Sobre nietzsche - mario ferreira dos santos

Sobre nietzsche - mario ferreira dos santos

(Parte 1 de 3)

Sobre Nietzsche

Mário Ferreira dos Santos

"Ante a história podemos ver no homem apenas um produto, mas também um

(Trecho de uma carta) fator. Se muitos têm sido apenas uma folha solta ao sabor dos ventos, há homens de vontade forte, capazes de forjarem seu próprio destino. E que maior grandeza podemos desejar senão a de sermos senhor de si mesmo. Olhemos a escala animal: à proporção que nos aproximamos do homem, notamos que este revela a maior autonomia que um ser vivo foi capaz de manifestar. Há toda uma hierarquia que, no homem, alcançou um grau mais elevado, mas que nossa análise permite notar que poderia ser superior e poderia ser estimulada ainda mais. Não discutiremos se essa autonomia é produto de um princípio material ou espiritual. Podemos dispensar por ora a discussão de tal tema, mas podemos, isso sim, afirmar que é o homem capaz do ato de liberdade, que consiste em poder julgar entre valores, e escolher o que julgar conveniente e de escolher entre futuros possíveis. O ato livre é uma realidade do homem, e ele representa o seu momento mais alto, a plenitude da humanidade em nós. É o ato humano, por excelência, o ato livre, o ato genuinamente criador porque só pode haver criação onde há liberdade. Mas esse ato humano não alcança a plenitude por ser obstaculizado por inúmeros impecilhos que o viciam, desde o temperamento, o caráter, a ignorância vencível, a invencível, as paixões, a opressão externa, etc. Que ideal mais elevado para nós que alcançar a plenitude da humanidade, o ato humano em sua plenitude? Que devemos então fazer? Estimulálo e também lutar pelo afastamento dos obstáculos, desimpedindo o caminho, desobstruindo-o dos entraves, combatendo os poderosos opressores que o viciam., Lutamos pela mais alta virtude do homem. Ora, a virtude é um hábito bom, é a reiterada aplicação de uma atividade benéfica. E que mais benéfico ao homem que a prática da liberdade? Pois é essa a grande virtude que tornada prática tornará prática a liberdade. Por ela luto, por ela escrevo. Quero lutar contra duendes, dragões, trevas e inimigos impiedosos. É esse o meu bom combate. E não basta que erga palavras cheias de vontade e de amor. É mister que demonstre que é esse o único e verdadeiro caminho da humanidade. Esta ainda não existe, ela é uma promessa que virá um dia, quando sobrevier o herói de rugido de leão aureolado por uma nuvem de pombas, na frase nietzscheana. Para mim esse é o ideal nietzscheano e a ponte que leva ao super-homem é o roteiro da prática da liberdade para torná-la finalmente prática. Só então compreenderemos bem que este homem de hoje é irrisão..."

(De um papel avulso sem data)

A leitura leve que hoje se costuma fazer, passando rápida sobre as linhas dos livros é a mais imprópria quando aplicada à sua obra. Há autores que nos exigem que assumamos a sua personalidade para fruir a essência de sua obra.

Nietzsche é assim; exige de nós uma entrega porque ele jamais se separa de sua obra.

É comum afirmarem que o ideal do super-homem nietzscheano está representado no sonho hitlerista. Nietzsche nunca desejou discípulos e, sempre afirmou, que ser-se discípulo é próprio dos medíocres. Pregou um homem senhor de si mesmo. E quando elogiou os fortes não elogiou a brutalidade. Queria homens fortes, mas era outra força além da dos músculos. A altivez por ele pregada aos homens é a altivez da dignidade. Pode ser-se digno até em andrajos. E quando combateu "a moral dos escravos", combateu os escravos que faziam uma moral de renúncia. Ele só admitia grandeza no escravo quando este se rebelava.

