A botânica na obra poética de agostinho neto

A botânica na obra poética de agostinho neto

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Vol. I. Año 2016. Número 3, julio-septiembre 95

AUTOR: Pedro Capitango1

Data de recepção: 12 - 07 - 2016Data de aceitação: 20 - 08 - 2016

ENDEREÇO PARA CONTACTO: capitango.isced.hbo@hotmail.com RESUMO

Há muita botânica a descobrir na obra poética de Agostinho Neto (1922-1979). Este trabalho em especial visa investigar as plantas citadas em “Sagrada Esperança e Renúncia Impossível”. Os trabalhos de Paiva (2015), Flávio (2016), entre outros, foram importantes na compreensão do estudo das plantas em obras poéticas; Silva (2016) e Amâncio (2016) na análise dos poemas. Foram feitas 5 leituras em cada obra para identificação dos poemas com conteúdos de botânica, buscas no website da Fundação António Agostinho Neto http://www.agostinhoneto.org/ para o conhecimento da vida e obra do poeta. Ao longo da pesquisa, observou-se que o poeta utilizou elementos da natureza (o mar, a chuva, o relevo, a biodiversidade) e seus significados. O que permitiu a derivação de temas botânicos, nomeadamente, metabolitos secundários vegetal, a biodiversidade e a floresta, espécies e famílias botânicas. Na obra Sagrada Esperança foram registadas 63 citações de nomes comuns de plantas, que permitiu elaborar uma lista de 19 espécies, distribuída em 12 famílias botânica. E na obra Renúncia Impossível registou-se 13 citações, 9 espécies, distribuídas em 8 famílias. Os resultados permitiram constatar a presença da botânica na sua obra, traduzindo-a nos seus poemas. Estudar as plantas na obra poética de Neto é indispensável para os exercícios botânicos, necessários para se darem aos estudantes as instruções precisas e para que não se ignorem esta área da ciência.

PALAVRAS-CHAVE: Botânica; Agostinho Neto; Metabolitos Vegetais; Diversidade Vegetal; Sagrada Esperança; Renúncia Impossível.

1 Docente da disciplina de Botânica Agrícola e Botânica Geral desde 2007; Chefe de Departamento de Investigação Científica e Pós-Graduação. Instituto Superior de Ciências de Educação do Huambo, República de Angola.

Pedro Capitango

96 Facultad de Filosofía, Letras y Ciencias de la Educación. Universidad Técnica de Manabí. ECUADOR.

There is much botany to discover in the poetic work of Agostinho Neto (1922- 1979). This particular work aims to investigate the plants cited in "Sacred Hope and Impossible Renunciation". The works of Paiva (2015), Flávio (2016), among others, were important in understanding the study of plants in poetic works; Silva (2016) and Amancio (2016) in the analysis of the poems. There were 5 readings in each work to identify the poems with botanical contents, searches on the website of the António Agostinho Neto Foundation http://www.agostinhoneto.org/ for the knowledge of the life and work of the poet. Throughout the research, it was observed that the poet used elements of nature (the sea, rain, relief, biodiversity) and their meanings. This allowed the derivation of botanical topics, namely, plant secondary metabolites, biodiversity and forest, species and botanical families. In Sacred Hope, there were 63 citations of common names of plants, which allowed to elaborate a list of 19 species, distributed in 12 botanical families. And in the work Renunciation Impossible was registered 13 citations, 9 species, distributed in 8 families. The results showed the presence of botany in his work, translating it into his poems. Studying the plants in Neto's poetic work is indispensable for botanical exercises, necessary to give students precise instructions and so that this area of science is not ignored.

KEYWORDS: Botany; Agostinho Neto; Vegetable Metabolites; Plant Diversity; Sacred Hope; Impossible Renunciation.

O uso da biodiversidade e o seu estudo, ocorre em outras áreas, que não estamos provavelmente habituados a ver associada à ciência, destacando-se as obras poéticas, a bíblia e o Alcorão, onde estão citadas várias plantas, que na época muitas delas ainda não haviam sido estudadas do ponto de vista botânico.

António Agostinho Neto (1922-1979), ou simplesmente “Neto”, poeta angolano, Primeiro Presidente de Angola. Nos seus poemas há muita botânica a descobrir, provavelmente, a sua formação em medicina influenciou no conhecimento de muitas plantas, transportando-as nos seus poemas. Lembrando que a botânica ate finais do século XIX, era um ramo da medicina (Raven, 2006).

Na sua poesia, Neto, apoia-se em vários elementos da natureza, tais como, o mar, a chuva, o relevo, os animais, as plantas e seus órgãos, as cores das plantas, os alcaloides, as florestas, etc., na sua maioria os utilizou com significados diferentes, especificando um agir, um desejo, uma esperança, e chama a consciência sobre a necessidade de conservar e/ou preservar a biodiversidade (Neto, 2009 e 2014; Silva, 2016).

