Rbec v1.n1Revista Brasileira de Educação do Campo n.1, v.1
(Parte 2 de 7)
Educação do Campo: (2000-2016), elaborado pelas autoras Hayashi e Gonçalves (UFSCar e UNOPAR), apresenta os resultados de uma pesquisa que traz a configuração da produção de conhecimento científico acerca da Educação do Campo no Brasil. Para consecução do estudo, os dados foram coletados no Diretório de Grupo de Pesquisas no Brasil do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (DGPB/CNPq) e nos currículos Lattes dos líderes dos grupos. Segundo os resultados, entre 2000 e 2016 foram constituídos 36 grupos de pesquisa em Educação do Campo, sendo a maior parte da área de Educação (86,71%), liderados por 51 pesquisadores (com predomínio das mulheres). Além de desenvolverem 106 linhas de pesquisa, com destaque a temática “Processos de Formação de Professores e Educadores do Campo”, os grupos estão presentes nas diferentes regiões do país: Nordeste (3,3%), Sudeste (2,2%), Sul (16,7%), Norte (16,7%) e Centro-Oeste (1,1%). Os resultados revelaram ainda que a produção científica dos líderes dos grupos nos últimos cinco anos totalizou 74 artigos em 52 periódicos, 37 livros e 92 capítulos de livros, demonstrando a importância das pesquisas desenvolvidas pelos grupos em Educação do Campo.
Em Interfaces entre escolas do campo e movimentos sociais no Brasil, de autoria de Santos (UFRRJ), o objetivo é apresentar reflexões a respeito da produção crítica do conhecimento, atrelada aos princípios da Educação do Campo e dos valores contra
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 01-03 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 2 hegemônicos defendidos pelos movimentos sociais. A pesquisa contou com diferentes fontes de investigação, como legislações, portarias, decretos e referenciais teóricos produzidos sobre tal temática no Brasil. Com base nos resultados, o autor conclui que a produção coletiva do saber, em parceria com educandos, educadores, comunidades e movimentos sociais de luta pela terra, pode dialogar com histórias, memórias, identidades, desejos, valores e reconhecimento, fortalecendo os debates em torno da Educação do Campo, na estreita relação com as universidades públicas, escolas, secretarias municipais e estaduais de educação. O autor aponta que tal articulação é um dos principais desafios a ser enfrentado pelos sujeitos, individuais e coletivos. A escola, nesse sentido, pode representar o caminho rumo a uma realidade mais humana para os povos do campo.
O terceiro artigo, intitulado Casa Familiar Rural de Coronel Vivida - PR: desafios da formação continuada em Pedagogia da Alternância, apresenta resultados de uma pesquisa cujo objetivo é compreender e analisar a formação continuada dos professores e monitores relacionada à Pedagogia da Alternância e como ela tem contribuído para a prática profissional. Trata-se de um trabalho das autoras Detogni e Zancanella (UNIOESTE). Além do aporte teórico sobre formação de professores e Pedagogia da Alternância, o estudo contou com um questionário de pesquisa respondido por três docentes e três monitores que atuam nas Casas Familiares Rurais do Paraná. A aplicação do questionário de pesquisa permitiu identificar que cursos de formação continuada sobre a Pedagogia da Alternância eles têm participado. Os resultados da investigação mostraram que professores e monitores não tiveram em sua formação superior momentos que contemplassem a Pedagogia da Alternância. Além disso, a formação continuada oferecida para ambos os grupos de profissionais é insuficiente, insatisfatória ou mesmo inexistente.
Ainda vinculado à temática da formação na perspectiva da Pedagogia da Alternância, mas focalizando uma experiência formativa em nível médio/técnico, está o artigo A EPT sob a metodologia da alternância: a experiência do IF Brasília - campus Planaltina, de Magalhães e Castioni (IFB e UnB). O estudo objetiva entender como acontece o diálogo social entre os atores do mundo do trabalho e a instituição escolar. Investigou-se, ainda, se os conhecimentos disseminados pela escola, por meio do curso de formação por alternância, influenciaram a atuação dos assentados como agentes de desenvolvimento local. Como base nos resultados da pesquisa, os autores concluem que o curso de formação não obteve total sucesso na aplicação da metodologia da alternância, principalmente por problemas de gestão. Assim, acabou-se demonstrando aspectos de um curso semipresencial.
Evidenciando essa diversidade de pesquisas a respeito da Educação do Campo no
Brasil, no artigo Formação de Professores em Educação do Campo em Goiás, os autores Faleiro e Farias (UFG) apresentam uma análise do perfil dos docentes que atuam na Licenciatura em Educação do Campo no estado de Goiás, tendo em vista os desafios da formação docente na perspectiva interdisciplinar e significativa, objetivando assim contribuir para superação dos mesmos.
