Curso de integração pessoal - mário ferreira dos santos

Curso de integração pessoal - mário ferreira dos santos

(Parte 1 de 11)

(contém apenas uma parte do livro original)

Durante os meus anos de magistério, como professor particular, fui muitas vezes procurado por pessoas aflitas, angustiadas, que buscavam um lenitivo para as suas almas magoadas, doridas de tantas preocupações, desencantos e amarguras.

E como também os meus dias estiveram cheios de decepções, de angústias sem fim, compreendi a todos, e a cada um, e em meu coração ressoavam aquelas queixas e apelos.

Também minha vida foi procelosa; também passei por lanços dolorosos no caminho, pontilhados de ingratidões, de amarguras demoradas, de incompreensões inexplicáveis, de inimigos gratuitos que atuavam nas sombras, e de raros adversários que me enfrentaram de fronte erguida. E não poucos foram os momentos em que, debruçando-me sobre as minhas experiências, abismei-me em desânimos e até desesperos.

E por todos os meios, ante o espetáculo do mundo, sem deixar-me arrastar pelo pessimismo fácil, procurei aquela fonte, a única que nos pode dar a linfa que minora a nossa sede e refrigera as nossas mágoas: um otimismo concreto e bem fundado.

É comum, entre literatos da nossa época, tripudiar sobre as dores humanas, remexer feridas em vez de cauterizá-las. Há quem busque angústias quando não as têm, numa morbidez afanosa de sofrimentos, mais falsos que verdadeiros, para depois criar, com gritos de dor, obras nem sempre autênticas.

Há quem diga até que o otimismo é uma atitude de filosofia barata. Mas há algo mais barato que o pessimismo? Olhem para o mundo. Quantos os que se queixam, quantos os que se angustiam, açulados pela imaginação doentia; quantos proclamam angústias (as famosas angústias físicas e metafísicas de tantos intelectuais!). Quantos procuram mágoas para explorá-las? Há coisa mais barata por este mundo?

O otimismo é mais difícil das atitudes, e a filosofia, que nele se funda, não é mais fácil. É mais simples lembrar os momentos de sofrimento que os de alegria.

E deixando de lado os envenenadores da vida, os caluniadores de que falava Nietzsche, os eternos amarguradores de todos os instantes, deficiente daquele “granus salis”, chorões de todos os modos e matizes, falsificadores de máscaras mentirosas, abismados em sombras porque temem a luz como pássaros noturnos e duvidosos, sempre julguei que um sorriso valia mais que um esgar de amargura e que um raio de sol é mais belo que a sombra que obscurece.

E foi procurando viver em mim a água lustral da alegria, que pude suportar o espetáculo das velhas carpideiras milenárias.

E buscando essa água lustral, não a quis só para mim. E abençoei aqueles escritores otimistas, ridicularizados pelos caluniadores da vida, aqueles que sempre oferecem esperança num gesto de genuíno apoio aos transviados, que procuram caminhos luminosos dentro e fora de si.

E quando de mim se acercavam os que pediam um pouco de tranquilidade de espírito, não neguei. E o gesto, que de mim esperavam, procurei realizar.

E nessas tentativas humanas, ao procurar minorar mágoas mais profundas, ao procurar suavizar doridos, ao procurar reintegrar outros que se frangiam em dúvidas e desesperos, nasceu este curso, que só bem espargiu, que só humanidade disseminou, que só esperanças construiu.

Não poderia citar aqui tantos homens e mulheres, de todas as classes e profissões, para os quais tive palavras de ânimo, e com eles sofri a mágoa que era deles, e minha também, porque sou humano.

Um dia, um daqueles a quem dera muito de minha boa vontade e de minha melhor atenção, para ajudá-lo a reintegrar-se em si mesmo, pediu-me, num gesto tão belo que me comoveu, numa voz tão humana que me tocou a alma, que reduzisse a páginas de um livro aquelas nossas longas e demoradas conversações, para que pudessem elas levar a tantos que sofrem um novo caminho, que na verdade é um velho caminho apenas esquecido, a fim de pô-los outra vez na estrada real, em que há tanto daquela alegria que decorou com beatitude nossos dias de infância.

