Weber, regina, pereira elenita. halbwachs e a memoria. contribuições a historia cultural

Weber, regina, pereira elenita. halbwachs e a memoria. contribuições a historia cultural

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Revista Territórios e Fronteiras V.3 N.1 – Jan/Jun 2010 Programa de Pós-Graduação – Mestrado em História do ICHS/UFMT

Regina Weber∗∗∗∗ Elenita Malta Pereira∗∗∗∗∗∗∗∗

Retomar o contexto intelectual no qual Halbwachs desenvolveu suas análises sobre o fenômeno da memória pode nos auxiliar a melhor compreendê-las. Filósofo em sua primeira formação, Maurice Halbwachs (1877-1945) foi aluno de Henri Bergson (1859-1941), pelo qual foi influenciado no início de seus estudos. Lecionou em vários Liceus e, após pesquisar sobre Stendhal e Rembrandt, passou o ano de 1904 na Alemanha, em Hannover, trabalhando com obras de Leibnitz. A partir dessa estada no exterior, começou a romper com a Filosofia e, após refletir muito sobre a emergente ciência da Sociologia, conheceu o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), do qual se tornou discípulo. Voltou a ser estudante, embrenhando-se em várias matérias (direito, economia política, matemática), vivendo de uma bolsa de estudos

∗ Doutora em Antropologia Social pela UFRJ. Docente do PPGHIST – UFRGS. E mail. reginaw@terra.com.br ∗∗ Mestranda em História – UFRGS. E mail. elenitamalta@gmail.com

Resumo:O objeto deste artigo é a
Palavras-chave:Maurice Halbwachs,

fecundidade do conceito de memória coletiva proposto por Maurice Halbwachs, percebida através das críticas que recebeu e diálogos que promoveu em várias disciplinas. A partir de algumas das críticas mais importantes que o autor recebeu em vida – principalmente de seus colegas em Strasbourg –, e de alguns estudos recentes em ciências humanas, pretendemos verificar como suas noções contribuíram para os estudos históricos, particularmente para o campo da história cultural. memória coletiva, memória cultural, história cultural.

Abstract:The subject of this article is

the fruitfulness of the concept of collective memory proposed by Maurice Halbwachs, seen in all criticism he received and dialogs he promoted in many disciplines. From some of the most relevant criticism - mainly from his peers in Strasbourg – and from latest studies in human sciences, we intend to find how his concepts contributed to history, in particular to cultural history.

Keywords Maurice Halbwachs, collective memory, cultural memory, cultural history.

em Paris. Trabalhou no conselho editorial de Année Sociologique1 com François Simiand2 , quando editou a seção de economia e estatística.

Em 1913, doutorou-se com a tese A Classe Operária e os Níveis de Vida, onde se deparou com o problema das classes sociais e, refletindo sobre a diversidade dos comportamentos, tendências e sentimentos humanos, concebeu a idéia de que “o homem se caracteriza essencialmente por seu grau de integração no tecido das relações sociais” (ALEXANDRE, 2006, p. 23). Em Les Cadres Sociaux de la Mémoire, de 1925, Halbwachs reafirma essa idéia, aprofundando-a, ao mostrar que não é possível conceber o problema da recordação e da localização das lembranças sem tomar como referência os contextos sociais que são a base para a construção da memória (DUVIGNAUD, 2006, p. 8). Influenciado também pela obra de Freud, A Interpretação dos Sonhos, tentou entender a formação da memória no indivíduo e na coletividade. No entanto, Halbwachs concebe o sonho de forma diferente da recordação, pois, para ele, o sonho é individual e está fora do sistema de relações sociais; nele as imagens aparecem isoladas do contexto. Já a recordação, entendida como atividade construtiva e racional da mente, precisa de um meio social, consciente, para realizar-se, os grandes marcos da memória da sociedade (HALBWACHS, 2004, p. 56). Neste sentido, valorizando o sentido “voluntário” da memória, opõe-se a Bergson e Proust, como veremos a seguir.

