Escola Austríaca - Mercado e criatividade empresarial - WEB

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A EscolA AustríAcA A EscolA AustríAcA

Jesus Huerta de soto

A EscolA AustríAcA 2ª Edição copyright © creative commons título: A EscolA AustríAcA

Autor: Jesus Huerta de soto

Esta obra foi editada por:

Instituto ludwig von Mises Brasil rua Iguatemi, 448, conj. 405 – Itaim Bibi são Paulo – sP tel: (1) 3704-3782 Impresso no Brasil / Printed in Brazil

IsBN: 978-85-62816-1-6 2ª Edição traduzido por André Azevedo Alves

Projeto Gráfico e capa: André Martins revisão para nova ortografia: Fernando Fiori chiocca

Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário sandro Brito – crB8 – 7577 revisor: Pedro Anizio

D467e de Soto, Jesus Huerta.

A Escola Austríaca / Jesus Huerta de Soto. -- São Paulo :

Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. 100p.

Tradução de: André Azevedo Alves

1. Economia 2. História 3. Teoria 4. Subjetivismo 5. Metodologia I. Título.

CDU – 330.1

introdução1

Sumário cAPítulo 1 PrINcíPIos EssENcIAIs dA EscolA AustríAcA

dos neoclássicos17
2. o subjetivismo austríaco frente ao objetivismo neoclássico18
neoclássico19
(neoclássicos)20
objetiva dos neoclássicos20
neoclássicos21
frente ao conceito de custo objetivo dos neoclássicos24
matemática dos neoclássicos24
entendimentos do conceito de “previsão”26
10. conclusão29

1. A teoria da ação dos austríacos frente à teoria da decisão 3. o empresário austríaco frente ao homo oeconomicus 4. A possibilidade de erro empresarial puro (austríacos) frente à racionalização a posteriori de todas as decisões 5. A informação subjetiva dos austríacos frente à informação 6. o processo empresarial de coordenação dos austríacos frente aos modelos de equilíbrio (geral e/ou parcial) dos 7. o caráter subjetivo que os custos têm para os austríacos 8. o formalismo verbal dos austríacos frente à formalização 9. A conexão da teoria com o mundo empírico: os diferentes cAPítulo 2 coNHEcIMENto E FuNção EMPrEsArIAl

1. definição de função empresarial3
2. Informação, conhecimento e empresarialidade34
3. conhecimento subjetivo e prático, não científico35
4. conhecimento exclusivo e disperso36
5. conhecimento tácito não articulável37
6. o caráter essencialmente criativo da função empresarial38
7. criação de informação39
8. transmissão de informação39
9. Efeito aprendizagem: coordenação e ajustamento40
1. competição e função empresarial43

8Jesus Huerta de soto 12. conclusão: o conceito de sociedade para a Escola Austríaca ..45 cAPítulo 3 cArl MENGEr E os PrEcursorEs dA EscolA AustríAcA

1. Introdução49
da Escola Austríaca50
de Adam smith56
a teoria subjetiva do valor e a lei da utilidade marginal59
5. Menger e a teoria econômica das instituições sociais63
6. A Methodenstreit, ou a polêmica sobre os métodos64

2. os escolásticos do século de ouro espanhol como precursores 3. A decadência da tradição escolástica e a influência negativa 4. Menger e a perspectiva subjetivista da Escola Austríaca: a concepção da ação como um conjunto de etapas subjetivas, cAPítulo 4 BöHM-BAwErk E A tEorIA do cAPItAl

1. Introdução69
2. A ação humana como conjunto de etapas subjetivas70
3. capital e bens de capital71
4. A taxa de juro76
5. Böhm-Bawerk contra Marshal79
6. Böhm-Bawerk contra Marx80
mítico de capital81
8. wieser e o conceito subjetivo de custo de oportunidade86

7. Böhm-Bawerk contra John Bates clark e o seu conceito 9. o triunfo do modelo de equilíbrio e do formalismo positivista ..86 cAPítulo 5 ludwIG voN MIsEs E A coNcEPção dINâMIcA do MErcAdo

1. Introdução91
2. Breve resenha biográfica91
3. A teoria da moeda, do crédito e dos ciclos econômicos93
4. o teorema da impossibilidade do socialismo96
6. o método da economia política: teoria e história101
7. conclusão104

cAPítulo 6 F. A. HAyEk E A ordEM EsPoNtâNEA do MErcAdo

1. Introdução biográfica107
intertemporal1
3. Polêmicas com keynes e a Escola de chicago116
4. o debate com os socialistas e a crítica à engenharia social119
5. direito, legislação e liberdade123

cAPítulo 7 o rENAscIMENto dA EscolA AustríAcA

2. rothbard, kirzner e o ressurgimento da Escola Austríaca137
3. o atual programa de investigação da Escola Austríaca140
4. resposta a alguns comentários críticos144
neoclássico149