Segundo Silva (2015), a natureza é inserida como cenário ou ainda como cúmplice de factos históricos ou pessoais na literatura, por isso, muitos autores

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Vol. I. Año 2016. Número 3, julio-septiembre 97 utilizam elementos da natureza como forma de dialogar com o universo intimo e com o mundo exterior.

De acordo Laranjeira (2016), na poesia, Neto foi sociólogo, economista, ideólogo, antropólogo, historiador e profeta. Nota-se que a poesia de Neto pode ser analisada sob enfoques bastantes diversos. Este trabalho em especial, visa investigar as plantas citadas na sua obra poética. Não será possível abranger toda a sua obra, por questões de tempo e espaço, será apresentada apenas as plantas de “Sagrada Esperança e Renúncia Impossível”.

A fim de investigar a presença da botânica na obra poética de Neto, foram feitas 5 leituras em duas obras: “Sagrada Esperança” e “Renúncia Impossível”. Durante a leitura foram identificados os poemas com conteúdo de botânica e de seguida foi retirado o respectivo verso e armazenado no caderno de anotações, incluindo o título e a página. A escolha das duas obras, deve-se fundamentalmente por ser nestas onde o poeta cita mais plantas.

Os resultados das leituras permitiu derivar três temas botânico: Metabolitos secundário vegetal (cores, aromas ou perfumes e alcaloides)

A biodiversidade e a Floresta

Espécies e Famílias Botânicas

A identificação das espécies foi feita através de bibliografia especializada, destacando, as publicações do Arquivo Digital do Instituto de Investigação Científico Tropical (http://actd.iict.pt/), APG I (2009) e Judd, Campbell, Kellogg, Stevens & Donoghue (2009).

Os trabalhos de Paiva (2015), França (2014), entre outros, foram importantes na compreensão do estudo das plantas em obras poéticas. Silva (2016) e Amâncio (2016) na análise dos poemas. Foram feitas buscas no website da Fundação António Agostinho Neto http://www.agostinhoneto.org/ para o conhecimento da vida e obra do poeta.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Metabolitos secundários vegetal

Os metabolitos secundários vegetal, constituem uma grande variedade de compostos orgânicos, resultante do metabolismo secundário vegetal, constituídos por três classes principais, nomeadamente, compostos fenólicos, terpenos e alcaloides. Estas classes encontram-se presentes em muitos poemas de Neto, representados pelas cores, aromas ou perfumes e alcaloides.

Cores

Nos seus poemas, Neto, apoia-se fundamentalmente nas cores primárias do espectro, nomeadamente: a cor verde, branca, amarela, vermelha e azul, como podemos constatar nos seguintes versus:

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“No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas” “Eu fugia do verde do verde negro das palmeiras” “Cantos de pássaros sobre a verdura húmida das florestas” “O brilho verde das folhagens” “O verde negro das palmeiras tem beleza” “Os campos verdes” “Vestido do verde do cheiro novo das florestas depois da chuva” “Às nossas terra vermelhas do café brancas do algodão verde dos milharais” havemos de voltar “Um bouquet de rosas para ti - rosas vermelhas brancas amarelas azuis – rosas para o teu dia”

De acordo os versus e estrofes apresentados, destaca-se a cor verde e o órgão vegetal mais citado é a flor (órgão exclusivo das angiospermas, responsável pela reprodução sexuada). O verde de forma geral é associado à esperança, a esperança que é bastante reforçada em muitos poemas de Neto e é também título da obra: “Sagrada Esperança” (Silva, 2015).

Na época em que foi escrito o poema “Um bouquet de rosas para ti” (8 de Março de 1955), não existiam rosas azuis, Neto, tal como, os botânicos acreditavam na existência desta flor. Até ao momento ainda não foi encontrada em estado selvagem, as actuais rosas azuis são resultados da biotecnologia, obtidas por intermédio da delfinidina, extraída da Viola tricolor e espécies do género Torenia. A primeira rosa azul foi obtida por uma empresa Japonesa a multinacional de bebidas Suntory em colaboração com a australiana Calgene Pacific, foi apresentada em 2009 em Tóquio, um objectivo perseguido por botânicos do mundo todo (Terra, 2016; Wikipedia, 2016).

As cores vermelhas, azul e amarela, estão presentes nas plantas verdes, mascarados pela clorofila. São compostos resultantes do metabolismo

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Vol. I. Año 2016. Número 3, julio-septiembre 9 secundário dos vegetais, fundamentalmente nos terpenoides (carotenoides) e compostos fenólicos (flavonoides).

Aromas ou perfumes

De acordo Peres (2016), os aromas são substâncias voláteis, denominados de óleos essenciais, possuem cheiros agradáveis, não só para atrair polinizadores e repelir insectos (pragas), também para nós, não foi por acaso que estão presentes nos poemas Neto, como se pode constatar nos versus abaixo, onde o poeta cita diferentes órgãos vegetais, locais onde podem estar estocados os óleos essenciais, tais como, o caule de eudicotiledóneas (tronco), flores, destacando as flores das roseiras e o fruto do ananás.

