Invasão vertical dos bárbaros - mário ferreira dos santos

Invasão vertical dos bárbaros - mário ferreira dos santos

(Parte 1 de 8)

1 INVASÃO VERTICAL DOS BÁRBAROS1

Um livro de denúncia sempre gera polêmica. Este é o propósito desta obra de Mário Ferreira dos Santos

Índice

PRIMEIRA PARTE Prefácio

Invasão vertical dos bárbaros na sensibilidade e na afetividade Exaltação da força Valorização exagerada do corpo Supervalorização romântica A superioridade da força sobre o Direito A propaganda desenfreada e tendenciosa A valorização da memória mecânica A valorização da horda, do tribalismo A exploração sobre a sensualidade A disseminação do mau-gosto Os credos primitivos A acentuação da repetição A razão e o caos A valorização do inferior A influência do negativo A exploração viciosa do esporte Acusações ao Cristianismo Os blasfemadores O problema ético Sectarismo e exclusivismo A valorização do criminoso SEGUNDA PARTE O barbarismo e a intelectualidade

1 Este livro foi originalmente publicado em maio de 1967, inaugurando a coleção “Uma Nova Consciência”.

A desvalorização da inteligência A desvalorização da vontade Barbarização da Ciência e da Técnica A luta contra a universalização do conhecimento O desvirtuamento da Universidade Separação entre Religião, Filosofia e Ciência A luta contra o criador O conceito de Deus O fetichismo A incompreensão entre Ética e Moral A juventude transviada Diálogo de surdos Nominalismo e realismo Palavras esvaziadas Preconceitos prejudiciais A deshumanização do homem Os negativistas Os ismos Proletário, tema de exploração ideológica A especulação na baixa A propaganda desenfreada Idéias sociais primárias Cientismo ingênuo Discurso final

PREFÁCIO A expressão “invasão vertical dos bárbaros” não é criação nossa. Já a havia lançado o político alemão Rathenau, no século passado. Mas a característica que lhe queremos dar, é de certo modo outra que a pretendida por aquele político. Impossível, porém, precisar as nossas intenções, sem que primeiramente clareemos os conceitos: INVASÃO, VERTICAL E BÁRBARO. Iniciemos, contudo, pelo último.

O termo BÁRBARO era empregado de início, pelos gregos e romanos, para referir-se a todos os estrangeiros. Contudo, tomou, depois, o sentido do que não é civilizado, do que é inculto, do que combate toda e qualquer manifestação da cultura. Neste sentido, também o tomamos nesta obra. Mas é mister que sejam ainda apresentados outros aspectos que nos facilitarão ainda mais a compreensão do que pretendemos propor.

O termo BÁRBARO, entre os gregos, não se referia apenas ao estrangeiro, mas a todo povo que falasse uma língua diferente da sua, como para os romanos eram os povos que não falavam nem grego nem latim. Posteriormente, os romanos chamaram bárbaros aos povos não civilizados, ou àqueles que não estavam sob a jurisdição romana.

A História nos relata que houve muitas invasões HORIZONTAIS de bárbaros; ou seja, invasões que se processaram com maior lentidão ou não, maior rapidez ou não, e que consistiram na penetração pacífica ou violenta de povos, que se deslocavam para as regiões habitadas por outros, impondo-lhes o seu poder ou pelo menos os seus costumes. Mas se pode falar em invasão de bárbaros, quando essa se processa no território que corresponde à civilização. Não foram essas invasões tão cruentas como muitas vezes são descritas, pois as que se processaram no antigo Império Romano, sobretudo no período final, processaram-se gradualmente, e muitas vezes com o apoio interno dos próprios civilizados, já barbarizados em muitos dos seus costumes.

Na verdade, a invasão que é a penetração gradual e ampla dos bárbaros não só se processa HORIZONTALMENTE pela penetração no território civilizado, mas também VERTICALMENTE, que é a que penetra pela cultura, solapando os seus fundamentos, e preparando o caminho à corrupção mais fácil do ciclo cultural, como aconteceu no fim do império romano, e como começa a acontecer agora entre nós.

