As argamassas na conservação

As argamassas na conservação

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VEIGA, M. Rosário – As argamassas na conservação. In Actas das 1ªs Jornadas de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro. Avaliação e Reabilitação das Construções existentes. Aveiro, 26 de Novembro de 2003. Conferência convidada. Colecção Comunicações, COM 103, LNEC, Lisboa 2003.

Maria do Rosário Veiga Doutora em Engenharia Civil, Investigadora Principal do LNEC, Lisboa, Portugal, rveiga@lnec.pt

1 – REVESTIMENTOS EXTERIORES DE EDIFÍCIOS ANTIGOS

As paredes exteriores dos edifícios variaram muito, na sua constituição e forma, ao longo dos séculos e de região para região. No entanto, podemos considerar que, desde a antiguidade até ao advento do betão armado, em meados do século X, pelo menos em toda a Europa, tinham importantes características comuns: acumulavam a função resistente com a função de protecção em relação aos agentes climáticos e às acções externas em geral; os materiais usados na sua constituição eram mais porosos e deformáveis que os usados actualmente; e as capacidades de resistência e de protecção eram asseguradas essencialmente através da espessura.

Um aspecto particularmente importante está relacionado com a protecção contra a humidade. Com efeito, as paredes dos edifícios actuais são construídas de forma a impedir, tanto quanto possível, a penetração da água do exterior, razão pela qual se executam cortes de capilaridade junto às fundações, se usam revestimentos impermeabilizantes, caixilharia preferencialmente estanque e coberturas e remates cuidados. Pelo contrário, o modelo de funcionamento das paredes antigas, mais espessas e porosas, sem cortes de capilaridade, admitia a entrada de água para o interior da alvenaria mas evitava uma permanência prolongada, procurando promover a sua fácil e rápida saída para o exterior. Assim, a ascensão capilar da água através das fundações (naturalmente, em quantidade moderada), fazia parte do funcionamento normal da parede, que rapidamente promovia a sua expulsão por evaporação [1, 2].

Por isso, os revestimentos que protegeram as paredes exteriores ao longo dos séculos, também eles muito diversificados técnica e formalmente, tinham igualmente importantes aspectos em comum.

Esses revestimentos eram geralmente constituídos pelas seguintes camadas principais, com diferentes funções [3, 4]:

a) Camadas de regularização e protecção: Emboço; Reboco (propriamente dito)1; Esboço.

b) Camadas de protecção, acabamento e decoração: Barramento (ou guarnecimento); Pintura (em geral mineral); Ornamentação (nos casos mais elaborados).

As camadas de regularização e protecção eram constituídas por argamassas de cal e areia, eventualmente com adições minerais e aditivos orgânicos. Normalmente, as camadas internas tinham granulometria mais grosseira que as externas e a deformabilidade e a porosidade iam aumentando das camadas internas para as externas, promovendo assim um bom comportamento às deformações

1 No restante deste texto usar-se-á o termo reboco com o significado que em geral lhe é dado actualmente, de revestimento de argamassa no seu conjunto, ou seja, do conjunto das camadas de emboço, reboco e esboço,.

estruturais e à água. Aliás, esta estrutura é, ainda hoje, considerada a mais adequada para rebocos feitos em obra. Cada uma das camadas principais referidas era, por sua vez, constituída por várias subcamadas. Com efeito, para a mesma espessura total, camadas finas em maior número permitiam uma melhor capacidade de protecção [2] e uma durabilidade superior.

Os barramentos ou guarnecimentos eram constituídos por massas finas de pasta de cal, ou de pasta de cal com pó de pedra, também geralmente aplicadas em várias subcamadas, com finura crescente das mais interiores para as mais exteriores [5] (Fig.1). Estas camadas são muito importantes para a protecção do reboco, verificando-se que, quando se destacam, se assiste a uma degradação rápida do reboco subjacente.

A coloração das superfícies era conferida pela incorporação de agregados com cor seleccionada, de terras ou de pigmentos minerais na última camada de barramento, ou por camadas posteriores de pintura, geralmente de cal, aditivada com pigmentos e outras adições minerais. As superfícies podiam ser ornamentadas (com stuccos, fingidos, esgrafitos, etc.), pintadas com policromia e técnicas da pintura mural (a fresco ou a seco) ou simplesmente coloridas de vários modos [6] (Fig. 2).

Estes revestimentos, cuidadosamente executados e aplicados segundo as regras da boa arte, tinham grande resistência e durabilidade; a atestá-lo estão muitos exemplos com séculos de existência, que chegaram aos nossos dias em bom estado de conservação (Fig.3).

As texturas e cores tão características, os materiais seleccionados, a tecnologia usada - a boa arte de executar e aplicar, cujos segredos são, hoje, difíceis de penetrar -, o bom funcionamento global das paredes gerado pela compatibilidade de materiais e de soluções construtivas, merecem ser preservados, não só porque fazem parte da nossa história e da nossa memória colectiva e caracterizam ambientes, mas também porque são importantes objectos de estudo da própria história dos materiais e das tecnologias da construção.

