BERGSON, HENRI. Matéria e memória. Ensaios sobre a relação do corpo com o espírito

BERGSON, HENRI. Matéria e memória. Ensaios sobre a relação do corpo com o espírito

(Parte 1 de 6)

Henri Bergson Matéria e Memória

Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito

Tradução PAULO NEVES

Martins Fontes São Paulo 1999

Esta obra foi publicada originalmente em francês com o título

MATIÈRE ET MÉMOIRE por Presses üniversitaires de France em 1939.

Copyright © Presses Üniversitaires de France. Paris, 1939.

Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1999, para a presente edição.

2 edição abril de J 9

Tradução PAULO NEVES

Revisão da tradução

Monica Stahel Revisão gráfica

Ivete Batista dos Santos

Produção gráfica Geraldo Alves

Paginação/Fotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial (6957-7653)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bergson, Henri, 1859-1941.

Matéria e memória : ensaio sobre a relação do corpo com o espírito / Henri Bergson ; tradução Paulo Neves. - 2- ed. - São Paulo : Martins Fontes, 1999. - (Coleção tópicos)

Título original: Matière et mémoire. Bibliografia. ISBN 85-336-1021-1 índices para catálogo sistemático: 1. Matéria e memória : Filosofia 128.3

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Prefácio da sétima edição 1

I. Da seleção das imagens para a representação.

O papel do corpo 1

I. Do reconhecimento das imagens. A memória e o cérebro 83

I. Da sobrevivência das imagens. A memória e o espírito 155

IV Da delimitação e da fixação das imagens. Percepção e matéria. Alma e corpo 209

Resumo e conclusão 263

Este livro afirma a realidade do espírito, a realidade da matéria, e procura determinar a relação entre eles sobre um exemplo preciso, o da memória. Portanto é claramente dualista. Mas, por outro lado, considera corpo e espírito de tal maneira que espera atenuar muito, quando não suprimir, as dificuldades teóricas que o dualismo sempre provocou e que fazem que, sugerido pela consciência imediata, adotado pelo senso comum, ele seja pouco estimado pelos filósofos.

Essas dificuldades devem-se, em sua maior parte, à concepção ora realista, ora idealista, que é feita da matéria. O objeto de nosso primeiro capítulo é mostrar que idealismo e realismo são duas teses igualmente excessivas, que é falso reduzir a matéria à representação que temos dela, falso também fazer da matéria algo que produziria em nós representações mas que seria de uma natureza diferente delas. A matéria, para nós, é um conjunto de "imagens". E por "imagem" entendemos uma certa existência que é mais do que aquilo que o idealista chama uma

2 MA TERIA E MEMÓRIA representação, porém menos do que aquilo que o realista chama uma coisa - uma existência situada a meio caminho entre a "coisa" e a "representação". Essa concepção da matéria é pura e simplesmente a do senso comum. Um homem estranho às especulações filosóficas ficaria bastante espantado se lhe disséssemos que o objeto diante dele, que ele vê e toca, só existe em seu espírito e para seu espírito, ou mesmo, de uma forma mais geral, só existe para um espírito, como o queria Berkeley. Nosso interlocutor haveria de sustentar que o objeto existe independentemente da consciência que o percebe. Mas, por outro lado, esse interlocutor ficaria igualmente espantado se lhe disséssemos que o objeto é bem diferente daquilo que se percebe, que ele não tem nem a cor que o olho lhe atribui, nem a resistência que a mão encontra nele. Essa cor e essa resistência estão, para ele, no objeto: não são estados de nosso espírito, são os elementos constitutivos de uma existência independente da nossa. Portanto, para o senso comum, o objeto existe nele mesmo e, por outro lado, o objeto é a imagem dele mesmo tal como a percebemos: é uma imagem, mas uma imagem que existe em si.

