Filosofias da afirmação e da negação - mário ferreira dos santos

Filosofias da afirmação e da negação - mário ferreira dos santos

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Rua 15 de Novembro, 137 — 8.° andar Telefone: 35-6080 — SÃO PAULO l,a edição: setembro de 1959

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— "Filosofia e Cosmovisão" — 4.a ed. — "Lógica e Dialéctica" — 4.a ed.

— "Psicologia" — 4.a ed.

— "Teoria do Conhecimento" — (Gnoseologia e Critèriologia) — 3.a ed.

— "Ontologia e Cosmologia" — (As Ciências do Ser e do Cosmos) — 4.a ed.

— "O Homem que foi um Campo de Batalha" — (Prólogo de "Vontade de Potência", de Nietzsche") — Esgotada. — "Curso de Oratória e Retórica" — 7.a ed.

— "O Homem que Nasceu Póstumo" — 2 vols. — 2.a ed.

— "Assim Falava Zaratustra" — (Texto de Nietzsche, com análise sim bólica) — 3.a ed.

— "Técnica do Discurso Moderno" — 4.a ed. — "Se a Esfinge Falasse..." — (Com o pseudónimo de Dan Andersen)

■— Esgotada.

— "Realidade do Homem" — (Com o pseudónimo de Dan Andersen) —

Esgotada. — "Análise Dialéctica do Marxismo" — Esgotada.

— "Curso de Integração Pessoal" — 3.a ed.

— "Tratado de Economia" —■ (ed. mimeografada) — Esgotada. — "Aristóteles e as Mutações" — (Reexposição analítico-didática do tex to aristotélico, acompanhada da crítica dos mais famosos comentaris tas) — 2.a ed. — "Filosofia da Crise" — 3.a ed.

— "Tratado de Simbólica" ■— 2.a ed.

— "O Homem perante o Infinito" — (Teologia).

— "Noologia Geral" — 2.a ed.

—■ "Filosofia Concreta" — 2 vols. — 2.a ed. — "Sociologia Fundamental e Ética Fundamental" — 2.a ed.

—■ "Práticas de Oratória" — 2.a ed.

— "Assim Deus Falou aos Homens" — 2.a ed. —• "A Casa das Paredes Geladas" — 2.a ed.

— "O Um e o Múltiplo em Platão"

— "Pitágoras e o Tema do Número".

— "Filosofia Concreta dos Valores". —- "Escutai em Silêncio".

— "A Verdade e o Símbolo". — "A Arte e a Vida".

— "Vida não é Argumento" — 2.a ed. — "Certas SubtilezafHjumanas" —<2." ed. >. ' '■ «»*

— "A Luta dos Contrários'' — 2.a ed. s^

— "Filosofias da Afirmação e da-Negação". **--^

— "Métodos Lógicos e Dialécticos" —- 2 vols. ^ x "Enciclopédia do Saber" — 8 vols. x "Dicionário de Filosofia e Ciências Afins" — 5 vols. x "Os Versos Áureos de Pitágoras". x "Tratado de Estética". x "Tratado de Esqucmatolojçia". x "Teoria Geral das Tensões". x "Filosofia e História da Cultura". x "Tratado becadialóctico de Economia". x "Temática e Problemática das Ciências Sociais". x "As Três Críticas de Kant". x "Hegel e a Dialéctica". x "Dicionário de Símbolos e Sinais". x "Obras Completas de Platão" — comentadas — 12 vols. x "Obras Completas de Aristóteles" -— comentadas — 10 vols.

"Vontade de Potência" — de Nietzsche. "Além do Bem e do Mal" — de Nietzsche. "Aurora" ■— de Nietzsche. "Diário íntimo" — de Amiel. "Saudação ao Mundo" — de Walt Whitman.

Prólogo 1 Diálogo sobre a verdade e a ficção 19 Diálogo sobre o fundamento de todas as coisas 3 Diálogo sobre o ser e o nada 39 Diálogo sobre o cepticismo 47 Diálogo sobre o relativismo 59

Diálogo sobre o idealismo 65 Diálogo sobre o idealismo anti-intelectualista 71 Diálogo sobre a Fenomenologia 79 Diálogo sobre a verdade 87

Diálogo sobre o critério do conhecimento 101

Alguns pequenos diálogos 1 Diálogo sobre a coragem 129 Diálogo sobre a verdade e o erro 139 Diálogo sobre a existência do mundo exterior 145 Diálogo sobre os conceitos universais 151 Diálogo sobre a demonstração e o método 159 Diálogo sobre os preconceitos modernos 165