2 – INTERVENÇÕES EM ARGAMASSAS

2.1 – Opções de intervenção

Os revestimentos exteriores assumem grande importância na conservação patrimonial: têm um papel fundamental na protecção da alvenaria antiga contra acções climáticas, choques mecânicos, contaminação ambiental; condicionam fortemente o aspecto final das construções; está provado que os rebocos podem reforçar significativamente a resistência mecânica de alvenarias fracas, aspecto não desprezável, já que as paredes antigas têm, em geral, funções estruturais.

Mas, por estarem muito expostos a acções potencialmente destrutivas, os revestimentos são também dos elementos mais sujeitos à degradação.

O desconhecimento da sua constituição e da tecnologia envolvida fazem com que a opção comum para a sua reparação seja a extracção de todo o revestimento e a sua substituição por uma solução actual, em geral não adaptada ao funcionamento da parede antiga. Muitas vezes, as soluções adoptadas, além de descaracterizarem os edifícios, são funcionalmente desadequadas e têm um desempenho e uma durabilidade inferiores aos pré-existentes (Fig.4).

Pelo contrário, numa intervenção num edifício antigo, a primeira opção deve ser sempre a conservação. Esta opção é, como se sabe, mais correcta do ponto de vista da ética da conservação que, não nos esqueçamos, está hoje também relacionada com a ecologia por via da sustentabilidade. Mas, ao contrário do que muitas vezes se pretende fazer crer, é também, em geral e desde que se conheçam bem as técnicas e materiais a usar, a solução mais económica. Finalmente, é quase sempre a que assegura maior durabilidade. Com efeito, é realmente difícil especificar argamassas de substituição completamente compatíveis com os elementos préexistentes, já que a compatibilidade depende de diversos factores.

Uma análise atenta do revestimento antigo mostra frequentemente que a degradação é superficial e que é possível evitar a substituição recorrendo, por exemplo, a operações de reparação pontuais.

Muitas vezes os rebocos antigos apresentam-se superficialmente degradados - com micro-fendilhação, manchas devidas a ataque biológico e à acção da humidade, lacunas resultantes de destacamentos pontuais – mas encontram-se fundamentalmente sãos: coesos, aderentes à base na maior parte da sua área e com uma resistência razoável (fig. 5). Nesses casos é preferível mantê-los, com as reparações pontuais necessárias para restaurar as suas funções e recuperar o aspecto estético.

Noutros casos existem já algumas zonas com degradação profunda, com perda de aderência ou coesão deficiente, mas o valor patrimonial do revestimento, devido à existência de pinturas murais, de ornamentos, de vestígios de técnicas raras – fingidos, grafitos, esgrafitos -, justifica, mesmo assim, a opção pela conservação, recorrendo a técnicas de consolidação (fig. 6).

Quando a degradação do reboco atingiu um nível tal que não é possível conservá-lo integralmente, é necessário substituí-lo, parcial ou totalmente, por outro compatível com os elementos pré-existentes com os quais irá interagir.

A opção sobre a estratégia de intervenção a adoptar em revestimentos antigos deve basear-se em critérios científicos, tendo em conta o seu valor histórico e arquitectónico, o seu estado de conservação real, a disponibilidade de meios, entre outros factores. Hoje pensa-se que o edifício antigo vale, não só pela sua arquitectura formal, mas também pelo conjunto funcional e pelos materiais e tecnologia utilizados, os quais constituem, em si próprios, valores a preservar [7]. Também por razões práticas e económicas, é necessário garantir a durabilidade do conjunto.

Podem considerar-se, assim, quatro grandes opções possíveis de intervenção: i) a primeira opção deve ser a conservação do revestimento antigo através de operações de manutenção e de reparação pontual, nomeadamente através de limpeza e de tratamento (por exemplo com biocidas), da correcção de situações que podem dar origem a infiltrações de água, da reparação atempada das camadas de acabamento, da colmatação de fendas, etc.; i) se tal for inviável, pode ser apropriada uma consolidação do revestimento existente, no entanto só se justifica recorrer às técnicas especializadas e caras de consolidação de rebocos quando o edifício ou o revestimento é de valor elevado, quer por razões históricas ou artísticas, quer devido à raridade da técnica ou do material; i) em terceiro lugar, pode encarar-se a substituição parcial em alguns paramentos, com recurso a revestimentos semelhantes aos antigos; iv) em último caso, quando as anomalias existentes são de severidade elevada, pode de facto ser necessário substituir a totalidade do reboco; por vezes, basta substituir a última camada, mais fendilhada ou contaminada por micro-organismos, ou uma determinada zona do reboco, por exemplo afectada de forma prolongada por uma infiltração de água. Outras vezes, perante uma desagregação generalizada, por exemplo, impõe-se a substituição total.

Nestes casos, é de primordial importância que os materiais de substituição sejam adequados, sob pena de se correr o risco de acelerar a degradação [7, 8].

