Roberto Carlos em Detalhes

Roberto Carlos em Detalhes

(Parte 8 de 8)

A génese da turma da Tijuca foram os amigos Tim Maia e

Erasmo Carlos, que moravam próximos e se viam desde os quatro ou cinco anos de idade. "Eu conheço Erasmo do tempo em que ele trocava o "r" pelo T. Ele falava "Elasmo", "galoto", "lalanja"", entrega Tim, que nasceu na Tijuca, em 1942. Erasmo Esteves nasceu no mesmo bairro, um ano antes, mas quase foi baiano. Sua mãe, Maria Diva Esteves, tinha acabado de chegar de Salvador - de onde saíra porque ficara grávida de um homem que não quis assumir a criança. Maria Diva veio com sua mãe e foi morar num quarto alugado na rua do Matoso, mudando-se mais tarde para outro quarto, na casa de seu padrinho, numa vila na rua Professor Gabizo.

Distante da figura paterna, Erasmo teve infância e juventude de "filho único de mãe solteira", como ele mesmo define. Para preservar o filho de maiores traumas ou preconceitos, Maria Diva dizia que o pai de Erasmo tinha morrido antes de ele nascer. Entretanto, para surpresa do cantor, quando ele estava com 2 anos e já era um artista famoso, seu pai, o policial baiano Nilson Ferreira Coelho, resolveu dar as caras para conhecer o filho e contar a verdade. História parecida foi vivida pelo ator americano Jack Nicholson, cuja mãe ficou grávida dele muito jovem e também de um sujeito que não quis assumir o relacionamento. Para preservar a filha do estigma de mãe solteira, a avó registrou Jack Nicholson como filho, ficando a verdadeira mãe do ator como irmã dele. Só aos trinta anos - quando já era um astro do cinema - Nicholson descobriu toda a verdade. "O que realmente não me sai da cabeça é como duas pessoas conseguiram manter um segredo como esse por tanto tempo", diz o ator. Tanto no caso dele como no de Erasmo, o pano de fundo é uma época que trazia grande dificuldade para uma mulher assumir um filho fora do casamento.

Maria Diva teve então que trabalhar para criar Erasmo sem o apoio do pai da criança. Ela exerceu os ofícios de empregada doméstica, lavadeira, operária, auxiliar de enfermagem, inspetora de colégio e várias outras atividades que a ajudavam a pagar o aluguel do quarto na casa do padrinho onde morava com o filho. Aliás, nessa época, o padrinho de Erasmo comia de marmita na pensão de seu Altivo Maia, pai do Tim. E este era o entregador de marmitas da pensão. Diariamente, Tim Maia saía pelas ruas da Tijuca carregando duas varetas cheias de ganchos com marmitas. Mas, frequentemente, o tempo passava e a comida do freguês não aparecia. "Meu padrinho chegava com fome, tinha pouco tempo para almoçar, coitado, e nada da marmita chegar. Ele ficava desesperado", lembra Erasmo.

Certa vez, Erasmo olhou pela janela e viu o marmiteiro lá na esquina jogando bola com a garotada - enquanto as marmitas esfriavam num canto da calçada. De vez em quando, Tim ainda abria uma marmita, comia um bolinho de carne, e voltava para o campo de futebol. Erasmo correu até lá e deu uma dura nele. O marmiteiro não gostou da repreensão pública e iniciou um bate-boca. De repente, Tim pegou uma barra de ferro pontuda e saiu correndo atrás de Erasmo. "Eu corri pra casa, entrei e fechei o portão. Tim ficou me xingando lá na porta", lembra. Nesse dia quase não sobrou nada para o padrinho de Erasmo almoçar - e ele se viu obrigado a ir à pensão de seu Altivo reclamar do entregador de marmita.