Aquele que aceita suas algemas e cria, para justificá-las, uma filosofia de algema, não é nietzscheano. Se Hitler prega a obediência cega de um homem-massa, sem vontade, que aceita um guia, um chefe, não é nietzscheano, porque Nietzsche combatia os guias como combatia os rebanhos. O super-homem não é o dominador de homens, o chefe, o herói. Nestes via Nietzsche algumas das virtudes que o superhomem deveria possuir. O escravo para rebelar-se, para conquistar sua liberdade, precisa ter as virtudes dos livres e dos dominadores. Era isso que ele pregava. O homem deve superar-se. Não queria que o homem se satisfizesse com a moeda falsa da felicidade da nivelação. Isso não bastaria. Sabia que se os homens atingissem uma época em que todos fossem economicamente iguais, havia possibilidade da ditadura da igualdade. E essa ditadura poderia querer tornar os homens semelhantes em série, por uma educação em série, por "estandardizações" que tirariam o poder criador o indivíduo, e entregando esse poder somente à massa. Nietzsche pregava um homem que, independente da igualização econômica continuasse homem para superar-se intelectualmente, quer em seus sentimentos, como em seus gestos e em suas virtudes. E se do hominídio primitivo, através de uma lenta e milenária evolução, os precursores do homem chegaram até o "homo sapiens", queria e afirmava que o homem deveria ter a certeza que a sua evolução não havia parado aí. O homem prosseguiria evoluindo física e mentalmente como até aqui evoluíra. Mas nessa evolução, nesse progresso, deveria pôr sua consciência, já que adquirira a doença da consciência. Deveria pôr a sua vontade já que adquirira a virtude da vontade. A super-humanidade que ele acreditava era uma humanidade conscientemente desejada, forjada, realizada, cuja característica não seria a de uma humanidade-massa hitleriana. Seria uma humanidade-força, com um indivíduo senhor de sua vontade, empregando, ao menos, a consciência de sua vontade, para atingir superações de si próprio. O homem buscando sempre mais longe, mais longe: isto é Nietzsche. E isso não é Hitler. Hitler é aquele filho espúrio que busca tragicamente uma paternidade. E a Nietzsche coube a grande decepção de ter sido o escolhido. Como ele se revoltaria se estivesse vivo, como protestaria com aquele seu tom alciônico e enérgico, e exigiria uma nova investigação de paternidade.

O entusiasmo é uma virtude nietzscheana. A depressão negativa, um acidente.

Ele não nega a si mesmo e, nenhum autor talvez foi mais sincero em sua obra do que ele. Reponta em toda ela esses momentos de entusiasmos e de depressão. Ele os conhecia a cada passo. E o homem o conhece a cada passo. Seria absolutamente uma negativa de sua própria doutrina se Nietzsche se preocupasse seriamente em ser, em absoluto, coerente. A coerência é uma cadeia, um freio, uma prisão – uma mentira. Nega a vida incoerente e vária. Nietzsche coerente não seria Nietzsche. A depressão é um ânimo, um esforço, um impulso. Há na possibilidade da derrota o esforço, o impulso que gera a vitória. Quando, deprimido, gemia sua angústia é que estava as bordas de reerguer-se. Isso é, seus livros, refletia a sua sinceridade. Nietzsche era e foi o mais sincero de todos os escritores. Nisso estava em grande parte a sua dignidade e o seu orgulho.

São essas contradições da alma humana que solidificam a vontade de poder.

É preciso saber-se fraco, conhecer a própria fraqueza, para que a vitória tenha o sabor de felicidade. Ele sabia disso. Exclamava seus momentos de acovardamento.

Cristo também pediu que lhe afastassem o cálice. Mas o cálice oferecido, a consciência da fatalidade de seu destino, deu-lhe a coragem de suportar a afronta dos seus inimigos. E Cristo, ali, também foi sincero. Quem acusaria Cristo de haver sido fraco, se sua fraqueza lhe deu a conhecer a força capaz de erguê-lo para suportar a infâmia dos seus algozes.

E por que acusam Nietzsche?