1. A crise da análise de equilíbrio e do formalismo matemático ..131 5. conclusão: uma avaliação comparativa do paradigma BiBliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .153 introdução o presente livro propõe-se explicar de uma forma sintética, mas com a necessária profundidade, o conteúdo essencial e as características diferenciadoras mais importantes da Escola Austríaca de Economia, relativamente ao paradigma que até agora tem dominado a nossa ciência. Analisa-se também a evolução do pensamento da Escola Austríaca desde as suas origens até ao momento atual, indicando-se de que forma é previsível que as contribuições desta Escola possam tornar mais frutífera a evolução futura da ciência Econômica.

dado que, de uma forma geral, os elementos essenciais da Escola

Austríaca não são bem conhecidos, no capítulo 1 explica-se de maneira comparativa quais são os princípios mais importantes da concepção dinâmica do mercado defendida pelos austríacos, assim como as substanciais diferenças de abordagem que existem entre o seu ponto de vista e o do paradigma neoclássico que até agora, e apesar das suas insuficiências, é o mais estudado nas nossas universidades. No capítulo 2 expõe-se o núcleo essencial da tendência coordenadora que, impulsionada pela função empresarial, explica, segundo os austríacos, por um lado, o aparecimento de uma ordem espontânea do mercado e, por outro, a existência de uma série de leis de tendência cujo estudo constitui o objeto de investigação da ciência Econômica. No capítulo 3 inicia-se o estudo da evolução da história do pensamento econômico relacionado com a Escola Austríaca, partindo do fundador oficial da Escola, carl Menger, cujas raízes precursoras remontam às contribuições desses notáveis teóricos que foram os membros da Escola de salamanca do Século de Ouro espanhol. o capítulo 4 é dedicado todo ele à figura de Böhm-Bawerk e à análise da teoria do capital, cujo estudo é um dos elementos que mais falta faz nos programas de teoria Econômica lecionados nas nossas universidades. os capítulos 5 e 6 tratam, respectivamente, das contribuições dos dois economistas austríacos mais importantes do século X: ludwig von Mises e Friedrich von Hayek. sem conhecer as contribuições destes dois teóricos não é possível entender como foi se formando a moderna Escola Austríaca, nem aquilo que representa no mundo de hoje. Por último, o capítulo 7 dedica-se ao estudo do renascimento da Escola Austríaca que, tendo a sua origem na crise do paradigma dominante, está sendo descoberta por um numeroso grupo de jovens estudantes de diversas universidades da Europa e da América. uma exposição do programa de investigação da moderna Escola Austríaca, com as suas previsíveis contribuições para a evolução e futuro desenvolvimento da nossa ciência, juntamente com a resposta aos comentários críticos

12Jesus Huerta de soto mais comuns que, geralmente fruto do desconhecimento e da incompreensão, se lançam contra o ponto de vista austríaco constituem a parte final deste livro.

convém deixar claro que é impossível proceder aqui à exposição de uma visão completa e detalhada de todos os aspectos que caracterizam a Escola Austríaca. Apenas se pretende apresentar aqui um resumo das suas principais contribuições, de uma forma clara e sugestiva. Por isso, o presente trabalho não deve ser considerado mais do que uma simples introdução para todos aqueles interessados na Escola Austríaca que, caso desejem aprofundar algum dos seus elementos concretos, terão que recorrer à bibliografia escolhida que se inclui no final do livro. Por isso também se limitou o uso de citações, que poderiam ter sido incorporadas no texto para ampliar, ilustrar e clarificar ainda melhor o seu conteúdo.

o interesse prioritário do autor consistiu em apresentar de uma forma atrativa o paradigma austríaco para toda uma série de potenciais leitores que, presumivelmente pouco familiarizados com o mesmo, possam a partir da sua leitura decidir-se pelo aprofundamento de uma abordagem que, quase com toda a certeza, será para eles tão inovadora como apaixonante.