Em outro trabalho, que também aborda uma pesquisa tendo como objeto de estudo a
Educação do Campo, mas, desenvolvida num determinado contexto na região sul do país, a autora Kuhn (USP) no artigo Ensino Médio Técnico em Agroecologia e resistência no campo: o caso da Escola 25 de Maio, Fraiburgo (SC), objetiva abordar os desafios do
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 01-03 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 3
Ensino Médio que integra educação e trabalho no contexto da Educação do Campo. Esta pesquisa analisou o Curso de Ensino Médio Técnico em Agroecologia da Escola do Campo 25 de Maio, localizada no Assentamento Rural Vitória da Conquista, Fraiburgo (SC).
No artigo Saberes matemáticos e história de vida na zona rural de Marabá-PA, os autores Gaia e Pires (UNIFESSPA) apresentam resultados parciais de uma pesquisa socioeducacional de Estágio Docência I, com ênfase em Matemática, realizada na Comunidade Flor do Ipê. O fito desta investigação consiste em refletir e apresentar práticas com Matemática a partir de narrativas de sujeitos do campo.
De autoria de Porto, Barros Neta e Pereira (UFMT), o currículo nas escolas do campo é o tema do último artigo que compõe esse número da revista: As impressões dos sujeitos da Escola Municipal Boa Esperança Sorriso – MT: sobre o processo educativo e o currículo das escolas do campo. O trabalho é fruto de uma pesquisa desenvolvida no
Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Cuiabá, o qual tem como objetivo principal descrever e compreender qual é a impressão dos sujeitos sobre o currículo-material didático, o qual é trabalhado na Escola Municipal Boa Esperança, bem como ele é elaborado, quem são os membros que participam na elaboração.
Portanto, esperamos que os(as) leitores(as), pesquisadores(as) e outros(as) interessados(as) pelas temáticas aqui apresentadas pela Revista Brasileira de Educação do Campo desfrutem das leituras dessas relevantes pesquisas, as quais podem contribuir para o desenvolvimento de novas reflexões, ideias e questionamentos no que concerne à Educação do Campo, ampliando seu campo de conhecimento no debate educacional.
Gostaríamos de agradecer aos(as) autores(as) dos artigos, bem como ao corpo de pareceristas e avaliadores ad hoc da RBEC pelo trabalho realizado e emissão de pareceres. Desejamos a todos e a todas boas leituras!
Como citar este editorial / How to cite this editorial
APA: Araújo, G. C., & Silva, C. (2016). Editorial. Rev. Bras. Educ. Camp., 1(1), 1-3.
ABNT: ARAÚJO, G. C.; SILVA, C. Editorial. Rev. Bras. Educ. Camp., Tocantinópolis, v. 1, n. 1, p. 01-03, 2016.
Revista Brasileira de Educação do Campo ARTIGO
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 04-25 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 4
Perfil Bibliométrico dos Grupos de Pesquisa em Educação do Campo: (2000-2016)
Maria Cristina Piumbato Innocentini Hayashi1 , Taísa Grasiela Gomes Liduenha Gonçalves2
1 Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Rodovia Washington Luis, Km 235, São Carlos - SP. Brasil.
dmch@ufscar.br 2 Universidade Norte do Paraná - UNOPAR.
RESUMO. As lutas dos movimentos sociais por uma educação que atenda às demandas e necessidades da população do campo faz parte da agenda de pesquisas dos estudos acadêmicos sobre a Educação do Campo. Visando investigar a configuração da produção de conhecimento sobre essa temática realizou-se um estudo exploratório-descritivo com abordagem cientométrica. Os dados foram coletados na base corrente do Diretório de Grupo de Pesquisas no Brasil do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (DGPB/CNPq) e nos currículos Lattes dos líderes dos grupos. Os resultados indicaram a existência de 36 grupos formados entre 2000 e 2016, sendo a maioria da área de Educação (86,71%), liderados por 51 pesquisadores com o título de doutores e oito com o título de mestres, com predomínio das mulheres. Os grupos estão localizados na região Nordeste (3,3%), Sudeste (2,2%), Sul e Norte, com 16,7% cada e Centro-Oeste, com 1,1%. Juntos, desenvolvem 106 linhas de pesquisa, com predominância da temática “Processos de Formação de Professores e Educadores do Campo”. A produção científica dos líderes dos grupos nos últimos cinco anos totalizou 74 artigos em 52 periódicos, além de 37 livros e 92 capítulos de livros, demonstrando a importância das pesquisas desenvolvidas pelos grupos em Educação do Campo.
Palavras-chave: Educação do Campo, Produção Científica, Bibliometria.
Hayashi, M. C. P. I., & Gonçalves, T. G. G. L. (2016). Perfil bibliométrico dos Grupos de Pesquisa em Educação do Campo...