Tal é precisamente o sentido em que tomamos a palavra "imagem" em nosso primeiro capítulo. Colocamonos no ponto de vista de um espírito que ignorasse as discussões entre filósofos. Esse espírito acreditaria naturalmente que a matéria existe tal como ele a percebe; e, já que ele a percebe como imagem, faria dela própria uma imagem. Em uma palavra, consideramos a matéria antes da dissociação que o idealismo e o realismo operaram entre sua existência e sua aparência. Certamente tornou-se difícil evitar essa dissociação, desde que os filósofos a fi-

PREFÁCIO DA SÉTIMA EDIÇÃO 3 zeram. Pedimos no entanto que o leitor a esqueça. Se, ao longo do primeiro capítulo, apresentarem-se objeções em seu espírito contra esta ou aquela de nossas teses, que ele examine se tais objeções não se devem a ele colocar-se num ou noutro dos dois pontos de vista acima dos quais o convidamos a elevar-se.

Um grande progresso foi realizado em filosofia no dia em que Berkeley estabeleceu, contra os mechanical philosophers, que as qualidades secundárias da matéria tinham pelo menos tanta realidade quanto as qualidades primárias. Seu erro foi acreditar que era preciso para isso transportar a matéria para o interior do espírito e fazer dela uma pura idéia. Certamente, Descartes colocava a matéria demasiado longe de nós quando a confundia com a extensão geométrica. Mas, para reaproximá-la, não havia necessidade de fazê-la coincidir com nosso próprio espírito. Fazendo isso, Berkeley viu-se incapaz de explicar o sucesso da física e obrigado, enquanto Descartes havia feito das relações matemáticas entre os fenômenos sua própria essência, a considerar a ordem matemática do universo como um puro acidente. A crítica kantiana tornou-se então necessária para explicar a razão dessa ordem matemática e para restituir à nossa física um fundamento sólido - o que, aliás, ela só conseguiu ao limitar o alcance de nossos sentidos e de nosso entendimento. A crítica kantiana, nesse ponto ao menos, não teria sido necessária, o espírito humano, nessa direção ao menos, não teria sido levado a limitar seu próprio alcance, a metafísica não teria sido sacrificada à física, se a matéria tivesse sido deixada a meio caminho entre o ponto para onde Descartes a impelia è aquele para onde Berkeley a puxava, ou seja, enfim,

4 MATÉRIA EMEMÓRIA lá onde o senso comum a vê. É aí que nós também procuramos vê-la. Nosso primeiro capítulo define essa maneira de olhar a matéria; nosso quarto capítulo tira as conseqüências disso.

Mas, conforme anunciávamos no início, só tratamos da questão da matéria na medida em que ela interessa ao problema abordado no segundo e terceiro capítulos deste livro, que é o próprio objeto do presente estudo: o problema da relação do espírito com o corpo.

Essa relação, embora constantemente tratada ao longo da história da filosofia, em realidade foi muito pouco estudada. Se deixarmos de lado as teorias que se limitam a constatar a "união da alma e do corpo" como um fato irredutível e inexplicável, e aquelas que falam vagamente do corpo como de um instrumento da alma, não restarão outras concepções da relação psicofisiológica que a hipótese "epifenomenista" ou a hipótese "paralelista", tanto uma como outra conduzindo na prática - quero dizer, na interpretação dos fatos particulares - às mesmas conclusões. Quer se considere, com efeito, o pensamento como uma simples função do cérebro e o estado de consciência como um epifenomeno do estado cerebral, quer se tomem os estados do pensamento e os estados do cérebro por duas traduções, em línguas diferentes, de um mesmo original, tanto num caso como no outro coloca-se em princípio que, se pudéssemos penetrar no interior de um cérebro que trabalha e assistir ao fogo cruzado dos átomos que formam o córtex cerebral, e se, por outro lado, possuíssemos a chave da psicofisiologia, saberíamos em detalhe tudo o que se passa na consciência correspondente.