Em 1919, tornou-se professor de Sociologia na Universidade de Strasbourg, onde formou um grupo de trocas intelectuais com Lucien Febvre e como dois de seus principais críticos contemporâneos, Marc Bloch, e Charles Blondel. Uma década depois, o percurso intelectual de Halbwachs e de outros strasbourguenses desenrolou-se em Paris, onde buscou, em diversos momentos, ocupar a cátedra de Sociologia no Collège de France (MUCCHIELLI, PLUET-DESPATIN, 2001).

Os últimos anos de Halbwachs coincidiram com a Segunda Guerra Mundial. Ele lutou contra a propaganda anti-semita nazista que era divulgada por meio do rádio e do cinema. No artigo “La mémoire collective chez les musiciens” se apresenta não só contra o nazismo alemão, mas também contra sua ideologia espiritual, representada pela música-propaganda de Wagner. Poucos meses após ter sido nomeado professor do Collège de France, em 1944, foi

1 Revista fundada em 1898 por Émile Durkheim para divulgar seus estudos e de seus alunos. É publicada até hoje, na França. 2 Aluno de Durkheim e Bérgson, sociólogo, economista e professor do Collége de France, Simiand (1873-1935) combateu a escola metódica, debatendo com Charles Seignobos e Charles Victor Langlois. Propôs uma maior cooperação entre a História e as Ciências Sociais, e suas reflexões, publicadas em 1903 na Revue de Synthese Historique, influenciaram os fundadores da Escola dos Annales (FONSECA, ROIZ, 2006, p. 230-232).

preso pela Gestapo, em decorrência do envolvimento de seu filho com a resistência francesa, e levado para o campo de concentração de Bunchenwald. Assim como o historiador Marc Bloch, foi vítima da barbárie nazista, morrendo, por doença e exaustão, em março de 1945. Deixou um legado muito importante para as Ciências Humanas, uma contribuição que ainda pode ajudar a entender o fascinante campo da memória.

A obra mais conhecida de Halbwachs, muito citada em trabalhos sobre memória é A memória Coletiva, publicada postumamente em 1950. Extraída de anotações deixadas pelo autor, reafirma as relações entre sociedade e pensamento. Para ele, a memória sempre tinha um fundo social, coletivo. Ninguém poderia lembrar-se realmente de algo fora do âmbito da sociedade, pois a evocação de recordações é sempre feita recorrendo aos outros, seja a família, ou demais grupos. Além disso, em trechos da obra, ele responde a seus dois principais críticos, Bloch e Blondel.

Segundo Paul Sabourin, a sociologia da memória de Halbwachs situa-se no projeto da chamada Escola Francesa de Sociologia, que procurou descrever as propriedades morfológicas da vida social humana (SABOURIN, 1997, p. 6). Em As regras do método sociológico (1895), Durkheim, define “fato social” 3 e esquematiza o método base, através do qual a Sociologia estaria habilitada para estudar os fenômenos sociais.

Para estabelecer a Sociologia como ciência, Durkheim opõe-se à visão filosófica da autonomia individual. Não é o indivíduo que determina a sociedade, mas a sociedade que condiciona o indivíduo. A subjetividade existe, porém é limitada. Ele introduz o conceito de “representações coletivas”, que “originam-se das relações que se estabelecem entre os indivíduos assim combinados ou entre os grupos secundários que se intercalam entre o indivíduo e a sociedade total” (DURKHEIM, 1970, p. 3). Para compreender como a sociedade representa a si própria e ao mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a de particulares, que deve ser considerada.