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 04-25 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 5
Bibliometric Profile of Research Groups in Rural Education: (2000-2016)
ABSTRACT. The struggles of social movements for an education that meets the demands and needs of the rural population is part of the academic studies research agenda on Rural Education. In order to investigate how to set up the production of knowledge on this subject was conducted an exploratory and descriptive study with bibliometric approach. Data were collected in the current base of the Research Group Directory at Brazil's National Scientific and Technological Development Council (DGPB / CNPq) and in the Lattes curricula of group leaders. The results indicated that were formed 36 groups between 2000 and 2016, with most of the area of education (86.71%), led by 51 researchers with the title of doctors and eight with the title of master, with a predominance of women. The groups are located in the regions: Northeast (3.3%), Southeast (2.2%), South (16.7%), the North (16.7%) and Midwest (1.1%). Together, they develop 106 lines of research, especially the theme "Teacher Training and Field Educators". The scientific production of the leaders in the past five years totaled 74 articles in 52 journals, as well as 37 books and 92 book chapters, demonstrating the importance of research developed by Rural Education in groups.
Keywords: Rural Education, Scientific Production, Bibliometrics.
Hayashi, M. C. P. I., & Gonçalves, T. G. G. L. (2016). Perfil bibliométrico dos Grupos de Pesquisa em Educação do Campo...
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 04-25 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 6
Perfil Bibliométrico de los Grupos de Investigación sobre Educación Rural: (2000-2016).
RESUMEN. Las luchas de los movimientos sociales por una educación que responda a las demandas y los temas de las necesidades de la población rural es parte de la agenda de los estudios de investigación académica sobre Educación Rural. Con el fin de investigar cómo se configura la producción de conocimiento sobre este tema se llevó a cabo un estudio exploratorio descriptivo con enfoque bibliométrico. Los datos fueron recogidos en la base actual del Directorio de Grupos de Investigación del Consejo Nacional de la Ciencia y el Desarrollo Tecnológico (DGPB/CNPq) y en los currículos de los investigadores. Los resultados indicaron la existencia de 36 grupos formados entre 2000 y 2016, con la mayor parte del área de la educación (86,71%), dirigidos por 51 doctores y ocho maestros, con un predominio de las mujeres. Los grupos se localizan en el Nordeste (3,3%), Sudeste (2,2%), el Sur y en el Norte, con un 16,7% cada uno y en el Medio Oeste, con 1,1%. Juntos, desarrollan 106 líneas de investigación, en especial en el tema relacionado con "Los maestros y los procesos de formación de profesores de campo". La producción científica de los líderes en los últimos cinco años asciende a 74 artículos publicados en 52 revistas científicas, así como 37 libros y 92 capítulos de libros, lo que demuestra la importancia de la investigación desarrollada por la Educación Rural en grupos.
Palabras-clave: Educación Rural, Producción Científica, Bibliometría.
Hayashi, M. C. P. I., & Gonçalves, T. G. G. L. (2016). Perfil bibliométrico dos Grupos de Pesquisa em Educação do Campo...
Rev. Bras. Educ. Camp. Tocantinópolis v. 1 n. 1 p. 04-25 jan./jun. 2016 ISSN: 2525-4863 7
Introdução
O ano de 2010 inaugura o marco legal da Educação do Campo enquanto política pública (Brasil, 2010). Destinada aos agricultores familiares, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, assentados e acampados da reforma agrária, trabalhadores assalariados rurais, quilombolas, caiçaras, povos da floresta, caboclos e outros que produzem suas condições materiais de existência a partir do trabalho no meio rural, essa política de Educação do Campo comprometeu-se a ampliar e qualificar a oferta de educação básica e superior às populações do campo. Entretanto, o direito educacional que deveria ser universal, vem se constituindo de forma focal, separando por grupos, conforme aponta Cury (2005).
Contudo, a luta pela educação de qualidade no campo, conforme argumenta Molina (2003, p. 65), está atrelada ao “espaço de vida e de produção dos povos trabalhadores do campo” traduzindo o anseio de uma nação pautada na igualdade e justiça a todos os cidadãos brasileiros. Essa luta contra estrutura fundiária e política agrícola está engendrada ao contexto educacional do campo, e a partir dessa concepção é que se deu o nome de Conferência por uma Educação Básica do Campo, no sentido de uma luta contínua na construção de um novo projeto para o campo e para a educação.
Assim, a expressão “Educação do
Campo” nasceu a no contexto de preparação da I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo realizada de 27 a 30 de julho de 1998, em Luziânia, no estado de Goiás. A I Conferência Nacional por uma Educação do Campo foi realizada em 2004, e até os dias atuais a Educação do Campo apresenta uma trajetória de contradições, entrelaçadas entre: campo, educação e políticas públicas, embora seja possível afirmar que houve avanços com relação às políticas, práticas e programas educacionais no campo, apesar do enfretamento constante contra as políticas neoliberais na educação e na agricultura, conforme argumenta Caldart (2012).
Para essa autora, a Educação do
Campo pode ser entendida, como um “fenômeno da realidade brasileira atual, protagonizado por trabalhadores do campo e suas organizações, que visa incidir sobre a política de educação desde os interesses sociais das comunidades camponesas”. (Caldart, 2012, p. 259).
(Parte 2 de 7)