A tarefa não era fácil. Havia eu criado métodos de reintegração para casos pessoais. Como o que fora conveniente para indivíduos, poderia tornar-se útil aos muitos que pedem um pouco de luz e de alegria?

Era preciso meditar, procurar por entre as lições aquelas ministráveis a qualquer um, e que lhes desse um amparo geral benéfico.

Teria de fugir ao tecnicismo da psicologia, e falar uma linguagem muito simples e verdadeira.

Ademais, precisaria passar por todas as unilateralidades de escolas e de posições, de que a psicologia está cheia, para oferecer um método que não implicasse senão benefícios.

E buscando e estudando, através de meditações e ensaios, saíram estas páginas que hoje dou à publicidade.

Anima-as apenas um desejo e uma convicção. Desejo de não aumentar a tristeza do mundo, rebuscando sombras para cobrir as poucas luzes que brilham nos corações, como é tão do sabor dos que desejam tornar de outros as angústias duvidosas que são suas. Convicção de que elas auxiliem os que sofrem a encontrar uma solução aos males psíquicos, que se reencontrem, afinal, com um sorriso autêntico nos lábios e muito amor nos corações.

Mário Ferreira dos Santos

Tu, quem quer que sejas, não podes negar que buscas o bem.

Tens uma obra a realizar, uma missão a fazer. Tua atenção está voltada para o que te cabe realizar.

Poderias conseguir o que desejas ou que te cabe construir, se desviasses as tuas forças para o que não interessa à realização da meta planejada? Não julgarias desde logo que toda atividade desviada do fim é uma atividade inútil e perdida?

Mas, para onde se dirige o teu apetite? Para o bem, sem dúvida. Se o bem é a tua meta, toda atividade que não levar até ele é uma atividade inútil.

Portanto, se queres alcançar o teu bem, deves naturalmente planejar a tua ação para que não haja atividades inúteis.

Mas, quem deseja realizar alguma coisa, precisa saber onde e quando vai realizá-la.

Um arquiteto que deseja construir um prédio precisa conhecer o terreno onde vai elevá-lo. Tu precisas, para alcançar teu bem, saber onde ele está, pois do contrário serias como aquele viandante que procura uma cidade sem saber onde ela está.

E assim como o viandante necessita que outros lhe indiquem onde está a cidade que busca, talvez precises, também, saber onde está o teu bem.

Raciocinemos juntos: é o teu bem algo a ser criado, ou já existe?

Como já vimos até aqui, o teu bem já existe, pois todas as coisas buscam realizar o seu bem. Mas se ele já existe, então para que procurá-lo?

Sim, ele já existe, mas é preciso saber onde ele está, da mesma forma que o viandante sabia da existência da cidade procurada, não, porém, onde ela se achava.

Então surge outra pergunta: está em mim mesmo ou fora de mim mesmo o bem que me é próprio?

Eu te respondo que não haverá nenhum bem fora de ti, se antes não encontrares o bem em ti. E vou mostrar-te:

O teu bem está em ti, esta é a afirmativa. Mas é preciso desvelá-lo, descobri-lo dos véus que o ocultam. E o que o oculta são todas as solicitações que te afastem do teu próprio bem.

Digamos que procuras, levado pelo teu apetite, pondo em ação a tua vontade, o bem nas coisas que te cercam. Por acaso, não são elas um bem para ti? Não dão elas inúmeros prazeres, bem-estar, satisfações? Então, o teu bem está nas coisas. Mas duas são as situações de um homem ante as coisas:

a) Ser senhor das coisas; b) Serem as coisas senhoras do homem.

Qual situação que preferirás? Ser escravo das coisas, ou utilizá-las para o teu bem? Certamente, responderás que queres dominar as coisas. Elas devem servir-te e não servires tu a elas.

Mas como poderias tornar as coisas tuas servas, se elas te dominassem?