Esta obra é uma denúncia dessa invasão, que, preparando-se e desenvolvendo-se há quase quatro séculos, atinge agora a um estágio intolerável, e que nos ameaça definitivamente. Como obra de denúncia, e que aspira a alcançar o maior número de pessoas, dela afastamos, tanto quanto possível, o tecnicismo da linguagem científica, que cabe às disciplinas abordadas aqui, temas que são próprios do seu objeto formal. Nossa linguagem é a mais geral possível, o suficiente para tornar claros os aspectos em exame.

Os fatos que apontamos, os processos que registramos, os acontecimentos que reunimos em favor da nossa tese não são todos os que se dão, mas aqueles que julgamos principais. Desde logo verá o leitor que cada assunto, que tratamos, admitiria um estudo mais prolongado e mais exaustivo. Não era possível faze-lo. sob pena de tornar esta obra volumosa e, portanto, mais restrita aos leitores. Fizemos questão de apenas apontar o lado bárbaro que apresenta, deixando uma longa margem de meditação para o leitor.

À exclamação dos romanos: BÁRBAROS EXTRA MUROS1 ( os bárbaros estão fora dos muros das cidades, da civilização) hoje podemos responder: BÁRBAROS INTRA MUROS1 (os bárbaros já se acham dentro do âmbito cercado pelos muros, em plena civilização, assumindo aspectos, vestindo-se com trajes civilizados, mas atrás dessa aparência, atuando desenfreadamente para dissolver a nossa cultura).

De outro lado, há as disposições prévias corruptivas, que estão em todo ciclo cultural, e atuam desde o primeiro momento, com maior ou menor intensidade, para destruir a forma do ciclo que repelem.2

Os elementos ativos corruptores, guiados por uma inteligência, de vontade maliciosa, sempre souberam aproveitar-se do barbarismo como instrumento para solapar a cultura. E hoje, mais do que nunca, manejam com uma habilidade de estarrecer, dispondo de meios capazes para tal, imprimindo ao trabalho corruptivo uma intensidade e um âmbito nunca atingidos em momento algum.

Podem muitos aceitar essa situação como inevitável. Nenhum ciclo cultural, dizem, pode pretender eternizar-se. Mas esse argumento, que parece verdadeiro, é rotundamente falso. Se os ciclos culturais são contingentes, não se pode estabelecer um rumo necessário de modo absoluto, mas apenas hipotético. O que pode perecer, apenas pode perecer, e seu perecimento não é de necessidade absoluta que se dê mais cedo, porque há possibilidades de perdurar se o equilíbrio entre as disposições prévias corruptivas e as disposições prévias geradoras for encontrado. E isso é também um possível, como é um possível que a vida humana se prolongue indefinidamente. O homem poderá, então, perecer, mas poderá, também, perdurar. A perduração do contingente não encontra uma razão definitiva em contrário, mas apenas contingente também. Ademais, toda vida aspira à perpetuação. E esse desejo em nós não é, portanto, algo que se oponha à vida.

Se conhecemos o que faz corromper as coisas e apomos, de modo eficiente, o que equilibre a destruição, com elementos conservativos, a corrupção final pode ser desviada para mais distante. Poder-se-á, então, prolongar o ser perdurante por um tempo não limitado, mas que poderá ser retardado tanto quanto puder aquele manter-se em equilíbrio entre os contrários.

Pensando, assim, não é um desejo vão o nosso que pretenda prolongar o ciclo de nossa cultura. Se ela traz em seu bojo ideais supremos da humanidade, como o império da justiça, a moderação, a prudência sábia e santa, a coragem moderada e justa, a elevação da mulher e da criança, se pregamos a igualdade entre os homens, defendendo o direito de cada um ao lado dos seus deveres, se admitimos que se deve dar a todos oportunidades iguais, se afirmamos a liberdade e negamos as algemas e as coações opressoras, se pregamos o amor entre os homens, e o apoio-mútuo, que fará que cada um ajude ao seu próximo, se desenvolvemos a ciência, democratizamos o saber e elevamos o padrão da vida humana, se nosso ciclo, em suma, reúne, numa síntese feliz, tudo quanto de grande anelou a humanidade, e se ainda não atualizamos tudo o que podemos e devemos realizar, como, então, desejar a destruição deste ciclo para volver ao dente por dente, olho por olho, às polaridades senhor-e-escravo, bárbaro-e-culto, opressor-e-oprimido, fiel-e-infiel?