2.2 – Critérios gerais de intervenção

Tendo em conta os princípios referidos, é possível estabelecer os critérios gerais de decisão que se esquematizam sinteticamente no quadro 1.

Quadro 1 – Critérios gerais de decisão sobre o tipo de intervenção

Tipo de degradação

Valor histórico, arquitectónico ou artístico

Opção de intervenção

Selecção dos materiais

Selecção das técnicas

Outras exigências

Elevado

Conservação, e, se necessário, consolidação

Materiais compatíveis e idênticos

Técnicas tradicionais e/ou especializadas

Reversibilidade; aspecto idêntico

Degradação superficial pontual

Reduzido

Conservação, e, se necessário, reparação localizada

Materiais compatíveis dos pontos de vista funcional e de aspecto

Reparabilidade; aspecto compatível

Elevado

Conservação, e se necessário, consolidação

Materiais compatíveis e idênticos

Técnicas tradicionais e/ou especializadas

Reversibilidade; aspecto idêntico

Degradação superficial generalizada

Reduzido

Conservação e reparação localizada

Materiais compatíveis dos pontos de vista funcional e de aspecto

Reparabilidade; aspecto compatível

Elevado

Conservação, consolidação e reparação localizada

Materiais compatíveis e idênticos

Técnicas tradicionais e/ou especializadas

Reversibilidade; aspecto idêntico

Degradação profunda pontual

Reduzido Substituição parcial

Materiais compatíveis dos pontos de vista funcional e de aspecto

Técnicas de aplicação de acordo com as regras da boa arte

Reparabilidade; aspecto compatível

Elevado Consolidação

Materiais compatíveis e idênticos

Técnicas tradicionais e/ou especializadas

Reversibilidade; aspecto idêntico

Degradação profunda generalizada

Reduzido Substituição integral

Materiais compatíveis dos pontos de vista funcional e de aspecto

Técnicas de aplicação de acordo com as regras da boa arte

Reparabilidade; aspecto compatível

3 – MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO

3.1 – Caracterização do estado de conservação dos revestimentos antigos

O estado de conservação dos revestimentos existentes pode ser caracterizado pelos tipos de anomalias que revelam e pelo grau com que se manifestam [9]. Com efeito, enquanto um revestimento fendilhado, mesmo que em grau elevado, pode ser reparado com alguma facilidade, recorrendo a técnicas bastante conhecidas, o mesmo não se passa quando há deficiências de aderência ao suporte ou de coesão entre as partículas, cuja preservação exige o emprego de técnicas mais caras e complexas.

Assim, surge o conceito de severidade da anomalia, que está relacionado, não só com o grau, mais ou menos elevado, da degradação provocada, mas também com a sua reparabilidade [3].

Uma caracterização correcta do estado de conservação e do tipo e gravidade da degradação existente é, assim, da maior importância para uma correcta tomada de decisão sobre o tipo de intervenção a realizar.

Embora uma observação cuidada, um olhar treinado e um espírito rigoroso sejam os instrumentos mais importantes e imprescindíveis para essa caracterização, é geralmente útil, se tal for viável, recorrer a outros meios de diagnóstico, para obter uma informação mais detalhada e quantificada. Esses meios baseiam-se geralmente em ensaios, quer in situ, sobre o revestimento antigo aplicado, quer de laboratório, sobre amostras extraídas em obra, em locais criteriosamente escolhidos e cuidadosamente acondicionadas e transportadas.

Os ensaios in situ são, por vezes, difíceis de interpretar e de correlacionar com as características que se destinam a avaliar, exigindo muita experiência; os ensaios em laboratório oferecem algumas dificuldades, devido às características das amostras, geralmente sem os formatos apropriados e por vezes friáveis e frágeis ao manuseio, exigindo adaptação dos métodos. Referem-se nos quadros 2 e 3 alguns dos são usados actualmente no LNEC para este efeito [10, 1, 12] (figs. 7 a 12)

Apesar de se terem já realizado estes ensaios sobre revestimentos de diversos edifícios, considera-se que é necessário ampliar a experiência existente antes de estabelecer classificações que permitam uma sistematização do estado de conservação.

QUADRO 2 - Técnicas de caracterização e ensaio em argamassas antigas: Ensaios in situ

Determinação das propriedades físicas e mecânicas

Não-destrutivos

Permeabilidade a água sob baixa pressão com Tubos de Carsten Resistência e módulo de elasticidade por Ultra-sons

Avaliação de destacamentos e zonas de penetração de água por Termografia de infravermelhos

Avaliação do teor de água com Humidímetro portátil Determinação da carbonatação com indicador de fenolftaleína Identificação de sais solúveis com marcadores de cor

Semi-destrutivos e Destrutivos

Resistência superficial: Choque de esfera e Quadriculagem Resistência interna: Penetração controlada; Miocroperfuração Avaliação da coesão: Riscagem e Abrasão Determinação da Aderência ao suporte

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