A bem da verdade, eis aí o que é mais comumente admitido, tanto pelos filósofos quanto pelos cientistas. Ca-

PREFÁCIO DA SÉTIMA EDIÇÃO 5 beria no entanto perguntar se os fatos, examinados sem idéias preconcebidas, sugerem realmente uma hipótese desse tipo. Que haja solidariedade entre o estado de consciência e o cérebro, é incontestável. Mas há solidariedade também entre a roupa e o prego onde ela está pendurada, pois, se retiramos o prego, a roupa cai. Diremos por isso que a forma do prego indica a forma da roupa ou nos permite de algum modo pressenti-la? Assim, de que o fato psicológico esteja pendurado em um estado cerebral, não se pode concluir o "paralelismo" das duas séries psicológica e fisiológica. Quando a filosofia pretende apoiar essa tese paralelista sobre os dados da ciência, ela pratica um verdadeiro círculo vicioso; pois, se a ciência interpreta a solidariedade, que é um fato, no sentido do paralelismo, que é uma hipótese (e uma hipótese muito pouco inteligível1), isto é feito, consciente ou inconscientemente, por razões de ordem filosófica; porque a ciência se habituou, graças a uma certa filosofia, a crer que não há hipótese mais plausível, mais conforme aos interesses da ciência positiva.

Ora, desde que pedimos aos fatos indicações precisas para resolver o problema, é para o terreno da memória que nos vemos transportados. Isso era de esperar, pois a lembrança - conforme procuraremos mostrar na presente obra - representa precisamente o ponto de interseção entre o espírito e a matéria. Mas pouco importa a razão: ninguém contestará, creio eu, que no conjunto de fatos capa-

1. Sobre esse último ponto, discorremos mais particularmente num artigo intitulado "O paralogismo psicofisiológico" (Revue de métaphysique et de morale, novembro de 1904).

6 MA TÉ RI A E MEMÓRIA zes de lançar alguma luz sobre a relação psicofisiológica, os que concernem à memória, seja no estado normal, seja no estado patológico, ocupam um lugar privilegiado. Não apenas os documentos são aqui de uma extrema abundância (basta pensar na massa considerável de observações recolhidas sobre as diversas afasias!), como também em nenhuma outra parte a anatomia, a fisiologia e a psicologia conseguiram, como aqui, prestar-se um mútuo apoio. Para aquele que aborda sem idéia preconcebida, no terreno dos fatos, o antigo problema das relações da alma e do corpo, esse problema logo parece restringir-se em torno da questão da memória, e até mais particularmente da memória das palavras; é daí, sem dúvida nenhuma, que deverá partir a luz capaz de esclarecer os lados mais obscuros do problema.

Eis de que modo procuramos resolvê-lo. De uma maneira geral, o estado psicológico nos parece, na maioria dos casos, ultrapassar enormemente o estado cerebral. Quero dizer que o estado cerebral indica apenas uma pequena parte dele, aquela que é capaz de traduzir-se por movimentos de locomoção. Tome-se um pensamento complexo que se desdobra numa série de raciocínios abstratos. Esse pensamento é acompanhado da representação de imagens, pelo menos nascentes. E estas próprias imagens só são representadas à consciência depois que se desenhem, na forma de esboço ou de tendência, os movimentos pelos quais elas mesmas se desempenhariam no espaço - quero dizer, imprimiriam ao corpo estas ou aquelas atitudes, liberariam tudo o que contêm implicitamente de movimento espacial. Pois bem, é este pensamento complexo que se desdobra que, em nossa opinião, o estado cere-

PREFÁCIO DÁ SÉTIMA EDIÇÃO 1 bral indica a todo instante. Aquele que pudesse penetrar no interior de um cérebro, e perceber o que aí ocorre, seria provavelmente informado sobre esses movimentos esboçados ou preparados; nada prova que seria informado sobre outra coisa. Ainda que fosse dotado de uma inteligência sobre-humana e tivesse a chave da psicofisiologia, seria tão esclarecido sobre o que se passa na consciência correspondente quanto o seríamos sobre uma peça de teatro acompanhando apenas os movimentos dos atores em cena.

Eqüivale a dizer que a relação entre o mental e o cerebral não é uma relação constante, assim como não é uma relação simples. Conforme a natureza da peça que se representa, os movimentos dos atores dizem mais ou menos sobre ela: quase tudo, no caso de uma pantomima; quase nada, no caso de uma comédia sutil. Da mesma forma, nosso estado cerebral contém mais ou menos de nosso estado mental, conforme tendemos a exteriorizar nossa vida psicológica em ação ou a interiorizá-la em conhecimento puro.

