isto também por minha causa", afirma Roberto Carlos. De fato, dona Laura e seu Robertino não estavam nada felizes com aquela situação e também entendiam que Cachoeiro oferecia poucas opções de emprego para seus filhos. Na época, as duas maiores chances de trabalho na cidade eram a ferrovia, para os homens, e a fábrica de tecidos, para as mulheres. E dada a proximidade da fábrica com a estação de trem era até muito comum o casamento de ferroviários com as moças da tecelagem. Mas dona Laura queria maiores opções para sua filha Norma e para seus outros filhos, Lauro Roberto e Carlos Alberto, que àquela altura já tinham também deixado a cidade, depois de ingressarem na Aeronáutica. Diante disso, os pais entenderam que a única chance de ter a família reunida novamente era morar na então Capital Federal, Rio de Janeiro.

Dona Laura foi primeiro e desembarcou sozinha na estação ferroviária da Barão de Mauá. Seu Robertino ficou algum tempo ainda em Cachoeiro com a filha Norma, pois precisava passar o ponto da loja e vender a casa. Inicialmente, dona Laura se hospedou na casa de sua irmã Jovina em Niterói, onde Roberto Carlos já estava.

Depois foi morar na casa de sua outra irmã, Antônia Moreira da

Luz, a Antonica, no subúrbio do Rio. Enquanto procurava uma casa para alugar, dona Laura trabalhou numa fábrica de roupas no Andaraí. A sua vontade de reunir novamente a família começava a ficar cada vez mais próxima de se realizar.

Para Roberto Carlos, o ideal era que os pais alugassem uma casa na zona sul ou no centro do Rio, pois assim estaria bem perto das principais emissoras de rádio.

Mas o valor do aluguel nesses locais era mais alto do que nos subúrbios da cidade. Pois seria exatamente no subúrbio carioca de Lins de Vasconcelos, mais precisamente num sobrado da rua Pelotas, que a família Braga iria passar a morar, a partir de meados de 1957. Não se pense, entretanto, que Roberto Carlos reclamou disso. "Aí ficou mais fácil, assim não precisava tomar a balsa todo dia", afirma o cantor, que deixou Niterói definitivamente para trás. Mas não o seu hábito de pescaria cultivado desde a infância em Cachoeiro. Sempre que possível, Roberto Carlos preparava um anzol, arrancava minhoca do chão, pegava um ônibus e ia pescar na Urca. Os seus dois irmãos logo também se transferiram para o Rio e por fim a sua irmã e seu pai. E assim a família Braga foi novamente reunida e todos se virando para ganhar a vida.

Seu Robertino e dona Laura continuaram no mesmo ofício que exerciam em Cachoeiro, mas agora trabalhando dobrado, porque o custo de vida na capital era mais alto. "Meu pai saía cedo, voltava à noite. Minha mãe passava o dia na máquina de costura.

A situação era ruim, e, assim como meus irmãos, eu precisava fazer alguma coisa", afirma Roberto Carlos, o único que não tinha uma remuneração certa no final do mês. Apesar da sua persistência, indo quase diariamente às emissoras de rádio, o cantor ainda não tinha conseguido emprego em nenhuma delas. Nenhum daqueles badalados diretores artísticos da Rádio Nacional ou da Rádio Tupi ou da Rádio Mayrink Veiga se entusiasmou em contratar Roberto Carlos para o seu cast. Se o tivesse feito, seria hoje uma referência histórica: o diretor fulano de tal, que deu o primeiro contrato para Roberto Carlos numa rádio do Rio de Janeiro. Mas como nenhum deles tomou essa decisão, nenhum pode dizer nada.

O fato é que as coisas estavam difíceis para a família e os irmãos de Roberto Carlos começaram a cobrar dele uma atividade que lhe rendesse uma carteira assinada e um salário fixo todo fim de mês. Seu irmão mais velho, Carlos Roberto, dizia mesmo que esse negócio de cantar era muito bonito, mas totalmente incerto, principalmente para quem não tinha um vozeirão como o de Nelson Gonçalves - o padrão de voz dominante até aquele momento.

Se Roberto Carlos tivesse uma voz à la Nelson Gonçalves - acreditava o irmão -, quem sabe poderia conseguir alguma coisa, mas sem isto ficava difícil. Que ele fosse então procurar alguma outra atividade, mesmo que continuasse cantando diletantemente por aí. Mas fazer exatamente o quê?

Num dia de domingo apareceu nos jornais o anúncio de um curso de datilografia no Colégio Ultra, na praça da Bandeira.

Era uma promoção especial com as primeiras aulas e a matrícula inteiramente grátis. Pronto, disseram os irmãos, eis aí um bom ofício para Zunga aprender: datilógrafo.