Erasmo e Tim Maia só vão se entender mesmo, e incrementar a turma da Tijuca, no período da adolescência, quando descobriram o rock"n"roll - manifestação da cultura pop que se projetou através do cinema.

couro, rebeldiaE isto quem primeiro promoveu foram os

Sim, o cinema é um dos pais do rock"n"roll, porque este não é apenas música, é também atitude, topete, calça jeans, jaqueta de personagens dos filmes O selvagem, produção de 1954, com Marlon Brando, e Juventude transviada, produção de 1955, com James Dean. Antes de Elvis Presley, os maiores ídolos da juventude eram exatamente os atores Marlon Brando e James Dean, ambos formados pelo Actor"s Studios. Aliás, Elvis Presley foi lançado seguindo à risca o visual de James Dean, que morreu um ano antes de o outro se tornar astro. Mas, embora Juventude transviada e O selvagem trouxessem a rebeldia, faltava a esses filmes a sonoridade rock, porque sua trilha musical é jazzística, composta a primeira por Leonard Rosenman e a segunda pelo trompetista Shorty Rogers.

A fusão do cinema com o rock veio num outro filme lançado em 1955: Sementes da violência, com Glenn Ford e Sidney Poitier, que mais uma vez trazia para as telas os conflitos de uma juventude em busca de seu espaço na sociedade. O diferencial desse filme estava na trilha sonora, que mostrava Rock around the clock com Bill Haley e seus Cometas. A música tocava apenas na abertura, durante a apresentação dos créditos, mas o suficiente para acender o rastilho da explosão musical do rock'n'roll.

Composta por Max Freedman, um nova-iorquino então com 63 anos, e gravada por Bill Haley, com 34, Rock around the clock atingiu o primeiro lugar na parada norte-americana no dia 9 de julho de 1955 - data que muitos consideram o marco zero da era do rock. Registre-se, entretanto, que esse single havia sido lançado mais de um ano antes, sem obter qualquer repercussão. Só depois que apareceu no filme Sementes da violência a música tornou-se um hit - comprovando mais uma vez a força do cinema na génese do rock. Explorando e amplificando ainda mais o sucesso da gravação de Bill Haley, na sequência veio o filme Ao balanço das horas (Rock around the clock), basicamente um musical que trazia o próprio cantor e outros intérpretes e personagens, como The Platters, Freddie Bell e o DJ Allan Freed, a quem se credita ter criado a expressão "rock and roll".

No Brasil, o rock já era comentado antes mesmo de as pessoas ouvirem. Falava-se de um ritmo alucinante que levava muitos jovens a provocar quebra-quebra nos cinemas dos Estados Unidos. Diziam até que em algumas cidades americanas espectadores davam tiros na tela durante a exibição da tal música. "Eu me lembro que ia à praia e escutava um zum zun zum. "Vem aí um ritmo alucinante. Isso já me deixava assustado. Deus me livre! Eu não fazia a menor ideia do que fosse um ritmo alucinante", lembra Paulinho da Viola, enfatizando: "Pra mim aquilo era coisa do demónio. Eu não podia imaginar uma música que provocasse tamanha alucinação, a ponto de um cara puxar a arma e dar um tiro na tela. Porra, isso não entrava na minha cabeça. Então eu não quis nem saber e fiquei de fora".

Na verdade essa onda de que cinemas eram quebrados durante a exibição de Ao balanço das horas fazia parte da promoção do filme, era muito mais marketing do que fato concreto. E embora isto tivesse assustado Paulinho da Viola, atraía muitos outros garotos, que ficavam curiosos e estimulados a ver o filme e ouvir a tal música. Foi o que fez Roberto Carlos, indo ao cinema Santa Alice, no bairro de Lins de Vasconcelos. "Bati palma como todo mundo, mas não chegou a ter quebra-quebra, não." John Lennon também não viu nada de mais durante a exibição daquele filme em Liverpool. "Eu tinha lido que as pessoas gritavam e pulavam pelos corredores. Acho que fizeram tudo isso antes que eu fosse assistir. Eu estava pronto para rasgar o estofamento também, mas ninguém aderiu." Atraído pela publicidade, Caetano Veloso também foi ver Ao balanço das horas no Cine Guarany, em Salvador. "Suei frio com medo de ser possuído por alguma força irracional - como tantas vezes sentia no candomblé - até me dar conta, aliviado, de que estava diante de uma chanchada igual àquelas que o cinema brasileiro produzia na época."