Um diálogo sobre Deus 169 Um diálogo sobre a Matéria 179 Diálogo sobre a Criação 189 Diálogo sobre a Metafísica 201 Diálogo sobre Platão 213 Diálogo sobre Kant 221 Diálogo sobre Pitágoras 227 Diálogo sobre os sofistas modernos 247

Não se pode deixar de reconhecer que Nietzsche foi o grande profeta do Séc. XIX. A sua antevisão do Séc. X está confirmada, pois a ascensão do nihilismo, em sentido filo sófico, conhece um novo avatar. E dizemos avatar por que nas épocas de decadência dos ciclos culturais, não é outro o espec táculo que se assiste. Julgamos conveniente expressar aqui num bem rápido esboço, embora veemente, a fisionomia de nossa época de fariseísmo e filisteísmo intelectual, em que a moeda falsa substitui a verdadeira, em que as mais abstrusas e falsas doutrinas, já refutadas com séculos de antecedência, surgem como "novidades", que atraem para o seu âmbito as inteligências deficitárias de nossa época, que cooperam, cons cientemente ou não, na tentativa de destruir o que havia de mais positivo no pensamento humano.

Há necessidade de denunciar esse aviltamento da cultura e dos valores, e também demonstrar a improcedência das ten tativas de dissolver o que havia de mais elevado no pensamento humano.

Neste prólogo, faremos o diagnóstico. A terapêutica vem depois, nos diálogos, onde examinamos a falta de base das afir mativas nihilistas, da filosofia da negatividade que se antepõe à filosofia da positividade, a filosofia afirmativa, a filosofia do Sim. A acção destructiva das doutrinas negativistas já pro vocou muitas lágrimas e derramou muito sangue. Estamos vivendo em pleno nihilismo, e este está alcançando as suas fronteiras. E é um dever dos que se colocam do lado da afirmação e da positividade trabalhar, afanar-se, esforçar-se para combater a sanha da decadência, cujos vícios estimula ram inúmeros males à humanidade e ainda prometem outros maiores.

12 MÁRIO FERREIRA «OS SANTOS

O nihilismo moderno tem suas raízes cm dois factores importantes: nos erros filosóficos dos sofistas modernos <• na crise económica.

Os que julgam que se é capaz de explicar os primeiros em função dos segundos, esquecem-se que a sofística não nasceu entre nós. Ela se repete em nós, quando as condições ambien tais lhe são favoráveis. Assim os factores ideais encontram um campo fértil para o seu desenvolvimento quando os facto res reais lhes dão o conteúdo fáctico, que os fundamenta de modo melhor e mais seguro.

A economia implica a inteligência. Não é ela uma obra animal, mas humana. O facto económico não é um simples pro duto do esforço físico, mas, sobretudo, da direcção inteligente. Se não fosse assim, os animais seriam capazes de construir uma economia. O facto económico é um facto cultural e não meramente físico. Nele se revela uma escolha, um arbítrio da inteligência. Nele há a direcção dada aos esforços pela cons ciência e pelo saber humanos. A economia não cria a inteli gência, mas é um produto desta, embora a estimule. Não é um produto puro e simples, mas sim uma síntese da natureza e do espírito.

Por outro lado, a crise instaurada nas ideias, a qual tes temunha a invasão do nihilismo, tem suas, raízes mais longín quas nas próprias ideias, e seu reforço e intensidade são esti mulados pelos factos económicos.

Não é difícil demonstrar o que postulamos agora. Em nossa "Filosofia da Crise" mostramos que todo existir finito é crise. E por isso também o é o homem em todos os aspectos da sua existência. Mas a crise, que aponta a separação e a negação relativas, não é a prova da negação absoluta. Se há o não-ser relativo, nada.nos pode levar à afirmação do nada absoluto ao qual tende inevitavelmente o nihilismo, quando le vado até às suas últimas consequências. A crise revela dois aspectos antagónicos, mas escalares: a direcção de afastamen to, o diástema, que é a diácrise, e o de aproximação, a aíncrise. Naquela obra, demonstramos que as ideias diacríticas tendem a separar e a afastar o homem da solução dos seus problemas, como as ideias sincríticas apenas oferecem falsas soluções. A

FILOSOFIAS DA AFIRMAÇÃO E DA NEGAÇÃO 13 crise é inevitável, mas pode ser agravada. O homem só pode salvar-se no homem. A solução da crise não pode ser encon trada na reunião mecânica das coisas, mas através de uma transcendência que a supere.