Capítulo 1 prinCípioS ESSEnCiaiS da ESCola auStríaCa uma das principais carências dos programas de estudo das nossas

Faculdades de Economia é que nos mesmos, até agora, não se tem oferecido aos estudantes uma visão completa e integrada dos elementos teóricos essenciais que constituem as contribuições da moderna Escola Austríaca de Economia. No presente capítulo pretende-se cobrir essa importante lacuna, assim como dar uma visão panorâmica dos elementos diferenciadores essenciais da Escola Austríaca, visão essa que ajude a compreender a evolução histórica do seu pensamento, que será exposto nos capítulos posteriores. Para isso, apresenta-se no quadro 1.1., de uma forma clara e sintética, quais são as diferenças essenciais que existem entre a Escola Austríaca e o paradigma dominante (neoclássico) que, de uma forma geral, é o ensinado nas nossas universidades. desta maneira será possível entender de uma forma simples e rápida a diferença de pontos de vista entre ambas as abordagens que de seguida serão analisados com maior detalhe.

Quadro 1.1. Diferenças essenciais entre a Escola Austríaca e a Neoclássica

Pontos de ComParação

Paradigma austríaCo

Paradigma neoClássiCo

1. conceito de economia(princípio essencial): teoria da ação humana entendida como um processo dinâmico (praxeologia).

teoria da decisão: maximização sujeita a restrições (conceito estrito de “racionalidade”).

2. Perspectiva metodológica:Subjetivismo.Estereótipo do individualismo metodológico (objetivista).

3. Protagonista dos processos sociais: Empreendedor criativo.Homo oeconomicus.

4. Possibilidade de os agentes se equivocarem a priori e natureza do ganho empresarial:

Admite-se a possibilidade de serem cometidos erros empresariais puros que poderiam ter sido evitados com maior perspicácia empresarial na percepção de oportunidades de lucro.

Não se admite que existam erros dos quais alguém se possa arrepender, uma vez que todas as decisões passadas se racionalizam em termos de custos e benefícios. os lucros empresariais são considerados como a renda de mais um fator de produção.

5. concepção da informação:o conhecimento e a informação são subjetivos, estão dispersos e alteram-se constantemente (criatividade empresarial). distinção radical entre conhecimento científico (objetivo) e prático (subjetivo).

Pressupõe-se a existência de informação perfeita (em termos certos ou probabilísticos), objetiva e constante a propósito de fins e de meios. Não se distingue entre conhecimento prático (empresarial) e científico.

16Jesus Huerta de soto

Pontos de ComParação

Paradigma austríaCo

Paradigma neoClássiCo

6. Ponto de referência:Processo geral com tendência coordenadora. Não se distingue entre a micro e a macroeconomia: todos os problemas econômicos são estudados de forma inter-relacionada.

Modelo de equilíbrio (geral ou parcial). separação entre a micro e a macroeconomia.

7. conceito de «concorrência»:Processo de rivalidade empresarial. situação ou modelo de «concorrência perfeita».

8. conceito de custo:subjetivo (depende da capacidade empresarial para descobrir novos fins alternativos).

objetivo e constante (pode ser conhecido e medido por uma terceira parte).

9. Formalismo:lógica verbal (abstrata e formal) que permite a consideração do tempo subjetivo e da criatividade humana.

Formalismo matemático (linguagem simbólica própria da análise de fenômenos atemporais e constantes).

10. relação com o mundo em-pírico 10. relação com o mundo empírico raciocínios apriorísticodedutivos: separação radical e, quando necessário, coordenação entre teoria (ciência) e história (arte). A história não pode ser utilizada para testar as teorias.

verificação empírica das hipóteses (pelo menos retoricamente).

1. Possibilidades de previsão específica:

12. responsável pela previsão 13. Estado atual do paradigma:

Impossível, uma vez que o que vai suceder no futuro depende de um conhecimento empresarial ainda não criado. Apenas são possíveis pattern predictions de tipo qualitativo e teórico sobre as consequências descoordenadoras do intervencionismo.

o empresário.o analista econômico (engenheiro social).

A previsão é um objetivo que se procura de forma deliberada.

Notável renascimento nos últimos 25 anos (especialmente depois da crise do keynesianismo e da queda do socialismo real).

situação de crise e mudança acelerada.

14. Quantidade de “capital hu-mano” in vestido: Minoritário, mas crescenteMajoritário, mas com sinais de crescente dispersão e desagregação.

15. tipo de “capital humano” investido: teóricos e filósofos multidisciplinares. liberais radicais.

Especialistas em intervencionismo econômico (piecemeal social engineering). Grau de compromisso com a liberdade muito variável.