O pensamento de Halbwachs insere-se na perspectiva social do mestre para explicar o funcionamento da memória, tema principal de sua obra. Analisando conjuntamente as obras de Mauss,4 Halbwachs e Jean-Christophe Marcel entende que ambos os discípulos foram além, promovendo uma espécie de “fenomenologia racionalista” que busca descrever como o indivíduo vivencia seu pertencimento à sociedade (MARCEL, 2004, p. 7). Tanto Mauss

3 Para Durkheim, fato social é “toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior: ou então, que é geral no âmbito de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais” (DURKHEIM, 2001, p. 40). 4 Marcel Mauss era sobrinho de Durkheim e juntos escreveram um dos textos mais clássicos no estudo de representações, “Algumas Formas Primitivas de Classificação” (ver MAUSS, 1981).

quanto Halbwachs utilizariam mais a proposta de uma “psicologia coletiva” do que a da Sociologia; Mauss na tentativa de definir o âmbito e os métodos da psicologia coletiva, e Halbwachs procurando mostrar como, em cada indivíduo, uma consciência diferente da consciência individual cria um sentimento de pertença ao grupo que influencia a percepção e comportamento em sociedade. A candidatura de Halbwachs ao Collège de France foi apresentada como uma síntese das teses antagônicas do psicologismo e do sociologismo (MUCCHIELLI, PLUET-DESPATIN, 2001, p. 19).

A questão da memória em Halbwachs

Os estudos de Halbwachs estão centrados nas condições sociais da memória, tentando traçar uma ponte entre a Psicologia e a Sociologia. A memória, até o início do século X, era objeto de reflexão dos filósofos, que procuravam através dela compreender o significado da vida humana (SANTOS, 2003, p. 1). Halbwachs, na década de 1920, estabelece o conceito de memória coletiva, no campo da Sociologia, acreditando que a memória é influenciada pelos quadros sociais que a antecedem e determinam.

Myriam Sepúlveda Santos considera o trabalho de Halbwachs sobre memória coletiva “como uma radicalização das primeiras tentativas de Bergson de des-subjetivar a noção de memória” (SANTOS, 2003, p.21). Quando começou a fazer parte do grupo de Durkheim, agregou a seus estudos ideias defendidas por este, a principal delas que o coletivo determinava o individual, a sociedade sobrepujava o indivíduo. A concepção de memória de Halbwachs, portanto, baseava-se na ideia de que esta era formada através “dos laços sociais existentes entre indivíduos constituídos no presente” (SANTOS, p. 21). Halbwachs entendia que os quadros sociais da memória eram a combinação das lembranças individuais de vários membros de uma mesma sociedade (HALBWACHS, 1925, p. 7).

No primeiro capítulo de A Memória Coletiva, Halbwachs expõe sua teoria sobre a memória, esperando comprovar, através de uma série de exemplos, o fundo social, coletivo, de praticamente todas as nossas lembranças. Narrando em primeira pessoa, o autor cita acontecimentos de sua vida particular, tais como passeios, viagens, visitas, que provocaram recordações posteriores. Entretanto, ao lembrar-se desses eventos, afirma não estar sozinho, pois em pensamento, situava-se “neste ou naquele grupo” (HALBWACHS, 2006, p. 31). As pessoas com quem conviveu naquelas experiências compartilharam das mesmas lembranças e se tornaram “testemunhos”, necessários para confirmar ou recordar uma lembrança. Para a permanência da lembrança é preciso que ainda façamos parte do grupo. Lembramo-nos dos eventos, enquanto as pessoas envolvidas estejam fazendo parte de nosso contexto.

Halbwachs não exclui totalmente a possibilidade de recordações individuais, o que chama de “intuição sensível”, para distinguir “das percepções em que entram alguns elementos do pensamento social”; contudo, acredita que “fatos desse tipo sejam muito raros, até mesmo excepcionais” (HALBWACHS, 2006, p. 42), o que lhe renderia muitas críticas, como veremos a seguir. Servindo-se de recordações de infância própria e de outros autores, Halbwachs quer demonstrar a importância da família para a constituição das primeiras memórias, pois o primeiro grupo social da criança é a família.

As lembranças podem voltar à nossa mente através de imagens. Halbwachs cita seu primeiro mestre, Bergson, para tratar do “reconhecimento por imagens”, que ele entende como a ligação da imagem de um objeto (pessoa, paisagem, etc.), vista ou evocada, a outras imagens que, juntas, formam uma espécie de quadro. Para lembrarmo-nos do rosto de um amigo que não vemos há muito tempo, por exemplo, é necessário reunir várias lembranças parciais, ligar inúmeras recordações. Afinal, além de imagem visual, um rosto comporta também expressões, que podem demonstrar emoções ou pensamentos que facilitam a recordação. Desta junção, surge o reconhecimento.