Há portanto, enfim, tons diferentes de vida mental, e nossa vida psicológica pode se manifestar em alturas diferentes, ora mais perto, ora mais distante da ação, conforme o grau de nossa atenção à vida. Esta é uma das idéias diretrizes da presente obra, a própria idéia que serviu de ponto de partida ao nosso trabalho. O que se toma ordinariamente por uma maior complicação do estado psicológico revela-se, de nosso ponto de vista, como uma maior dilatação de nossa personalidade inteira que, normalmente restringida pela ação, estende-se tanto mais quanto se afrouxa o torno no qual ela se deixa comprimir e, sempre indivisa, espalha-se sobre uma superfície tanto

8 MA TERIA E MEMÓRIA mais considerável. O que se toma ordinariamente por uma perturbação da vida psicológica, uma desordem interior, uma doença da personalidade, revela-se, de nosso ponto de vista, como um relaxamento ou uma perversão da solidariedade que liga essa vida psicológica a seu concomitante motor, uma alteração ou uma diminuição de nossa atenção à vida exterior. Essa tese, como aliás a que consiste em negar a localização das lembranças de palavras e em explicar as afasias de outro modo que não por essa localização, foi considerada paradoxal por ocasião da primeira publicação desta obra (1896). Atualmente ela o parecerá bem menos. A concepção da afasia, concepção que então era clássica, universalmente aceita e tida por intangível, vem sendo fortemente atacada há alguns anos, sobretudo por razões de ordem anatômica, mas em parte também por razões psicológicas do mesmo tipo das que expúnhamos já naquela época2. E o estudo aprofundado e original que Pierre Janet realizou das neuroses o conduziu, nos últimos anos, por caminhos bem diferentes e através do exame das formas "psicastênicas" da doença, a empregar aquelas considerações de "tensão" psicológica e de "atenção à realidade" inicialmente qualificadas de vi-

2. Ver os trabalhos de Pierre Marie e a obra de F. Moutier, L 'aphasie de Broca, Paris, 1908 (em particular o cap. VII). Não podemos entrar no detalhe das pesquisas e das controvérsias relativas à questão. Não deixaremos porém de citar o recente artigo de J. Dagnan-Bouveret, "L'aphasie motrice sous-corticale" (Journal de psychologie normale et pathologique, janeiro-fevereiro de 1911).

3. P. Janet, Les obsessions et Ia psychasthénie, Paris, F. Alcan, 1903 (em particular p. 474-502).

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A bem da verdade, não estava totalmente errado qualificá-las assim. Sem contestar à psicologia, e nem à metafísica, o direito de erigir-se em ciência independente, julgamos que cada uma dessas duas ciências deve colocar problemas à outra e é capaz, em certa medida, de ajudar a resolvê-los. Como poderia ser diferente, se a psicologia tem por objeto o estudo do espírito humano enquanto funcionando utilmente para a prática, e se a metafísica é esse mesmo espírito humano esforçando-se para desembaraçar-se das condições da ação útil e para assumir-se como pura energia criadora? Muitos problemas que parecem estranhos uns aos outros, se nos ativermos literalmente aos termos em que são colocados por essas duas ciências, aparecem como muito próximos e capazes de serem resolvidos uns pelos outros quando aprofundamos sua significação interior. Não teríamos acreditado, no início de nossas pesquisas, que pudesse haver qualquer conexão entre a análise da lembrança e as questões que se agitam entre realistas e idealistas, ou entre mecanicistas e dinamistas, a respeito da existência ou da essência da matéria. No entanto, essa conexão é real: ela é inclusive íntima; e, se levarmos isso em consideração, um problema metafísico capital vê-se transportado para o terreno da observação, onde poderá ser resolvido progressivamente, em vez de alimentar indefinidamente as disputas entre escolas no campo cerrado da dialética pura. A complicação de certas partes da presente obra deve-se à inevitável imbricação de problemas que se produz quando a filosofia é tomada por esse viés. Mas através dessa complicação, que tem a ver com a própria complicação da realidade, acreditamos que não será difícil situar-se se forem mantidos os dois prin-

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