Comando Vermelho A Historia Sec - Carlos Amorim

Comando Vermelho A Historia Sec - Carlos Amorim

(Parte 2 de 2)

Quilo era um homem honrado, dizia para ela nunca usar drogas. E sempre a prevenia de que iria morrer cedo. Amor bandido - mas amor. A crueldade desses homens, que os jornais populares não se cansam de mostrar, geralmente se aplica ao inimigo, aos bandidos rivais, aos delatores, aos elementos infiltrados da polícia, aos covardes. Na comunidade carente, os chefões do crime organizado são pessoas bem-vistas, tratadas até com certo carinho. É que, para ter negócios lucrativos, o tráfico de drogas precisa de tranqüilidade. Com a polícia subindo o morro todo dia, ninguém consegue ganhar dinheiro - nem os fornecedores da droga, nem os distribuidores que a levam para a sociedade refinada do asfalto, para os jovens ricos da Zona Sul. O tráfico não é compatível com a desordem na favela. E é justamente por isso que a "segurança" das bocas-de-fumo termina atuando como estranha polícia no morro. Durante dois anos, fui vizinho da Favela da Mineira, morando numa casa na Rua Barão de Petrópolis, entre os bairros de Santa Teresa e Rio Comprido.

Muitas vezes subi o morro para comprar cigarro ou cerveja nas biroscas da favela. Cruzava com os "soldados' do Comando Vermelho, ostensivamente armados. Sempre fui respeitado como morador do bairro. Houve ocasiões em que, chegando de madrugada, encontrava a "rapaziada do dedo" - do dedo no gatilho - encostada no portão da casa. Eram jovens bemvestidos, tênis da moda, bonés que imitam caps dos times de beisebol americanos. Eles davam boa-noite e delicadamente saíam da frente. Mas essa estranha segurança da favela tem suas próprias leis. Certa vez, uma vizinha destratou um garoto que roubou mangas do terreno dela. Num período de três meses, teve a casa arrombada seis vezes. Eu mesmo passei por isso. Depois de discutir com um dos "rapazes", tive o carro roubado, sofri várias ameaças e preferi mudar dali. Nessa ocasião, o dono de uma das biroscas me deu um conselho: — Se eu fosse você, reclamava com o secretário da boca. Ele resolve essa parada e tudo volta às boas. O "secretário da boca" é uma espécie de relações-públicas da quadrilha. Negocia pequenos desentendimentos - como o meu. Trata também de empréstimos aos moradores e coisas desse tipo. Preferi a mudança. Me pareceu mais prudente. O rapaz com quem discuti tinha uns quinze anos e andava armado com um revólver calibre 32 com balas dundum, que se estilhaçam quando atingem o alvo. Na maioria das áreas controladas pelo Comando Vermelho, o crime banal, o estupro, o bandidinho batedor de carteiras, o violento com os vizinhos - todos esses são drasticamente reprimidos pelas quadrilhas. Um marido ciumento que matou a mulher a facadas, se escapar da lei, pode morrer nas mãos dos traficantes. A favela é uma comunidade sem cidadania, nos termos em que a conhecemos. A miséria coloca os homens à margem da vida, mas a história e a sociologia ensinam que não pode existir agrupamento humano sem regras, sem leis e sem um regime de prêmios e punições. O crime organizado ocupa o espaço e dita o regulamento para o convívio social. Em novembro de 1992, os traficantes do Morro do Borel colocaram onze meninos em fila e deram um tiro de revólver na mão de cada um deles. Os garotos estavam assaltando dentro dos ônibus que passam perto da favela. Entre as pessoas assaltadas estava - por azar deles - a mulher do chefão do tráfico na favela, o Bill do Borel, homem de confiança do Comando Vermelho. Ele controla os negócios de Isaías Costa Rodrigues, um dos maiores traficantes da cidade, hoje morrendo de AIDS no