Nesse caso, escravo das coisas, elas não seriam o teu bem, e quanto mais as perseguisses, mais dominado estarias por elas. Portanto, o bem que elas te dariam seria sempre menor que o bem que delas tereis, se te tornasses senhor.

Desta forma, o teu bem, fora de ti, não poderia ser alcançado sem que fosses um senhor e não um escravo.

Mas pode ser senhor, quem não é senhor de si mesmo?

Ser senhor de si mesmo é realizar o que de melhor há para nós. E a ideia de melhor implica a de um bem superior a outros bens. Portanto, o teu maior bem é seres senhor de ti, pois, desde que o sejas, te tornarás senhor das coisas.

Pois não é verdade que as coisas provocam em ti paixões, emoções, sentimentos, preocupações que não são o teu bem, mas reduções, ataques ao teu bem?

Desta forma, vês claramente que o teu bem está primeiramente em ti e secundariamente nas coisas.

Tens, portanto, que libertar o teu bem dos véus que o cobrem, para que possas dominar as coisas e fazer com que elas te sirvam.

Já sabes que a confiança em ti mesmo é o ponto de partida. Poderias dizer: “não posso fazer isto agora, mas podê-lo-ei amanhã.” Assim como um estudioso sobe degraus até alcançar o pleno conhecimento, também conhecemos degraus para alcançar o nosso bem.

- Que devo fazer? – perguntas-me.

- Confia em tua vitória, em primeiro lugar. Já sabes que tens o teu bem em ti. Falta-te apenas libertálo dos véus que o encobrem.

Realiza o exercício diário de meditação, nas formas a serem indicadas e o de respiração rítmica. Com esses exercícios abrirás as portas que conduzirão à tua vitória. Agora medita sobre estas minhas palavras: Há coisas que dependem de mim e há coisas que não dependem.

Os meus pensamentos, a minha vontade e as minhas paixões dependem de mim. O que se refere aos outros e ao mundo não depende de mim.

Se me aflijo com o que não depende de mim, só posso enfraquecer-me. Tudo quanto possa fazer para o bem dos outros não deixo de fazer.

Contudo, sou o meu amigo que precisa lutar por mim. Se me aflijo com o que é meu, a culpa é apenas minha, pois posso vencer o que depende de mim.

Todas as vozes que venham de mim, contra mim, não são minhas. Porque o que é meu, trabalha por mim. Ouvirei as minhas vozes que falam a linguagem do meu bem, e repudiarei, com o meu desprezo, as vozes que não falam a sua linguagem.

Sou eu que faço a minha força ou a minha fraqueza. Lutarei por mim e pelo meu bem. Quando me surge uma ideia dolorosa, preocupadora, minha inimiga, dir-lhe-ei: “Tu és apenas uma ideia e nada és do que pretendes representar.”

Analisa-a então: é uma ideia que se refere às coisas que dependem de ti ou às que não dependem de ti?

E se se refere a coisas que não dependem de ti, despreza-a, e dize-lhe: Isto não se refere a mim. - Mas, e as minhas preocupações sobre assuntos que dependem de mim? – podes perguntar.

Pois bem, analisa-as: são sobre fatos fundados ou infundados? São dúvidas que te assaltam? São temores vãos? Fundam-se em fatos sucedidos?

Sejam o que forem. Sejam reais, até, tenham fundamento até. Lembra-te, porém e pronuncia dentro de ti: “as preocupações crescem quando eu as alimento com o meu temor, quando eu lhes dou conteúdo com a minha vontade. Sei que só poderei vencer o que é contra mim, quando estou do meu lado, quando estou unido a mim mesmo. E quem poderia fazer essa desunião, se o interior de cada ser humano é um reino onde podemos dominar soberanamente? Eu não me enfraquecerei em favor dos meus inimigos”.

Meu caminho já está traçado: lutar por mim. Ninguém me afastará de mim mesmo e do meu bem.

Se nós somos que são os nossos pensamentos, podemos ser o que pensamos. E acaso não temos liberdade de pensar no bem, como podemos pensar no mal?