Se temos em nossa estrutura cultural, no âmbito das suas idéias superiores, tudo quanto de maior a humanidade ardentemente sonhou e desejou, como admitir que se destruiu o que é fundamento para uma caminhada mais promissora?

Que afastemos o que obstaculiza, que lutemos contra o que desvirtua, que fortaleçamos o que nos auxilia a marchar para a frente, está bem! Mas renunciar, demitirmo-nos do conquistado, para volver atrás, isso nunca!

Lutar pelo nosso ciclo cultural, fortalecer os aspectos positivos para impedir o desenvolvimento do que é negativo, eis o nosso dever.

2 Estes temas são desenvolvidos em Filosofia e História da Cultura (3 vols.) e Análise de Temas Sociais (3 vols.).

Nós julgamos que o primeiro passo para o cumprimento desse dever está em denunciar o que nos ameaça.

Por isso denunciamos. E esta é a razão desta obra.3 Mário Ferreira dos Santos

3 Ela se encontra dividida em duas partes. Na primeira parte, preferimos os temas eminentemente mais adequados à sensibilidade e à afetividade do homem. Na segunda, o que se refere preferentemente à intelectualidade. A invasão vertical dos bárbaros processa-se em ambos campos, razão pela qual julgamos, para melhor compreensão de nossa tese, fazer esta distinção. O autor

1ª PARTE INVASÃO VERTICAL DOS BÁRBAROS NA SENSIBILIDADE E NA AFETIVIDADE

Para melhor compreensão da matéria sobre a qual versa esta obra de denúncia, é mister caracterizar a cultura cristã ocidental que, enquanto cristã, se caracteriza por uma cosmovisão, que inclui os seguintes princípios: a) O universo é criatura, inclusive o homem; b) Os povos irmanizam-se pela mesma fé, e todos são iguais perante Deus; c) A divindade é providencial; ou seja, providência (tem uma vidência pro, vê, dispõe com antecedência o que pode acontecer, o possível histórico); d) O homem é um ser inteligente e livre, que pecou livremente; e) Contudo, pode salvar-se, graças a um mediador (Cristo), e pela livre escolha da salvação, ou por uma graça divina (gratuita ou não); f) A paz reinará quando a boa vontade dominar entre os homens, a vontade sadia, liberta dos vícios, que a condenam ao erro.

Os princípios, acima descritos, são constituintes da espinha dorsal desta cultura, o que não impede que, nela, sobrevivam resquícios da cosmovisão grega, da cosmovisão islâmica, da cosmovisão hebraica e também de outras cosmovisões; contudo, subordinadas, em graus intensistas maiores ou menores, à concepção cristã.

A destruição de nosso ciclo cultural se completaria com a quebra, ou melhor, a ruptura da tensão dos seis aspectos, acima citados, ameaçados, hoje, por todos os lados, como veremos nas análises que se seguem.

Uma das mais atuais providências dos bárbaros consiste em lutar contra a inteligência, inclusive usando a própria inteligência, por julgá-la como o mais legítimo sinal do civilizado, do homem culto.

A presença vertical do bárbaro na sociedade culta manifesta-se também por essa luta que, em nossa época, toma os aspectos mais variados e também os mais amplos, tais como:

Valorização de tudo quanto em nós afirme a animalidade- Não é mais possível pôr seriamente sobre a mesa de discussão, dúvidas quanto à animalidade do homem, nem que é ele possuidor de uma mente que o torna especificamente distinto de todos os outros animais terrestres, pois é um animal que não só é capaz de avaliar valores (os animais também dispõem de uma capacidade estimativa), mas de captar valores enquanto tais, valores possíveis, valores a serem criados, bem como de construir conceitos, e de estruturar toda uma ciência especulativa sobre esses conceitos, a qual, quando bem ordenada, alcança as leis que regem todas as regiões do ser, e são válidas em todas as esferas da realidade, o que é supinamente escandaloso para aqueles que desejariam que o Cosmos fosse o Caos, e que nenhuma inteligência houvesse regendo as coisas.