(De um papel avulso sem data) As contradições de Nietzsche não o refutam. Devemos colocá-lo onde deve ser o seu lugar. Sua obra é dialética. Vamos a um exemplo: Nietzsche combate o homem de rebanho. E, no entanto, Nietzsche defende, às vezes, o animal de presa. Como se manteriam os animais de presa se o rebanho desaparecesse? Essa pergunta demonstra aos racionalistas a contradição nietzscheana. Mas respondamos: Nietzsche compreende o animal de presa, porque existe o animal de rebanho. O rebanho implica o pastor, o chefe, o führer. Combater o rebanho é anular o führer. O que o homem de rebanho, o homem bovino dever ser é um homem livre do rebanho. Tornar-se animal de presa? Não porque a ausência do rebanho torna impossível o

O “homem bom”, como besta de rebanho procedente do animal de presa...

animal de presa. Mas o homem deixando de ser bovino, para se tornar animal de presa, assume as qualidades deste: a bravura, a heroicidade, a dignidade, a personalidade. O escravo precisa ter qualidades de senhor para se revoltar. É aí que está nietzscheanamente a sua grandeza. Assumindo o homem as qualidades, os atributos de pastor, e não havendo rebanhos, este não pode agir e proceder como pastor. Mas conserva para si a qualidades que impedem que se torne rebanho. Só se pode combater o animal de presa combatendo o rebanho. Esta a lógica contraditória, porque dialética de Nietzsche. É ele, agora, quem fala:

“ Aí está o verdadeiro sentido anti-nazi da obra nietzscheana. O homem bom. O homem bovino, o homem que obedece, o homem que segue, o homem que pensa por “slogans”, o homem que aceita os pontos de vista de outros – o que combate Krishnamurti, num ângulo místico e oriental – é uma decorrência do homem de presa. Onde há desses homens, aparecem os chefes. A libertação do homem está em pairar acima do rebanho, mais além da obediência cega, da obediência que renuncia a análise, da obediência que não critica. E isso é supinamente nazi. E isso é supinamente não nietzscheano. Afirmamos mais uma vez: Nietzsche contra Hitler!

(De um papel avulso sem data) “ECCE HOMO” – é o livro confissão. Jamais homem algum, em tempo algum, conseguiu despir-se de todos os preconceitos, para, de público, fazer a mais sincera das confissões.

Somos todos filhos de nossas atitudes - e nossos preconceitos, muitas vezes, são meras atitudes sedimentadas – somos filhos de nossos preconceitos – e nossas atitudes, muitas vezes, são nossos preconceitos sedimentados.

Filhos do preconceito e das atitudes falta-nos, na vida, a necessária coragem moral para dizermos aos outros o que nós sentimos.

Nietzsche irrita o medíocre e o vulgar com a clareza épica de suas afirmações. Traduzem-nas por megalomania. É fácil, sempre, esquematizar-se os pensamentos, em perspectivas, quando os homens constroem os paralepipedos de suas idéias prévias, de seus prévios conceitos.

“Porque sou tão sábio”, “porque sou tão sagaz”, “porque escrevo bons livros”, “porque sou uma fatalidade?”, tudo isso oprime, irrita o medíocre, pelo simples fato que o medíocre não teria, nem poderia, ter a coragem moral de fazer essas afirmativas de si mesmo.

Nietzsche despindo-se da falsa modéstia pôs, também, de lado, a pretensiosa convicção de si mesmo. O gênio sabe o que é. E o elogio próprio, se na boca do medíocre é uma infâmia, na boca de Nietzsche é um direito sagrado.

Se seus contemporâneos não o sentiram, se aqueles mesmos que o cercavam não o percebiam, ele que foi capaz de sofrer a conspiração do silêncio, que soube afrontar até o desinteresse, podia, quando fez de si mesmo sua própria confissão – que é ECCE HOMO – tinha o direito e até o dever de ser sincero. Resta saber agora se os medíocres ainda lhe negam o direito de fazer sua auto-apologia, quando ele tinha consciência de que era imenso.

somente. Os medíocres não gostam das exceções. A rã odeia sempre o pirilampo

Que proclamasse para seu espelho! Que dissesse para os seus botões,

caminho que leva ao lugar de descanso, ou uma diversão ou uma flâneriepara

“Não! A vida não me falhou! Achou-se, pelo contrário, de ano em ano, mais rica, mais desejável, mais misteriosa, desde o dia em que se me ocorreu a grande idéia liberadora que a vida poderia ser uma experiência para quem busca o conhecimento. Que seja para outros qualquer coisa, um leito de repouso, ou bem um mim é um mundo de perigos e de vitórias em que os sentimentos heróicos tem também seu lugar de danças e de jogos. A vida é um meio de conhecimento; com este princípio no coração se pode não somente viver com bravura, senão viver com alegria, rir com verdadeira alegria!”