Dona Laura também incentivou o filho para que fosse fazer o curso. Já que ele parecia mesmo não ter vocação para medicina, e a carreira de artista era tão incerta, que garantisse seu futuro com um curso de datilografia. E naquela época este se tornava cada vez mais um pré-requisito básico para alguém conseguir um emprego melhor.

a ver com as teclas das antigas máquinas Remington

Foi o que também disse seu Robertino, garantindo que estava em contato com alguém que poderia até conseguir um emprego público para o filho, desde que ele soubesse datilografia. Roberto Carlos foi então fazer o tal curso no Colégio Ultra. A partir daí, uma nova frente iria mesmo se abrir para ele, mas esta, decididamente, não teria nada

"Eu fui entrando ali como um câncer. É como um câncer que a gente vai entrando no ambiente que quer fazer parte."

Erasmo Carlos

CAPÍTULO 2

Capitão AméricaE todos preferiam Coca-Cola a guaraná e só não

O uobop-bop-a-lum-uobop-bem-bum que Elvis Presley gritou lá de Memphis, em 1956, repercutiu como uma bomba nos subúrbios cariocas e quase abafou o bum bum bati cum dum prucurudum do samba do Rio de Janeiro. O bairro da Tijuca, na zona norte da cidade, foi o ponto de aglutinação de uma geração de garotos suburbanos e talentosos que sonhavam em ser americanos, vestir-se como americanos, cantar como americanos, viver como americanos. Seus ídolos eram os mesmos - e todos americanos: Elvis Presley, Little Richard, James Dean, Marlon Brando, Marilyn Monroe, Superman, passavam as tardes no McDonalds porque essa marca ainda não tinha chegado ao Brasil.

Liebert FerreiraRaul Seixas não andava por ali porque morava na

O pessoal se reunia então em frente ao Bar Divino, na esquina da rua do Matoso com Haddock Lobo, próximo ao Cinema Madri e ao Instituto Lafayette. Espécie de Memphis do rock nacional, aquela esquina da Tijuca atraía garotos como Tim Maia, Erasmo Carlos, Jorge Ben (que nos anos 90 mudou o nome para Jorge Benjor), Lafayette, Wilson Simonal, Ar-lênio Lívio, Luiz Ayrão, futuros Blue Caps como Renato e Paulo César Barros, futuros Fevers como Luiz Carlos e Bahia, mas logo, logo, alguém que vivia mais perto, um capixaba chamado Roberto Carlos, estaria se enturmando naquele clube da esquina carioca - ou quase americano.

As primeiras composições de Erasmo eram em inglês, embora ainda não entendesse quase nada do idioma. O fato é que ele não conseguia pensar musicalmente em português.

E Jorge Ben, antes de criar seus próprios sambas-rock, gostava mesmo era de cantar, num inglês rudimentar, aquele rock de Ronnie Self:

"Bop-a-lena, bop-a-lena/ she's my gal/ oh bop-a-lena, bop-alena,/ yeah she's my gal..." -, o que acabou lhe valendo o apelido de Babulina. Para aquela turma, Tio Sam era o seu profeta e os Estados Unidos a sua Meca. E o sonho de todos era um dia conhecer aquele país. A vontade era tanta que um dos garotos, Tim Maia, não quis esperar e se mandou para lá, aos dezessete anos, em 1959. Outro daquela turma, o baixista Paulo César Barros, chegou em Nova York nos anos 70. E, ao descer do carro que o pegou no aeroporto, fez reverência numa esquina da 7a avenida. "No momento que pisei naquela calçada eu senti uma grande emoção porque me lembrei de todos os meus ídolos, que ouvia desde garoto. E ali na 7a avenida eu vibrei dizendo: "Eles são daqui. E olha eu aqui na terra deles, pisando no chão do país que eles nasceram". Foi uma emoção maravilhosa."

O triunvirato de consumo cultural daqueles garotos era formado basicamente por discos, filmes e revistas em quadrinhos americanos. E disso o que eles reproduziam eram as canções. Não se pode dizer que faziam rock de garagem porque todos cresceram sem automóvel e entre pessoas que também não tinham. Eles faziam rock de rua e, como ficavam até tarde tocando, frequentemente provocavam a ira de alguns moradores, especialmente os da esquina da rua do Matoso com Haddock Lobo. A polícia era então chamada e prendia o violão dos roqueiros. No dia seguinte, o responsável pelo garoto ia até a delegacia e pegava o instrumento de volta. Mas à noite ele estava novamente na mão da turma. Foi quando um delegado da Tijuca ficou invocado e decidiu prender os seresteiros em vez do violão. "Nós passamos várias noites na delegacia por causa dessas noitadas de rock", afirma Erasmo Carlos, revelando que não foram apenas os antigos sambistas os perseguidos pela polícia. Nos primórdios do rock no Brasil os roqueiros também o foram.

(Parte 7 de 8)

Comentários