Hospital Penitenciário. Quem sobe a favela do Borel encontra uma inscrição no muro de uma casa: "Bill é um amigo que gosta de tudo perfeito. Mas, acima de tudo, no morro o morador tem que estar satisfeito." E que ninguém pense que este poder se abate apenas sobre pequenas comunidades isoladas. O Comando Vermelho já é uma espécie de governo paralelo numa parte considerável da geografia do Grande Rio. Domina - pela força ou pela persuasão - quase dois quintos da população da região. No domingo 9 de dezembro de 1990, o jornal O Globo publicava matéria de página inteira sobre o império da organização. O texto de abertura

favelas do Rio são dominadas por quadrilhas ligadas ao Comando

Vermelho. (...) os gerentes desses grupos armados de traficantes, seqüestradores e assaltantes de bancos impõem suas leis à força aos quase dois e meio milhões de moradores dos morros que dominam". Outro texto da mesma edição de O Globo garante que as estações de trem que servem à favela do Jacarezinho não cobram as passagens, porque os traficantes impedem a instalação das roletas e montam pontos de venda de drogas dentro das próprias plataformas da Rede Ferroviária. A reportagem de Jorge Luiz Lopes e Rodolfo de Bonis teve como fontes de informação o Serviço Reservado da Polícia Militar (o P-2) e a própria Secretaria de Polícia Civil do Estado. Nenhuma voz da autoridade pública se levantou para desmentir a matéria de O Globo. A região metropolitana do

Rio tem perto de onze milhões de habitantes. Nela, para cada grupo de cem mil moradores, 37 pessoas são assassinadas. Isso é pesquisa de americano, assinada pelo “Population Crisis Committee”, com sede em Washington. A estatística foi construída depois de dois anos de estudos realizados com apoio de

350 dos maiores especialistas mundiais em problemas do crescimento urbano. Uma cidade terrível esse Rio de Janeiro, concluem os pesquisadores. Uma conclusão, aliás, reforçada por outra informação: o Departamento de Estado norte-americano considera o Rio a quarta cidade mais perigosa do planeta para os cidadãos dos Estados Unidos em viagens de turismo ou negócios. O Rio só perde para Beirute, Medellín e Bangcoc. Um “special warning” neste sentido foi emitido a todas as companhias de turismo, aviação e seguradoras dos EUA em fins de 1989. Meses depois, em junho de 1990, a Anistia Internacional publica um relatório (Tortura e Execuções Extrajudiciais no Brasil) que assusta ainda mais os americanos. Ou seja: violência criminal e policial a todo vapor. A onda de seqüestros que assola o país (mais de duzentos casos, só no Rio, entre maio de 1990 e dezembro de 1992) tem boa divulgação na imprensa mundial. De acordo com o Sindicato dos Estabelecimentos Hoteleiros do Rio, essa publicidade negativa reduz significativamente a ocupação dos hotéis de luxo na cidade. O Rio está na classificação de "turismo perigoso". Em abril de 1993, quando o Grupo de Hotéis Horsa pediu concordata judicial, uma das alegações foi a péssima imagem que o Rio de Janeiro tem atualmente no exterior. Se é ruim para turista, imagine para os moradores da cidade - as vítimas de tanta violência! As estatísticas da violência no Rio, no entanto, não estão diretamente ligadas ao crime organizado. Os casos que enchem os boletins de ocorrências policiais são, em mais de 70 por cento, crimes contra o patrimônio. Ou seja: furtos e roubos praticados pelo bandido avulso e pelas quadrilhas iniciantes, muitas delas formadas por crianças e adolescentes. As organizações de grande porte - e a maior delas, o Comando Vermelho - se dedicam ao que podemos chamar de "ação seletiva". É o tráfico em larga escala, o contrabando internacional de armas, o roubo quase industrializado de carros, o assalto a bancos e os seqüestros milionários de empresários como Roberto Medina. A base da operação são as drogas. Assaltos e seqüestros são uma forma de fazer caixa para financiar a compra da maconha e da cocaína nos atacadistas internacionais (os cartéis colombianos de Cáli e Medellin, os bolivianos, a Máfia siciliana que atua na América Latina). As ações armadas funcionam também como "batismo de fogo" para os novos "soldados" da organização. Carros e armas são moedas no complexo mundo do tráfico. Quer dizer: o crime organizado não atinge a sociedade indistintamente, apesar de ser uma grave ameaça ao poder constituído e à ordem pública. Mas o tráfico evidentemente gera o crime avulso. O consumo de cocaína é verificado na maioria absoluta dos casos em que ocorre a prisão em flagrante de assaltantes violentos e estupradores. O delegado Élson Campello, um dos mais ativos no combate ao crime organizado no Rio, tem uma frase que resume a situação: — A cocaína é o denominador comum no crime violento. Para os chefões do crime organizado, esse tipo de ação indiscriminada simplesmente não interessa. Porque não vale a pena ser preso e atrapalhar os negócios

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