E se desejamos o nosso bem, pois esta é a lei de todo o existente, porque não pensamos em nosso bem?

Se ainda não leste nem realizaste plenamente um retrato caracterológico de ti mesmo, o que te será fácil depois de estudares a Parte Geral deste livro, não te devo preocupar esta falha, pois ela não impedirá que possas agora na Parte Especial, iniciar os exercícios, depois das providências que passarei a descrever, no intuito de realizar a tua integração.

Talvez sejas um retraído introvertido ou extrovertido, nervoso ou bilioso, e estarás sujeito às contingências do teu temperamento e do caráter que adquiriste. Mas tu podes realizar a ti mesmo, e a tua personalidade poderá por ti mesma ser construída.

Mas, antes, ponderemos sobre alguns pontos que são de grande importância para alcançarmos a meta desejada. Vamos dispensar certos aspectos técnicos e de certas discussões filosóficas de psicologia. Não iremos penetrar no tema da tensão psíquica, que em nós forma uma unidade de multiplicidade, e que é mais ou menos coerente, segundo o nosso grau de integração.

Em palavras simples: há personalidades amorfas, frágeis, facilmente desviáveis, impressionáveis, móveis, e outras que são o inverso. E entre os extremos, há uma gradatividade imensa. Não há dois tipos humanos iguais, senão dentro das formalidades estatuídas pela tipologia. Se há em comum um número imenso de notas, de aspectos, de qualidades, etc., há, ao mesmo tempo, outros que são diferentes, totalmente diferentes. Portanto, o ser humano é formal e tipologicamente homogêneo, mas é individualmente heterogêneo, diferente, diverso.

Podemos, no entanto, estabelecer algumas regras que todos os psicólogos aceitam. Por exemplo: o grau de coerência da tensão psíquica (chamam-na alma, psiquismo, espírito, mental, o que quiserem, não importa aqui) é uma garantia de firmeza do ser humano. Uma personalidade é mais forte quanto mais coesa e mais coerente for a sua tensão psíquica. Em suma, a sua unidade psíquica quanto mais forte, mais forte a sua personalidade. As agressões, que os estímulos exteriores possam realizar ou os pensamentos negativos terão sua força na proporção da fraqueza da tensão psíquica. Se essa for forte, malograrão todas as ideias errantes, negativas, como também as preocupações, as angústias; e os desajustamentos que daí decorrem se tornarão consequentemente menos comuns e mais difíceis de ser adquiridos.

Todos nós conhecemos momentos de fluxo e de refluxo.

Os fluxos psíquicos caracterizam-se pelo entusiasmo, pelo “sentir-se bem” inteiramente, pela paz conosco mesmo, pelo otimismo, pela vontade de atuar, de realizar, de empreender. Os refluxos levam-nos ao pessimismo, à descrença em nós e nos outros, ao abatimento moral, e nos tornamos presas fáceis das preocupações, das angústias, da tristeza, da inapetência, da falta de entusiasmo, da apatia, da desilusão, do desespero até.

Consideremos de início, o que somos. Todos nós conhecemos momentos de fluxo e refluxo, que se alternam constantemente, perdurando uns mais que outros.

Procedamos, no entanto, a algumas análises:

1) Quando sobrevêm os momentos de refluxo? Que nos parece tê-lo motivado? Foi uma palavra que alguém pronunciou, um gesto, um fato, uma atitude? Foi porque pensamos nisto ou naquilo?

Anote-se aqui o fato que nos parece ser a chave que abriu a porta ao estado de refluxo.

2) Quando surgem os sintomas, analisemos as circunstâncias e anotemos os acontecimentos que os cercaram, e os que os precederam. Vejamos se há repetições.

Por exemplo, quem sofreu, em sua família, um desastre de automóvel, no qual alguém que muito estimava perdeu a vida, não tolera que lhe falem em desastres. Imediatamente se acabrunha, entristece-se, entra em refluxo, mesmo que tome uma atitude irada, nervosa, agitada.

Examine-se, portanto, e verifique que fatos provocam os estados de refluxo.

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