17Princípios Essenciais da Escola Austríaca

Pontos de ComParação

Paradigma austríaCo

Paradigma neoClássiCo

16. contribuições mais recentes:• Análise crítica da coação institucional (socialismo e intervencionismo). • Teoria do sistema bancário

• Análise econômica do direito.

• Nova macroeconomia clássica.

• Teoria econômica da “informação” (economics of information). • Novos keynesianos.

17. Posição relativa de diferen-tes autores: rothbard, Mises, Hayek, kirzner coase, Friedman, Becker, samuelson, stiglitz

1 a tEoria da ação doS auStríaCoS frEntE à tEoria da dECiSão doS nEoCláSSiCoS

Para os teóricos austríacos, a ciência Econômica é concebida como uma teoria da ação mais do que da decisão, e esta é uma das características que mais os separa dos seus colegas neoclássicos. de fato, o conceito de ação humana engloba e supera, em muito, o conceito de decisão individual. Em primeiro lugar, para a Escola Austríaca, o conceito relevante de ação inclui, não só um hipotético processo de decisão num enquadramento de conhecimento “dado” sobre os fins e os meios, mas, sobretudo, e isto é o mais importante, “a própria percepção do sistema de fins e de meios” (kirzner, 1998: 48) no seio do qual tem lugar a alocação econômica que os neoclássicos tendem a estudar com caráter de exclusividade. o importante para os austríacos não é que se tenha tomado uma decisão, mas sim que a mesma é levada a cabo sob a forma de uma ação humana ao longo de cujo processo (que eventualmente pode chegar ou não a concluir- -se) se produzem uma série de interações e atos de coordenação cujo estudo constitui, para os austríacos, o objeto de investigação da ciência Econômica. Por isso, para a Escola Austríaca, a ciência Econômica, longe de ser um conjunto de teorias sobre escolha ou decisão, é um corpus teórico que trata dos processos de interação social, que poderão ser mais ou menos coordenados, dependendo da capacidade demonstrada no exercício da ação empresarial por parte dos agentes implicados.

18Jesus Huerta de soto os austríacos são especialmente críticos da concepção restrita de economia que tem a sua origem em robbins e na sua conhecida definição da mesma como ciência que estuda a utilização de meios escassos susceptíveis de usos alternativos para a satisfação de necessidades humanas (robbins, 1932). A concepção de robbins supõe implicitamente um conhecimento dado sobre os fins e os meios, com o qual se reduz o problema econômico a um problema técnico de mera alocação, maximização ou otimização, submetido a restrições que se supõe serem também conhecidas. ou seja, a concepção de economia em robbins corresponde ao coração do paradigma neoclássico e pode considerarse completamente alheia à metodologia da Escola Austríaca tal como ela hoje é entendida. com efeito, o homem “robbinsiano” é um autômato ou simples caricatura do ser humano que se limita a reagir de forma passiva face aos acontecimentos. Em oposição a esta concepção de robbins, há que destacar a postura de Mises, kirzner e do resto dos economistas austríacos, que consideram que o homem, mais do que alocar meios “dados” a fins também “dados”, procura constantemente novos fins e meios, aprendendo com o passado e usando a sua imaginação para descobrir e criar (mediante a ação) o futuro. Por isso, para os austríacos, a economia está integrada dentro de uma ciência muito mais geral e ampla, uma teoria da ação humana (e não da decisão ou escolha humanas). segundo Hayek, se esta ciência geral da ação humana “precisa de um nome, o termo ciências praxeológicas, agora claramente definido e amplamente utilizado por ludwig von Mises, parece ser o mais apropriado” (Hayek, 1952a: 24).

2 o SuBjEtiviSmo auStríaCo frEntE ao oBjEtiviSmo nEoCláSSiCo um segundo aspecto de importância crucial para os austríacos é o Subjetivismo. Para a Escola Austríaca, a concepção subjetivista é essencial e consiste precisamente na tentativa de construir a ciência Econômica partindo sempre do ser humano real de carne e osso, considerado como agente criativo e protagonista de todos os processos sociais. Por isso, para Mises, “a teoria econômica não estuda coisas e objetos materiais; estuda os homens, as suas apreciações e, consequentemente, as ações humanas que delas derivam. os bens, as mercadorias, as riquezas e todas as demais noções de conduta não são elementos da natureza, mas sim elementos da mente e da conduta humana. Quem deseje entrar neste segundo universo deve abstrair-se do mundo exterior, centrando a sua atenção no significado das ações empreendidas pelos homens” (Mises, 1995: 1-112). É fácil por-

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