“Odor inesquecível da natureza que apaga todos os possíveis cheiros amargos”

“Aroma das flores” “Perfume das rosas” “embebendo no perfume do ananás” “Criar sobre o perfume dos troncos serrados”. “entre as selvas desaromatizadas” “As flores apenas pétalas e aroma”

Os óleos essenciais podem ser definidos como material volátil presente em vários órgãos das plantas e, geralmente, de odor e fragrância característica e assim são denominados devido à composição lipofílica que apresentam, quimicamente diferentes da composição glicerídica dos verdadeiros óleos e gorduras (Peres, 2016; Delbone, 2016).

Alcalóides

Quanto aos alcaloides, são citados de forma directa na obra, “Renuncia Impossível”, nos seguintes versus:

“Para esquecer e olvidar meus amores os meus ideias fumo ópio” “Fumo o meu ópio para sonhar”

O ópio é um alcaloide extraido da papoila (Papaver somniferum e P. setigerum). Os alcaloides constituem uma classe de compostos do metabolismo secundário, famosa pela presença de substâncias que possuem acentuado efeito no sistema nervoso, sendo muitas delas largamente utilizadas como venenos ou alucinógenos. Já na antiguidade há referência ao uso dessa classe de

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compostos. Talvez o caso mais famoso seja a execução do filósofo grego Sócrates, condenado a ingerir cicuta (Conium maculatum), uma fonte do alcalóide coniina (Kotsias, 2016; Peres, 2016).

Para as plantas as cores, aromas e alcaloides, desempenham várias funções, dentre elas: alelopatia, defesa química contra herbívora e ataque de patógenos, atração de organismos benéficos (polinizadores, dispersores de sementes e microrganismos simbiontes), proteção contra mudanças de temperatura, nos níveis hídricos, na intensidade luminosa e na deficiência de nutrientes minerais, oferecendo, portanto, auxílio em relação a estresses abióticos e bióticos, além de ser usado como critério taxonômico, como é o caso dos glucosinolatos, que estão restritos a ordem Capparales (Delbone, 2016; Peres,2016).

A Biodiversidade e a Floresta

O ano de 2011 foi o “Ano Internacional da Floresta” e o anterior (2010), o “Ano Internacional da Biodiversidade”. Muito pouca gente sabe que estamos em plena “Década da Biodiversidade (2011-2020)”, esta década é de extrema relevância, porque é urgentíssimo que toda gente se capacite de que não conseguiremos sobreviver sem biodiversidade (Paiva, 2016; Tavares, 2015).

Neto, desde muito cedo soube que sem biodiversidade e sem floresta a humanidade não sobreviverá. A valorização da biodiversidade, bem como a necessidade da sua preservação e/ou conservação é encontrada na sua obra poética, como podemos constatar nos seguintes versus:

“e seja lume para acolher as gazelas que pastam inseguras nos campos acolhedores da imensa vida” “Aos nossos rios, nossos lagos às montanhas, às florestas havemos de voltar” “Nós estamos regressando África no super-batuque festivo sob as sombras do Maiombe”. “Nos nossos dedos crescem rosas com perfumes da indomabilidade do Zaire com a grandiosidade dos troncos do Maiombe” “Não existe música negra Nunca houve batuques nas florestas do congo” “cantos de pássaros

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Vol. I. Año 2016. Número 3, julio-septiembre 101 sob a verdura húmida das florestas” “A melodia crepitante das palmeiras lambidas pelo furor duma queimada” “Criar criar sobre a profanação da floresta” “criar sobre o perfume dos troncos serrados” “a beleza das florestas virgens” “à honestidade dos homens ao viço juvenil da sinfonia das árvores” “ao odor inesquecível da natureza que apaga todos os possíveis cheiros amargos” “Quando voltei as casuarinas tinham desaparecido da cidade”

É notável a valorização da biodiversidade na sua obra, em particular a floresta, não foi por acaso que foram citadas nos seus poemas a floresta do maiombe, actualmente uma das 7 maravilhas de Angola e a floresta do congo, considerada a segunda maior floresta tropical do mundo, ficando atrás apenas da Floresta Amazônica, na América do Sul, ambas estão presente nos seus poemas.

A Floresta do Maiombe, compreende 290 mil hectares, é partilhada entre a República de Angola, a República Democrática do Congo, a República do Congo e a República do Gabão, na margem Sudoeste da densa Floresta Tropical da Bacia do Congo, com distribuições de vastas espécies de flora e fauna semelhante, incluindo espécies de importância global, como o chimpanzé central, o gorila da terra baixa do oeste, o elefante da floresta, e muitas outras espécies idênticas endémicas do centro da Guineo - Congolês (Ministério do Ambiente, 2016).

Não obstante a sua importância ecológica, a Floresta do Maiombe há décadas que se vem degradando por falta de gestão sustentável dos recursos naturais, carecendo, portanto, da devida protecção. A maioria das comunidades na área da Floresta do Maiombe depende, principalmente, da agricultura de subsistência e, em pequena escala, da criação de animais ou gado, corte anárquico de árvores, caça furtiva e pesca para sobrevivência (Ministério do Ambiente, 2016).

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