Apesar dessa evidência, há sempre uma tentativa de desmerecer a inteligência em seus aspectos mais elevados. A invasão vertical bárbara neste setor manifesta-se de diversas maneiras, e usa dos mais requintados processos de propaganda subliminal, a fim de influir no subconsciente humano, de modo a colocar a inteligência em seus mais altos vôos sob a égide da desconfiança e até da calúnia. E procede destes modos: a)Em primeiro lugar pela exaltação da força – Estimula-se a acentuada valorização dos homens que se revelam possuidores de grande força, mesmo que seja apenas da força bruta. Compara-se com orgulho a semelhança dessa força, alegando-se a grandeza do homem que a possui. Não importa que seja um débil mental, mas se é capaz de bater recordes, e de dobrar uma barra de ferro, ou de dar um murro igual ao coice de uma mula, estamos, então, em face de um espécime humano de alta valia. Lutadores, esmurradores, homens que revelam grande resistência, passam a ser procurados e exibidos como exemplos máximos da natureza humana. De início apenas são exemplares curiosos e estranhos, mas logo não faltam os valorizadores dessas altas virtudes. Não é de admirar que, desde então, se tornem para os jovens tipos dignos de serem imitados.

b)Supervalorização da força – O homem de músculos de aço já não é um exemplar curioso, é o herói popular, algo que representa um idealtypus das multidões bárbaras. c)Valorização acentuada da agilidade e da capacidade meramente física – Como maneira bárbara mais elevada de apreciação dos valores humanos está a valorização acentuada da agilidade, das habilidades físicas. Não quer isto dizer que o civilizado não seja capaz de obte-los, e não deva valorizar esses aspectos. Certamente que os obtém e com sinais de inteligência e arte; contudo, enquanto culto, não os tornará como ápices da elevação humana, nem irá, de modo algum, transformá-los em exemplares a serem imitados em primeiro lugar, mas apenas eventualmente e secundariamente, já que também é necessário que se valorize o corpo e não só a mente. d)Valorização exagerada do corpo em detrimento da mente – Este é um dos aspectos mais graves do barbarismo vertical. “Mente sã num corpo são” é uma máxima culta. Nunca, porém, considera um homem culto que mais vale corpo são que mente sã, nem que baste apenas um corpo são. Sem dúvida a sanidade do corpo é fundamental, porque somos corpo também, mas a sanidade da mente é inseparável da humanidade, sob pena de o homem desmerecer-se em seu valor. Os heróis populares dessa espécie são apresentados apenas sob o seu aspecto físico. Há entre eles muitos que cuidam da sanidade de sua mente e dedicam-se com afinco até nos mais altos páramos do pensamento. Contudo, o que se faz é apenas salientar a habilidade ou a capacidade físicas, sem qualquer atenção a outras manifestações superiores. Precisamente, a ocultação desses aspectos cultos é da tática da invasão vertical da barbárie. e)Valorização do visual sobre o auditivo – Os conhecedores da psicologia sabem que nossa inteligência se funda nos elementos fornecidos pelos sentidos, como o tato, a visão e a audição, para construir seus esquemas mentais. E nestes, na ordem crescente apontada, de modo que o auditivo supera ao visual e ao tátil. Encontramos na linguagem filosófica, e também psicológica, os termos que tomam sentido figurado, mas que partem dessas sensações, como esclarecer, iluminar, ver, considerar (de sideria, astros, ver os astros), nítido, etc., que provém da visão: tomar, captar, conceitos que provêm do tato: tonalidade, absurdo, harmonia, quem vêm da audição.4

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