Halbwachs argumenta que o pensamento coletivo comanda a sociedade através de uma “lógica da percepção que se impõe ao grupo e que o ajuda a compreender e a combinar todas as noções que lhe chegam do mundo exterior” (HALBWACHS, 2006, p. 61). A representação do espaço, através da geografia, topografia, física é determinada pela “lógica da percepção” do grupo; lemos os objetos segundo essas noções que nos são ensinadas pela sociedade desde cedo. As lembranças também passariam por essa mesma lógica, ou seja, “leis da percepção coletiva” explicariam recordações de lembranças que se referem ao mundo.

Um dos desdobramentos da ideia de memória coletiva de Halbwachs está em sua crítica à nossa insistência em atribuir a nós mesmos ideias, reflexões, sentimentos e emoções que os grupos de que fazemos parte nos inspiraram. Muitas vezes expressamos reflexões tiradas do jornal, da conversa com amigos, de um livro, como se fossem nossas. “Quantas pessoas têm espírito crítico suficiente para discernir no que pensam a participação de outros, e para confessar para si mesmos que o mais das vezes nada acrescentam de seu?” (HALBWACHS, 2006, p. 65). O capítulo, entretanto, é finalizado com a ressalva de que, apesar de a memória coletiva ter como base um conjunto de pessoas, “são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo (...) cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva”, que muda conforme o lugar que o indivíduo ocupa no grupo.

Portanto, Halbwachs percebe a importância dos indivíduos, porém, sua relevância advém do grupo, da união de suas lembranças na formação da memória coletiva.

Halbwachs opõe memória coletiva e memória histórica. Para tratar desta última, argumenta que nascemos num contexto em andamento; fatos históricos importantes já ocorreram antes de nossa passagem pelo mundo. Não podemos nos lembrar deles, pois não os vivenciamos; temos acesso a eles através da escola, dos livros, das conversas de nossos pais. Tais fatos históricos seriam parte de uma “memória da nação” e, quando evocados, faz-se necessário recorrer à memória de outros, que é a única fonte possível para acessá-los.

Para o autor, nossa memória não se apóia na história aprendida, mas na história vivida.

A “nossa” memória é a coletiva, vivenciada. A história começaria no ponto em que a memória social (amparada no grupo vivo) se apaga, pois é necessário distância para escrever a história de um período. Para que a memória dos acontecimentos não se disperse, não se perca, deve ocorrer a fixação por escrito das narrativas, pois “os escritos permanecem, enquanto as palavras e o pensamento morrem” (HALBWACHS, 2006, p. 101).

Especialmente importante para os historiadores é a distinção que Halbwachs introduz entre memória e história. Ele mesmo considera que a expressão “memória histórica” não é muito feliz, pois associa termos que se opõem. Na visão de Halbwachs a história difere da memória principalmente pelo caráter de registro do passado, fixado pela escrita, enquanto que a memória é fruto dos testemunhos de uma época, remontando sempre a um presente em movimento. Halbwachs encontra ainda mais dois aspectos para distingui-las. O primeiro é que, em sua visão, a memória coletiva é “uma corrente de pensamento contínuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, pois não retém do passado senão o que está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo que a mantém” (HLBWACHS, 2006, p. 102). Já a história, fora e acima dos grupos, introduz divisões simples na corrente dos fatos, organizando-os, para garantir um texto inteligível, suprindo a necessidade didática de esquematização. O segundo aspecto refere-se ao fato da história ser um “painel de mudanças”, onde apenas é perceptível a soma das transformações que levam a um resultado final, pois a história “examina os grupos de fora e abrange um período bastante longo”. Ao contrário, “a memória coletiva é o grupo visto de dentro e durante um período que não ultrapassa a duração média da vida humana” (Halbwachs, 2006, p. 109); é um “painel de semelhanças”, portanto.

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