A previsão de possível descontrole e baderna que envolvia a exibição do filme Ao balanço das horas deixava muitas autoridades de alerta, entre as quais o governador de São Paulo, Jânio Quadros. Na época, ele mandou um de seus famosos bilhetinhos, ordenando ao secretário de Segurança que "determinasse à polícia deter, sumariamente, colocando em carro de preso, os que promoverem cenas semelhantes; e, se forem menores, entregá-los ao honrado juiz". Pois o tal juiz de Menores, Aldo de Assis Dias, preferiu evitar maiores dores de cabeça e baixou logo uma portaria proibindo o filme de Bill Haley para menores de dezoito anos sob o argumento de que "o novo ritmo é excitante, frenético, alucinante e mesmo provocante, de estranha sensação e de trejeitos exageradamente imorais". É de se imaginar o que ele diria se na época existisse o funk carioca.

O fato é que, através do cinema, o rock "n" roll se espalhou pelo mundo, chegando até os ouvidos dos rapazes da turma da Tijuca. Nas noites de sábado, Erasmo e alguns amigos costumavam ficar paquerando na praça ou às vezes entravam de penetra em algumas festas. Pois foi numa noite de sábado, no início de 1956, quando procurava mais uma boca-livre,: que ele ouviu um som muito alto vindo de uma casa na rua Afonso Pena, perto do campo do América. E o som era Rock around the clock, com Bill Haley e seus Cometas. "Nunca vou esquecer esse dia. Fiquei paralisado. Todo arrepiado. Parei em frente da festa e disse: "Meu Deus, o que é que é isso? Que coisa bonita!". Nunca senti nada tão forte", afirma Erasmo, que a partir daí não largou mais o rock"n"roll. E ele começou a procurar os programas de rádio, as revistas especializadas, os filmes.

CoastersE Erasmo ia constatando, maravilhado, que o tal de rock

Logo depois, Erasmo descobriu o programa A Hora da Broadway, apresentado por Waldir Pinotti diariamente das cinco às seis da tarde na Rádio Metropolitana. O locutor tinha contato com alguém da embaixada dos Estados Unidos que lhe fornecia semanalmente um audioteipe do programa Your Make Believe Ballroom, com os cinqüenta primeiros lugares do Cash Box, a parada norte-americana. Waldir tirava a voz do locutor em inglês e anunciava os sucessos de Chuck Berry, Carl Perkins, Fats Domino, Gene Vicent, The Platters, The and roll tinha ainda mais, muito mais do que Bill Haley e seus Cometas. "Eu fiquei louco. Foi uma identificação natural e instantânea, o que eu sempre imaginei para o meu gosto, embora nunca tivesse visto nem ouvido nada daquilo antes."

O rock pegou Erasmo ainda virgem musicalmente. Ao contrário de Roberto Carlos, que vinha de uma tradição romântica, fã de Tito Madi e de Dolores Duran, até então Erasmo não tinha maiores interesses musicais, a não ser pelas canções do caubói Bob Nelson no seu tempo de criança. Por isso o rock pegou mesmo Erasmo de jeito, e para sempre - o que não o tornou surdo para se encantar com a bossa nova quando essa surgiu logo depois.

Erasmo foi um daqueles de sensibilidade musical aguçada o suficiente para perceber de imediato a grandeza da arte de João Gilberto. Mas, para Erasmo, a bossa nova chegou um pouco atrasada: seu corpo e sua alma já estavam tomados pelo diabo do rock"n"roll.

E isto foi sacramentado quando repercutiu no Brasil a febre mundial pelo cantor Elvis Presley. Ou porque eram negros (como Chuck

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