Na sociedade medieval, havia classes também. Mas havia um sentido universalizante (católico, de Katholikon dos pitagóricos), que unia os homens na transcendência religiosa. A sociedade moderna surge quando aquela perde aos poucos esse .poder unificador. A diácrise instala-se. Surge o progresso económico, e o homem domina cada vez mais a natureza graças à ciência e sobretudo à técnica. Seria absurdo negar os aspec tos positivos desta vitória, mas absurdo também seria negar-lhe os aspectos negativos. A alternância é sempre inevitável nas coisas humanas, e se não considerarmos os poios antagónicos teremos sempre uma visão abstractista e falsa da realidade.

O desenvolvimento da técnica e da ciência, com a redução do poder sintetizador transcendente da religião, fêz o homem perder muito da sua dignidade. Transformando-o em uma coisa entre coisas, o progresso económico fêz-se também à custa do valor humano. Quando a produção, embora em série da sociedade antiga, fundava-se realmente nas condições artezanais, o homem tinha um valor económico, mas também, e so bretudo, moral. Numa sociedade que reverte a escala de va lores nobres para instaurar uma escala de valores utilitários, o homem passa a ser nada mais que um instrumento de uma grande máquina de produção. Um instrumento que a inteli gência apenas valoriza, mas já pàlidamente, porque a máquina, aos poucos, por superar em muitos aspectos a habilidade do indivíduo, passa a ter mais valor que êle. Se na sociedade escravagista o valor do escravo é apenas o económico, o seu valor humano é mínimo. Na sociedade industrial de nossos dias, enquanto é o homem olhado apenas pelo lado económico, seu valor tende, normalmente, a diminuir. Quem pode negar que o sonho de todo empresário industrial é a produção apenas realizada por máquinas? O homem é um entrave, um obs+áculo até. Que é a cibernética moderna, no seu afã de construir máquinas que substituam os poderes intelectuais do homem, se não a tentativa de superar o óbice da inteligência? Que ideal maior do que fabricar a inteligência? Quanta esperança per-

14 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS passa nessas experiências, nu realização do robot, o nimbolo mais representativo de toda n nossa época! DeunecenHitiir da inteligência humana, máquinas capazes d»* projeHur maquina*, de escolher máquinas, de realizar maquinas para produzir tudo. Nesse dia poder-se-ia desterrar a inteligência humana para ou museus. K poderiam as gerações futuras rir dos cálculos'ma temáticos de um Newton, de um Leibnitz, das especulações dos filósofos. "Libertamo-nos da inteligência!", poderia ser a - fruse-galardão de uma era. Quantos sonhos povoados dessas es peranças não agitarão a mente de tantos empresários e de tan tos nihilistas do homem!

Mas essa esperança também se desfará em pó. Também a derrota se aproxima.

Pois bem, tudo isso, levando o homem a perder jnuito cm dignidade, colocou ante o homem moderno a mais angustiante das .perguntas: Que valemos, afinal? E que vale o valor?

Que é valor?

Essas perguntas, que o agitam, espicaçam-no afinal a procurar. E essa procura não será inútil. Essa procura há de lhe oferecer ainda um imprevisto, e êle terminará por en contrar no meio do caminho, outra vez, uma solução que unirá, mas através de uma transcendência.

As filosofias nihilistas de hoje são os avatares da sofística grega que destruiu uma cultura e deu um triste final a páginas tão belas da história.

Quando intitulei este livro de "As Filosofias da Afirmação e da Negação", quis colocar-me plenamente no meio do que assoberba a consciência moderna. E também quis tomar uma atitude.

A diácrise em que vivemos, a crise instaurada, que cria abismos entre os elementos constituintes, não pode ser solucio nada por síncrises, como as que tentamos realizar. A coesão pode ser adquirida pela força, mas será caduca. Só um poder une os opostos: é a transcendência. Querer forçar a unidade mecânica da nossa sociedade através do aumento do poder do Estado, da polícia e do exército e do organismo burocrático ou partidário, é uma forma brutal de coesão, e fadada ao molôgro.