Quando Nietzsche teve essas palavras havia já passado a depressão que precederia è feitura de “Gaya Scientia”. Seu otimismo estuava. Seus olhos sorriam para a vida. Reconhecido a ela alumiava-se de sol. Esse homem das brumas do norte conhecia a doçura tépida do mediterrâneo que adorava. Gaya Scientia, depois de Zaratustra seja talvez sua maior obra. Maior ainda que “Vontade de poderio”1. Há nela tais acentos latinos que pareceria nascida na França. Há um gosto tão subtil e tão meigo que contrasta com a sua aspereza que por vezes o acometia. Perde aquele sentido polêmico que teria depois no fim da vida, quando desvanecido dos seus semelhantes, atira-se como um guerreiro no “Anticritsto”, no “Crepúsculo dos deuses” e em certas passagens da “Vontade de poderio”.

transcender as fronteiras que lhe prendiam, que o cerceavam por dois milênios

Nietzsche, ali tinha fé. Fé em sua afirmação de que a busca de uma verdade absoluta era uma mentira que os homens haviam embriagado suas ânsias; fé em sua crença na utilidade do erro, no valor moral dos instintos, nos limites da razão, na sua crença da transmutação de todos os valores que permitira ao homem poder

“Os homens sobre os quais Nietzsche exerce uma inegável influência são todos aqueles escapados ao domínio do cristianismo, quer dizer, independentizados de todos os dogmas que representam na vida contemporânea o triunfo de princípios de fé, de sujeição e de obediência mentais. Seu número cresce cada dia à nossa volta. São so homens inumeráveis e ignorados que amam o saber e sua obras, quando não estão guiadas por alguma idealidade superior ao que no exercício de suas atividades não buscam o útil nem sequer o necessário, contra o que supõem os mais flamantes moralistas; que aspiram tão somente, e com todas as forças do seu ser, atingir a independência interior, a liberdade, não política e cidadã, que é a forma mais subtil e lastimosa da escravidão, e sim a liberdade moral, a afirmação rotunda e absoluta de seu ser interior que aspiram unicamente o direito de afirmar-se, de viver plenamente segundo as leis de sua própria natureza, de ser algo mesmo, antes que nada, até louco a seu próprio talante e não cordato segundo a razão dos demais; que

1 Pelo fato de estar escrito “Vontade de poderio” achamos que este texto é anterior a 1945, pois nesta data foi editado “Vontade de Potência” com seus comentários.

buscam em si mesmos o ideal e tendem logo a realiza-lo, e que sobretudo amam as inexplicáveis forças do mundo, tais como se manifestam. Amam a alegria sem fugir da dor e a vida sem temer a morte!”

Bela definição de Mariano Antonio Barrenecea sobre o espírito dos nietzscheanos, daqueles que seguem as lições que o mestre sem discípulos – porque para ser nietscheano deve-se negar a ação do mestre – buscam esse sentido que ele desejou dar ao homem : o de reconciliação do homem para com a natureza, e de conquista da verdadeira liberdade que é conquista pelo conhecimento de suas fatalidades e de seus destinos, amando o mundo e compreendendo-o , sem caluniálo.

Kant era um cérebro científico, um perfeito tipo de funcionário prussiano, como o definiu Nietzsche, vivendo no abstrato. Nietzsche foi transformar em sensibilidade, em paixão, em vida, misturando com instintos, com impulsos, rebuscando no âmago das vísceras humanas, o homem-cósmico. Não trazia só propriamente somente argumentos, quando combatia , quando refutava. Expressava, também, sentimentos. Era o gosto que decidia..., dizia. Nietzsche procurava libertar a filosofia da cadeia do racionalismo. Libertava os impulsos, os apetites intelectuais. Justificava as variantes. Aceitava as coordenadas, as divergências. Enfim, tudo que não negasse a vida, que não negasse o movimento, a contradição, o choque, a luta. Via em Kant um carcereiro, um construtor de algemas, para prender o espírito na secura da razão. Um continuador, sem brilho, de Sócrates.

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