FILOSOFIAS DA AFIRMAÇÃO E DA NEGAÇÃO 15

Cairá fatalmente. Porque só a síntese transcendental consegue a coesão intrínseca. Parece haver uma contradicção aqui, mas esta é meramente aparente. Quando as partes de um todo estão unidas pela coesão dada por uma força exterior, essa coesão é apenas transeunte e falha. Não nos unimos por estar mos mais próximos uns aos outros, por convivermos ao lado uns dos outros, por nossos corpos se aproximarem mais e se esfregarem mais. O que une os homens não é o físico, mas o espiritual. O homem não é apenas um animal, mas um animal que tem racionalidade, entendimento e uma inteligência espe culativa e também apofântica, porque também capta o que não se exterioriza, o que se oculta. A lei não nos une porque decre ta a nossa união. O Estado moderno é uma abstracção dentro da sociedade, e não é um organismo. E' apenas uma máquina. Falta-lhe a vida. Se fosse a sociedade organizada, seria ela mesma. Só então o Estado seria a sociedade. Por mais que alguns -queiram, a polícia não é um substituto de Deus, nem a lei decretada pelos poderes constituídos a lei que brota dos corações e da inteligência. Tudo isso é uma mentira que custa rá muito caro aos homens, como já vem custando. O Estado moderno conseguiu realizar mais uma brutalidade, e nada mais. E' preciso que surja espontaneamente o que une, como surge o amor de mãe ao filho, a amizade entre os indivíduos huma nos. Não se decretam simpatias. Eis o que queremos chamar de imanência. Enquanto o humano não unir os humanos, estes não transcenderão a si mesmos. A transcendência sintética de que falo é aquela que tem raízes na imanência humana. E quem pode negar que o homem moderno trai a si mesmo"? Não se afasta cada vez mais de si mesmo? Não nega cada vez mais a si mesmo? Não busca fugir de si mesmo em busca da sua negação ?

Tudo na sociedade moderna separa. Não são apenas as coletividades que se separam, as classes que se separam, os gru pos que se separam; são os indivíduos que se separam, e estes dentro de si mesmos. Quantos são estranhos a si mesmos! Quantos permanecem atónitos quando se debruçam no exame de sua própria personalidade! Sim, cada vez mais nos des conhecemos, quando pensamos que nos aproximamos de nós mesmos. Quão poucos resistem à contemplação de sua própria

16 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS pessoa! E quantos conflitos na impossibilidade de admitirem a si mesmos e de admitirem os outros!

E de onde nasce essa ânsia de separação? O homem é um animal inteligente. E' mister buscar na sua inteligência um dos factores de suas misérias intelectuais. E a miséria intelec tual de nossa época chama-se nihilismo. O homem é hoje um buscador do nada. Um negador de si mesmo, e de tudo. Mas essa negação o angustia. Angustia-se de não ser. E nela não poderá perdurar.

Nós escolhemos uma posição. Ante as filosofias da nega ção, lutamos pela positividade. Este livro responderá melhor- e mostrará melhor o que pensamos.

E' preciso combater as filosofias da negação. Não com batê-las pela força, mas pela própria filosofia. Mostrar que lhes falta fundamento, e que elas são falsas. Não basta apenas denunciá-las. E' mister ainda provar a sua inanidade. E' com afirmações que se alimentará o homem, um homem mais sadio e mais sábio.

Uma pergunta poderia surgir agora: Por que escolhemos a forma do diálogo, e quem são essas personagens que apresen

tamos no livro?

Escolhi o diálogo para mais facilmente pôr, face a face, as oposições que surgem na alternância do processo filo sófico. Quanto às personagens, há uma história mais longa. Em minha juventude, escrevi dois romances que ainda não pu bliquei, porque sempre julguei que o romance é obra de matu ridade, e esperei muitos anos, mais de vinte, para que eles ama durecessem e depois pudessem vir à luz, se julgasse que mere ciam vir à luz. Deveriam ter antecedido a esta obra, mas mo tivos outros o impediram. Por isso devo justificar as perso nagens. Esses dois romances chamam-se "Homens da Tarde" e "Homens da Noite". E serão seguidos de mais dois outros, ainda inacabados: "Homens da Madrugada" e "Homens do Meio- -Dia". Os homens da tarde são os homens crepusculares, os que vivem a heterogeneidade dos cambiantes" cromáticos das ideias, os que vivem a filosofia do entardecer. Sua visão se limita a contemplar os cambiantes luminosos. São os intelec tuais sistemáticos, os "littérateurs" estéreis, que se esgotam

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